segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

O palhaço transgressor

O Teatro Municipal de Santos estava lotado. Era noite de estréia, com presença do autor da peça. A ocasião se tornara mais importante porque o texto em questão, “O Assassinato do Anão do Caralho Grande”, havia sido proibido. A encenação fora proibida de estrear na cidade natal do autor, caso que ganhou espaço na grande imprensa.

Plinio Marcos sorria para todos, mas parecia cansado. Andava lentamente e reagiu de maneira serena à homenagem, antes da apresentação do espetáculo. Falou um pouco para a platéia, que o aplaudia a cada respiração mais longa do dramaturgo. O discurso era motivador, como se esperava dele. Plinio reforçava como os artistas deveriam ser questionadores, como o público deveria rejeitar fórmulas prontas.

Alguns palavrões no meio da fala acendiam parte da platéia, mas o tocante era a coerência na retórica, sem poupar os adversários, ainda mais àquela altura da vida, com 60 anos. Havia força nas palavras, como sempre, mas a agressividade nos gestos tornara-se pose comedida. Sentar e ver um espetáculo, um orgulho.

Foi a única vez que o vi. Havia me interessado pela obra dele anos antes, não me lembro exatamente o porquê. A crueza e a acidez eram as qualidades que permeavam os textos. Naquele período, respirava teatro e não perdia uma encenação de peças escritas por ele. Podia ser encenação profissional ou estudantil.

Além de ver aquele texto duro no palco, era a única maneira de adquirir os livros de Plínio. Ninguém os editava. Eram obras que não circulavam em livrarias e tampouco apareciam nas bibliotecas. Havia me transformado em leitor ávido de suas crônicas no Jornal da Orla, última publicação para quem escreveu, entrevistas e textos teatrais.



Dois anos depois, em novembro de 1999, Plinio Marcos faleceu em São Paulo, de falência múltipla dos órgãos. Tinha 64 anos. Cursava o segundo ano de História e, assim que ele faleceu, me lembrei do escritor Ruy Castro, que dizia: para uma boa biografia, o biografado deve estar morto. Castro se referia ao risco de manipulação da palavra e das fontes de informação. Era a oportunidade de me aproximar dele em forma de texto. Dois anos depois, escrevi um grande ensaio como Trabalho de Conclusão de Curso. Curiosamente, até hoje é o único estudo sobre ele naquela universidade.

Plinio Marcos, infelizmente, é um daqueles autores que tiveram que morrer para serem reconhecidos. É claro que sua obra sempre foi valorizada, mas estava presa à classe artística e aos intelectuais. As editoras só publicaram algumas de suas obras nesta década. A imprensa, salvo os jornalistas especializados, o tratava, em vida, como figura exótica do cenário cultural.

Em 2002, produzi – ao lado do colega Gustavo Zanarolli – uma reportagem especial sobre o dramaturgo. A matéria, exibida pela Rede Record, foi feita por Chrystianne Leite e mostrava que, naquele ano, seis peças diferentes dele eram encenadas ao mesmo tempo em São Paulo, fora as apresentações em outras quatro capitais. Eram mais encenações do que no auge da carreira do dramaturgo, antes de ser enterrado pela censura política.

Plinio Marcos foi um dos alvos preferidos da censura. Os diálogos fortes, os personagens marginais, os cenários degradantes expunham a desigualdade e a violência do meio urbano. Eram temas que derrubavam de nervoso qualquer quepe de milico. Dizia-se que o universo teatral de Plinio era um “atentado à moral e aos bons costumes”, clichê vomitado pelos retrógrados.

A venda de livros nas ruas foi o meio encontrado para sobreviver por não conseguir emprego. Plinio foi derrubado em todas as redações, desapareceu da TV, evaporou das salas teatrais.

Pior do que a postura governamental, previsível na estupidez, foi a censura moral. Muitos textos dele deixaram de ser encenados por causa da agressividade das relações entre os personagens. Os mais apressados e ignorantes queriam associá-lo a um mero escritor de palavrões.



O moralismo esteve presente na proibição da peça “O Assassinato do Anão do Caralho Grande”, em 1996. E não falo somente da história ocorrida em Santos. Vários veículos de imprensa, quando se referiam à peça, encurtavam o nome dela. Apontavam o dedo para a censura em Santos, mas escreviam somente “O Assassinato do Anão”. O palavrão como instrumento herege, que talvez chocasse os leitores.

Plinio Marcos foi comparado por críticos a Nelson Rodrigues. Enquanto o carioca expunha a hipocrisia da classe média, o autor santista esfregava na mesma classe média as contradições e sofrimentos da marginalidade. Plinio é um dos poucos autores que escreveu como viveu, na maior parte da vida. É possível estabelecer um paralelo entre as fases de sua biografia e os períodos como autor teatral.

Há o Plinio Marcos do Macuco, do Mercado de Santos, dos trabalhadores infelizes, da cafetinagem, das prostitutas e vigaristas em geral. Existe também o Plinio Marcos místico, transcendental, ligado às questões metafísicas, principalmente a partir dos anos 80. É o Plinio das cartas de tarô, cujas leituras pagaram muitas vezes a refeição de fim de noite.

A obra do dramaturgo também permite, pelas crônicas, identificar o relacionamento com o futebol. Ele tentou ser jogador, mas contribuiu muito mais com o Jabaquara (hoje na quarta divisão de São Paulo) quando desfilava com a camisa em programas de TV, por exemplo. Ou quando desfilava causos nas colunas semanais.

O Plinio do circo e dos trabalhos temporários (como camelô) se expõe nas peças. “O Assassinato do Anão do Caralho Grande” é uma homenagem satírica ao mundo que frequentou na adolescência, antes de ser descoberto por Patrícia Galvão e Geraldo Ferraz como ator e autor.



A transgressão não é o motivo para torná-lo importante. Ele levou a sério o papel do artista em pensar e repensar – e criticar quando necessário – o mundo em que vivia. Ele sofreu por compreender a função do artista em ser questionador do poder, alguém que desconfia da hipocrisia de muitas convenções sociais.

Plinio Marcos não deixou herdeiros. Digo, herdeiros teatrais. Dez anos após a morte dele, falta quem remexa no mundo dos invisíveis. Falta quem leve a arte crua considerada lixo pelo poder ao universo cultural além dos guetos. Sem plásticos ou vernizes. É um trabalho difícil, numa época de liberdade política e amarras econômicas e morais, quando prevalece o politicamente correto. Alguém se arrisca, sabendo do preço que o próprio Plinio Marcos pagou por quatro décadas?

Como disse recentemente um editor da Playboy, as entrevistas da revista perderam fôlego porque ninguém mais diz o que pensa no meio cultural. Apenas um exemplo de como se teme perder (dinheiro, status etc) com a patrulha dos moralistas. Poucos tiram a máscara para pensar na estrutura que se realimenta. Para a patrulha, a vantagem está na polêmica vazia, veloz, natimorta em tempos de celebridades e vida privada como pública.

A sorte é que a obra se perpetua além da finitude do artista. È obrigatório manter os textos de Plinio Marcos em movimento, nas praças, telas e palcos. Significa mais do que uma homenagem ao palhaço transgressor. É colocar na vitrine as feridas de grupos sociais falsamente democráticos. Ser descontente com o mundo em volta, como se espera – pelo menos de vez em quando – de todo artista.

4 comentários:

Willian Fernandes disse...

Muito bom. Até agora só conheço o "Plínio do Mercado". Vou procurar conhecer os outros perfis do autor.

Pedro Martins disse...

Das poucas narrativas que conheço do "palhaço transgressor" senti como se fossem porradas de intensidade descomunal. Ele escancarava toda uma realidade social que fingimos ser invisível. Infelizmente, ficou como mais um maldito no meio cultural. Creio, no entanto, que as ideias dele ainda circulam e influenciam um bom número de pessoas.

Eduardo Henrique disse...

Eu era muito novo e já fascinado pela figura transgressora, embora nem soubesse na ocasião o peso e o valor desta palavra, de um homem que andava apoiado em um cajado e berrava nos semáforos: “O livro é baratinho e o autor é ruim”. Eu o vi algumas vezes anunciando seus livros, que não estavam à venda em livrarias, em cruzamentos de Santos e São Vicente. Uma ocasião, deveria ter no máximo quatro anos, fiquei sentado no meio-fio enquanto ele berrava. Por sorte, minha mãe apaixonada por livros o conhecia e me explicou quem era aquele homem que raras vezes vi falar na TV sobre os caminhos da dramaturgia. Só conseguir entender o que escrevia alguns anos depois de sua morte. Na carne crua, um corte fundo e real no submundo escondido nas periferias e longe dos olhos da opinião pública. A comparação com Nelson Rodrigues também pode ser dada ao conhecimento tardio de seu legado. Marginalizado e excluído das elites dominantes culturais, precisou morrer para ser reconhecido pela grandiosidade de suas reportagens malditas. Com sentido, pois o que expunha doía na face de parte da crítica brasileira que preferiu enxergava apenas os palavrões.

fabio disse...

É verdade que a peça foi censurada pela Wilma Therezinha?