domingo, 31 de janeiro de 2010

Tio, posso tomar conta?

Faltava uma hora para o reveillon. Milhares de pessoas em busca de um lugar confortável na areia, ao lado de seus parentes, amigos e amores. Muitos chegam de carro e mapeiam as ruas por uma vaga a algumas quadras da orla. Uma professora, ao lado de amigos, procurava por uma vaga no Gonzaga, em Santos. Viu o estacionamento de uma clínica de estética. Obviamente, o estabelecimento estava fechado. Ela achou que valia deixar o carro ali por uma ou duas horas, sem ser multada.

Ao desligar o carro, percebeu duas coisas: 1) as outras duas vagas do estacionamento também foram ocupadas, quase ao mesmo tempo. Outros optaram por risco idêntico; 2) um guardador de carro se mantinha de plantão na calçada.

Ao descer do veículo, ouviu: posso tomar conta? Deixa R$ 20, tia, que tá tudo certo! Diante da negativa de pagar pela “terceirização” da vaga privada, ouviu a segunda oferta: R$ 10. A metade do preço dobrou o grau de ofensa. Ela afirmou que não pagaria nada.

Como o movimento de veículos era enorme na região da rua Marechal Deodoro, o guardador teve que atender os “novos clientes” e se esqueceu da discussão com a “freguesia que pede fiado”. A professora estava mais preocupada em deixar os problemas de 2009 nas águas do mar ou na faixa de areia e decidiu correr o risco.

A cena é parte do ritual de qualquer evento de ordem política e cultural. Ou apenas um lugar movimentado no cotidiano da cidade. O guardador de carro é mais um elemento na paisagem urbana, disposto a fazer dinheiro rápido, uns trocados em certos casos, sem ser incomodado. Ou apostando no medo dos motoristas diante de um futuro incerto.

A Delegacia Seccional de Santos anunciou, na semana passada, a criação um cadastro para os flanelinhas da cidade. O cadastro inclui dados pessoais, fotografias, antecedentes criminais e área de atuação do guardador.
Cada distrito policial tem 15 dias para preparar o cadastro.

A Polícia Civil justificou a medida como forma de identificação dos flanelinhas que poderiam extorquir os motoristas. No entanto, a própria policia diz que o fato de pedir para tomar conta de veiculo não caracteriza crime. Mas a prática abusiva sim, sem definir exatamente o termo.

A recomendação é que, se houver prática abusiva, a vítima deve comparecer a um distrito policial, com duas testemunhas, e efetuar o boletim de ocorrência para abertura de investigação. Dentro da proposta, o cadastro deverá renovado a cada 60 dias. Uma curiosidade: o flanelinha poderá se cadastrar de maneira voluntária nos distritos.

O Poder Público mantém a característica de tomar medidas paliativas, sem efeitos práticos, que nascem para ser enterradas em qualquer gaveta ou virarem motivos de brincadeiras nas rodas de conversa. Assim, enterra-se também a chance de ações mais sérias, em conjunto com outras instituições, para amenizar ou interferir em um problema de ordem social.

Você, leitor, conhece alguém que considere “guardador de carro” ou “flanelinha” uma profissão? Você conhece alguém que tem o desejo de seguir ou se aperfeiçoar nesta “carreira”? É evidente que nenhuma pessoa guarda carros porque se trata de um sonho pessoal. É uma necessidade urgente, fruto de desigualdades sociais, econômicas e financeiras. Um bico para quem está ausente da economia formal, disposto a qualquer trabalho para ter condições mínimas de vida.

Para que serviria um cadastro? Parece um instrumento para regulamentar uma atividade que cheira à ilegalidade. Além disso, qual guardador entrará numa delegacia para se cadastrar?
Olha, delegado, sei que este cadastro serve para identificar os que extorquem dinheiro de motoristas. Por isso, quero meu nome nesta lista.

Muitos guardadores são menores de idade. E muitos são crianças. Basta ir ao cemitério do Paquetá, por exemplo, para uma enterro, estacionar o carro e se ver cercado de meninos, em sua maioria, na faixa de 10, 12 anos. Todos moram nas redondezas, a região mais pobre de Santos. O cadastro vai incluir as crianças? Regulamentar o trabalho infantil?

O cadastro envolve área de atuação. Seria oficializar um mercado de trabalho? Lotear os espaços para este tipo de trabalho? Os guardadores se reúnem por causa de eventos específicos, e não com expediente determinado. E os que ficam nos semáforos? Teriam o ponto definido? Seriam free-lancers? Jornada de trabalho?

Lidar com flanelinhas é caso antigo. Na década de 90, os flanelinhas eram muitas vezes presos por vadiagem. Como poderiam ser soltos rapidamente e ainda havia uma burocracia enorme (papelada mesmo!) para cumprir com a detenção, o melhor era ignorá-los. Com o tempo, a ideia de enquadrar guardadores de carro pelo crime de vadiagem saiu de cena.

O cadastro de flanelinhas é mais uma proposta inócua. Não terá ressonância entre os policiais e tampouco credibilidade por parte da sociedade civil. O tempo (para não falar as pessoas) vai se encarregar de sepultar mais essa peça burocrática.

A história do cadastro para guardadores me faz lembrar da lei que proíbe a presença de vendedores autônomos de carros (os catarinas) nas ruas da cidade. A fiscalização fica por conta da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET). Basta dirigir pela avenida Francisco Glicério e imediações do Orquidário Municipal e perceber que nada mudou. O trabalho dos catarinas, obviamente, não pode ser associado à extorsão, mas também envolve aquele jeitinho diante de uma lei ou medida sem vontade política.

O cadastro representa, mais uma vez, a medida pontual para o problema social crônico. Não se debatem projetos que envolvem essas pessoas, possibilitem renda ou amenizem as condições de vida delas. Ou, por exemplo, ações de infra-estrutura para reduzir a desigualdade social e financeira entre áreas de Santos. Os flanelinhas em torno do Cemitério do Paquetá residem em cortiços, em moradias insalubres. Muitos estão desempregados e não têm qualificação para uma mudança social de curto prazo. Por vezes, as moedas dos motoristas pagam a próxima refeição.

Os guardadores de carro são vistos como causa, e não como consequência de um processo de desenvolvimento sem planejamento para todos os grupos sociais. Os flanelinhas viraram insetos na paisagem e, para combatê-los, medidas que parecem aspirinas receitadas a um doente terminal.

A professora deu sorte na virada do ano! Voltou três horas depois e o carro estava intacto. O guardador? Desapareceu como o ano anterior. Ela preferiu não tocar no assunto, já que o estacionamento saiu de graça.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

O velório dos clubes

A venda de parte do terreno de dois clubes da Ponta da Praia para empresas do ramo imobiliário provoca uma mistura de nostalgia e ansiedade com a constatação de que a mentalidade de um período chega às vias de ser extinta.

A cidade alterou seu desenho geográfico, o comportamento dos moradores é outro, mas os dirigentes das agremiações permaneceram – pelas indicações do próprio patrimônio dos clubes – no século anterior.

Não é a verticalização de Santos que matou alguns clubes da cidade. O processo de mudança urbanística apenas fechou a tampa do caixão de um defunto morto há anos, que aguardava o ritual fúnebre. Com exceção do Internacional, no mesmo bairro, e de outras três ou quatro entidades esportivas, os clubes se transformaram em elefantes brancos, mendigam por novos sócios, sem apoio para manter modalidades esportivas e pouco presentes na vida cultural do município.

Ao passar pela avenida da praia, sinto perder parte de minha adolescência na degradação dos clubes. O Regatas Santista, marcado por um show com mortes, virou um arranhão na vista para o mar, sujo e cinza. Da cor de quem sofre de doença terminal. Ali, foram anos de bailes de carnaval, local onde arranjei minha primeira namorada séria. O critério “séria” significa longa duração, conhecer a família e assim por diante, dentro do código machista. O Regatas havia sido negociado, mas a venda foi cancelada pela Justiça.

Ao lado, o Vasco da Gama, sem as luzes e o movimento de todas as noites, temperados por vezes pelo sotaque deliciosamente português. Um prédio escuro, silencioso, agarrado nas glórias de um passado repleto de medalhas e troféus. Ali, passei dois anos de minha vida, como goleiro do time de futsal. Viagens, torneios, churrascos, contusões, tudo remonta ao velho reduto português. No Vasco, vi Rita Lee cantar em playback, numa fase difícil da rainha.

O Saldanha da Gama foi o último a baixar as armas. Vendeu parte do patrimônio. Pretende pagar as dívidas, acertar a vida fiscal e se adaptar aos tempos atuais, com novos atrativos para os associados. O Saldanha é um amigo freqüente. Joguei dois anos futsal pelo clube. Em 1990, o time infanto-juvenil, do qual fazia parte, ganhou tudo em Santos. Os campeonatos no campo do fundo sempre foram melhores do que muitas partidas na várzea. Tenho como recordação a camisa do Bangu – não o carioca -, mas um dos participantes do torneio interno do clube.



Ali, também disputei – aos 18 anos – longas partidas de tênis com meu amigo Paulo Coelho (óbvio que não se trata do escritor). Sempre perdia, mas o que valia era castigar a bolinha com a raquete. Recentemente, vi duas apresentações de minha filha na festa de final de ano da escola. No final de 2008, ao ver um ensaio no salão do Saldanha, percebi com ele virara um gigante adormecido, sem movimento nas quadras, com a piscina quase vazia. Não ouvia bolas quicando, gritos nas quadras ou corpos na água. O silêncio ganhava de goleada.

Os clubes, por meio de muitos dirigentes, não notaram que a paisagem mudou. Shoppings vieram, cinemas saíram dos bairros e outros hábitos paulistanos de consumo foram introjetados. Famílias, atualmente, passam os finais de semana internadas em shoppings, onde comem, bebem, se divertem e, principalmente, torram dinheiro. Deixaram os clubes como o ponto de encontro para o almoço de domingo.

O Carnaval, fonte de renda garantida, ganhou novo perfil. A maior parte dos bailes de salão esvaziou. Morreram junto com a Dona Dorotéia. As bandas incharam. As baladas na praia cresceram. Até a tribo dos inimigos dos tamborins se multiplicou na fuga para recantos em outros endereços.

Os clubes eram ponto de referência na vida noturna, com bailes e shows. Cheguei a ver, antes da tragédia dos Raimundos, show de um cantor romântico (entendo como brega) no Regatas Santista, para agradar uma namorada. O calendário de apresentações durava o ano todo.



Hoje, casas noturnas monopolizam as apresentações das estrelas consagradas, das celebridades instantâneas e dos guetos musicais. Vivem lotadas, conhecem o caminho do showbusiness e procriam pelo litoral. Os clubes seguem em silêncio nas noites de sábado. Salvo festas bem específicas.

Outros elefantes brancos tornam a paisagem sombria, como o Atlético Santista, que também acende minha saudade. O clube se manteve vivo ao longo da última década com o aluguel do salão, abrigando carros e feiras, entre outras atividades terceirizadas, o que me parece insuficiente para retomar uma rotina esportiva e cultural.

A expansão imobiliária é um fenômeno que, mais do que alterar a paisagem, sacudiu a infra-estrutura da cidade de Santos. Os espigões terão influências econômicas, ambientais, políticas e sociais. Parte das conseqüências cabe o Estado administrar, evitar e resolver, como trânsito, abastecimento de água, rede de esgoto etc. No lugar de ginásios, quadras e campos, a orla perto do canal 7 terá quatro edifícios de 30 andares, segundo a imprensa local.

Para sobreviver, os clubes – com dinheiro no bolso – tem que notar e decidir se incorporam ou ignoram a visão de mundo que acompanha o novo desenho do município. Perceber quem é o novo morador, inclusive os vizinhos dos espigões - ou os comportamentos contemporâneos dos residentes atuais. Diagnosticar as falhas, propor estratégias, criar fontes de renda, aproximar-se das comunidades e profissionalizar a relação com os sócios.

Se optarem por seguir na trilha dos últimos anos, a tendência é que estas agremiações sejam o ponto de encontro de velhos. Não falo de idade, e sim de velhas mentalidades. Ideias mortas!

Entender o que acontece em volta é abrir as portas sem vender a alma. Aproveitar a redução para crescer, como formadores esportivos e centros de manifestação cultural. Caso contrário, os clubes continuarão pequenos, desta vez com a geografia menor, sem o milagre da ressurreição.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Eu, Tu, Eles

Texto publicado na coluna O outro lado da bola, interinamente, durante as férias do colunista Gerson Moreira Lima. Site do Jornal Boqueirão (Santos/SP). www.boqnews.com

Neymar e Paulo Henrique Ganso são, para muitos, o passaporte para um passado de felicidade. Os dois santistas carregam nas costas a responsabilidade de comandar um time que passou por duas temporadas de vacas magras, com exceção de lampejos regionais. Mas a dupla traz também na carne as oscilações dos inexperientes e o estigma de repetir o sucesso anterior de outra dupla formada na base do clube: Diego e Robinho.

Depois da saída de Robinho, vários pagaram o preço de serem carimbados com a marca de herdeiro ou o clone do jogador. Um exemplo é o meia-atacante Wesley, que precisou viver uma temporada no Atlético-PR para que os torcedores o perdoassem de um crime de cometeu a revelia: não ser o novo Robinho.

A vantagem de Neymar e Ganso é o simples fato de sobreviverem como dupla: dividem as glórias, as cobranças, a instabilidade de uma equipe em formação e da própria juventude. E estão cercados de jogadores experientes que me parecem cientes da dependência do time aos dois moleques.



As duplas sempre trouxeram – de maneira inerente – uma relação simbólica com o futebol. Elas se aproximam do significado de trabalho coletivo que marca a dinâmica deste esporte. O craque decide, mas sempre necessitou do carregador de piano. Uma defesa de excelência geralmente é composta de um zagueiro clássico, técnico, e de outro que poderia cortar grama sem equipamentos. Ou trabalhar com eficiência na roça.

No caso de Neymar e Ganso, eles se encaixam na dupla protagonista de um time. Um meia tradicional, habilidoso, que enxerga o jogo na vertical. Odeia passes laterais e jogadas sem objetividade. Somado a ele, o parceiro com faro de gol, mais veloz, que atua perto da área e, muitas vezes, conclui ou compartilha as ideias que nasceram com aquele companheiro armador.

E as duplas entram para a história do futebol quando este desempenho se reverte em campeonatos conquistados. Nos anos 80, Washington e Assis formaram o casal 20 do Fluminense, campeão brasileiro e carioca. Washington, o trombador. Assis, o meia criativo.

Na Itália, o Napoli levou a Copa da UEFA e um dos dois títulos nacionais com um gênio no meio-campo, o argentino Maradona.(foto abaixo, à direita) Quem marcava parte dos gols: Careca, o melhor centroavante brasileiro daquela década.(foto abaixo, no centro) Vinte anos antes, o próprio Santos teve um dupla que arrepia os saudosistas, que juram não ter visto melhor parceira. Pelé e Coutinho destroçaram defesas pelo mundo. É redundante tecer maiores comentários sobre eles neste espaço.



No Santos recente, Diego e Robinho, marca de uma geração boa e barata formada ou garimpada pelo clube. Diego, o meia vertical que servia o menino legitimado pelo próprio Pelé. Robinho e Diego ajudaram o time da Vila Belmiro a esquecer 18 anos de fila sem títulos.

Duplas jogam por música. Parecem a primeira e a segunda voz de uma dupla caipira. O compositor e o cantor de uma parceira do rock, como Lennon e McCartney. Os símbolos de uma tendência, como a Tropicália, de Gil e Caetano ou a Jovem Guarda, de Roberto e Erasmo.

Duplas são vistas como heróicas. No mundo da fantasia, o que seria O Batman, sem o Robin. Talvez alguém taciturno demais, amargurado por essência. No cinema, Butch Cassidy (Paul Newman) não seria um dos homens mais procurados do Oeste sem Sundance Kid (Robert Redford). No jornalismo, Carl Bernstein jamais desvendaria o escândalo de Watergate, que colaborou com a renúncia do presidente Richard Nixon, sem o repórter Bob Woodward.



No futebol, dupĺas entram para a galeria dos heróis ou são vistas como parcerias musicais a partir dos resultados finais, fruto de um caminho trilhado com paciência, certa disciplina, genialidade e suporte de uma equipe. Neymar e Ganso são muito crus ainda para serem enquadrados neste grupo. Ainda bem, pois abre margem para a hipótese de que esta dupla chegue num topo sequer imaginado por ELES, os torcedores.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

O palco do racismo

O futebol é uma arte tribal. O estádio funciona como ponto geográfico onde seres humanos amortecem as próprias identidades para expor a fé diante de símbolos maiores, sacros e dogmáticos. Ali, prevalecem o espírito de grupo, a crença coletiva e os sentimentos cegos diante de imagens santificadas pelos gols, defesas, vitórias e títulos.

O lado escuro da cegueira é que o futebol reduz, muitas vezes, a capacidade racional e crítica do torcedor, que se submete às decisões do grupo sem contestação. Pior: com a reafirmação de que o ato a ser praticado é a única saída.

As manifestações recentes de racismo por parte da torcida do Chievo contra o atacante Balotelli (foto abaixo), da Internazionale, durante partida pelo campeonato italiano são um sintoma sobre as relações sociais em toda a Europa. E compõem a face podre de uma manifestação cultural que serve de espelho para a leitura de diversas sociedades.



O racismo é uma das consequências de um processo econômico globalizado, que acelerou ou criou ondas de imigração, alterando o mapa étnico em todos os continentes. É prática potencializada, anterior à dinâmica recente da economia. A Europa, no caso do futebol, assina como o cenário mais visível, pela força financeira, exposição midiática, concentração de estrelas do esporte e poder político dos dirigentes.

A violência racial nas arquibancadas não deriva do campo. Isso ocorre nas brigas entre torcedores, na relação conflituosa com a polícia ou como reflexo do placar no gramado. Esta violência é pontual, explosiva e de curta duração como fato em si. Causas podem determinadas aqui com elevado grau de precisão.

O problema é a violência estrutural, que nasce fora do campo de jogo, antes das partidas, no cotidiano dos torcedores quando cumprem outros papéis sociais ou estão em outros círculos de relacionamento. Este tipo de conflito é direcionado, contínuo e acontece de maneira independente à partida de futebol. O racismo se enquadra neste ponto, fruto de doenças sociais e desequilíbrio econômico-financeiro. Com um tempero de valores culturais, alimentados pelos fatores anteriores.

Os times de futebol dos principais centros europeus são seleções internacionais. Há equipes na Inglaterra com somente um inglês entre os titulares. O mosaico internacional é comum também em mercados periféricos e emergentes como Rússia e Ucrânia. E mexe com a relação de identidade entre clube, atletas e torcida.

O futebol, neste sentido, se constitui em mais uma atividade econômica que segue a velocidade das trocas internacionais. O Brasil, por exemplo, exporta – em média – mil jogadores por ano. O foco é a Europa, mas há atletas espalhados por todos os continentes, com exceção da África. Endereços como Vietnã, China, Costa Rica e Bulgária têm jogadores brasileiros registrados nas federações locais.

O esporte não é causa do racismo e muito menos consequência. A discriminação racial está na alma das sociedades, impregnada pela intolerância e pela exploração do outro até o limite da diminuição de subjetividade. O sociólogo Octavio Ianni, em entrevista concedida à revista de USP em 1999, afirmou que os conflitos bélicos na primeira década do século XXI teriam como fator – direto ou indireto – o racismo ou a diferença étnica. Palavras transformadas em profecia.



O futebol, hoje feira de negócios sem freios, traz consigo o cheiro da impunidade, quando se pensa nas questões raciais. As punições são brandas contra todos os envolvidos, sejam clubes, atletas, dirigentes e torcedores. Quando alguma entidade esportiva determina sanções mais pesadas, a medida é derrubada a toque de caixa nos tribunais desportivos ou comuns.

A impunidade é histórica e resistente às alterações culturais. O futebol é palco do germe do racismo, introjetado fora do ritual de jogo. O Brasil é um exemplo disso. O Vasco da Gama foi afastado da Liga Carioca pelos demais clubes porque era o único que aceitava negros e mulatos na equipe na década de 20. Depois, o Fluminense ficou conhecido como “pó-de-arroz” por escalar jogadores mulatos maquiados. Ao suarem, eles expunham a verdadeira cor da pele, o que gerava provocações dos adversários.

Nesta década, há uma lista de casos de racismo dentro do esporte. O camaronês Eto'o ameaçou deixar uma partida do campeonato espanhol por causa de xingamentos de torcedores adversários ao Barcelona.(foto abaixo) Roberto Carlos e Cafú também foram ofendidos em estádios europeus. Torcedores poloneses atiraram bananas em campo por causa da presença de um atleta africano.



No Brasil, o ex-zagueiro Antônio Carlos – na época no Juventude (RS) – foi suspenso por ter esfregado o braço esquerdo em referência ao tom de pele de um atleta do Grêmio. E assim por diante!

Balotelli, nascido na Itália e filho de emigrantes de Gana, foi multado em sete mil euros por aplaudir ironicamente os torcedores do Chievo. O time dele, a Internazionale, em 15 mil euros. A Inter venceu por 1 a 0, gol de Balotelli.

Os agressores foram ignorados. Será possível alterar a mentalidade destes animais com aquelas faixas de afeto nas mãos de jogadores ao entrarem em campo? Ou filmes institucionais sensíveis nas principais emissoras de TV do mundo? É necessário esperar que o racismo no futebol alcance a curva da violência irreversível para que os tribunais esportivos sejam mais rigorosos?

Os racistas permanecem nas arquibancadas dos estádios, com seus cantos e gestos neandertais. Trocam de camisa, de endereço, de clube, de alvos, e mancham o futebol com o que há de mais primitivo no modelo tribal. No grupo, se escondem, se protegem, se organizam e agridem, sem o limite mínimo para que qualquer sujeito possa ser visto como civilizado. Com a omissão ou o aval dos engravatados que organizam a festa.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Quando os animais atacam

Os professores de ciências para crianças costumam dizer que a racionalidade diferencia o homem dos outros animais. Muitos acadêmicos falam em capacidade de produzir cultura como elemento de diferença. Há aqueles que tocam no comportamento psicológico. A genética entra também no pacote de prevalência humana.

No fundo, todas as teorias colocam o homem numa condição de superioridade, no topo da cadeia evolutiva. As diferenças garantem o papel de liderança (ou de invasor, depende da perspectiva). Mas o que une o ser humano aos bichos?

Sempre me interessou a ideia de auto-preservação, mecanismo que nos faz tomar decisões e agir de forma que jamais pensaríamos quando somos ameaçados. Ou quando corremos risco de morrer. A auto-preservação nos reduz à condição de bichos, capazes de justificar comportamentos incomuns, bizarros, selvagens por aquilo que o senso comum chama de instinto.

É fácil pensar que a sua vida (ou a minha) vale mais do que qualquer outro bem, material ou não. Preservamos a vida a qualquer preço. Tentamos prolongá-la não só pelo desejo de aproveitá-la, por nós e pelos que julgamos próximos, mas por temer também a morte.

E o preço pela vida do outro? Como estabelecemos? Quais critérios escolhemos para criar uma escala de valores que meça o valor da vida de qualquer pessoa? É o dinheiro na conta bancária? Medimos pelas marcas – de tatuagens a etiquetas de griffes - que estampam o corpo do outro? Medimos pelos lugares que o outro freqüenta ou pela posição? Medimos pelas convicções, valores e formas de pensar? E, principalmente, medimos pelas diferenças ou pelas semelhanças que o outro tem conosco?

O que me fez escrever este texto foi um tipo de reportagem que não desaparece do noticiário: os casos em que pessoas são atacadas, feridas e mortas por sujeitos que nunca as viram. Eles não sabem seus nomes, desconhecem os valores e histórias das vítimas, crenças, ideologias e relações sociais. A escolha é aleatória – baseada no critério primitivo da maldade -, que autoriza submeter alguém a torturas pelo simples fato de que ele existe. E com a suposição de que se trata de um ser diferente, passível de eliminação, como um inseto que encosta no ombro. Valor da vida? Igual a zero.

No dia 14 de janeiro, um adolescente esperava – com o irmão e amigos - por um ônibus na avenida Deputado Emilio Carlos, no bairro do Limão, em São Paulo. Três jovens, de 18 a 24 anos, em um Fiat Uno vermelho, resolveram atacá-lo. Seguraram no braço do rapaz com o carro em movimento e o arrastaram por 60 metros.

Depois de largar o adolescente, o trio rodou e retornou ao local do crime, onde foi perseguido pela Guarda Metropolitana e preso. Eles negam ser skinheads (fato especulado pela imprensa), o que – francamente – não faz diferença. Um pedaço da camiseta da vítima, mais a bota de uma testemunha, que tentou chutar o braço de um dos agressores, foram encontrados dentro do Fiat Uno.

A mãe da vítima disse que o filho integrava uma banda punk. O adolescente se encontra na UTI do Hospital Vila Nova Cachoeirinha. Pode morrer! Por enquanto, os agressores vão responder por tentativa de homicídio.

Os rótulos tribais urbanos (punks e skinheads, no caso) alimentam o preconceito e carecem de outros fatores para levarmos mais a fundo as razões ou características de alguém que julga o outro sinônimo de vazio.

A vítima é desumanizada ao ponto da inexistência. Ela pode ser tornar invisível, ao ponto da ignorância. Mas o vazio que ela representa é, evidentemente, abstrato. A vítima simboliza aquilo que causa repulsa ou é a inferioridade que fere aos olhos. Mas o processo oposto também se desenha, quando o outro é justamente a personificação do que o agressor desejaria ser, mas permanece paralisado a convenções sociais e pessoais.

Em ambos os casos, tenho a impressão de que a existência do outro, a vida do outro, funciona como substância inflamável para a atitude violenta que nasce com o objetivo de reduzir a vítima a nada. Aí sim, no mundo concreto. Ali, não haveria uma vida como a do agressor; somente uma caricatura indesejável.

A caricatura indica um universo no qual o sujeito acredita ser, de certa forma, o proprietário egocêntrico ou aquele que se encontra em posições mais elevadas na escala de sobrevivência. Só resta a eliminação do outro, na doentia cadeia alimentar.

Você, leitor(a), deve se lembrar do assassinato do coordenador de projetos sociais da ONG Afro Reggae, Evandro João da Silva, de 42 anos.(foto abaixo) Ele morreu após um assalto em frente a uma agência bancária. Dois policiais militares, que faziam ronda no local, não apenas ignoraram Evandro, como ficaram com o produto do roubo. E liberaram os assassinos.



O surreal, nesta história, é o argumento do advogado dos PMs. Para ele, os dois policiais ignoraram a vítima por acharem que ela fosse um mendigo. No espetáculo do horror, as peças do tabuleiro ficam mais claras. A declaração me permite interpretar que mendigos e cidadãos são criaturas diferentes. Mendigos e pessoas seriam seres de espécies diferentes? Ou a vida de um mendigo – para ser mais preciso – vale menos que a vida de um cidadão?



O mendigo, como vale menos, é barata urbana. Não traz glórias ou reconhecimento público. É o borrão na pintura, que deve ser ignorado ou descartado para deixá-la apreciável.

As histórias se sucedem, ficam famosas, recheiam a mídia por uma semana ou duas, mas a incompetência não nos permite aprender com elas. Ficamos chocados com os filhos de papai que queimam índios em Brasília. Parecia um mendigo, disseram os marmanjos.



Vimos, com surpresa, empregadas domésticas que apanham no ponto de ônibus porque os agressores a confundiram com uma puta. Índios e prostitutas estariam na escala inferior da vida. Valem menos!

Por ironia, a coincidência entre índios, putas e punks – quando vítimas – são os pontos de ônibus. Não ter carro próprio seria um sinal negativo? A aparência fora do padrão seria outro? Ou os pontos de ônibus viraram área de caça para certo tipo de predador urbano, esse sim um tipo de animal digno de jaula e/ou tratamento?

Seis minutos

Ela levou seis minutos para fazer o que foi pedido. Ou melhor: o que foi dito a ela, porque fez à própria maneira. Depois, recebeu um abraço do pai e foi direta, como qualquer criança de sete anos:

- Pai, tô com fome! Quero pipoca!

Assim que esvaziou o saquinho, começou a contar detalhes do jogo. Ou melhor: falou de episódios específicos, sem organização cronológica, como se espera de todas as crianças desta idade. Citava nomes de colegas de time como se o pai tivesse intimidade com eles. Ou fosse parte da turma. O pai balançava a cabeça, sem duvidar de que uma interrupção naquele relato seria crime de pena capital.

Francamente, ninguém se lembrou do adversário ou do resultado. O pai, então, sabia o mínimo. Cumpriu a obrigação de ter as informações básicas como o nome da escola da filha. Exagero! Ah, ele sabia também que o time da filha foi goleado. Perguntou o placar para ela, que deu de ombros. Para que remoer certas dores que não foram sofridas? Aos sete anos, o que importa é jogar bola sem compromisso.

Aquele sábado à tarde era esperado há quase um mês. O time da escola faria a estréia em um torneio após seis meses apenas de treinos, duas vezes por semana. Houve um amistoso uma semana antes da estréia, mas a única jogadora da equipe não participou. Tinha outro compromisso inadiável, como um aniversário, com bolo, brinquedos, coxinhas, maravilhas e outras tentações para as crianças da primeira, segunda, terceira idade. A falta evitou traumas desnecessários, já que a equipe levou uma surra do adversário. Daquelas que derrubam técnico até de categoria juvenil.

O pai sabia que teria que correr da universidade para o local da partida sem qualquer distração, inclusive almoço. Um atraso, neste caso, soa imperdoável! Poderia perder o jogo, que não seria televisionado ou narrado em emissora de rádio. Nenhum site daria as informações minuto a minuto, e os jornais não dedicariam uma linha. O jogo valia a pena para um único tipo de torcida desorganizada: a dos pais.

Para o pai, hoje peladeiro de final de semana e que parou no funil do futebol profissional, a partida da filha era a mais importante, pelo menos dos últimos sete anos. Encerrou a aula no prazo – é professor – tomou um táxi e correu para o ginásio da Vila Belmiro.

Chegou antes da hora. O time se aquecia nas arquibancadas. Crianças de sete anos não se aquecem, na acepção técnica do esporte. Elas estavam aquecidas antes do treinador chamá-las, pois nenhuma esperaria sentada ou grudaria os olhos no jogo preliminar. Elas estavam juntas, entretidas em uma brincadeira de correr qualquer. Não havia nervosismo. Quem ficaria nervoso com algo que não precisa se preocupar em refletir ou planejar?

O professor conseguiu beijar a filha antes da equipe dela entrar em quadra. A menina estava assustada com o tamanho do espaço. A quadra era – chutando, com o perdão do trocadilho – quatro ou cinco vezes maior do que a área para o futebol na escola. Jogariam normalmente?

A menina começou no banco. Dois anos fazem muita diferença nesta etapa. A categoria era sub-9 – em outros tempos, mini-mirim -, e os adversários eram 15 centímetros maiores. Imagina a diferença de força. Ela era a única jogadora do time. Os demais eram meninos. Na outra equipe, outra garota solitária.

As duas foram alvo dos comentários dos corneteiros que estavam nas arquibancadas. Ainda mais na Vila Belmiro, em tempos de Marta, Cristiane e goleadas que o time masculino tenta reencontrar em futuro com cheiro de distância. Alguns adultos mais apressados, que consideram esporte o auge da competitividade, enxergavam, especulavam sobre o duelo das meninas. Os mais exagerados falavam em futuras Martas, sem ver as jogadoras. Se tivessem visto, não faria diferença.

A outra menina também ficaria no banco. Ambas entrariam no segundo tempo. Nesta idade, são três tempos de jogo. Os dois primeiros têm seis minutos; o último, o dobro.

A arma secreta de sete anos entrou na etapa combinada. O time perdia por 3 a 0. Não havia grandes chances de mudança no ritmo do placar. No final, a goleada não aconteceu em progressão geométrica, graças ao goleiro Vitor, pequeno milagreiro.

Nenhuma das meninas fez diferença no placar. Cobraram alguns laterais, acertaram passes e tentaram marcar os moleques. Mais correram do que pegaram na bola. A disciplina tática, expressão roubada dos medalhões soberbos do futebol profissional, não aconteceu como previsto. Ainda bem!

O duelo com a outra garota não aconteceu. Elas estavam em lugares diferentes da quadra, enorme para atletas daquela idade. Mas geraram comentários a cada vez que dominavam a bola. Nada digno de nota!

Assim que a partida terminou, a menina de sete anos saiu do banco e procurou a saída da quadra. Foi para o vestiário, como os demais colegas para ouvir palavras de incentivo do treinador. Palavras que serão esquecidas, mas que integram o ritual.

O time da escola tinha mais duas apresentações no torneio. Dez minutos depois, ela deixou o vestiário morrendo de fome e pediu uma pipoca ao pai.

Assistir a minha filha, em seu primeiro jogo, por seis minutos, é uma das experiências mais intensas que tive com ela. Não me preocupei com o resultado, assim como não me preocupo se ela vai seguir jogando bola. Ou praticando qualquer outro esporte.

Vê-la em quadra é vê-la viva. Vivendo! É vê-la dividindo uma experiência comigo e com os colegas, simultaneamente fascinante e profunda. Enquanto muitos gritavam orientações técnicas descoordenadas da arquibancada, apenas a incentivei. Sabia que ela não me escutaria, mas também tinha certeza de que acenaria durante o intervalo. Tenho convicção de que se sentia segura ao conferir a presença dos pais na arquibancada.

Fiquei ansioso como se estivesse na mesma condição de estreante. Emocionei- me ao observá-la pulsante atrás de uma bola. Descompromissada. Solta. Livre. Como toda criança. Como uma criança única.

Mariana talvez não se lembre com detalhes daquela tarde na Vila Belmiro. Adora futebol, torce para o Santos e continua no time da escola. Mas divide a atenção com o skate e a bicicleta. Como uma criança normal, varia as preferências. Encara tudo como a próxima brincadeira, sempre imprescindível, sempre inédita.

Para o pai dela, autor deste texto, a primeira partida é a lembrança marcada em ferro em brasa, assim como todas as outras ligadas à alguém que se ama no limite da dor. É sentimento indescritível que provoca a necessidade de ser posto para fora, como a transpiração em palavras. Palavras para ela, registrada em crônica.

sábado, 16 de janeiro de 2010

A turma da hora-extra

Texto publicado na coluna O outro lado da bola, interinamente, durante as férias do colunista Gerson Moreira Lima. Jornal Boqueirão (Santos/SP), edição 772, 16-22 de janeiro, página 10.

Com o início dos principais campeonatos regionais nesta semana, coloca-se à prova a principal tendência da temporada 2010: o investimento em jogadores veteranos. A maioria dos grandes clubes brasileiros gastou dinheiro em jogadores acima de 30 anos. Muitos dos “vovôs” chegaram com pompa e circunstância. São vistos como salvação do time, como embaixadores em comemoração de centenário do clube ou como símbolo de recuperação de um passado glorioso recente.

A vida – dentro ou fora do ambiente de trabalho – aponta que, em certos momentos, a saída é recorrer a quem se conhece bem. Aquele chinelo velho que garante o conforto da longa caminhada, sem deixar calos ou bolhas nos pés. Aquele cobertor surrado que se ajusta ao corpo, não irrita a pele e protege do frio.

No cancioneiro popular, há várias referências para a importância dos experientes. Na música caipira, por exemplo, Sérgio Reis tornou famoso o refrão: “não interessa se ela é coroa, panela velha é que faz comida boa.” No cotidiano, quantas vezes elogiamos outra pessoa com a frase: “fulano é como vinho: quanto mais velho, melhor.”

Na cultura pop, a sabedoria é associada à imagem clássica do velhinho, detentor do conhecimento, disciplinador e generoso ao transmiti-lo para os mais novos. Na série de cinema Guerra nas Estrelas, de George Lucas, aparece a figura do personagem Yoda, aquele anãozinho verde, que fala ao contrário, sereno, mas eficiente na formação de guerreiros e hábil ao manipular a espada luminosa.

O sábio é sempre uma figura zen (não entenda como passiva), que conhece os atalhos da condição humana. Ou do campo, como disse certa vez o meia Didi, criador do chute folha seca, e campeão mundial em 1958 e 1962.

Mas por que investir em atletas com pouco tempo de vida no futebol? A sabedoria serve como única garantia?

Estes jogadores não são baratos, não tem retorno garantido, exigem preparação física especial e treinamentos diferenciados. Poucos serão renegociados, com chance de lucro, ao final do contrato.

No entanto, tais características são fragéis argumentos diante do que a turma da hora-extra pode oferecer. Não se trata apenas de experiência, mas de talento aliado a ela. A maioria dos veteranos contratados, em condições adequadas, tendem a assumir o papel de maestro, o sujeito que indica qual a nota a ser tocada e que dita o ritmo da melodia durante a apresentação.

O Flamengo nos deu dois exemplos. Junior foi o condutor do time campeão nacional nos anos 90. O jogador, ao perceber as mudanças do próprio corpo, foi para o meio-campo. O desempenho permaneceu em alto nível, que o colocou na lista de especulações para a seleção. Junior tinha 39 anos.

No ano passado, o sérvio Petkovic – dado como um cadáver para o futebol – arrebentou no campeonato nacional. Cercado de jovens e outros colegas de nível excelente, Pet decidiu partidas, pois é da turma capaz de perceber e controlar o minuto que altera o rumo de uma partida.

Torço para que os veteranos arrebentem em massa este ano. Só eles conciliam o toque refinado com os blefes e cartadas decisivas de um jogo. Atraem torcedores, rendem colunas como esta, viram conversas interessantes nos botecos e padarias. E nos fazem sonhar com o futebol-arte, esmagado pela força física e táticas defensivas.

Nada como assistir velhos atores como Giovanni, Ronaldo, Roberto Carlos, Sávio, Marcelinho Paraíba, Edilson e Dodô, que dominam o texto como ninguém. Até porque nossos melhores garotos enchem o baú de moedas de ouro na Europa. Os que ficaram por aqui, pelo menos, ganham lições ao vivo. E recebem salários para ver as aulas!

Os porcos clonados



Os avanços científicos nos permitem ver nas ruas – na mesma velocidade da dúvida e da surpresa – os resultados antes presos nos laboratórios. A popularização da ciência nos traz a convivência pacífica com certas novidades, que mudam nosso cotidiano sem que se perceba a chegada de um mundo novo.

As duas áreas com maiores possibilidades de impacto na vida humana, segundo os especialistas, são a genética e a neurociência. Combinadas, podem alcançar a cura de diversas doenças. Separadas, abrem o leque de perguntas e respostas para as questões elementares da vida.

Uma delas sempre me deixou intrigado: é possível gerar novas formas de vida com o cruzamento genético das pré-existentes? Exemplo: entre os animais, o foco foi a clonagem. Dos ratos à ovelha Dolly.

A questão é que a ciência se constitui de uma série de avanços e retrocessos. Uma experiência que não funcionou foi a clonagem de porcos. Como os cientistas ainda não detectaram os erros cometidos ao longo da pesquisa, as conseqüências da criação da nova espécie se mostraram imprevisíveis.

Com gastos exorbitantes, os laboratórios viram como solução o sacrifício de muitos destes animais. Outros foram parar no mercado negro e entraram no cotidiano dos seres humanos comuns, por extravagância, dinheiro ou bizarrice. E se multiplicaram. Eles são chamados de novos animais, pois a comunidade científica internacional não definiu o nome científico, quanto mais a denominação popular. Em certas cidades, receberam o apelido de porcos clonados.

Como seres domésticos, os porcos clonados se adaptaram a diversas comunidades de humanos. E, com o tempo, conseguiram adquirir alguns hábitos deste novo universo, sem abandonar suas raízes suínas.

Este ano, e ainda não terminamos o primeiro mês, me deparei com três deles, em situações diferentes. À distância, pude observá-los e perceber certo grau de selvageria capaz de me enojar. Confesso que tenho dificuldades de entendê-los. Não são porcos. Não são humanos. Os mutantes caem no limbo, na lixeira da história da ciência.



O primeiro dos porcos clonados saía de um carro. Andava apressado, irritado com qualquer problema sem maior importância, provavelmente. Irritar-se com questões pequenas da medíocre rotina diária é característica que vinga em alguns destes animais.

O porco entrou no prédio onde morava e retornou cinco minutos depois. Antes de entrar no carro modelo popular, retirou um papel de propaganda de farmácia do pára-brisa, fez uma bolinha de papel e a atirou no pé de uma árvore. Sabe-se que muitos porcos clonados têm dificuldades de entender o conceito de preservação da flora. Ainda mais quando há uma lixeira a um metro da mesma árvore transformada em depósito de papel. Da celulose á celulose, diria um ambientalista.

O segundo porco era mais sortudo. Seu dono tinha carro importado, daqueles com preço na casa de seis dígitos. O veículo, de cor preta, tinha os vidros filmados, o que me impedia de ver como era o chiqueiro em que o porco ficava.

Como notei que havia um porco lá dentro? Esperava para atravessar a avenida quando o semáforo mudou para vermelho e o tal carro preto parou. Em menos de cinco segundos, o porco – ou seu dono – conseguiu descer o vidro, atirar uma lata de cerveja no asfalto, e fechar a janela novamente. O carro saiu antes que pudesse identificar quantos porcos havia lá dentro.

O último porco que vi é o mais comum. Você pode não vê-lo sempre, mas tem que desviar do resultado. Esta mutação homosuína é capaz de controlar outros animais a ponto de passear com eles pelas ruas. Cachorros, principalmente. Neste caso, o porco clonado entende – quem sabe por traço genético? – que a rua é uma repetição de seu chiqueiro. Assim, permite que o cachorro – mero cumpridor de ordens – espalhe cocô pelas calçadas.

O porco-condutor é incapaz de recolher os dejetos. Estudos preliminares indicam que talvez ele não saiba puxar a coleira e carregar uma sacola plástica ao mesmo tempo. Os resultados desta disfunção genética parecem se multiplicar como coelhos – metáfora para mencionar alguém que não é desta história - pelas calçadas da cidade onde moro.



Santos, aliás, tem uma lei que prevê multa para o ser humano que deixar as fezes de seu cachorro na calçada. Ninguém foi multado até hoje. Por ingenuidade ou ironia, acredito que a falta de multas se deve ao fato de que os seres humanos recolhem as fezes com regularidade. A lei continua inócua, inclusive porque ela não vale para os porcos clonados.

Diante de centenas de episódios semelhantes aos relatados aqui, militantes de várias frentes sociais pretendem elaborar manifesto para que seja proibida qualquer relação entre porcos clonados e suínos. O primeiro passo é impedir que esta nova espécie seja chamada de porco.

Mas surgiu um problema: ninguém conseguiu pensar em sugestão de nome, o que perpetua o termo. É uma ofensa aos porcos originais, que sempre tiveram a decência de sujar somente seu próprio espaço, o chiqueiro.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

O homem-viagra

O prédio fazia parte de um conjunto habitacional popular, daqueles erguidos com material de segunda e à toque de caixa para garantir a eleição do coronel da cidade. Bom … no pacote eleitoreiro entrava o sargento do bairro, policial-candidato à vereador.

Depois de cinco anos, a fachada do edifício estava desbotada, e o jardim da entrada carecia de manutenção. Na área interna, as paredes perderam a luminosidade da tinta original, completamente entregues às manchas de infiltração, de dedos sujos (de adultos, diga-se) e de fitas isolantes dos recados mal escritos e devidamente ignorados. Em muitos andares, as paredes estavam descascadas sem previsão de uma reforma, ao menos de emergência.

Foi ali que Paulo Roberto resolveu morar logo depois do casamento. A conta bancária não sustentaria uma prestação maior. As despesas da festa de casamento, do apartamento financiado e da vida cotidiana longe da casa dos pais faziam com que a rotina de representante de empresa farmacêutica fosse ainda mais puxada.

A esposa não podia trabalhar. Gravidez de risco. Paulo cuidava das finanças, com visitas a farmácias, mas principalmente aos consultórios médicos, onde se sentia no controle. Da timidez da sala de espera ao bom rebolado no consultório.

Era fácil convencer os médicos a adotarem e recomendarem certos remédios. Bastava uma composição de lábia, algumas piadas e, dependendo do sujeito, a promessa da viagem de final de ano para um resort paradisíaco, com tudo pago pelo laboratório. O passeio era para poucos, mas a fórmula de persuasão fora testada e aprovada, sem contra-indicações.

O terreno pantanoso era a própria residência. Na verdade, o prédio onde morava. Sentia-se em um asilo, pois a maioria dos moradores passara dos 65 anos. Ali, ao invés de clientes em potencial, via adversários. Adversários em fim de carreira.

Quer dizer: eles o viam como um forasteiro, como alguém que perturbaria a ordem tediosa da comunidade. Eram quatro andares, sete famílias, seis com idosos. O apartamento 32 foi desocupado na semana em que Paulo se mudou, pois o vizinho morrera na sexta parada cardíaca. Valia a discrição, mas ninguém deu falta.

A imagem do novo vizinho começou a mudar quando ele passou a exercitar a velha mania: fazer limpeza geral no apartamento e jogar muitas coisas fora. Mania porque despejava no lixo objetos em excelente estado, novos ou com defeitos quase imperceptíveis. Ele via como mudança de ares, mesmo que fosse apenas um jogo de pratos. A prática acontecia aos sábados à tarde ou aos domingos pela manhã. Dependia do nível da irritação por estar em casa.

Cada vez que descia com sacolas para o lixo, o alarme da vizinhança emitia um código silencioso. Bastava que fechasse a porta de casa, que os vizinhos desciam para remexer no lixo. Copos, pratos, talheres, quinquilharias para casa, tudo redecorava os demais apartamentos.

Numa destas faxinas, Paulo Roberto se livrou de dezenas de sacolas vazias – de qualidade, por sinal – do laboratório farmacêutico. Uma senhora as recolheu e aumentou os lucros do bazar da igreja do bairro. Cada sacola saiu a R$ 1. O logotipo em inglês passava fácil por griffe de shopping.

O lixo, transformado em decoração de última hora, serviu de passaporte para que Paulo Roberto fosse cumprimentado pelos outros moradores. Alguns até puxavam papo no hall do prédio. Numa ocasião, um vizinho comentou que estava com dificuldades no casamento. A idade não permitia mais aquele furor da madrugada.

Paulo achou intimidade demais. Ficou com esta história na cabeça por dias e concluiu: - Isso se resolve fácil.

Na semana seguinte, ao encontrar o mesmo senhor, deu a ele algumas pílulas azuis e recomendou: - Não tome mais do que uma! E cuidado com o coração.

Para Paulo, a gentileza saiu de graça, pois aquelas pílulas vinham da empresa como amostra e eram inúteis para ele. Para o vizinho, a retomada de uma vida que julgava enterrada.

A pílula fez mágica! Atendeu ao desejo, à maneira de cada um. Como a notícia se espalhou, a campainha do apartamento de Paulo passou a tocar nos horários mais impróprios: meia-noite, seis e meia da manhã de domingo. Uma vez, Paulo socorreu um vizinho há quatro da manhã do primeiro dia do ano. No Carnaval, antes de viajar, teve que deixar pílulas na caixa de correio.

Se quisesse, Paulo não precisava almoçar mais em casa. Bastava revezar a refeição nos demais apartamentos. Tinha que recusar convites para batizados, enterros, aniversários de netos, churrascos na área de serviço para garantir o final de semana com a esposa.

O representante de laboratório farmacêutico, sempre uma figura anônima nas salas de espera de consultórios, se sentia uma celebridade no prédio. A fama se espalhou pelo resto do conjunto. Não pagava mais pão e leite na padaria. Salvou o casamento do dono, além de colaborar para que ele tivesse uma amante 15 anos mais nova. Na banca e no açougue, pagava no fim do mês. Comprava fiado.

A pílula azul o transformou no curandeiro do local. E para a família toda. Eram remédios para dor de cabeça, aquele xarope para a tosse do moleque, a garantia de uma digestão tranquila depois da feijoada de sábado. O remedinho da pressão que custava uma fortuna! Dava até conselhos informais de prevenção a certas doenças. Indicava médicos de confiança e remédios em promoção.

No mês passado, recebeu um telefonema da empresa. O diretor regional informava que, devido a nova política de remanejamentos, Paulo Roberto seria transferido para o Vale do Ribeira. A mudança era para ontem. Lá, teria um salário maior e moraria numa casa com o aluguel pago pela firma. Um carro também ficaria livre para que rodasse pela região. A oferta irrecusável para o endereço pouco requisitado.

Paulo ficou sem rumo, mas acatou a mudança. Teria que pensar na carreira e não tinha proposta mais consistente. Como o filho nasceria em breve, conversou com a esposa. Mudaram-se na semana passada. Avisaram apenas os mais chegados, pois não desejavam festa de despedida.

No dia seguinte, a crise no prédio! Um recado deixado pelo síndico nas escadarias foi lido e comentado pela primeira vez. Paulo foi embora sem se despedir. O assunto do dia, pelo menos. Alguns até comentavam – a boca pequena – as possíveis teorias da mudança.

Os mais religiosos diziam ter perdido o anjo da guarda. Os sensatos lembravam as filas do sistema público, tortura que julgavam extinta por causa do vizinho-fornecedor. Os fiéis da pílula azul sabiam o que comprar e o ponto-de-venda, mas temiam ser descobertos por esposas e amantes ou desequilibrar o orçamento, já que não entravam na farmácia há tempos.

No Vale do Ribeira, Paulo Roberto não tinha um condomínio para conquistar. As casas em volta eram imóveis-dormitório de quem trabalhava em outras localidades. Depois das nove da noite, silêncio absoluto para uma nova (velha) vida obscura e anônima.

No prédio onde morou, todos se recolhiam mais cedo, em luto, mas também por não ter o que fazer durante a madrugada, exceto virar para o lado e adormecer. Para que tocar a campainha do vizinho a essa hora da noite?

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

The Blues Brothers - a nostalgia da música

O filme estava lá, no meio de uma gôndola, à espera de alguém que o ressuscitasse. È como o velho roqueiro que ainda deseja uma dose de glória, para alimentar o físico e a vitalidade de tempos passados. Ou o filme aguardava um espectador em crise de nostalgia? Ou que fosse apaixonado por rock e blues. Ou estivesse com saudade de uma comédia com o compromisso básico do gênero: fazer rir!

Como eu me encaixava em todas as alternativas, peguei emprestado The Blues Brothers, aqui mal traduzido como Os Irmãos Cara de Pau. È retomar o eterno prazer do rock e do blues com certo grau de pureza, se é possível classificar assim este som que nos anestesia. A dose de entorpecente que o filme nos dá é daquelas que nos balançam por dentro e nos fazem perguntar: por que gosto deste gênero musical? Por que cutuca meus sentimentos, angústias e ansiedades?



The Blues Brothers é um misto de comédia e musical. Bom … alguns números musicais dentro de uma história engraçada. Simples, mas com piadas que jamais apelam para a escatologia ou o preconceito barato. O filme é como um bom rock: transgressor, livre e irônico com o conservador e o politicamente correto. Só para enumerar três qualidades!

O filme é dirigido por John Landis e co-escrito por Dan Aykroyd (Os Caça-fantasmas). Landis dirigiu vários filmes com Eddie Murphy nos anos 80 e 90, como Trocando as Bolas, Um príncipe em Nova Iorque e Um Tira da Pesada 3. E fez ainda um clássico do terror: Um Lobisomem Americano em Londres, de 1981.

Aykroyd e Landis contam uma história singela, que serve à música e aos músicos. Jake Blues – interpretado por John Belushi (falecido), no auge na forma – sai da cadeia depois de três anos, com USS 25 no bolso. Na porta da prisão, o irmão Elwood (Dan Akroyd) o espera em um ex-carro da polícia, adquirido em um leilão municipal. O blues móvel está em pedaços, mas tem motor competente, o que vale para ambos.



Jake e Elwood se vestem da mesma maneira: surrado terno preto, velho chapéu da mesma cor, camisa branca e gravata. Tirando o chapéu, os dois poderiam integrar a equipe de humoristas das segundas à noite, na Band.

No filme, os irmãos blues cumprem a promessa de visitar o orfanato onde cresceram, assim que Jake saísse da cadeia. A freira afirma que o local pode ser fechado por causa da dívida de US$ 5 mil em impostos. Jake resolve reunir a banda The Blues Brothers, que havia se dispersado após a prisão dele. Daí, a história segue, com a inclusão de grupos que acabam lesados pelos irmãos como uma banda cafona de country music, a polícia e os membros do partido nazista de Chicago, todos retratados em tom de picardia.

Os momentos e os personagens absurdos não incomodam. Ao contrário, são combustíveis para a sátira e a trilha sonora. O recheio é de sequências de ação, que nada devem – respeitando as diferenças tecnológicas – aos atuais filmes. No caso de The Blues Brothers, comprova-se que perseguições e batidas de carro são especialidades dos norte-americanos. As sequências são ágeis, tornam o absurdo crível e provocam o riso pela melodia da trilha.

As participações especiais são tão maravilhosas quanto discretas para o andamento do roteiro. Cada convidado com direito a uma música. Ray Charles é o dono da loja de instrumentos que vende equipamentos à banda. James Brown faz o pastor batista que ilumina o caminho para a reunião do grupo. Aretha Franklin é dona de restaurante e casada com um dos guitarristas. E o bluesman John Lee Hooker canta na rua, por uns trocados, em frente ao restaurante de Aretha.

O elenco de apoio também massageia a memória. O falecido comediante John Candy faz um policial. E Carrie Fisher, a princesa Léia (Star Wars), é a mulher que persegue Jake Blues. O filme teve uma sequência em 1998, mais fraca do que o original. Este, aliás, basta em si mesmo!



Ver The Blue Brothers é seguir por uma estrada de seguidas homenagens ao rock e ao blues. Ali, prega-se a paixão pela música, sem a venda da alma para o mercado, com tendências tão oportunistas quanto efêmeras. Ali, enxerga-se o cinema e o rock como linguagens à serviço da liberdade e da contestação, ainda que em formato satírico. O riso, por vezes, penetra mais nas entranhas do que um discurso professoral e moralista. Soa mais verdadeiro. Ali, percebe-se como a cultura negra impactou com profundidade a música pop dos Estados Unidos a partir do século XX.

The Blues Brothers é de 1980. Abre a década, e carrega a herança e os resquícios positivos das décadas anteriores. Para mim, uma sessão de saudade de rock, que poderia cometer o erro de classificar como “do meu tempo”. Mas sempre desconfiei desta expressão, que anseia nos matar em vida.

Depois, os clássicos ganham este título porque resistem às mudanças de humor da cultura, do tempo e do espaço. Os clássicos, como The Blues Brothers, ultrapassam o reconhecimento da análise e da crítica posteriores. Não conhecem os rótulos das gerações, dos guetos e das tendências.

A trilha sonora de The Blues Brothers é a contaminação gradual que começa com a batidinha de pé quando se está sentado no sofá, passa para o movimento de corpo e se alastra pelo desejo de ouvir o cd e – quem sabe? - dividir o filme com quem não o conhece ou o instalou em qualquer gaveta empoeirada das lembranças. È como um velho roqueiro que sobrevive à nova moda, pois a obra dele é maior do que os julgamentos de quem não o conhece como símbolo, como mensagem.


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Uma observação: para quem não conhece The Blues Brothers ou deseja relembrá-lo, há vários trechos disponíveis no You Tube. Basta digitar o nome do filme em inglês.

sábado, 9 de janeiro de 2010

Avatar - a ditadura da forma

Quando houve a crise de 1929, com a quebra da Bolsa de Valores de Nova Iorque, o mundo econômico sentiu pela primeira vez o impacto internacional de um tropeço do capitalismo. Até então, as dores eram localizadas. Depois de 1929, os Estados Unidos passaram quatro anos duros, conhecidos como A Grande Depressão. O único segmento da economia norte-americana que se consolidou como indústria foi o cinema. Naquele momento, foram forjados os alicerces do que seria Hollywood.

A crise econômica que o mundo globalizado atravessa desde o final de 2008 apresenta semelhanças com o cenário de 1929, mas traz inúmeras diferenças. Como o objetivo não é destrinchar a história econômica recente, vale dizer que a indústria do entretenimento, principalmente cinema e video-games, vão muito bem, obrigado. Na hora da tristeza, entreter é o remédio de efeito imediato. Hollywood estima atingir o recorde de US$ 10 bilhões em 2009, apenas nos EUA e Canadá.

A indústria cinematográfica, antes de dar sinais de evolução por tendências, crava um marco. Indica um referencial para o próximo passo do setor. Em outras palavras: embora haja planejamento, um blockbuster precisa arrebentar com tabus para sinalizar o tipo de produção que deverá prevalecer pelos anos seguintes. Avatar, de James Cameron, é o sinal, a placa que aponta a estrada a ser trilhada pelo cinema industrial em um futuro próximo. É a tecnologia no controle de todas – e não mais em parte - as ações de cinema.



Avatar é um filme belíssimo! Visualmente, é uma obra-prima, que poderá servir – momento de evitar profecias – de marco para a linha visual das produções. As cores chocam numa sequência catártica de elementos visuais milimetricamente casados. Formas de vida, movimento, tem-se a impressão de sentir a textura da vegetação e dos animais na tela. E não falo do 3D.

O filme, que rendeu mais de US$ 1,1 bilhão no planeta, entorpece como se fôssemos crianças dentro de uma loja de brinquedos. São luzes, sombras, sons que servem como personagens e condutores de narrativa. Algumas formas de vida do planeta Pandora parecem reais. No fundo, inspiradas em espécies existentes, fato comum em produções de ficção científica.

James Cameron gastou US$ 400 milhões para produzir o filme. A bilheteria, no momento da produção deste texto, é a segunda da história. Avatar perde somente para Titanic (1997), do mesmo diretor.

No entanto, Avatar não está à frente de seu tempo, como deseja propagar a estratégia de marketing em torno do filme. É evidente que aparecem novidades tecnológicas, e aí se encerra a primeira tendência indicada pela produção. A produção de Cameron é fruto do momento contemporâneo, da supervalorização da forma, do pensamento sob efeito de sedativos e da construção de uma mitologia reciclada por meio de estratégias extra-filme.

O visual deslumbrante esmaga o conteúdo com a força dos custos financeiros que cercam a obra. Tudo está à serviço da imagem e da velocidade de propagação dela. Narrativa, diálogos, trama, personagens, conflitos, clímax, desfecho, todas as características do filme se rendem ao impacto das imagens.



O apelo mercadológico é outro ponto importante. O meio ambiente entrou de vez na pauta pública, mesmo que nas bocas e nos bolsos dos ambientalistas de boutique. O filme finge um diálogo com o público sobre o assunto. O produto ouve e devolve a mesma fala, numa ilusão de frases novas. É dizer a mesma coisa que o outro com palavras diferentes. E lucrar com a falsa sensação de avanço da indústria.

Na ditadura da forma, vale o discurso, esqueça a ação. No entretenimento, vale explorar o tema com delicadeza, sem tomar posição ou ser panfletário. Ideologia – que não seja a do Deus-mercado – atrapalha o desempenho de um blockbuster, claro. E o espectador engole a mensagem, mas sem pensar sobre ela.

O pano de fundo de Avatar é a temática ambiental, mas o filme não a assume como fio condutor. Os americanos tentam explorar Pandora, que possui uma fonte de energia inesgotável. Este metal salvaria a Terra, planeta inabitável pela própria ação do homem. No local, vivem os Navi'i, povo em sintonia com a natureza e guardião indireto do metal. Na prática, a batalha entre exploradores e primitivos.

Cameron, ao esconder de forma proposital o assunto, escreveu uma trama esquemática, previsível e de final óbvio, com sequência à vista. A história, que se torna secundária diante dos elementos visuais, é uma réplica de outros roteiros de ficção científica. Réplica redundante, sem o pudor de adaptar algumas coisas.

Avatar é uma metáfora de um filme tradicional de faroeste, se o espectador entender os brancos norte-americanos como expansionistas atrás do desenvolvimento e de um metal precioso. O povo de Na'vi – se mudarmos a cor azul para vermelho – ficariam perfeitos no papel de índios, vistos como primitivos, selvagens, místicos e sentimentalóides demais pelo branco explorador. Obviamente, o rótulo de selvagem se inverte conforme ficam expostas as intenções e comportamentos de ambos os lados. George Lucas afirmou, há 30 anos, que a saga de Star Wars era uma metáfora do faroeste americano.



A narrativa não surpreende, assume a estrutura convencional, linear. È natural que Jake Sully (Sam Worthignton – O Exterminador do Futuro 4, na foto acima), o enviado para se infiltrar entre os azuis de três metros de altura, se sensibilize com a causa Na'vi e se conecte emocionalmente com a principal jovem do lugar.

Os demais personagens também seguem estereótipos tradicionais, como a cientista idealista e estudiosa dos Na'vi, interpretada por Segourney Weaver (Alien), e o coronel Quaritch, que respira guerra e sangue, vivido por Stephen Lang (Inimigos Públicos)(foto abaixo). Como em Titanic, alguns diálogos são primários, beiram a infantilidade e ressaltam os clichês.



É evidente que a ficção científica, calcada na perspectiva tecnológica para existir como gênero, jamais fale do futuro, e sim remexa nas vísceras do presente. Aí Avatar é perfeito, pois narra um problema contemporâneo, ainda que na retórica.

O filme de Cameron simboliza o retrato do momento mercadológico atual do cinema. Um blockbuster que arrebenta a porta das salas de cinema com um caminhão de dinheiro em marketing e distribuição. Um filme que desloca a concorrência, busca implantar o gosto único – apesar de fugaz - e se reforça com um pacote de quinquilharias para não ser esquecido. Com isso, forma seguidores fanáticos, adeptos do visual entorpecente quase paralisante.

Avatar carregará na bagagem estatuetas técnicas em quaisquer premiações que disputar, mas basta para tanto dinheiro investido? Basta pela lucratividade, e pouco importa que seja lembrado principalmente (ou somente?) pelos avanços tecnológicos. Duvido que seja comentado pelo roteiro, pelos personagens ou pelas atuações. Mas como fazer bom cinema ao abrir mão deles?

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

A "escola para gays"

A diversidade – em todos os níveis – se transformou em tema recorrente na agenda pública internacional. O assunto é inerente ao pacote contra a intolerância, valor que se faz presente em todos os conflitos, sem importar a escala e alcance dos choques.

A diversidade sexual, no Brasil, funciona quase como um ponto cego neste debate público, no qual se fala com timidez e polidez, exceto quando a violência física e psicológica, acompanhada dos estereótipos, é escandalosa no noticiário de TV.

A criação de uma escola voltada para o público LGTB (lésbicas, gays, transexuais e bissexuais) reacendeu – de forma discreta – a discussão sobre o assunto, principalmente na Internet. A instituição, que nasceu a partir de uma parceria entre Ministério da Cultura, Governo Estadual e a organização não-governamental Grupo E-Jovem, vai funcionar em Campinas a partir de março e terá cursos na área cultural.

Os alunos, de 12 a 20 anos, poderão escolher entre artes gráficas (literatura e produção de revistas e fanzines), cênicas (teatro, cinema e webTV), além de música, dança e performance de drag queen. A proposta da escola é atender não apenas o público daquela região, mas também alunos da Baixada Santista e Grande São Paulo.

O projeto para a implantação da escola foi selecionado pelo Ministério e recebeu verba de R$ 180 mil. A parceria tem prazo inicial de três anos. A escola, com inscrições abertas a partir de janeiro, terá – em princípio – 20 vagas, com possibilidade de crescimento para 60 alunos. Heterossexuais também podem se inscrever. As aulas são gratuitas.

A iniciativa, aparentemente, é inédita. O que importa é o debate que deverá provocar, dentro e fora dos grupos segmentados. Foi o que ocorreu nos Estados Unidos, quando abriu a Harvey Milk School, no bairro de Greenwich, em Nova Iorque. A escola, inserida na rede de ensino público local, começou a funcionar em março de 2009 e homenageia o ativista nova-iorquino, morto a tiros em São Francisco nos anos 70. O personagem Harvey Milk deu o Oscar para Sean Penn em 2009.



A abertura de uma “escola para gays” aponta – em primeiro lugar – para a fragilidade do debate no país. Mal conseguimos sair da reprodução dos rótulos, dos carimbos sociais e das associações pejorativas feitas aos não heterossexuais. Ainda é comum, em uma sociedade que se considera democrática, livre e moderna, a conexão da homossexualidade a doenças, falta de caráter, inferioridade mental, más companhias, entre outros termos mais pesados.

A discussão pública não consegue ultrapassar os limites do concreto e penetrar no campo da abstração. É quase impossível testemunhar uma conversa sobre comportamento sexual pela perspectiva da cultura – seja até pelo consumo de mercadorias específicas - ou de valores, como a diversidade. Para muitos, soa como sinal de fraqueza, de misericórdia, distante da ideia mais ampla de civilização, de liberdade, de senso de coletividade e de cidadania.

Na onda do politicamente correto, esconde-se o paradoxo da postura presente na cultura brasileira, de forma geral. Na vida pública, a maioria reconhece a necessidade de redução do preconceito. Admite que a homofobia se trata de um obstáculo social grave, que merece até criminalização.

Por exemplo: o Brasil realiza a maior parada gay do planeta, na cidade de São Paulo. A última, em 2009, reuniu cerca de três milhões de pessoas. São Vicente, no litoral do Estado, consegue realizar uma parada há cinco anos. Estes eventos recebem apoio público, inclusive da sociedade civil.



Parte da mesma sociedade que aceita a reunião pública de gays numa tarde de festa e reivindicação se mostra chocada com o óbvio: a homofobia. A homofobia é vista com a hipocrisia da surpresa, como se fosse uma novidade instantânea. Parece a imagem daquela tia chata – que todos temos – que põe a mão na boca, horrorizada com o beijo que a filha de 20 anos deu no namorado no portão de casa. Faz cara de quem nunca tinha percebido as mudanças a sua volta, na rotina e no corpo da filha.

O desenho muda de cor na vida privada. Filhos que não se enquadram na heterossexualidade são escondidos em casa. Ou enviados para cursos e atividades extra-curriculares para machos. Ou freqüentam cursos da linha da etiqueta para adquirirem feminilidade. Ou são encorajados a arrumar as namoradas(os)-de-fachada. Ou serão curados pelo pai e parentes com uma boa surra. Fora os incidentes na escola. Fora a discriminação no ambiente de trabalho. Fora os olhares reprovadores e o silêncio punitivo.

Para se justificar, surgem os argumentos genéricos, muitos parecidos quando se fala sobre outras formas de discriminação.

- Ah, eu tenho um amigo gay.

- Ah, meu primo de terceiro grau, que mora a 1000 quilômetros daqui, é gay. Tenho parentes homossexuais. Como poderia ser preconceituoso?

A escola em Campinas nasce com o propósito – evidente – de combater a discriminação sexual. Este tipo de instituição serve para esfregar na nossa cara como somos uma sociedade moralista, excludente e violenta. E indica como a escola brasileira sempre foi – e será por muito tempo – uma instituição reprodutora, quando não incentivadora, de valores discriminatórios.

Sempre desconfiei da política de inclusão. Incluir com o estigma do lado, numa simbiose doentia. Reforçam-se – direta ou veladamente – as diferenças, a condição de suposta anormalidade diante do grupo que controla as ações, políticas e doutrinas vigentes.

Na outra ponta, temo que a escola em Campinas cultive ainda mais o preconceito e os ataques contra a diversidade. Será fácil apontar o dedo e indicar que a instituição é um processo auto-excludente? A escola não seria a formação de um gueto e realimentaria o ódio dos homofóbicos e o desprezo (disfarçado de indiferença) dos hipócritas?

A imprevisibilidade das respostas está além da controvérsia inicial, do reforço de opiniões. Neste momento, a escola servirá como combustível para a cristalização das posturas públicas enraizadas há anos. E não é nelas que devemos nos concentrar. A questão é aguardar pelas conseqüências de longo prazo e esperar por mudanças a conta-gotas, com avanços e retrocessos, como vem ocorrendo nas relações com as mulheres e os negros.

Penso que a “escola para gays” – rótulo reforçado pela imprensa e por parte dos divulgadores da ideia – tem que ser vista como um passo para a mudança efetiva de mentalidade, rumo a um nível elevado de tolerância, de compreensão do outro, sem a imposição de crenças, vontades e valores.
Se atingirmos tal patamar, esta escola não terá razão para existir. Morrerá pela inutilidade. E o título deste texto não seria repetido novamente, mesmo que entre aspas.

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Aproveitando o tema, vale a pena assistir ao vídeo “Sem Purpurina – Realidade GLBTT na Baixada Santista”. Trata-se do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), em Jornalismo, das repórteres Lara Finochio, Xenda Amici, Livia Carvalho e Fernanda Balbino. O trabalho, apresentado na Universidade Católica de Santos (UNISANTOS), foi orientado pelo professor André Rittes e é o retrato da luta de grupos contra a discriminação naquela região.

O vídeo foi produzido em 2009, traz depoimentos contundentes e está disponível no You Tube. Veja os links abaixo:

Parte 1 - http://www.youtube.com/watch?v=z_AgsbbmxkU

Parte 2 - http://www.youtube.com/watch?v=sfvOvvs8g0k

domingo, 3 de janeiro de 2010

O telefonema

O saco de estopa estava repleto de latas de alumínio, todas amassadas e prontas para a reciclagem. O peso deixava as costas dele curvadas. Parecia um pêndulo ao se mover. Somado à idade, a carga ambiental fazia com que ele caminhasse lentamente pela avenida, arrastando os pés sobre os chinelos um número menor.

Quando se está nas ruas há muitos anos, a aparência raramente condiz com o tempo de vida. É impossível dizer quantos anos tinha. Calculo em 50, 52 anos, embora a barba branca, o cabelo ralo e as rugas indicassem alguém com 65 ou mais.

Dei de cara com este senhor na saída de um prédio. O sábado à noite, para mim, terminava. Ainda não era meia-noite, mas estava cansado de uma semana cheia, um sábado de aulas e uma festa com tentadoras coxinhas e bolinhas de queijo. O cansaço habitual do mundo da classe média.

Cruzamos os olhares e ele me disse algo que não entendi. Talvez a fadiga, talvez a desatenção diante de alguém normalmente invisível para os olhos da maioria. Ele se encaixa no retrato de quem ocupa espaço na paisagem, sem interferir na trajetória dos personagens.

O senhor repetiu a frase. Pedia dinheiro, uns trocados. A mão, estendida, tremia. A voz era quase inaudível. A cabeça baixa transmitia a vergonha de ter que pedir dinheiro para alguém, que poderia ser seu filho. Ou tinha idade para isso.

Abri a carteira e tirei uma nota de R$ 2. Era o que tinha. O dinheiro eletrônico mais o medo paranóico – e a grana curta mesmo! – indicavam a carteira vazia. Ele apertou minhas mãos e agradeceu. Apenas disse: - De nada!

Depois de um sorriso mecânico e educado, me virei para seguir o caminho oposto. Ouvi a voz dele:

- Vou ligar para minha mãe. Acho que, com o dinheiro que juntei, posso comprar um cartão para telefonar.

A frase me fez parar. Atiçado pela curiosidade, cheguei perto dele e puxei conversa.

- Ligue sim. Mas por que resolveu ligar para ela?

- Recolhi estas latas por dois dias, mais o dinheiro que consegui; assim, posso pagar o interurbano para falar com ela. Amanhã é o Dia das Mães.

- Não deixe de telefonar. Ela deve estar com saudades.

- Não falo com ela há dois meses. Minha mãe pensa que trabalho por aqui. Não sabe que vivo na rua. Deste jeito!

- Mas o que você faz é trabalho.

- Muita gente acha que não.

A conversa foi interrompida. Não foi interrompida pelas pessoas que entravam e saiam do prédio, olhavam para nós como parte da paisagem e continuavam a caminhada, concluída com o barulhinho dos alarmes de carros na mesma quadra.

Paramos de conversar porque ele começou a chorar. Colocava uma das mãos no rosto e pedia desculpas. Apenas consegui dizer a ele que não precisava se desculpar. A surpresa e o constrangimento de ambos travaram o diálogo. O choro estava se tornando contagioso. O silêncio era o freio das minhas lágrimas.

Ele se despediu, colocou o saco nas costas e voltou ao arrasta-pé. Reforcei a importância do telefonema e agradeci pela conversa.

Confesso que tive vergonha de perguntar o nome dele, apesar de que – hoje – me parece uma informação irrelevante diante da generosidade com que o senhor partilhou seu desejo mais imediato, delicado e profundo. O objetivo me pareceu tão simples, mas tão complicado de ser cumprido, por causa de um modo de vida no qual o sujeito está preso a si próprio, sem possibilidade de mudança, de relações duradouras, de família, de perspectivas.

É a prisão de um rótulo de miserabilidade que o impede de ter uma história, de possuir passado, de almejar dias posteriores. Como se tudo começasse e terminasse na garrafa de pinga, símbolo da autopunição de ter pouco, da vontade de viver sempre o mesmo enredo de ausência.

No dia seguinte, contei à minha mãe a história do encontro. No final, choramos. Não havia o que comentar. Apenas entender e absorver. Acredito cegamente que foi o melhor presente que poderia dar a ela. Corrigindo: repassar a ela, pois o recebi na noite anterior.

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Levei alguns meses para escrever esta pequena história. Optei por publicá-la em tempos natalinos por crer que não importa a data, e sim o simbolismo dos fatos em torno dela. A pequena aula com aquele senhor que carregava um saco de latas amassadas – infelizmente, não era o de Papai Noel – se encaixa em qualquer comemoração que envolva o sentido mais amplo de humanidade.

sábado, 2 de janeiro de 2010

Educar para o dinheiro

O Ministério da Educação é mais um exemplo sobre a mentalidade dos gestores públicos brasileiros. Como o filme que sonha com o sucesso de bilheteria sem pensar no conteúdo do roteiro, o ministério repete fórmulas. A diferença é que pouco se importa com o planejamento e com o impacto sobre as pessoas.

A fórmula é previsível: 1) ter (ou se apropriar) de uma ideia que julga excelente, quando não revolucionária; 2) transformar a ideia em projeto, lançado a toque de caixa; 3) implementar o projeto em formato de conta-gotas, de preferência ignorando críticas e consequências para os envolvidos.

O Ministério anunciou a criação de um projeto de educação financeira para as escolas públicas. A proposta envolve 1650 unidades. Os alunos teriam aulas de orçamento familiar, finanças pessoais e poupança, entre outros temas. O projeto deriva de parceria com empresas do mercado financeiro.

As aulas de educação financeira partem de pesquisas que mostram, por exemplo, que 82%dos consumidores não conhecem juros e 87% não poupam.



A intenção é boa, mas não passa deste ponto. A um mês e meio do reinício das aulas, o Ministério ainda não definiu como será a capacitação dos professores. As aulas estarão inseridas em diversas disciplinas como Matemática? Ou novamente será adotada a decisão disk-entulho, que implica em criar mais uma matéria para inchar o conteúdo programático?

Qual é a intenção das aulas? Formar cidadãos críticos, que possam entender, transitar com critério e se proteger das atividades do mercado financeiro? Ou as aulas terão como objetivo formar novas massas de consumidores sem crítica, apenas dispostos a se endividar sem compreender onde começa e onde termina a corda que passaram no próprio pescoço?

O Ministério promete disponibilizar o conteúdos das aulas para todas as escolas do país. Mais um equívoco: padronizar temas, informações e conhecimento, desrespeitando os regionalismos e as particularidades econômicas e sociais. A pressa de implantar projetos, sem avaliá-los.

È a velha mania de se considerar a escola como a salvação da lavoura. Todos os problemas – de qualquer ordem – devem ser debatidos na escola? Por que não em outros ambientes sociais? O Ministério mantém a rotina de gerar muitas perguntas e de fornecer poucas respostas.

Santana e a crise do pop

ESTE TEXTO FOI PUBLICADO, ORIGINALMENTE, EM FEVEREIRO DE 2000, NA EXTINTA REVISTA ELETRÔNICA O CAIÇARA. RESOLVI POSTÁ-LO AQUI PARA PROVOCAR EM VOCÊ, LEITOR, UMA SIMPLES INDAGAÇÃO: O QUE MUDOU NA INDÚSTRIA DA MÚSICA EM 10 ANOS?

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O som das guitarras atingiu o topo das paradas. O mérito é maior porque o mundo de hoje é povoado por cantores e cantoras que parecem jamais terem sido apresentados a instrumentos musicais.

Muitos o consideravam um dinossauro do rock, sepultado como outros artistas dos anos 70. O guitarrista mexicano Carlos Santana se renovou e surpreendeu o mercado fonográfico, acostumado a faturar com CDs de Britney Spears, Spice Girls, Ricky Martin e Backstreet Boys. O fato de ter vencido oito prêmios Grammy (Oscar da música), igualando o recorde de Michael Jackson, em 1984, talvez seja apenas o reconhecimento do circo pop. Ou então - talvez a melhor resposta - reflexo de um trabalho incontestável para críticos e público.



Aos 52 anos, Santana permaneceu 12 semanas na liderança da parada inglesa. Nos Estados Unidos, é o número 1 há quatro meses. Vendeu cinco milhões de cópias apenas no cenário americano. Explodiu com o hit Smooth, dueto com o vocalista da banda Matchbox 20, Rob Thomas. Atrás dele, Britney Spears, Ricky Martin, Whitney Houston, N'Sync e turma.

Mais do que vender CDs, Santana quebrou uma hegemonia que marcava o pop no final dos anos 90. Muitos críticos dizem que o pop passa por uma crise sem precedentes. É muito provável! Há pouca renovação com qualidade. Todos parecem iguais. Seguem o mesmo estilo. Cantam no mesmo timbre. Vestem o mesmo uniforme. Rebolam como robôs (se isso é possível). Até as letras se assemelham.

Antes, eram as divas. Salvo Tina Turner e Aretha Franklin, as demais ainda não saíram do purgatório. Quem consegue diferenciar Celine Dion, Whitney Houston, Mariah Carrey, Gloria Estefan e outras com repertório carregado no mamão com açúcar?

Depois, o fenômeno Spice Girls, moças contratadas para interpretar (essa é a palavra; o que vale é o show) músicas pré-fabricadas e coreografias milimetricamente ensaiadas. A falta de talento e a voracidade da mídia de massa demoliram o grupo. Duas tentam carreira solo e outra virou esposa de jogador inglês de futebol. As demais - até o momento - não nos mandaram notícias.

Nos últimos dois anos, o mercado fonográfico passou a fabricar grupos com cinco rapazes de rostos bonitos, corpos atléticos e cérebros padronizados. Portanto, músicas padronizadas. É comida requentada. Quem não se lembra de New Kids on the Block, que explodiu no início dos anos 90? Apenas um deles se mata atualmente para alcançar sucesso na carreira solo. Os outros mudaram de profissão - digo - o sistema os obrigou a mudar.

Estamos rodeados de lixo musical. Na maioria das vezes, não nos damos conta disso. A ressureição de Santana foi e é uma brecha para o renascimento do próprio pop. Madonna também deu sinais de recuperação com o sucesso Beautiful Stranger, canção que compunha um disco elogiado por críticos e público americano.



Parte da imprensa especializada atribuiu o sucesso de Santana aos duetos que povoam o CD Supernatural. Lauryn Hill, Dava Mathews e Eric Clapton fizeram parcerias com o mexicano e engrandeceram seu trabalho. Só isso!!! Não viraram protagonistas. Trabalharam como escadas. O mérito foi todo de Santana. Sua latinidade estava ainda mais presente. Basta ouvir a música Maria, Maria.

Por falar nisso, os latinos dominaram o mercado americano e, por tabela, engoliram quase todos os Grammys. É mais um sintoma da crise do pop. No entanto, não confundam - pelo amor de Deus - Ricky Martin, Jennifer Lopez e Cristina Aguillera com Carlos Santana. O guitarrista mexicano faz música. Os demais, não sei.