quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

[REC] - o terror espanhol

Depois de uma infantil desconfiança, resolvi assistir esta semana ao filme espanhol [REC], dirigido por Jaume Balagueró e Paco Plaza. Despretensioso, o filme poderia se perder na infinidade de tramas de terror, maioria norte-americanas, cada vez mais parecidas com um ou outro sucesso de bilheteria.

[REC] – produzido em 2007 - seria mais uma história de cinema-verdade? Seria mais um filhote de “A Bruxa de Blair”? [REC] reforça a tradição dos filmes de terror produzidos na Espanha, com criatividade, baixo orçamento e investimento no roteiro, nos diálogos e na construção do clima de medo.

A indústria cinematográfica dos Estados Unidos reagiu ao sucesso de [REC] no mercado internacional da mesma forma que fez com as produções japonesas, como “O Chamado” e “O Grito”. Um estúdio compra os direitos e refilma a história, com adaptações à cultura globalizante. No caso de [REC], surgiu a cópia Quarentena, de qualidade inferior. Sugiro que o leitor fique com o original europeu.



[REC] valoriza o chamado cinema-verdade, sem parodiá-lo de modo grosseiro. Presente ao longo da história do gênero terror, o cinema-verdade simula cenário, personagens e roteiro, como se todos os acontecimentos fossem realistas. O sucesso mais recente do modelo foi “Atividade Paranormal”, bastante comparado “À Bruxa de Blair”, inclusive pela estratégia de marketing via Internet.

[REC] não possui abertura ou créditos iniciais. Aparece a repórter Ângela Vidal (interpretada por Manuela Velasco), que trabalha em um programa chamado “Enquanto Você Dorme”. Acompanhada pelo cinegrafista Pablo – que representa pelas lentes da câmera o olhar da história -, a repórter vai acompanhar a rotina do Corpo de Bombeiros de Barcelona. Aliás, Pablo nunca aparece, ao contrário da cópia “Quarentena”, no qual um ator se filma várias vezes. Pablo é interpretado por Pablo Rosso, cinegrafista da equipe de produção, com dublagem de Pepe Sais.



Os primeiros minutos da trama se mostram entediantes, simbolizados pela expressão de tédio da repórter diante de uma noite morta (com o perdão do trocadilho). Até que os bombeiros recebem uma chamada para resgatar uma senhora que teria passado mal em casa. A repórter e o cinegrafista embarcam na viatura com os bombeiros Manu (Ferraz Teraza) e Alex (David Vert).

Quando chegam ao prédio, são acompanhados por um policial. Vários moradores se encontram no saguão do edifício, de aparência interna decadente. Ao entrarem no apartamento da senhora Izquierdo, o grupo a vê desorientada e com muito sangue. Os bombeiros tentam iniciar os primeiros socorros, mas a senhora ataca o policial.



A senhora é nocauteada por um dos bombeiros e o policial ferido, retirado do apartamento. Antes que todos pudessem sair do edifício, o local é lacrado pela Vigilância Sanitária, sem explicações. Com todos dentro do prédio, começa o jogo de gato e rato entre vítimas e zumbis.

A história é contada pelas lentes de Pablo, com os stops e recs da rotina de gravação de uma equipe de TV. A repórter sente que tem uma grande matéria nas mãos e tenta, em princípio, acompanhar todos os fatos de perto. O sobe e desce das escadarias do prédio, o corre-corre com vítimas, as discussões entre policiais e moradores e a chegada de um representante da Vigilância Sanitária – que esclarecerá o motivo dos ataques, ao menos de forma parcial – são registrados pelo cinegrafista. Pablo, por vezes, deixa a câmera cair ou a balança conforme corre atrás dos fatos ou em fuga.



[REC] tem vários ingredientes de um excelente filme de terror. A trama gera medo, e não sustos eventuais. É daquelas histórias que poucos espectadores assistiriam sozinhos no quarto escuro. O sangue está à serviço do roteiro bem amarrado, e não o contrário, como ocorre na grande parte das fitas do gênero.

O filme sabe esconder as informações do público. O roteiro fornece as causas do fenômeno no edifício a conta-gotas e deixa personagens e público no mesmo patamar, até pelo fato de que acompanhamos a história pelo olhar de um personagem.

Outro ponto importante é o final, que foge dos clichês do gênero nos Estados Unidos e garante a reviravolta em torno das causas da presença de zumbis no prédio em Barcelona.

Os diretores Balagueró e Plaza, com algumas produções de terror no currículo, também conseguem misturar entretenimento com certa dose de crítica política. Parte dos moradores espanhóis acusa a família de imigrantes chineses, residentes no edifício, de ser a responsável pela praga que atacou o grupo. O filme, mesmo que de maneira tangencial, dá visibilidade ao problema da imigração e o preconceito decorrente em muitos países europeus.



Este terror de origem espanhola é parte de uma safra de filmes que começam a ser descobertos graças às brechas (ou pacotes de distribuição, como queiram chamar) do processo de globalização do cinema. São poucas produções ainda nas locadoras. Mais raras ainda as exibições nas salas de cinema (foi o caso de [REC], uma exceção).

[REC] – assim como outra excelente produção espanhola, O Orfanato - indica que é necessário e interessante que observemos outros olhares sobre o gênero terror. É interessante como forma de respiração para o nosso olhar cinematográfico. E necessário para escaparmos da padronização massacrante da produção industrial.

Esqueça os filmes-clichês de zumbis. [REC] faz coro a excelentes histórias de mortos-vivos, como o inglês Extermínio e as produções politizadas de George Romero, o mestre deste tipo de filmes. A diferença é que [REC] não se conecta à ideia de caos generalizado ou mundo apocalíptico. Apenas implanta o terror absoluto dentro de um microcosmo qualquer, quase cotidiano.

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