sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

O poeta ficou cego

O poeta pensa seriamente em desistir. A praia de Copacabana é um de seus lugares preferidos no Rio de Janeiro. É lá que toma sol, sente a chuva na cabeça, a brisa intermitente no rosto, o cheiro de maresia. Em Copacabana, o poeta pode conversar com moradores e turistas. Ouvi-los seria mais apropriado. Deixar-se fotografar como parte do cartão postal.

Na praia, o poeta se aproxima sem vergonha ou timidez de mulheres de todos os tipos e idiomas. Apenas para admirá-las. Sem pressa. Sem sair do lugar. O descanso eterno (ou bastante duradouro) é a garantia de um relacionamento rápido, sem exigências.
Ser alvo da violência no Rio de Janeiro o fez pensar. Não é a violência do crime organizado, com as balas perdidas e os corpos abandonados nas vias públicas. É um tipo diferente de violência direta e intransferível. Parece pessoal. Talvez um trauma que provocou a ideia de mudar de endereço. Uma reflexão hoje concreta, insistente. Quem sabe procurar outro lugar para descansar sem que seja atacado?

Carlos Drummond de Andrade já foi assaltado oito vezes, no mesmo lugar. E roubaram a mesma coisa. Em todas as ocasiões, deixaram-no cego. Os ladrões levaram seus óculos, um dos principais instrumentos de trabalho e de sobrevivência. Um poeta vive de ler, antes de pensar em escrever. A sensibilidade poética depende da clareza ao enxergar aquilo que poucos ou ninguém vê, mesmo diante dos olhos.

Da última vez, os sujeitos – além do empréstimo definitivo dos óculos – machucaram o braço direito de Drummond. Deixaram como saldo uma rachadura, sinal de tentaram amputar o braço do poeta.

O oitavo ataque contra a estátua de bronze de Carlos Drummond de Andrade aconteceu no último final de semana. Requer um conserto que só ficará pronto em 21 de dezembro.



Esta história me faz lembrar de outra estátua, a de João Otávio dos Santos, que fica em frente ao Escolástica Rosa, na praia da Aparecida, na cidade de Santos. Em 2005, não levaram os óculos de João. Até porque dizem que ele enxergava bem e não precisava gastar dinheiro com isso. Os vândalos optaram pelo pacote completo. Arrancaram a cabeça dele. O menino ao lado ficou sem uma das mãos. A restauração, concluída há quatro anos, custou R$ 5 mil.

Sempre me perguntei: o que alguém faria com a cabeça de João Otávio? Colocaria na mesa de centro da sala? Decoração na estante? Tentaria transformá-la em bola para quebrar o galho na praia ali ao lado? Talvez um jogo de beisebol, a cabeça como bola e a mão do garoto como luva?

Estátuas são, para muitos, manchas na paisagem. Poucos prestam atenção nelas. Uma raridade o indivíduo que para e lê os dizeres nas placas em anexo. Muitas delas representam sujeitos que não deveriam ser lembrados, quanto mais imortalizados em praça pública.

Só que a questão não é a preferência por este ou aquele indivíduo sisudo que geralmente nos olha com ar de superioridade. Será que estamos prontos para entender a concepção de patrimônio público? A impressão é que prevalecem dois pensamentos paradoxais em relação ao que seria de todos. E passa a ser de todos quando se paga a conta pelos reparos. O paradoxo vive na ideia de que uma estátua ou qualquer outro objeto público pertence a todos, mas não pertence a ninguém. Seria a autorização para me apropriar dela?

É evidente que muitas estátuas são homenagens bajulatórias para alguém que pouco fez por uma coletividade. Também o são nomes de ruas, de praças, de escolas, de salas em instituições e assim por diante. Normalmente, as homenagens vem das casas políticas, atendem a interesses mal explicados e rendem votos em certos currais eleitorais. Isso serve de justificativa para a destruição gratuita? Será que alguém, quando levou a cabeça ou os óculos de uma estátua, o fez em forma de protesto? Esqueceu-se de que a conta sempre volta para nós.

O bronze da estátua de Drummond pode render algum dinheiro, o que não invalida a questão de pertencimento. Penso, por exemplo, nas escolas. Por que elas parecem prisões? Para proteger-nos de quem está lá dentro? Ou para protegê-los de quem ficou aqui fora? São comuns as queixas de que as escolas estão em péssimas condições, muito por responsabilidade das frágeis políticas públicas. Mas não se pode isentar os envolvidos de certas ações destrutivas. E é mais fácil instalar correntes, muros e grades do que mudar uma mentalidade. O mínimo esforço acoplado ao gasto repetitivo.



A Prefeitura do Rio de Janeiro pagou pelo conserto dos óculos de Drummond seis vezes. Em cada uma delas, desembolsou R$ 3 mil. Desde agosto, a estátua passou aos cuidados de uma empresa privada, fabricante de lentes. A empresa pagará o próximo conserto, como também vai instalar uma câmera de segurança para monitorar o poeta.

O escritor se sentirá vigiado? Protegido? Turistas e moradores serão filmados ao lado de um dos maiores poetas brasileiros pelas razões erradas. A ironia além da sensibilidade do mineiro: uma câmera para vigiar alguém que nunca vai sair dali. Ato falho: para protegê-lo de nós.

4 comentários:

Daniel Simonian disse...

Realmente é muito mais fácil criar soluções para os problemas mais rapidamente, aliás, cada segundo que passa estamos mais velozes e é muito mais fácil passar uma massinha corrida na parede que lixa-la e pinta-la. É o caso da violência nos estádios. Ela é uma cultura. Um ritual. De que adianta criar soluções, como identificação dos agressores e outras inutilidades, se quando o que realmente importa é a educação de quem está por vir. Cultivar a educação é a solução. Aposto que os ladrões de estátuas não sabem que eles mesmos é que pagam pelo prejuízo. Cinco mil por uma cabeça? Acho que vou trocar a minha.

Sentirei saudades das aulas!
Nos falamos por aqui e por acolá.
Abraços.

Ebrael Shaddai disse...

Olá Marcus!!

Cheguei aqui por uma aluna sua, a Joici!!

Grata indicação a dela!! Vc escreve muito bem!! E o problema do Drummond?? Como disse a ela: o Drummond registrou BO??? Então ele não teria muito do que reclamar...kkkk

Gostei muito dos artigos!! Parabéns!!

Ebrael.

Principe Encantado disse...

O Vandalismo esta presente na cultura de um povinho como os brasileiros que não tem história, vive de contos, lamentavelmente. Desculpa-me.
Feliz Natal

vovolili disse...

Olá amigo,

Gostei muito de texto.

Será que colocar uma câmara para fiscalizar resolverá o problema?
Acredito que não.
Fraterno e carinhoso abraço,
Lilian