sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Como sobreviver em um navio de passageiros

Estamos no auge da temporada de navios de cruzeiro. No Porto de Santos, quatro, cinco navios fazem o processo de embarque e desembarque de forma simultânea todos os dias. Sao cerca de 10 mil pessoas transitando, todas com pressa, muitas ansiosas, poucas relaxadas.

Estou no meio de uma viagem destas, que ganhei de presente da família. No navio, acontecem mutaçoes na espécie humana, que fazem muitos perderem a vergonha. Outros deixam o senso de civilidade em terra.

Os comportamentos esquisitos, com cheiro de maresia, podem ser evitados. Já que a viagem se tornará inesquecível, que nao seja pelo lado brega ou humilhante. Algumas sugestoes, coletadas após dias de observaçao preguiçosa e descompromissada:

1) Quando chegar à cabine, certifique-se sobre o funcionamento da descarga. Na hora do alívio, você apertará qualquer botao a sua frente. A descarga é a vácuo. Se você estiver sentado, poderá perder parte da área dos Países Baixos. Este território poderá te fazer falta depois, principalmente em negociaçoes diplomatico-amorosas.

2) Em águas internacionais, muitos pensam que as leis brasileiras nao se aplicam mais. Seguem para o vale tudo globalizado. Nao se esqueça! No navio, sempre haverá alguém que conhece você. Aquele ex-colega do curso de inglês. A ex-namorada do seu primo. A amiga do amigo do teu ex-namorado. Alguém vai se encarregar de espalhar seus escorregoes em sua cidade natal.

3) Nunca se deixe filmar ou fotografar por desconhecidos. Se você se considera um abençoado porque está no navio (ainda que a bençao seja popularizada em 15 prestaçoes), comporte-se como celebridade reclusa. Assim, evitará que imagens suas vazem para as redes sociais. Pensando bem, parentes e amigos também nao sao confiáveis. Os inimigos podem dormir na mesma cabine que você.

4) Se for ao deck da piscina ou entrar em um bar, certifique-se de que as brincadeiras e jogos já começaram. Se estiver lá desde o início, pode ser escolhido para cumprir provas e participar de concursos. Suas imagens estarao no circuito interno do navio e, posteriormente, nas redes sociais. Evite também sentar-se no gargarejo, na beira do palco. As chances de ser convocado para pegadinhas que assistia apenas aos domingos à tarde na TV cresce de maneira substancial.

5) Náo tente treinar o idioma que aprendeu naquela escola de línguas da esquina ou no colégio com tripulantes. Náo vai funcionar! O tripulante nunca te entenderá e a conversa soará macarrônica para os outros passageiros. E eles falam o seu idioma fluentemente, além do risco de estarem com câmeras para registrar do diálogo internacional.

6) Antes de conversar com o tripulante, sugiro também que leia a placa de identificaçao. O nome dele já indicará, provavelmente, a nacionalidade, o que facilitará a conversa e te protegerá de gafes. Perguntei a um recepcionista português se apareciam muitos passageiros brasileiros para contar piadas. Ele me respondeu: — È pior! Eles falam comigo em espanhol!

7) Sobre os tripulantes, lembre-se de que olhar as placas de identificaçao é desnecessário com filipinos. Os nomes sao incompreensíveis. Os rostos, idênticos, e o inglês deles, tao ruim quanto o seu. Apenas sorria, seja simpático e siga a rota de navegaçao.

8) Hà um código de conduta entre os tripulantes: jamais se envolva sexualmente com passageiros!!! Eles sao amáveis com você porque é o trabalho deles. Muitos passageiros se sentem cobiçados porque a garçonete deu atençao quando estavam bêbados. Elas nao ganham para isso. Te fizeram um favor. E em dólar, que vale mais do que o real do seu contracheque.

9) O mesmo vale para as passageiras. Muitas se apaixonam pelos dançarinos após uma aula de tango ou de samba na beira da piscina. A recíproca nao será verdadeira, apesar de que regras, às vezes, se rompem com as fortes ondas em águas internacionais.

10) Se você se manteve a uma distância segura da tripulaçao e conheceu alguém da sua espécie, divirta-se! Mas nao se esqueça de que amor de navio se esvai quando seus pés tocam em terra firme.

Espero ter ajudado, numa época em que você - e o restante da nova (e da velha) classe média brasileira - se considera um sujeito diferente só porque viajou de navio. Sao milhares de eleitos todos os dias. Aproveite! Até porque a ilusao será debitada em sua cartao de crédito por um ano inteiro.

P.S.: Perdoe-me, leitor, pela ausência de til no texto. Até o teclado segue normas internacionais.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

O pior (melhor) emprego do Natal

A criança, que duvidava da existência dele, me perguntou com convicção:

— Como ele pode estar em quatro lugares ao mesmo tempo?

Diante de uma pergunta sem saída, a saída é evitar a pergunta. Se der a resposta verdadeira, serei lembrado como aquele que acabou com uma crença fundamental na infância dela.

A pergunta me levou a pensar em um emprego, talvez o mais deslocado (ao mesmo tempo adequado) neste período de final de ano, também envolvido por um frenesi esquizofrênico de compras e excessos.

Pensar que ele trabalha enquanto a maioria festeja seria óbvio demais. Com a experiência que tem, bebe e come em serviço à vontade. Até porque o velho é a antítese do padrão estético. Talvez seja o único emprego que gordos são candidatos preferenciais.

Dizer que ele morre de calor por causa das roupas feitas para a Noruega ou o Alasca é redundante. Suas roupas o deixam na moda, enquanto o torturam. Mas qual a diferença para certos adereços mínimos do verão, que asseguram status e desconforto, que expõem tudo e escondem o essencial?

O problema do Papai Noel não é o Natal. É o que ele pode provocar pelo resto do ano. Ou pelo resto da vida. Uma amiga, na casa dos 25 anos, é sempre uma das mais animadas e sorridentes na ceia de Natal. Mas ela treme quando se aproxima a troca de presentes. Sua frio quando precisa se aproximar do velhinho.



Ela sabe que a tia dela (em outros anos, o primo) é quem veste a roupa, mas prevalece o trauma, de data desconhecida e origem em outro hemisfério. Para síndromes como essa, não há explicação objetiva. As vítimas se alimentam de suas próprias teorias.

— Papai Noel é como palhaço. Dá medo! Por que eles precisam estar de fantasia? Por que não podem estar de cara limpa?

O sorriso do Papai Noel na praça de um shopping é como bilhete de loteria: ter sorte para que a próxima criança seja educada, não chore, não puxe a barba, não peça brinquedos desconhecidos. A paciência do velhinho evita que adultos gastem meses em terapia para escarafunchar o passado freudiano de uma simples tarde de compras. Certos marmanjos acreditam nessas coisas.

O Papai Noel depende de alguém que muitas vezes não liga para ele. Os pais se satisfazem com a alegria das crianças no colo alheio, mas culpam o velhinho fantasiado se o moleque berra, faz birra, recusa colo ou se joga no chão do shopping. O vexame é culpa de quem nasceu para alegrar (ou vender alguma tranqueira), mesmo que a tolerância já tenha se esgotado há horas.

O Papai Noel também leva a culpa quando os pais agem como políticos profissionais. Cartas, e-mails, bilhetes, lembretes, textos que se multiplicam em desejos de presentes. Quando as promessas não se materializam em brinquedos ou se transformam em cuecas e outras roupas, o velho arca com a responsabilidade. À criança, restam a decepção e a ausência de um Procon por erro na entrega da mercadoria.

O Papai Noel carrega em seu saco um peso mais incômodo do que os presentes que talvez desagradem os mimados. Ele simboliza o que os mimados crescidos não conseguem resolver. Entre si e com os outros.

Papai Noel representa à revelia a ilusão de que o Natal é a data da reconciliação, da paz e da amizade. A sorte dele é que se retira do recinto minutos antes da ceia de muitas famílias, a hora em que algum parente mais calibrado de álcool começa a soltar as verdades inconvenientes.

O velhinho seria o mensageiro que, como uma vassoura, empurraria as diferenças para debaixo da árvore. A face simpática esconderia a impotência de algo além de seu próprio papel. Papai Noel não pode servir como intervalo entre o que não pode ser enterrado por 24 horas. Ou por uma noite.

Depois que ele sobe pela chaminé, a noite de Natal expõe os cutucões e os beliscões de quem mal se suporta e pretende dar sempre a última palavra. Ganhar a conversar vale mais do que o risco de incinerar a confraternização na lareira da sala de jantar.

Ser Papai Noel é assumir-se inerte diante da distorção da única data em que se lembra dele. O velho perdeu sua função? Em certos endereços, completa o ambiente como peça de decoração, uma árvore brilhante a mais.

O que o traz de volta no ano seguinte? Aposto, mas não assino embaixo (como diz uma amiga), que é a chance de rever o sorriso de alguém que ainda crê cegamente nele. No espírito dele, com ou sem embrulho e laço de fita.

Ilustração: Kitty Yoshioka

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Os homofóbicos saíram do armário


A Igreja Comunidade Cristã Nova Esperança fica no bairro Nova América, em Fortaleza. Evangélica, a instituição não tem placas na porta ou outras formas de identificação. A Igreja funciona há três anos e possui cerca de 60 membros, a maioria homossexuais.

Desde agosto, a Igreja virou alvo de ataques: urina na porta e pedradas, por exemplo. Perseguir pelas pedras não poderia ser mais simbólico e irônico: é repetir a punição típica do período em que o representante máximo da cristandade viveu, há pouco mais de dois mil anos.

Agora, os “corajosos” do anonimato partiram para as pichações: “Morte aos gays e sapatão” (com erro de português mesmo!), “Igreja gay filosofia do diabo” e “Homofobia não é crime”. Qual será o próximo passo? Repetir seus colegas machões da avenida Paulista?

Para assegurar seus esqueletos inertes e trancafiados, os homofóbicos, definitivamente, saíram do armário. Alguns ainda escondem o rosto e o nome, mas é uma reação previsível diante dos avanços na legislação para os homossexuais.
Muitos até se misturam à turma do politicamente correto, balançam a cabeça em sinal positivo para o problema, mas se entregam nas piadas ou quando o assunto ganha ares de relações familiares ou pessoais.

A violência contra gays existe desde o período colonial. É da natureza histórica, está tatuada na formação cultural da sociedade brasileira. Nos últimos 45 dias, o tema parece que se transformou em sub-editoria nos jornais, pela sucessão de episódios. Escola em Campinas vítima de vandalismo. Ataques nas ruas, em cidades diferentes.

A desvantagem para os machões é que passamos a viver no Big Brother, que os coloca sob a mira de uma lente 24 horas por dia. Os machões que se sentiam livres para agredir e matar estão expostos no telejornal da hora das refeições. Os heróis da testosterona, agora, precisam responder criminalmente pela covardia de seus atos. Pela manifestação de tirania e de desumanidade.

Os casos sucessivos apresentam algumas semelhanças. Os agressores, em primeiro lugar, se escondem sob o manto do grupo. Ali, se protegem e se fortalecem. Ali, podem dizer o que realmente pensam. Ali, podem evitar a reação da vítima e mantê-la sob condição de humilhação, inerente ao ato de violência. Ali, ejaculam de prazer no auto-exercício da dominação.

Os agressores são, no fundo, covardes. Não assumem suas posições, pois fogem do contraditório. Agridem e defendem a eliminação do outro por ser supostamente diferente deles. Projetam nos gays suas frustrações e fracassos, independentemente do tema, não exclusivamente sexual.

Quando apanhados, buscam amenizar a gravidade de seus atos. Não se veem como selvagens. Veem-se como pregadores de uma moral – com respaldo religioso até -, distorcida e adequada aos princípios próprios dos agressores.

Quem agride se posiciona como vítima. O outro o agride por sua presença, por sua existência. Os homofóbicos entendem que seus alvos devem se manter em guetos, em campos de concentração onde suas opções não machucariam seus olhos. Quem sabe, para muitos, não seria o remédio que afasta tentações?

A exposição pública e a conquista de espaço seriam uma afronta, um avanço ofensivo sem permissão, transgressor ao ponto de exigir um ato imediato, uma resposta violenta.

No caso da avenida Paulista, um dos cinco agressores é maior de idade. Tem 19 anos e foi indiciado judicialmente. A mãe de um dos outros adolescentes chegou a dizer que seu filho adolescente cometera um ato infantil, como se fosse incapaz de avaliar a gravidade das porradas distribuídas gratuitamente.

A mesma mãe afirmou que o caso ganhava ares de exagero por parte da imprensa. Que medidas seriam tomadas em casa, de maneira adequada, como assunto de família.
Nesta perspectiva, crianças que cometeram erros são punidas pelos pais. Nesta lógica, a infantilização do agressor se encaixa como um porrete para as circunstâncias. Manter os desvios de conduta na vida privada é uma estratégia coerente com quem esconde suas posições perversas entre quatro paredes, enquanto sorri em público. E também seria coerente, na visão deles, com a homossexualidade, que mereceria cadeados e trancas para permanecer dentro de casa.

Para esta sociedade que prega a diversidade e a pratica em forma de intolerância, confundir público e privado e misturar violência com coisa de criança solidificam o cinismo de quem confirma que legislação e mentalidade são irmãos que não se entendem, que mal se conhecem.

Ilustração: Kitty Yoshioka

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

A rua que divide o tempo

A rua Francisco Hayden é um pequeno pedaço de asfalto de 200 metros, mal percebido por quem precisa chegar à orla da praia, nas proximidades do Museu de Pesca, em Santos. Ninguém reside ali. Não há grandes empresas ou consistente movimentação comercial. O local não recebe tráfego pesado ou conecta pontos de transporte de mercadorias, por exemplo.

A rua, na Ponta da Praia, é somente ponto de passagem, o instrumento de travessia para quem não deseja sequer saber o nome dela. A brevidade do trecho, inclusive, impede que tenhamos a curiosidade de identificá-la. É uma veia que não nasceu para se tornar definitiva, que se assume secundária.

A rua Francisco Hayden acabou eleita para um trabalho à revelia, função que não a transformou em foco geográfico ou centro de aglomeração de pessoas. A rua dividiu dois tempos que radiografam a cidade de Santos.

A Francisco Hayden é a fronteira que demarca o passado e o presente dos clubes de Santos. Como castigo, terá que se equilibrar em um futuro que se aproxima e vai reescrever sua existência.



De um lado da via, as ruínas do Clube de Regatas Santista. Do outro lado da calçada, o Clube Internacional de Regatas, com novo prédio de visual contemporâneo.

De um lado da via, a morte de um período áureo dos clubes da cidade, que se transformaram em elefantes brancos, congelados como o retrato amarelado que se esfacela ao toque das mãos. Estes animais de concreto não entenderam as alterações culturais e urbanas de uma cidade que cresce sem planejamento adequado.

Do outro lado, outra espécie de elefante, que recusou a classificação de paquiderme, por suas próprias razões. Uma agremiação sobrevivente, que se reinventou para garantir mais alguns anos, ainda que sem o glamour, ainda que diversificando atividades, tanto sociais quanto esportivas.

O Regatas Santista, ao contrário do Vasco da Gama, agonizou lentamente, com um animal abatido para o sacrifício depois de horas de sangria. As dívidas se acumularam, e o amadorismo cultuado de outras épocas virou o tumor que impedia a adaptação aos novos valores culturais da classe média.

As ruínas do Regatas Santista demarcam um caminho de inércia, de cegueira diante do mundo que se movimentava além das grades da sede do clube. O Regatas é o símbolo maior do problema que derrubou outras agremiações tradicionais, como o Clube Atlético Santista. O patrimônio, antes ponto de ostentação e status, passou a ser a doença que resistia aos remédios paliativos.

As ruínas do Regatas Santista guardam, entre pedras, pó e ferros retorcidos, as lembranças de gerações que ali dançavam, praticavam esportes, namoravam, se conheciam e entendiam a dinâmica da cidade de Santos. A memória que perdeu a referência no espaço e se restringiu à imaginação a partir de um vazio na esquina com a avenida Saldanha da Gama.

As ruínas serão trocadas por outras lembranças, a serem construídas depois do parto dos espigões que beijam a ausência de limite vertical. Os mesmos espigões que alterarão a paisagem da avenida Saldanha da Gama. Os mesmos espigões que mudarão o status do Clube Internacional de Regatas. O elefante é a nova formiga, diante de outro mamífero maior e de força no rugido.

A rua Francisco Hayden, com seus 200 metros e insignificância geográfica, é o divisor de águas para um comportamento cultural que deseja (e se escraviza) pela adaptação. O Regatas Santista carregará em sua lápide as pedras de um passado gravado em documentos. A lápide que enfatiza a imagem desfeita em poucos dias pelos equipamentos de demolição, depois de anos em coma a céu aberto.

A rua Francisco Hayden é o mensageiro do alerta, de um tempo que nasceu pela caneta dos políticos e dos interessados em lucro veloz. Os mesmos políticos que agora tentam, entre a desfaçatez e o jogo de cena, conter com esparadrapo as águas vorazes que romperam a barreira do crescimento selvagem. O grupo que abriu a porteira para a boiada de concreto e ferro tem na rua Francisco Hayden um cartão postal macabro que escancara o estrago, fruto da ansiedade por progresso.

Do outro lado, o gigante vermelho deve se preparar para a própria pequenez. Para a luz que será trocada por uma parede de dezenas de andares. Para entender que o morador de hoje é um sujeito com outras formas de lazer em mente. Sujeito que pode desejar o velho clube Internacional, mas que flerta com outros espaços fechados, com vitrines, praças de alimentação e outros atrativos à base de cifrões.

O Internacional de Regatas é o presente que ajudará a redefinir o papel da rua Francisco Hayden. Hoje, somente uma passagem para a orla da praia. Amanhã, a passagem para o canteiro de obras. Depois de amanhã, o início e o fim do cotidiano de novos moradores.

O novo prédio do clube é a resposta de quem procurou tratamento para não morrer. Ou para não acabar em ruínas, que atraem o saudosismo e o lamento das experiências vividas e jamais retomadas. Pelo menos ali, na rua que recebeu o fardo de dividir duas épocas.

Foto: Luiz Nascimento

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

O coelho que salvou os falsários

A Comissão de Inquérito foi instaurada há duas semanas. Há laudos periciais, testemunhos e observações que servem para construir a teoria que mobilizou as três investigadoras neste final de ano. Resolveram até abrir mão do início das férias coletivas para desmascarar a farsa.

A desconfiança sobre o estelionato nasceu há quase um ano, exatamente no dia 24 de dezembro, a quase duas horas da ceia de Natal. Ali, diante de um velhinho vestido de vermelho e barba branca, nasceu a dúvida: Papai Noel existe?

Você, leitor, talvez tenha perdido uma das mais importantes ilusões que compõem a infância. Talvez dê pouca importância para este problema. Mas para uma criança de 8 anos, como Mariana, minha filha, é provavelmente uma pergunta fundamental, uma fronteira entre duas etapas da vida dela.

Sem filosofia de botequim, mas com curiosidade, ela iniciou um processo de investigação, ao lado de duas primas: Letícia, de 9 anos, e Laura, de seis. As três resolveram se reunir na casa de bonecas para juntar as peças, colar os cacos de uma dúvida que as perseguiu em 2010.

Para se protegerem, expulsaram o pai delas, meu primo Orlando Carlos, que pretendia filmar o encontro. Ele desconhecia dois pontos fundamentais: 1) a reunião do “clubinho” era uma investigação; 2) as três haviam expulsado o principal suspeito.

As investigadoras estão determinadas a provar que Papai Noel não existe. Sentem-se lesadas, vítimas de um crime que durou uma vida inteira, ainda que curta. Antes de ouvir testemunhas, reuniram as evidências.

A primeira é que, embora falasse pouco durante a troca de presentes, Papai Noel tinha os óculos idênticos aos do pai de Letícia e Laura. A voz do velhinho também se parecia com a de Orlando Carlos, agora réu. Outra pista: Papai Noel subiu para o primeiro andar do sobrado e foi embora, mas a casa não possui chaminé. Como ele teria saído?

O velhinho também foi visto trocando de roupa pela fresta da porta. Se ele teria que visitar outras casas, por que mudou de roupa? Ainda bem que não tiveram a presença de espírito de minha irmã que, quando tinha mais ou menos a mesma idade delas, deixou de acreditar em Papai Noel ao encontrar a roupa e o gorro atrás da porta do banheiro.

Apesar de relutantes, as três crianças-investigadoras juram não se lembrar do acusado na sala durante a troca de presentes. E não as convence o suspeito exibir filmes natalinos e assisti-los com as crianças para provar que não se vestiu de vermelho naquela noite.

O segundo passo foi a coleta de depoimentos. Mães, avós, pais, tias e parentes próximos foram questionados várias vezes. Só faltou a sala com o espelho falso e a lâmpada forte no rosto da testemunha. As crianças sempre voltavam às mesmas perguntas, em diferentes contextos. Sempre o mesmo ponto de partida: Papai Noel existe?

As negativas mal convenceram. Por que os adultos não escrevem cartas para ele? Por que as etiquetas dos pacotes estão identificadas com a letra parecida com a da vovó? Por que as embalagens têm a mesma cor?

A sequência de dúvidas abriu margem para outros suspeitos. Nem armar a árvore de Natal desviou o rumo das investigações.

Mariana, por exemplo, passou a desconfiar também da Fada do Dente. Lembrou-se do último dente que caiu, não aquele engolido por ela junto o macarrão e jamais visto novamente. Era o dente dos R$ 6, a oferta inflacionada da fada.

Mariana não duvidou da generosidade. Prestou atenção no fato de que, por acaso, a mesma quantia havia desaparecido do criado-mudo da avó. No mesmo dia! A Fada do Dente ganhou posto na quadrilha do velhinho de vermelho. Mas o benefício da dúvida prevalece em favor do réu. A incerteza garantiu até agora a sobrevida desta etapa da infância.

Na quadrilha da fantasia, um integrante foi poupado: o Coelhinho da Páscoa. Todos os anos, pegadas são marcadas com as mãos em vários pontos da casa. A trilha leva aos ovos escondidos. Neste ponto, a investigadora-minha-filha falhou como perita criminal. Para ela, a reprodução das pegadas é impossível. O laboratório dela não percebeu as marcas de talco, que somem ao simples sopro da própria detetive.

O crime perfeito do coelho virou exemplo para salvar os demais acusados. Como um pode existir e os demais não? É a estratégia de defesa dos adultos. Discurso combinado!

Soube que Papai Noel não existia quando tinha a mesma idade que ela. Soube na noite de Natal por um amigo de colégio, o Ricardo, que passou a ceia na minha casa.
Lembro-me exatamente de onde estava. Lembro-me da insistência dele diante de minha decepção. A criança que se sente tola diante do sorriso da outra. Lembro-me de que, por alguns minutos, a festa perdera o sentido.

A dúvida persistiu na manhã seguinte, enquanto abria o presente deixado por Papai Noel na madrugada. A chegada dele virou ritual; em alguns anos, obrigação. A imaginação morreu em duas frases de um moleque da minha idade.

Anos depois, descobri que o velho de vermelho era uma criação da maior marca de refrigerantes do mundo, como publicidade. Pouca diferença fez, até porque as pessoas perpetuam a ilusão (com todo o direito) quando compram a bebida para ter ursinhos polares de brinde ou instalam pinheiros na sala de casa, mesmo com o calor do Saara.

A investigação será concluída na noite do dia 24. Quando as três investigadoras apresentarem o inquérito cheio de teses, restarão dois caminhos para o velhinho e para a fada. O primeiro envolve o papel de pai. Tenho que manter a história do Papai Noel e dos demais amigos da fantasia até que minha filha descubra por si mesma. É parte da infância dela. É parte da imaginação que sustenta a realidade. É parte do sonho que realimenta a felicidade, expelida pelos olhos frenéticos de uma criança.

O outro caminho não depende de mim. Imploro ao meu primo que volte à cena do crime na noite de Natal, menos vestido a caráter. E que nem pense em se fantasiar de Coelho da Páscoa, em qualquer época do ano.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Os tucanos e a selva

Texto publicado no jornal Boqueirão (Santos/SP), na seção Campo Neutro, edição n. 819, em 11 de dezembro de 2010.

Os tucanos adotaram um comportamento adestrado. Pareciam acostumados com a vida em cativeiro, onde se alimentavam, se reproduziam, mantinham-se aquecidos. A vida era demasiado confortável e, ao mesmo tempo, alheia à possibilidade de encarar os perigos do mundo lá fora.

Com três derrotas consecutivas, o PSDB se vê obrigado a abandonar este estilo de vida e encarar as particularidades da selva, se quiser se sustentar como uma oposição efetiva. Não é mais possível dar a alguns espécimes de plumagem mais colorida o poder de praguejar contra um grupo que se manterá no poder por mais quatro anos.

Os tucanos que gritavam mais alto o faziam de trás das grades do cativeiro, pose cômoda e incapaz de incomodar o sapo, como assim chamam seu principal inimigo na floresta. O sapo permanece no comando do brejo e ampliou seus domínios “como nunca antes visto neste país”, para parafrasear o próprio anfíbio.

Com a surra, chegou a hora de se reinventar. Trocar lideranças – que nesta hora não assumem as responsabilidades correspondentes – e refazer o caminho para se construir como opositores. Aliás, aprender com o próprio PT, eficiente neste sentido a ponto de se transformar em situação.

Os macacos fofoqueiros falam em fusão com os Democratas, aves mais antigas e versáteis às oscilações do clima e ao desmatamento de certas áreas. Outros pontos da floresta também indicam que o PPS – uma ave pequena e de opinião volúvel, porém barulhenta - se juntaria ao grupo. Na teoria, o trio abriria uma clareira para incomodar o reino dos anfíbios.

Se fosse otimista, diria que os tucanos desceram do galho, ainda que o voo seja tímido. Saíram da inércia e quebraram a primeira etapa do luto: a negação. Se fosse pessimista, diria que os tucanos só mudarão de perspectiva na árvore se as aves mais velhas perderem as penas.

A reação precisa ser imediata, com data marcada: as eleições municipais de 2012. Se pensarmos nisso, veremos a fragilidade dos tucanos na Baixada Santista. O domínio se restringe à Praia Grande. O restante soa como gritos isolados, que não alteram o estado de coisas.

Os tucanos do litoral têm dois representantes na Assembléia Legislativa. Mas a votação deles depende de outras regiões, onde ambos foram espertos e construíram bases eleitorais. Se dependessem da vegetação litorânea, talvez estivessem extintos.

Na maior cidade da Baixada, os tucanos vivem à sombra da coruja, liderança sempre discreta e ponderada, que está à frente do Paço Municipal há seis anos. Entraram no bolo de 19 partidos e não apresentam candidato à Prefeitura desde que Raul Christiano alcançou o terceiro lugar no começo da década.

Os tucanos caiçaras alegam amadurecimento como resultado da briga, anos atrás, entre veteranos e filhotes. Os mais novos ocupam hoje as copas das árvores. Terão fôlego para propor (ou impor) candidatura própria?

Ao contrário da política no Cerrado, em Brasília, os tucanos que residem à beira da Serra do Mar seguem de braços dados com o poder. Vale o preço de ocupar um papel secundário e servir de escada para o PMDB?

Não sou eleitor do PSDB, mas entendo que o partido é fundamental. No âmbito federal, tem a missão de colocar os sapos em alerta. Um animal pressionado, com instintos aguçados, se mexe para não morrer, como predador e como presa. E precisa de adversários à altura (não apenas tucanos) para preservar o ecossistema político.

Por aqui, os tucanos poderiam sair da paralisia – assim como outras espécies partidárias – e incomodar o grupo que ocupa o poder municipal há 14 anos. Mas existe sempre, em política, o caminho mais fácil, o do cativeiro. O problema é que a selva engole sem dó os coadjuvantes silenciosos.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

A soneca

Se você resolveu ler este texto depois do almoço, um aviso: você poderá perder aquela necessidade incontrolável da soneca de 20 minutos, meia hora. Seus olhos não ficarão pesados. Seus pensamentos não voarão longe. Suas roupas não estarão pesadas, desconfortáveis. Nem adianta tirar os sapatos e esconder os pés debaixo da mesa. Prossiga!

O objetivo é que você se mantenha aceso o suficiente para alcançar o final da leitura. Assim, seu chefe continuará te considerando um ser produtivo e eficiente. Na tradução: escravo das metas estabelecidas por ele, que finge quando diz que a iniciativa foi sua.

O assunto é exatamente o sono. Dormir depois do almoço deveria ser obrigatório por lei. Com direito a indenizações por danos morais e materiais a serem pagas pelos empregadores que não concederem o benefício a seus empregados. As grandes cidades (e as grandes empresas) deveriam rever seus conceitos de qualidade de vida e se espelhar no modo de vida de muitas localidades interioranas, onde o tempo e a rotina são amáveis.



Há 11 anos, estive no interior do Rio Grande do Sul por conta de um congresso acadêmico. Ijuí, a cidade onde me hospedei, não era muito diferente de outras que visitei ao longo dos anos. Pessoas educadas, sem pressa, preocupadas (às vezes até demais) com a vida dos outros. Ali, não havia trânsito. Nem semáforos. Os carros paravam assim que alguém colocava um dos pés na faixa de pedestres.

A calmaria está na natureza do lugar, que se transforma em cidade-fantasma diariamente, entre meio-dia e duas horas da tarde. Neste período, era impossível comprar um sapato ou um desodorante, abastecer o carro, tomar um sorvete, beber uma cerveja. O comércio fechava as portas. Patrões e empregados se uniam na mesma tarefa: dormir depois do almoço.

Até os lugares que permaneciam abertos pareciam sofrer de catatonia. Funcionários seguiam em seus postos, sob efeito da picada da mosca do sono. Quem teria a infeliz ideia de procurar a Prefeitura uma hora daquelas? Por que pensar em pagar uma conta de banco? Ninguém teria um raciocínio estúpido como esse.

A cidade gaúcha, assim como outras centenas, estava anos à frente. Hoje, empresas perceberam que seus funcionários são mais produtivos se dormirem após o almoço. É parte da escravidão corporativa, mas ao menos o vassalo produz de maneira mais feliz, avaliam os especialistas em gerenciar pessoas, os capitães-do-mato deste modelo.

A proposta nasceu nas companhias vistas como flexíveis, embora seus funcionários dificilmente percebam que mal saem dela. Comem, treinam, trabalham, namoram e agora também dormem no escritório. Segundo reportagem da revista Época, no Google e na Nike, por exemplo, existem ambientes específicos (com puffs e até colchonetes) para que os “colaboradores” descansem depois do almoço.

Empresas brasileiras utilizam até redes para aproximar (ou enganar?) seus funcionários de casa. É como ficar na casa de praia de terno e gravata, ainda que o nó esteja frouxo.

A sesta deixou de ser transgressão. Como um amigo que trabalhava numa escola de informática e dormia na sala de estoques. Ninguém entendia porque demorava tanto para localizar um cartucho de impressora.

Ou uma colega jornalista que sempre demorava no banheiro. A privacidade garantia um soninho de 15 minutos, sentada no vaso sanitário.

Perdi o sono ao especular se meu local de trabalho poderia apostar no descanso institucionalizado. Perder o prazer de dormir sem a chefia perceber? Brincar com o colega que diz “fechar os olhos” durante as reuniões? Ver companheiros de trabalho envergonhados em tirar os sapatos para deitar nos sofás da sala dos professores?

Dormir virou regra. E negócio lucrativo. Não me refiro às clínicas de sono. Nem aos ingênuos que pagam para ver pessoas dormindo sob edredons em reality shows. Se as empresas ordenaram que dormíssemos, descansar no trabalho poderá ser prejudicial em algum momento, mesmo que os médicos digam o contrário.

Para justificar a novidade, as pesquisas científicas, antes ignoradas. A reportagem de Época menciona estudo da Nasa (isso mesmo! O tema é espacial!) que garante: a produtividade cresce um terço. A capacidade de atenção, 54%, se o sujeito dorme 26 minutos.

Em Nova Iorque, há spas que alugam espaço para o descanso após o almoço. Rio de Janeiro e São Paulo também têm empresas semelhantes.
Até restaurantes criaram ambientes para a soneca depois da refeição. Se não estiver incluído na conta, melhor para o cliente que – aliás – dormirá fora do ambiente de trabalho. Aí o sono volta a ser um pecado saudável. E sonhar sem pagar 10%.

Se chegou aqui, fico contente que este texto não te apagou. Durma um pouco. Meia hora, talvez. Sem culpa. Só não o faça, por favor, na frente do seu chefe. Por uma questão de privacidade. E de saúde!

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

O time que não quis vencer

O comentarista Casagrande, quando ainda era jogador, relembrou durante uma entrevista o período em que jogava no Ascoli, pequeno time italiano. As palavras não são exatamente essas, mas indicam com clareza o discurso de um dos símbolos do Corinthians.

- O desejo da torcida era garantir a permanência na Série A. Contra os grandes, como o Milan, entrávamos em campo perdendo de 1 a 0. O sonho era empatar. O Ascoli tinha que vencer os pequenos, concorrentes diretos contra o rebaixamento.

Vou me esquivar de comentar diretamente o empate do Corinthians contra o Goiás, ontem, em Goiânia. Olhar apenas esta partida permitiria interpretar, pelo avesso, a declaração de Casagrande. É claro que o Corinthians tinha que vencer. Pela disputa do campeonato e pela diferença enorme entre as equipes.



A questão é que, faturar ou não um título, não depende somente de um jogo. O campeão nasce do conjunto da obra. E aí está o que separa o Fluminense do Corinthians.

O sistema de pontos corridos, melhor modelo que temos hoje, premia o time mais regular. Valoriza quem erra menos. Adota como filho os que se planejam. Despreza e rebaixa os times que mal conseguem estabelecer uma rota na disputa. Não perdoa os volúveis e os indecisos.

Perder ou vencer um campeonato é o resultado óbvio – poucas vezes o futebol surpreende, por mais que desejemos acreditar na “caixinha de surpresas” – de uma postura ao longo da temporada, ainda mais quando se trata de um campeonato com 38 partidas.

O São Paulo ganhou três campeonatos seguidos de mesma maneira, ao comer os adversários pelas beiradas, perder nos momentos menos importantes, fazer experiências no início do torneio (jamais no final), nunca trocar o pneu com o carro em movimento.

Não é à toa que o técnico do antigo São Paulo e do atual campeão nacional é o mesmo sujeito. Muricy Ramalho, quando não venceu, chegou na reta final, mesmo no ano passado. Lá, o Palmeiras – dirigido por Muricy - dava os primeiros sinais da doença crônica que o acomete hoje.

O Fluminense manteve o mesmo treinador. É uma marca de quem leva o torneio. Tempo para dar a cara e o jeito do técnico ao time. O Corinthians teve quatro treinadores, se contarmos o interino Fabio Carlyle. Foram três reinícios, o que inviabiliza de imediato o entrosamento entre os atletas e a maturidade diante dos obstáculos do jogo.



Em um campeonato longo, é fundamental ter elenco, reservas à altura para suprir contusões e suspensões. Os reservas do Corinthians, principalmente no ataque, decepcionaram. Souza, Danilo e Dentinho (fora da maioria das partidas por lesão) fizeram apenas dois gols cada. Jorge Henrique também amargou a inatividade e fez seis gols. Iarlei, a exceção, foi titular em boa parte do torneio. Marcou oito gols.

No meio-campo, Bruno César – artilheiro com 14 gols – não teve substituto. De Frederico já está na Argentina e não deve voltar. O “novo Messi” ficou na promessa. Sequer foi relacionado para a última partida.

Um time campeão precisa de um comandante. Sempre presente. Conca jogou todas as partidas e foi o maestro do Fluminense. O reconhecimento veio com o título de craque do campeonato e o pedido de convocação para a seleção argentina por vários jornais estrangeiros.

No Corinthians, vários jogadores dividiram a liderança, o que – em tese – seria saudável. Mas esta liderança não se concretizou na parte técnica, apenas nos bastidores. Um exemplo foi a relação conflituosa entre parte dos jogadores e o ex-treinador Adilson Batista.

Em campo, as estatísticas, que respondem parte da dúvida, indicam a dependência de Ronaldo. O time tem desempenho superior quando o atacante joga. O problema é atuou em 11 partidas (seis gols), pouco para uma disputa rodada a rodada entre três clubes grandes. Bruno César mal chegou e é muito novo para assumir o controle e ditar como o time deveria jogar.

Se voltarmos à declaração de Casagrande, chegaremos aos pontos que talvez tenham feito diferença na classificação final. O Corinthians, apenas para pensar no segundo turno, empatou com Vitória (BA), Guarani e Goiás, todos rebaixados. Ganhou somente do Grêmio Prudente.

Fora da zona de rebaixamento, o Timão empatou com o Ceará e conseguiu perder por 4 a 3 para o Atlético (GO), dentro do Pacaembu. Venceu o Avaí, assim como Fluminense.

O campeão brasileiro, aliás, perdeu as duas partidas para o Corinthians. Mas venceu Vitória, Guarani e Ceará e empatou com Goiás e Prudente. Perdeu somente para o Atlético (GO). O conjunto compensa – de certa forma – a diferença de pontos para o rival paulista.



Sei que os números sempre têm carga relativa. Há o risco do reducionismo. Ou talvez ajudem a entender a falta de fôlego. O fato é que o Corinthians, apesar de sempre próximo das decisões, foi irregular ao longo da temporada, assim como sua principal estrela.

Culpar o terceiro lugar no Campeonato Brasileiro à pressão e à maldição do ano do Centenário é transitar entre a especulação e a mandinga, ambas subjetivas. A compensação é que explicar a perda de um título não envolve somente a objetividade de tabelas e porcentagens. Implica também nas opiniões contraditórias, nos achismos, nos episódios de fundo de vestiário que jamais saberemos, nos desmandos e nos conflitos de relacionamento em vários níveis dentro do clube.

O Corinthians perdeu o campeonato por uma série de circunstâncias. Qual é o peso de cada uma delas? Não saberia dizer. Não apostaria nem me arriscaria. Apenas enumerei algumas hipóteses para entendermos que o mínimo que se espera de uma equipe deste tamanho é planejar todos os passos durante a temporada.

É claro que nenhum clube se mostrou digno do termo “profissionalismo”. Valem mais as rimas, como personalismo e paternalismo, entre dirigentes técnicos e jogadores. Planejamento – quem sabe? – se encaixaria melhor como contenção de danos ou administração de egos. E isso me parece que o Corinthians não fez com tanta eficiência como o tricolor carioca.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

A turma do bem

Não faço parte de grupos que se intitulam a “turma do bem”. Tenho medo deles! Evito abraçar suas causas e compartilhar de seus palavrórios. Da campanha eleitoral ao ambientalismo de shopping center.

Da indignação inerte com a violência urbana em lugares distantes ao abraço por causas sociais da moda. Do discurso da qualidade de vida (ainda que se trabalhe 12, 14 horas por dia) à obsessão pelo corpo perfeito (ainda que travestido de saúde). Do espiritualismo que se curva aos badulaques (e suas etiquetas) empilhados na sala de estar ao uso de Deus como justificativa pelo desprezo contra quem não é reflexo no espelho.

A turma do bem seduz pela falsa ingenuidade e comove pelo texto decorado que se encaixa nas necessidades do instante exibido na TV. O sonho é o padrão. A neurose é a uniformidade. Todos iguais, pensamento único. Neste universo, a turma se encarregaria das batutas da orquestra, de olho em cada acorde, punitiva em cada nota desafinada.

A turma do bem é o politicamente correto com novas roupas. Enxerga o mundo em preto e branco, despreza as nuances e as contradições, ignora a diferente perspectiva. Sob a máscara da generosidade e da solidariedade para as câmeras de TV, os filiados ao politicamente correto desejam o controle, protegem seus privilégios, minimizam as próprias responsabilidades.

O caminho natural do controle é a patrulha. Definir como todos devem se sentir, quais são as causas “eleitas”, enquadrar os discordantes e estabelecer os adversários (talvez inimigos) como a turma do mal. Claro, sem dar este nome, que infantilizaria a própria nomenclatura dos bondosos.

A turma do bem esconde o autoritarismo pelo sorriso e pela voz de locutor da madrugada. Camufla a intolerância pelas palavras pseudo-poéticas que piscam – por exemplo - em slides de natureza. A energia positiva dos almanaques de auto-ajuda sobrevive de sensações, ao mesmo tempo em que mata a reflexão e contexto que nos levam às inquietações mais profundas.

A turma do bem se expõe quando ouve o não. Ser contrariada resulta na explosão de preconceitos, traduzidos em ofensas e leviandades imediatas por todos os canais de comunicação possíveis. A voz macia arrebenta os decibéis aceitáveis, enquanto o sorriso é esmagado pelo ranger de dentes.

A indignação também se manifesta, com maior freqüência, quando as determinações sobre as normas de conduta não são cumpridas. A virulência é o sintoma de quem adora decidir o que devemos dizer, comer, vestir e, principalmente, pensar.

Mesmo nu, o politicamente correto não se assume no conflito. Apenas descobrimos quem são os sócios do clube. A hora da crise desvela a cor original. Mas os ataques são negados ou, no máximo, minimizados. Os atos ganham nomes – claro – politicamente corretos.

A turma do bem é composta sempre por vítimas, as verdadeiras e as de ocasião. As primeiras viram escravas. As de ocasião ganham as páginas das revistas de fofocas e os holofotes dos programas da tarde. Como vítimas, podem transferir a culpa, sentar-se no sofá do conforto e torcer para que a piedade as embale.

Os ataques – a turma do bem manda falar em reações, comentários e afins, desculpe! – sempre trazem o tom de limpeza. Não significa empurrar causas, grupos ou pessoas para debaixo do tapete ou exercitar a indiferença e o desprezo por eles. Significa eliminar quem pode atrapalhar o ideal de pensamento único, quem pode balançar os instrumentos que perpetuam o status diante do que deve ser dito e pensado.

A turma do bem se sente ofendida quando questionada. Não há contraponto. Existe alvo, com marca vermelha no meio da testa. A turma reage de forma truculenta, mas se faz de desentendida – às vezes, injustiçada – diante do que considera publicamente como agressões sem fundamento. A cara de espanto e o “OH!” de surpresa completam a atuação dos mocinhos.

A nova forma de politicamente correto se fortalece com aqueles que realmente se importam com as causas “eleitas”. Alimenta-se deles como sanguessugas para depois abandoná-los quando os ventos ganham outra direção, quando a moda traça novos desenhos por meio dos problemas sociais tratados como inéditos da semana no noticiário.

A patrulha da limpeza está em todos os setores da sociedade contemporânea. As celebridades legitimam as ações. Parte da mídia serve como caixa de ressonância. Os fatos se repetem no noticiário diante da indignação fugaz, do falatório de frases feitas, da monotonia do próximo pedaço de pizza a ser fatiado. Repete-se o enredo, o cardápio e a sobremesa.

Para a turma do bem, a vida deveria repetir o roteiro de um comercial de margarina, um encarte de empreendimento imobiliário ou um panfleto de agência de viagens. E com o direito de exorcizar os mauzinhos, os feios e os que não se encaixam, como uma história barata de programa infantil.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Repetência, um ato de amor



Os três garotos sumiram das aulas. Dois eram irmãos, de 10 e 13 anos. O outro tinha 11 anos. Poderiam ser amigos, mas estudavam em lugares diferentes. Os irmãos estavam matriculados na escola Alzira Martins, no Morro da Nova Cintra. O outro estudante, na escola Esmeraldo Tarquínio. Ambos os colégios ficam em Santos (SP).

As histórias deles se cruzaram na reportagem de Renato Santana, publicada no jornal A Tribuna, em 27 de novembro. Os três estudantes não vão à escola por decisão das mães. Insatisfeitas com o desempenho deles, as mães resolveram pedir à Diretoria Regional de Ensino que seus filhos fossem reprovados.

As mães tornaram pública a decisão após serem procuradas pelo Conselho Tutelar. A medida, de praxe, acontece quando um aluno se ausenta por muito tempo da escola. Um dos garotos possui Transtorno de Déficit de Atenção (TDA), problema de aprendizagem que requer acompanhamento especializado. A sugestão do Conselho foi que as mães processem judicialmente a rede de ensino.

O caso, se analisado de forma apressada, coloca em discussão o sistema de Progressão Continuada, utilizado pelo Governo do Estado há mais de 10 anos, uma adaptação de modelo europeu. Eventualmente, o sistema é questionado e distorcido, principalmente em campanhas eleitorais. O último a adotar esta estratégia foi o candidato derrotado ao Governo de SP pelo PT, Aloisio Mercadante.

O problema não é a Progressão Continuada, interpretada de maneira equivocada como um sistema que não reprova ou que premia os maus alunos. A cegueira ou a má-fé político-partidária retira do foco os obstáculos estruturais das redes de ensino.

Se o aluno não aprende ou tem problemas de aprendizagem com diagnóstico, o atendimento deve ser diferenciado. Como fazê-lo em salas lotadas? Como fazê-lo se faltam professores ou se muitos seguem mal preparados?
Como resolver dificuldades de aprendizagem se um estudante espera por meses para ser atendido por um psicopedagogo. Quando a espera termina, raramente ocorrem as nove sessões habituais, o mínimo para um diagnóstico decente.

Para expor a estrutura deficitária, a tentação seria discutir o nível salarial, mas a gravidade da doença alcança um degrau mais profundo. Corrói todos os patamares da educação escolar. Cursos de capacitação fast-food ou trocas sucessivas de equipes pedagógicas não servem como remédios, sequer paliativos.

É preciso pensar em longo prazo, com políticas públicas que ultrapassem mandatos de quatro anos. As escolas precisam se aproximar, por exemplo, da realidade tecnológica das crianças. Os professores precisam de jornadas de trabalho menos escravizantes a ponto de serem cobrados, de maneira adequada, por conhecimento e resultados em sala de aula. Resultados não são mapas estatísticos que desumanizam o ensino, mas mudanças significativas na vida dos alunos, na relação deles com o mundo.



A história das duas mães me faz lembrar de um episódio que ocorreu na mesma cidade em que elas residem. Há 10 anos, a Prefeitura resolveu abandonar a Progressão Continuada. A alegação – após dois anos no sistema – era de que a aprovação automática levava crianças a alcançar a 7º série (hoje 8º ano) sem saber ler e escrever.

A rede municipal voltaria à Progressão Avaliada. A comprovação estaria nos números. Os mesmos que condenariam a medida. A Prefeitura, com estardalhaço, convocou a imprensa para mostrar a estagnação da aprendizagem média dos estudantes. Com as avaliações posteriores e a inércia estatística, a administração manteve o silêncio.

Qualquer criança com algum conhecimento de matemática perceberia que, se o sistema tinha dois anos de implantação, alguém que chegou à 7º série sem saber ler e escrever o fez independentemente do modelo em vigor. Isso aconteceu porque alunos passaram como fantasmas pelos rombos de uma rede educacional.

Talvez as mães desconheçam ou não se deram conta do impacto do estigma “repetente” carimbado na testa de seus filhos. Ser um aluno repetente implica em desconfiança de colegas, professores, equipe pedagógica e pais de outros estudantes. A tendência é o isolamento, o preconceito contra a inteligência e a capacidade de aprendizagem, além da associação a comportamentos agressivos.

Pedir que a escola repita seus filhos de ano é um ato de amor. Nenhum pai quer ver o fracasso estampado no uniforme ou na mochila de uma criança ou adolescente. Todos os pais sonham com a nota 10, sob quaisquer circunstâncias. Como as duas mães, existem centenas que adorariam praguejar contra o ensino ministrado a seus filhos. Mas não o fazem porque esta escola é a única que possuem ou porque temem o mundo sem ela. Talvez seja ainda pior.

As duas mães de Santos devem ser apoiadas porque, involuntariamente, colocaram a incompetência dos gestores (aliás, pedagogos adoram esta palavra para elevar status) em foco. Estas mães devem ser apoiadas porque aprenderam com o erro a tempo de corrigi-lo.

Tirá-los da escola é um pedido de socorro de quem percebeu o estrago que o ensino (a falta de) pode fazer ao ser humano. As duas mães pensam em transferir seus filhos para escolas particulares, o que não seria necessariamente melhor. Mas é uma medida a tempo de evitar as feridas provocadas pelos que fazem política pelo pedagoguês, adeptos da imobilidade e da omissão.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

A lei da felicidade

Os políticos, além de administrarem e legislarem (mal) nosso dinheiro, decidiram que podem regular também os sentimentos de seus eleitores. É claro que o marketing político, em qualquer eleição, se antecipa na busca em estabelecer graus de afetividade entre seus contratados e os que votam. Além de artificial, esta relação se sustenta apenas no período da campanha e na vida pública. Ainda bem que podemos nos proteger na vida privada, resguardar o que sentimos.

A Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado deu um passo invasivo quando aprovou na última semana a Proposta de Emenda Constitucional que inclui a busca pela felicidade como direito do cidadão. A PEC, de autoria do senador Cristovam Buarque (PDT-DF), associa educação, saúde, alimentação, trabalho e moradia como requisitos para se buscar a felicidade. Agora, o caminho é a votação no Senado e na Câmara Federal.

A proposta é tão fantasiosa quanto abstrata. E repleta de incoerências. A busca básica do ser humano é a felicidade. Basta sentar em qualquer divã, literal ou simbólico. As ações, atitudes, princípios e convicções do homem são canalizadas para este desejo.

A definição de felicidade é uma das mais complicadas. Filósofos, psicólogos, sociólogos e outros pensadores escreveram tratados, gastaram décadas para chegar em conclusões diversas sobre o assunto. Todas válidas como incompletas.

Os parlamentares não explicitam sua definição, mas é possível compreender como enxergam o assunto pela PEC aprovada na comissão do Senado. Os senadores ruminaram a ideia contemporânea de felicidade, nada diferente dos programas populares de TV, inclusive os religiosos.

A perspectiva digerida pelos colegas de Cristovam Buarque é a de que felicidade está diretamente associada às conquistas materiais. É conseqüência direta para nós; e premissa inevitável para eles. Se temos coisas, somos felizes. Se não possuímos, a melancolia (depressão, para usar outro termo distorcido e na moda) nos controla.

Buarque justificou sua proposta como uma obviedade. Para ele, a busca pela felicidade é inerente a estes direitos. Se é óbvio, por que então interferir? Por que ratificar o que, na opinião dele, seria cristalino e redundante?

Os direitos conectados a esta visão de felicidade são derivações do olhar cidadão, ações concretas de uma aquisição coletiva, que não deveria precisar de lei para entrar no cotidiano. Não se medem sentimentos por vida material. Talvez consigamos, em certos casos, traduzir nossos sentimentos por objetos ou pela vida prática, mas jamais conseguiremos entender nossa existência única e exclusivamente pelas coisas que desejamos nas prateleiras ou nas vitrines.

A PEC da felicidade parte de outra premissa equivocada, nas entrelinhas do texto jurídico. É possível interpretar que, na crença dos senadores, a felicidade é um estado de espírito permanente, por estar conectado a conquistas de longo prazo, ou com efeitos de longo prazo na vida do indivíduo. Mas também me parece ser caixa de ressonância de uma leitura distorcida e popular do homem contemporâneo.

O mundo atual prega a felicidade full-time. A religião da alegria determina que não precisamos ser felizes. Não precisamos estar felizes. Precisamos parecer felizes. Não há tempo para a tristeza. A melancolia é quase um ato criminoso. Não há tempo para a elaboração da perda, para a digestão do luto, para lamber e curar as feridas.

Se os parlamentares querem legislar sobre a felicidade, por que não criariam leis para combater os homens tristes? Esta pergunta me parece exagero, mas – diante do histórico comportamental de nossos políticos – não me surpreenderia se eles transformassem este delírio em ideia genial.

Pena de prisão para os melancólicos! Lembre-se, leitor, de que – na Idade Média - muitos foram à fogueira, sofreram torturas ou foram presos porque tinham comportamento fora do padrão, o que incluía a melancolia.

A busca pela felicidade, nas relações sociais contemporâneas, se baseia em jogos de aparência. A felicidade-aparência está no corpo perfeito, nas cirurgias que fingem enganar a velhice, nas relações líquidas e fugazes rotuladas de amizade e amor perfeitos, nos remédios que empurram a tristeza e os demônios para debaixo do tapete da alma.

A PEC da felicidade comete um terceiro pecado. Quem deu aos senadores o direito de legislar sobre os sentimentos? Quem deu a eles a prerrogativa de definir como obrigação sermos felizes? A felicidade, ainda que construída com o outro, é um sentimento de ordem individual, sentida e manifestada de maneira particular. A felicidade precisa ser dividida com o outro, vivida com o outro. Mas há uma distância considerável entre a construção e a manifestação de um sentimento e a transformação dele em lei.

A ideia de Buarque, legitimada por seus colegas da Comissão de Constituição e Justiça, pode ser derrubada em votação no plenário. Não mudaria – óbvio – em coisa alguma os rumos da história. É inexpressiva como ação política, estúpida como interferência na vida pública. Mas preocupa porque serve como símbolo sobre como os parlamentares enxergam os limites de seu trabalho político, as fronteiras de sua atuação pública.

Transformar felicidade em ato obrigatório por lei não é imaginação brasileira. Como é frequente, os legisladores copiaram outros países. É o surrado complexo de vira-lata de terno, gravata e mandato eleitoral. Há quatro países no mundo, segundo o jornal Folha de S. Paulo, que incluíram a busca pela felicidade na legislação: França, Japão, Coréia do Sul e Butão.

Minha esperança – quem sabe? – é que estes países tenham uma visão diferente de felicidade ou entendam o termo de outra maneira. Na Holanda, existe até um ranking – criado pelo sociólogo Ruut Veehoven – para calcular a felicidade. O ranking envolve 148 países. O Butão, pequeno país asiático, lidera a lista. Honestamente, não me interessa saber em qual posição o Brasil se encontra. Seria assinar embaixo e valorizar o tratado da estupidez humana.

domingo, 14 de novembro de 2010

O ENEM canta reggae

Quando se entra na rodovia BR-116, após sair da Estrada da Banana, no litoral sul de SP, é quase obrigatória a parada em um posto de gasolina. É, na verdade, um daqueles postos que se transformaram em mini-shoppings e vendem desde telefones antigos recauchutados a espetinhos de frango, de lingeries a CDs de vários gêneros musicais. Gasolina, álcool e óleo diesel são detalhes para fechar o pacote.

Nesta parada, comecei a conversar com um sujeito que vendia brincos, colares e pulseiras ao lado da entrada principal. Para ser honesto, ele puxou conversa. Desejava uma carona até Iguape. Pretendia chegar à Ilha Comprida, para alcançar os turistas no feriado prolongado.

— Se aqui eu faturo R$ 10, lá eu faturo R$ 50.

Eu já estava de carona. Não poderia terceirizá-la, ainda mais em um carro lotado, de gente e de bagagens, inclusive bolo de aniversário.
Engatamos um papo de quase meia hora. Família, movimento na beira da estrada, opções de vida até que chegamos no trabalho.

Emerson, que é descrição fiel de Bob Marley, com pequenas adaptações, como um brinco de pena na orelha esquerda, perguntou minha profissão. Emerson é o nome de nascimento, agora em segundo plano. Ele se identifica com um nome rastafári, que me soou mais coerente com o amor demonstrado pelo estilo de vida.

Quando disse que era jornalista, ele me perguntou:

— O ENEM foi cancelado?

Apenas relatei a indecisão do Ministério da Educação e os problemas provocados pelas falhas de organização da prova. Não entrei em detalhes por sentir que ali deveria prevalecer o tom pessoal, ainda que nos conhecêssemos há 15 minutos e sequer tivéssemos nos apresentado formalmente. Não era um noticiário em andamento, e sim uma conversa de beira de estrada, com nascimento e morte marcadas. Bastava que um dos dois seguisse seu caminho. E os destinos não batiam.

Mas o ENEM se transformou no centro do diálogo. Ele me disse:

— Eu fiz a prova para acompanhar meu filho de 17 anos. Não vou à escola há 11 anos, mas sempre li muito. Li mais de 600 livros neste período.

Exagerando ou não no número, a estatística é irrelevante. O mérito está no fato de que ele incorpora mais uma testemunha de como a leitura prescinde dos grilhões e do autoritarismo da escola. A leitura só reforçou suas convicções, que dispensam a arrogância de vomitar saber de almanaque e ignoram a aparência para definir se o outro é digno de algumas palavras.

Não daria carona a ele e não compraria miçanga alguma. Pensei em comprar para a mulher por quem sou apaixonado, mas tive medo de errar na escolha. Era apenas uma conversa para matar o tempo e – quem sabe? – conhecer outra pessoa interessante, sem interesses aparentes. Somente por curiosidade sobre outra história de vida, com intersecções ou linhas paralelas em relação à minha história.

A preocupação do companheiro de conversa era a redação. Temia que fosse desclassificado. Orgulhava-se de ter utilizado Maquiavel e outros autores para sustentar seus argumentos, mas acreditava que – no último parágrafo – cometera o erro fatal. Emerson se posicionou em primeira pessoa, um crime – segundo ele – para um texto dissertativo.

— Será que vão me desclassificar? Acho que o texto estava ótimo.

Eu disse a ele que escrever em primeira pessoa, naquele caso, caracterizava um erro. Diante de olhos arregalados, expliquei melhor: o examinador provavelmente tiraria algum ponto do texto dele, mas jamais o eliminaria por aquele deslize. Deslize para as regras engessadas e para os escravos da forma, pois creio – quase cegamente – que é possível dividir textos em dois: os bons e os ruins. O resto é recurso de linguagem, instrumento para se contar uma história.

Mais aliviado, ele começou a me contar como enxergava o tema da redação do ENEM: O trabalho dignifica o homem. Para alguém que havia optado por um estilo – visto por muitos – transgressor de vida, seria natural que se posicionasse contra a premissa da prova. (Voltarei ao assunto em outro texto)

Encontrei ali um interlocutor e um carrasco de minhas fraquezas. Encontrei ali alguém que havia posto em prática minhas teorias e que representava a concretização da minha falta de coragem – e minha prisão de conforto – transformada em inércia.

Emerson entendia, à maneira dele, que o trabalho amordaçava o homem comum, o mantinha em repouso, o mantinha insatisfeito com promessas de conquistas futuras que, se alcançadas, dariam lugar a outras promessas. Um circuito fechado de submissão. Emerson era capaz de comprovar, ao modo tranqüilo de dizer, como o trabalho foi reduzido a valor moral e alvo da faceta perversa dele, o moralismo.

O diálogo filosófico sobre o trabalho (e o ENEM) serviu como cortina de fumaça para esconder seu papel secundário. A prova me dava a impressão de significar, para meu colega de rodovia, somente mais um caminho para se aproximar do filho de 17 anos, acompanhá-lo em seus sonhos e representar, de um jeito talvez singular, seu papel de pai.

Nós nos despedimos depois de meia hora. Fizemos as apresentações formais e eu segui. Ele esperaria por uma carona para Ilha Comprida e me pediu que fosse em paz.

Como único cliente (fracassado) naquele período, saí com a sensação renovada de que, por vezes, as melhores aulas acontecem fora da sala, nos encontros em que professor e aluno trocam e retrocam seus papéis, numa conversa horizontal, com construção conjunta de experiências e, acima de tudo, sem a pretensão de fazê-la. Aula é aula quando não recebe este nome, pelo menos enquanto acontece.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Pedrinho, o racista?



Monteiro Lobato não teria criatividade para prever a fábula que o envolveu no Conselho Nacional de Educação (CNE) e no Ministério da Educação. A fantasia do politicamente correto – digna de um processo de Kafka – engrossou a lista de episódios nos quais a educação se ajoelha aos pés dos interesses políticos ou da vaidade acadêmica distante da realidade cotidiana brasileira.

O problema foi a recomendação do CNE para que o livro Caçadas de Pedrinho , visto como racista, fosse retirado do acervo do Programa Nacional Biblioteca nas Escolas ou que fosse adotado no ensino público com uma nota explicativa. A segunda sugestão foi compartilhada pelo ministro Fernando Haddad, interessado em jogar um cobertor sobre o fogo que ameaçava se alastrar. Ou – quem sabe? – abafar a inconveniência ao marcar o livro com uma letra escarlate.

A obra, publicada em 1933, foi tirada do contexto histórico. Soa superficial supor que o livro seja capaz de provocar a reprodução literal de uma mentalidade discriminatória a ponto de fomentar o comportamento preconceituoso por parte de crianças.

O Conselho, que tomou a decisão por quatro votos a um, abraçou outra premissa perigosa. Os conselheiros entenderam que os professores não estariam preparados para filtrar o conteúdo do livro e repassá-lo no contexto adequado aos alunos.

Como toda generalização, a premissa não se sustenta numa análise mais detalhada. Como padronizar o comportamento de todos os docentes e desconsiderar diferenças regionais, econômicas, culturais e de infra-estrutura entre as redes de ensino? Como ignorar a relação entre a obra e atividades ou projetos pedagógicos? Como desprezar o uso do livro dentro de um conteúdo programático pré-estabelecido?

Considerar que o professorado atingiu tamanho grau de alienação é relegar em plano secundário a Lei 10639/03, com sete anos de vida, que estabelece o ensino de História e Cultura Afro-brasileira e Indígena nas escolas públicas e privadas do país. Ainda que seja discutível o método, os cursos de capacitação de educadores no sistema público conseguiram, de forma tímida, colocar os professores em contato com a temática racial brasileira contemporânea.



É claro que não se pode esperar profundidade ou a formação de especialistas em relações étnico-raciais, mas os docentes também passam por formação básica nas licenciaturas, fora o fato de que o tema – principalmente por causa das cotas nas universidades – alcançou patamar de razoável relevância na mídia nacional.

Recuso-me a crer que o professorado, por mais deficiente que seja/esteja, não tenha a capacidade avaliar um conteúdo publicado há quase 80 anos. E pior: reproduzi-lo como verdade dogmática.

Monteiro Lobato, como qualquer autor, é fruto do mundo em que viveu ao reproduzir valores, contradições, cores e crueldades. Este fator foi descartado quando o CNE o tornou alvo do momento, como se Lobato fosse réu no julgamento de carrascos de outro cenário e sentenciado por magistrados cegos pela ânsia da perseguição do detalhe, jamais do todo.

Mark Twain (As Aventuras de Huckleberry), James Conrad (O Coração das Trevas) e William Shakespeare (O Mercador de Veneza), por exemplo, tem carteirinha no mesmo clube. Todos foram acusados de racismo por estes livros, sempre em outros períodos históricos.

O movimento atrás das cortinas do CNE escondeu uma disputa político-partidária que cerca a análise das relações raciais brasileiras. A Secretaria de Promoção da Igualdade Racial, que encaminhou o problema ao Conselho depois de procurada por um estudante de mestrado da Universidade de Brasília, seguiu – por exemplo - o caminho do ministro e amenizou o fato.

No cabo de guerra entre os políticos, vence a visão maniqueísta e conflitante do problema. Sobra desinformação e jorra ideologia oferecida como conhecimento. O tema é ignorado como questão coletiva e sintoma de desigualdade social.

A alta cúpula da educação brasileira, ao deslocar Monteiro Lobato da história, preferiu aderir aos ares inquisitórios do que simplesmente colocar na agenda o lado perverso do sistema educacional do país ou agir como braço de fiscalização do ministério e suas políticas públicas.



O livro Caçadas de Pedrinho, por um dos sarcasmos da história, foi publicado no mesmo ano que Casa Grande e Senzala, de Gilberto Freyre. Clássico da sociologia, o livro serve como divisor de águas entre a visão biológica de raça, com nascimento na metade do século XIX, e a ideia de que o racismo brasileiro seria de menor grau por causa da elevada mestiçagem.

Ambas as mentalidades estão ultrapassadas em termos científicos. Sabe-se que, na atualidade, o olhar sobre as relações e os conflitos raciais só fica mais arejado se interpretado pela combinação de critérios sócio-econômicos e de aparência física.

É uma pena que o olhar científico, por natureza, seja incapaz de conter a vaidade política, o obscurantismo de pensamento e os preconceitos embutidos nas micro-relações de poder. Como o estilingue de Pedrinho, o Conselho acertou o passarinho, mas na árvore errada. A decisão anti-Lobato é jogar fora a oportunidade de se dar o valor adequado a um tema que, na visão de parte da intelectualidade branca, deveria permanecer invisível.

Banir um livro de Lobato, quase 80 anos depois, é enterrar falhas humanas, que deveriam ser enquadradas com decência no espaço e no tempo, sem aprender com elas. É a manifestação da intolerância e do radicalismo de quem enxerga o mundo em preto e branco, sem tonalidades mestiças.

sábado, 6 de novembro de 2010

Como vestir uma senhora de 60 anos?

O Brasil tem mais de 165 milhões de linhas de celulares. Embora oito em cada dez aparelhos sejam pré-pagos, 20% deles tem tecnologia para exibição de programas de TV. Ao mesmo tempo, a nova classe média – na visão do Governo Federal – compra aparelhos de TV cada vez maiores. Como produzir uma programação compatível para um público que – em parte – aumenta o parque de mídia dentro de casa?

A TV brasileira se vê diante de uma sucessão de dilemas. Encruzilhadas que envolvem queda de audiência, mudanças de comportamento do público e avanços tecnológicos acelerados que exigem união de mídias. O aniversário de 60 anos da televisão, em meados de setembro, ofuscou os próximos obstáculos que nascem diante desta senhora.

A postura positiva é da natureza das comemorações, na qual prevalecem os enfeites, mas a urgência dos cifrões determina a releitura imediata da relação entre televisão, outros meios de comunicação de massa e mercado consumidor.

A TV ainda tem muita vitalidade. Mas a velhice saudável é um horizonte ou uma miragem? A televisão, em definitivo, não pode continuar como está. Tem que se preparar para as mudanças, como alguém que – de tempos em tempos – troca o figurino para estar atualizada com a moda.

A audiência da TV aberta caiu cerca de 20% nos últimos dois anos nas grandes cidades. Os espectadores mudaram seus hábitos? Deixaram de ver TV para se dedicar a outras atividades? O consumo de produtos audiovisuais permanece intenso, mas em outras tecnologias. DVDs, videogames, os próprios celulares, notebooks e suportes equivalentes alteraram a relação do consumidor com os meios de comunicação e seus conteúdos.

O Brasil se aproxima do índice de 50% da população com acesso à rede mundial de computadores. A classe média urbana convive com a possibilidade de ver os conteúdos quando desejar. Sites de emissoras tornam hábito a postagem de programas ao vivo ou logo após a exibição. Muitos canais perceberam que importa o consumo do conteúdo, e não como e onde aconteceu.

As novas tecnologias provocaram mudanças de comportamento na senhora sexagenária. As emissoras com visão de mercado não viraram as costas para o suposto inimigo. Trouxeram-no para bem próximo delas. Trabalham com a convergência de mídias, além de planejar a produção de conteúdos especificamente para celulares.

A Internet provocou impactos no modo de se consumir audiovisual. Canais com público-alvo mais jovem aceleraram o ritmo das narrativas e encurtaram o tamanho dos programas. 15 minutos, da MTV, é um exemplo de uma nova forma, bem mais frenética, de narrar e segurar a audiência. A GNT, voltada para uma faixa mais velha, anunciou conteúdos com duração semelhante.

O novo caminho alcançou até os dinossauros da TV aberta. Programas tradicionais, no formato auditório, que duravam até cinco horas, ficaram menores para manter alguma estabilidade em termos de audiência.

As emissoras perceberam o quanto podem explorar as redes sociais para capitalizar o olhar e o bolso do espectador que absorve várias mídias ao mesmo tempo. Apresentadores, atores, atrizes, jornalistas e celebridades em geral se aproximam do público pela Internet, o que gera – em certos casos – uma continuidade do programa além do tempo de exposição na TV.

Os equipamentos de exibição, mais rápidos e menores, representam o próximo passo a ser dado pelas emissoras. A Rede Globo, por exemplo, estuda há mais de um ano a possibilidade de produzir conteúdo específico para telefones celulares.

A TV Digital, que seria o passo natural deste processo, segue adormecida. Nada além da conversa de transmissão em alta definição. O país ainda tem seis anos para se atualizar. Os equipamentos seguem caros e, portanto, indisponíveis para a maioria dos telespectadores, ainda escravos do modelo analógico por fatores culturais, sociais e econômicos.

A ironia é que o avanço acontece às cegas. Por mais que o discurso de marketing ofereça a aura de visionárias, as emissoras de TV desconhecem o terreno onde caminham. Elas não estão sozinhas.

Os consumidores, a princípio submissos ao frenesi da tecnologia, poderiam dar a impressão de que querem apenas saber onde assistir melhor ao programa preferido. Um jogo de cena, no qual as emissoras podem se iludir pela crença de que, para a audiência, a forma é o futuro em corpo presente. A qualidade, assim, finge ser apenas um detalhe.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

A vencedora da eleição

Dilma Rousseff levou a eleição dentro das previsões, que enxergaram o desejo de continuidade de boa parte do eleitorado brasileiro. Captar os efeitos do lulismo não foi tarefa de videntes, apenas o olhar para o óbvio, indicado no primeiro turno, quando 16 Estados tiveram a eleição decidida.

A primeira mulher a governar o país venceu na urna, mas não ganhou a eleição. A dona do bilhete premiado em termos políticos se chama Marina Silva. A candidata do PV, com 20 milhões de votos, saiu com a imagem reciclada – com o perdão do trocadilho ambiental - e revigorada. Mesmo sem mandato, a senadora do Acre terá voz ativa nas encruzilhadas e nas costuras do processo político a partir da posse de Dilma Rousseff.

Marina Silva conseguiu o poder de transitar pelos círculos políticos sem depender de seu partido, volúvel como a maioria, sedento de alianças de última hora para assegurar cargos e outras benesses dos palácios. O personalismo cai bem a ela neste aspecto, pois a mantém sob o manto verde e, simultaneamente, reforça a aura de posições políticas éticas.

A mobilidade da candidata se deve também à votação, capaz de fazer com que muitos caciques a engulam a seco e se sentem à mesa para, no mínimo, ouvir as palavras dela. O poder de negociação da senadora ultrapassou o arco de instabilidade dos múltiplos grupos, e suas variadas cores, que habitam o Partido Verde.

Marina Silva foi coerente em sua posição política durante o segundo turno, quando optou por não apoiar nenhum dos dois candidatos. A decisão agradou uma parcela considerável do eleitorado, que a escolheu justamente pelo descontentamento com Dilma e Serra.

A candidata do PV à presidência também tem a vantagem, ainda que falte muito tempo, de manter a candidatura para 2014 em banho-maria, se desejar. Ampliou o leque de eleitores, ao ir além dos limites da classe média urbana, dos universitários e dos ambientalistas, tanto os de carteirinha como os de boutique.

O discurso evangélico de Marina foi relevado por estas fatias de eleitores e atendeu aos anseios dos religiosos mais radicais. Marina Silva escorregou como sabão no caso do aborto ao falar em plebiscito. Desinformou, não negou nem confirmou. A dúvida foi distorcida de modo a soar como música aos ouvidos dos que misturaram religião e política.

Os 20 milhões de votos, mais a abstenção no segundo turno, tiraram qualquer chance de veiculá-la ao lulismo. A saída amarga do governo vale mais do que o tempo de permanência nele.

Marina Silva vestiu a capa de adversária e se transformou em pedra, fator importante durante os primeiros passos de Dilma Rousseff como presidente, ávida por provar que não se trata de um fantoche de Luiz Inácio.

Enquanto Marina seguirá confortável na cadeira do crítico, Dilma terá missão paradoxal: mostrar que caminha sozinha, mas também ampliar o legado de Lula, sem que pareça ministra do ex-presidente.

A nova presidente precisará também conter a voracidade de Michel Temer, hábil mestre das sombras e representante de uma das personalidades do PMDB, obsessiva por se agarrar e beijar o poder. Caso contrário, Dilma perderá força de articulação com o Congresso Nacional e, neste caminho, faltará a ela somente a coroa para ser equivalente à rainha da Inglaterra.

A oposição estará mais forte, sem Lula e sua popularidade no horizonte, e mais experiente após três derrotas consecutivas. E, por suposição, mais inteligente, com Marina Silva – e o discurso de propostas – e Aécio Neves, com o jeito mineiro de fazer política, herdado do avô.

Depois de recolher os cacos, o PSDB poderá ganhar roupas novas, enquanto Serra cumpre pena política de dois anos na Sibéria. Aécio deverá reformular as estratégias do partido, ainda mais diante de uma governante com muito a provar e a fazer para ter iluminação própria.

Das duas mulheres, Marina Silva venceu a eleição. Definitivamente. Tem a vantagem do tempo para costurar nova candidatura, com maior respaldo político e financeiro. E tem a vantagem de estar fora do poder. Assim, ela poderá se preparar com crédito para cometer erros e sem riscos de sair chamuscada dos sucessivos incêndios que envolvem os jogadores de dados na política.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

A bicicleta e a faculdade

Por Lívia Barros

Há algum tempo venho me perguntando isso. Eu prefiro ir de carro, mas será que o estresse compensa? Apesar de estar confortável, conversando com meu namorado, que está dirigindo e ouvindo música, demoramos demais parados nos semáforos porque têm carros estacionados dos dois lados. A fila fica enorme.

Indo pela Avenida Pedro Lessa, o problema são os cruzamentos com a Rua Frei Vital e com o canal 4. O semáforo fecha umas três vezes antes de conseguirmos passar. Já na rua Oswaldo Cruz, são os semáforos com as ruas Bento de Abreu e Lobo Viana, quando o sinal finalmente fica verde tem um fretado, dois, três, fechando o cruzamento. Vejo muito mal motorista que buzina para você, sendo eles os errados.

Algumas vezes tive que ir de ônibus, mas só vejo desvantagens. Você gasta tempo esperando, dinheiro da condução, tempo no transito também e, no final, tem que andar do ponto até a faculdade. Uma vez, eu me atrasei um pouco, cheguei no ponto de ônibus pouco depois das 19h. Deu 20h e nada do meu ônibus. Para ajudar, eu estava debaixo de chuva.

Quando me dei conta da hora, pensei: eu tô aqui para não pegar chuva e, no final das contas, se eu tivesse ido a pé ia me molhar menos porque em meia hora estaria lá. Estou aqui há muito mais tempo em pé esperando e já perdi a aula. Desisti de assisti-la e voltei pra casa.

Vou a pé então? Não, também não compensa. Demora, você se cansa e se estressa com os maus motoristas do mesmo jeito.

Solução: saudável, não polui e é rápido. Do que estou falando? Bicicleta, claro! Também nos deparamos com maus motoristas, mas às 19h o trânsito é tão parado que nem corremos perigo.

Na primeira vez em que fui atropelada de bicicleta, foi de madrugada e a motorista estava bêbada. Na outra vez, foi num sábado de manhã por desatenção minha e da motorista. Só mulher nas histórias, mas tudo bem. Não foi grave em nenhuma das vezes.

Podemos ouvir musica no fone de ouvido e, se tivermos companhia, dá até pra conversar. Uma vez fui assaltada, estava eu e meu namorado em uma bicicleta. Vieram uns garotos de bicicleta também e nos abordaram, mas eles se deram mal porque a gente não tinha nada. Esse risco a gente corre em qualquer meio de transporte; não tem jeito.

Fora isso, pela expressão do agente da CET quando toquei no assunto, bicicleta não dá problema. Quando chego à faculdade, vejo tanto problema que me espanto. “De onde saiu tudo aquilo?” Não vemos no trânsito porque chegaram rapidinho.

Obs.: Texto produzido na Oficina Conto/Crônica - olhar e ver o (nosso) cotidiano, dentro da IV Semana de Produção Multimídia (Samba), da Universidade Santa Cecília, em Santos (SP).

domingo, 31 de outubro de 2010

Deus para presidente

Os tios de uma amiga defenderam, convictos, à mesa da cozinha:

— Não votamos em Dilma. Ela mata crianças e fechará as igrejas.

Outro amigo justificou seu voto, em outra ocasião:

— Jamais votarei em Serra. A mulher dele fez aborto.

Pouco importa o resultado: o próximo presidente do Brasil será um mistério. Não sabemos o que pensa. Desconhecemos suas propostas e programas de governo. O projeto de país ainda é peça de ficção. Não há um olhar de longo prazo. Sugestões de infra-estrutura não foram cogitadas nos comícios, horário eleitoral gratuito ou debates de TV. Os grupos de interesses em torno do candidato sobreviveram com sobras nas sombras.

Convivemos com os personagens Dilma e Serra, seus moralismos e valores hipócritas, focalizados para atender uma parcela do eleitorado, que deseja confirmar pontos de vista alheios à administração pública. De ambientalistas a religiosos, ambos compareceram a missas, falaram em Jesus e até assinaram compromissos para atender aos radicalismos religiosos.

Dilma e Serra são personagens que se submeteram ao fundamentalismo religioso e aos interesses de pequenos grupos que mesclam política e religião como se fossem irmãos univitelinos em um processo eleitoral.

O aborto se transformou no pré-requisito básico para o próximo presidente. A saúde pública virou badulaque na estante da sala, enquanto o moralismo e a leviandade se instalaram na mesinha de centro. Todos mentem, ninguém se posiciona. Apostam no esquecimento do eleitorado para mudar a correnteza ou enterrar a temática de vez.

Bispos e pastores remontaram a argumentos medievais, no sentido violento do termo. São irresponsáveis quando descartam o olhar político a partir da consciência coletiva de problemas e soluções. Preferem enganar suas ovelhas, que se mantém inertes no currais, a partir do reforço da doutrina e dos interesses eleitoreiros de seus candidatos.

O aborto se aproximou do moralismo barato, que ignora o tema como ferida social e problema familiar. Como engodo, a construção de família idealizada como publicidade de margarina. Religiosos e fiéis fazem vistas grossas para mulheres que, mesmo religiosas e de bom poder aquisitivo, são obrigadas a se esconder como se vivessem sempre dentro de clínicas.

As mulheres, desta forma, são desumanizadas em prol da sede de poder de quem opera pela intolerância. O Sistema Único de Saúde faz 118 mil curetagens anuais. Uma em cada cinco mulheres de 20 a 50 anos já abortou, por exemplo. Parte delas é evangélica ou católica. A necessidade do aborto as afastaria de Deus? Estas mulheres deveriam queimar na fogueira ou descer ao inferno sem escalas?

Por trás do diálogo de surdos, esconde-se outro aspecto sócio-econômico. As mulheres ricas freqüentam clínicas caras, higienizadas conforme normas internacionais de saúde pública e sem riscos de morte. As mulheres pobres, por outro lado, encaram açougues com homens de branco, lugares onde sobreviver pode representar um jogo de dados.

Infelizmente, a relação política e, por vezes, promíscua e perversa entre Estado e religião existe desde o início da história brasileira. A colonização começou e se solidificou com a parceria. Os portugueses montaram o Estado antes da nação e relegaram o suporte ideológico aos jesuítas.

No período imperial, os dois monarcas mantiveram conexões profundas com a Igreja. Os religiosos interferiram em questões políticas como fim da escravidão, republicanismo e imigração.

A República apenas reforçou o relacionamento. Nenhum presidente jamais questionou dogmas religiosos cristãos. Ou ressaltou o sincretismo brasileiro, relegado ao segundo plano em exercícios contínuos de cinismo. Hoje, as bancadas religiosas – nas variadas vertentes – batem no peito, com orgulho, quando atendem seus currais eleitorais em nome de Deus.

Em Santos, onde nasci e resido, um ex-secretário de saúde quase perdeu o emprego porque determinou que a imagem de Nossa Senhora Aparecida fosse retirada de um pronto-socorro. O argumento oficial era o respeito ao Estado laico, mas o secretário era líder de uma Igreja protestante. Nem o secretário ou os revoltosos pensaram, em momento algum, nas filas ou nas faltas dos médicos nos postos de saúde, apenas para resumir a lista de obstáculos.

A presença do aborto na agenda político-eleitoral está impregnada de duas ironias. A primeira delas é que somente Marina Silva, entre os principais presidenciáveis, incluiu o assunto no programa de governo. Logo ela que, publicamente, jogou com a proposta de plebiscito para não se arriscar. Transitou no mundo do politicamente correto. Três em cada quatro brasileiros é contra o aborto, conforme pesquisas de opinião.

A segunda ironia é que a candidata do PV, no documento, defendeu um programa de assistência pública a mulheres. Uma ideia parecida com aquela assinada por José Serra, quando era ministro da Saúde, no governo de FHC.

Ambos – Marina se omite e Serra renega – fizeram teoricamente a opção correta. Trataram o tema como um problema social e cidadão, pelo menos no papel. Mas ambos se beneficiaram do obscurantismo e da voracidade inquisitória dos fundamentalistas que, cegos de repulsa, votam nos boatos e se agarram nos preconceitos e na desinformação.

Candidatos e eleitores, neste ponto, se parecem. Vestem as máscaras, desprezam o interesse público. E digitam o nome de quem não deveria ser um messias – ou um simples sacerdote -, com voz política para pormenorizar as habilidades de administrador público.

sábado, 30 de outubro de 2010

O rodeio dos selvagens

Os rodeios, no Brasil, são uma indústria bilionária. Peões são estrelas que alimentam segmentos da economia como mídia, vestuário, alimentação e entretenimento. Os críticos discutem o universo dos rodeios pela perspectiva ambiental, na qual colocam como problema a dualidade entre homens e animais, a linha tênue entre a civilidade e bestialidade.

Cerca de 50 universitários da Unesp, uma das três principais instituições de ensino público do Estado de São Paulo, assumiram o lado animal. Elite do ensino superior, o grupo resolveu praticar o “rodeio das gordas”, ideia imbecil nascida na Internet e praticada no InterUnesp 2010, os jogos da instituição, em Araraquara, no interior de São Paulo.

A brincadeira – na justificativa dos organizadores – consistia em se aproximar de uma garota gorda e fingir interesse por ela. Assim, poderia derrubá-la no chão e montá-la por até oito segundos. O tempo garantiria pontos para o “peão”. Caso a garota se revoltasse, seria classificada como “bandida”, referência a um touro famoso numa novela de TV. Se a “montaria” fosse bastante gorda, a pontuação também crescia.

Um dos organizadores do “rodeio” é Roberto Negrini, estudante no campus de Assis e criador de uma comunidade no Orkut sobre o tema. Para ele, a história representou uma “brincadeira”.

Depois da repercussão na mídia, o Ministério Público de Araraquara resolveu investigar o caso. A Unesp também saiu da inércia e abriu processo disciplinar contra dois alunos, após protestos de estudantes, professores e outros funcionários. Somente dois alunos entre 50 participantes, como se fosse uma missão de espionagem descobrir os envolvidos.

A história representa, no mínimo, a sobreposição de preconceitos e de um olhar intolerante que transforma o outro em objeto. Mulheres que, em metamorfose, viram gado, capazes de serem domadas, domesticadas pelo homem. Mulheres-coisas, tão bestiais, primitivas e inferiorizadas como os homens que se julgam no direito de tê-las como propriedade, ainda que por oito segundos.

O “rodeio das gordas” é uma metáfora da visão masculina ainda sólida sobre as relações de gênero. O rodeio poderia ser trocado por ambientes de trabalho, por residências, por espaços educativos e religiosos. Nestes endereços, homens “montam” em mulheres por exercício de poder, perversidade fruto da crença cega de que questões de gêneros estabelecem graus de superioridade e/ou inferioridade.

Além do machismo inerente ao “rodeio”, é reproduzido o preconceito conectado à ditadura da estética. Mulheres gordas seriam, no olhar boçal, uma sub-espécie. A inferioridade multiplicada ao quadrado. Mulheres gordas seriam, por premissa, uma aberração aos padrões, passíveis de punição por sua condição física. Se as mulheres equivalem à gado, por que os estudantes da Unesp levariam em consideração aspectos intelectuais ou afetivos?

A sociedade contemporânea odeia os gordos, um dos inúmeros paradoxos deste homem individualista, imediatista e intolerante. É um ódio que cresce a partir de um espelho. Uma sociedade que prega com fundamentalismo o discurso da vida saudável mascara – na prática – a própria enfermidade, de mente e corpo. Somos cada vez mais obesos e dependentes de coquetéis químicos para suportarmos os outros e, acima de tudo, a nós mesmos.

O ódio – traduzido pelo “rodeio das gordas” – é a tentativa de expurgar a repulsa pela própria imagem e semelhança. Gordos são retratados como incapazes mentais, preguiçosos e negligentes. Em muitos círculos sociais, a gordura traduz desvio de comportamento e de caráter. O diferente – na verdade, a regra – traz em si a vergonha de nos contar, pela aparência, a essência de nós mesmos.

Os estudantes universitários, que o senso comum indicaria como sujeitos sensatos pela proximidade do conhecimento, apenas engrossam e – ao mesmo tempo – simbolizam como muitos entendem o papel da mulher. Neste foco doentio, a mulher não seria diferente de um pedaço de carne, enquadrado em padrões de qualidade e exposto, por exemplo, em programas de televisão.

Caso se recuse ou não se esforce para se adequar aos limites, esta mulher se transforma em personagem digno de humilhação pública. O processo é inquisitório, com condenação antecipada e carrasco a postos. É preciso punir e excluir aquilo que incomoda, gera temor e, principalmente, escancara nos rostos destes animais o que eles são ou o que deverão se tornar em breve.

Conversei sobre o “rodeio das gordas” com vários grupos de pessoas, todos universitários. O que você, leitor, esperaria como reação? A reflexão posterior não conta, já que permite o esconderijo das convenções sociais e culturais.

Observei as reações instantâneas. A minoria reagiu, de pronto, com indignação e pediu mais detalhes da história. A maioria caiu no riso, ainda que nervoso. Uma parte foi às gargalhadas. Entre os falsos contentes, muitas mulheres. Fiquei em dúvida: de qual lado da cerca está o gado?

A vida na biblioteca



Por Oscar Valeriano da Silva Júnior

Qual é a idéia que se faz de uma biblioteca? Silêncio reinante, livros empoeirados, a cara de poucos amigos da bibliotecária. Em se tratando de uma biblioteca universitária, a coisa muda por completo. Os sons e a diversidade de pessoas criam um universo único, como diria Spock – “infinitas diversidades em infinitas combinações”.

Eu vejo isso atrás do balcão todos os dias. Perco a conta dos tipos que aparecem por lá ou passam rumo à sala de estudos. Posso listar um pequeno grupo dessa diversidade.

Comecemos pelo confortável: o aluno que senta no pufe para conversar ou estudar. No fundo, prefere mesmo dormir.

Há também o paraquedista,que aparece na biblioteca por acaso, procurando um livro que nem sabe quem escreveu ou seu título. O diálogo é mais ou menos assim:

- Moço, preciso de um livro de anatomia bem fininho.

- Certo, mas que livro você procura?

- Ah, um bem fininho.

Como explicar para esse aluno que existem mais de 20 títulos que se encaixam no que ele quer?

O aluno solidário é o verdadeiro amigo. Ele só vai à biblioteca para acompanhar os amigos.

Outro é o distraído, que esquece o livro em algum lugar, ou entra com bolsa ou mala no acervo.

Outro tipo é o halterofilista, que sempre está carregando livros grandes e pesados.

Há ainda o aluno amigo, que sempre para no balcão para bater um papo. Não posso esquecer o meu favorito: o aluno sócio, que sempre paga multa.

Mas nem tudo é alegria na biblioteca porque alguns tipos de alunos que não são tão legais, como o nervoso, que anda sempre estressado com as coisas. É quando temos que ter mais jogo de cintura para lidar. Um exemplo são os barulhentos, que esquecem onde estão e ficam falando alto, e o vagaroso, que espera o último instante para sair da biblioteca antes dela fechar.

A biblioteca é um mundo diferente, único no seu dia-a-dia, nunca é igual, mas quando chega a hora de fechar que o silêncio reina novamente, só ecoando o som de seus alunos que percorreram os corredores, até recomeçar tudo de novo no dia seguinte.

Obs.: Texto produzido na Oficina Conto/Crônica - olhar e ver o (nosso) cotidiano, dentro da IV Semana de Produção Multimídia (Samba), da Universidade Santa Cecília, em Santos (SP).

Ilustração: Kitty Yoshioka

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Moça, tem um alien no seu rosto!



Por Pepi Katsuyami e Kitty Yoshioka

Algumas coisas não passam despercebidas... De verdade. Não tem como não ver. Uma questão de força maior e, de repente, você não consegue parar de olhar.

Monocelha, por exemplo. A palavra não existe no dicionário, mas a coisa em questão, sim. E como existe. Aquela junção de pêlos no meio do cenho que não faz parte da sobrancelha “normal” e também não faz parte de nenhum outro conjunto natural de pêlos que existem no corpo humano. Isso, para quem não sabe, define a palavra MONOCELHA.

Por falar em pêlos, você pode dizer que não, mas, no fundo, nós sabemos que também repara neles. Aquele fio saindo do nariz do amigo do seu avô, que faz questão de tentar puxar na sua frente. Ou saindo do ouvido um tufo ENORME e grisalho e, às vezes, acobreado (devido ao acúmulo de secreção de cera proveniente das glândulas sebáceas situadas no canal auditivo).

Não são piores que aquele “caminho” na barriga das moças mais descuidadas. Levantam o braço para pegar algo e você acompanha aquela linha do umbigo até... Sei lá, imagine você até onde vai. Sem contar o buço que, às vezes de tão visível, vira BIGODE. E um bigode digno de Freddie Mercury.

Agora, a coisa que mais chama a nossa, a sua, a atenção de todos... Aquela asquerosa, nojenta, horrível e agonizante PINTA que fica, geralmente, no rosto da sua tia-avó. É a mesma tia-avó que tem mania de apertar as suas bochechas e que, quando vai te abraçar nas festas de final de ano, esfrega a tal bolota facial em seu rosto. Essa mesma bolota que, também na maioria das vezes, conta com uma cobertura aveludada de pêlos.

Todas essas coisas são como imãs para o nosso olhar. Poderíamos sugerir mais uma lista enorme de “aliens do corpo humano” que você certamente repara (e, se não repara, passará a reparar). Mas não iremos fazer isso. É muita maldade. A hora do almoço se aproxima e não queremos perder o apetite.

Se você, por ventura, possuir algum desses itens grotescos citados acima, não se ofenda. As pessoas reparam, e ponto. Se não quer que reparem, retire-os e seja feliz.

Obs.: Texto produzido na Oficina Conto/Crônica - olhar e ver o (nosso) cotidiano, dentro da IV Semana de Produção Multimídia (Samba), da Universidade Santa Cecília, em Santos (SP).

Ilustração: Kitty Yoshioka