domingo, 6 de dezembro de 2009

O muro e os filhotes

Os 20 anos da queda do Muro de Berlim provocaram – como é natural em datas comemorativas – o clima de balanço, com foco entre o capitalismo e o modelo comunista. As análises mais comuns, e apressadas, caíram no maniqueísmo digno dos tempos de Guerra Fria. O discurso da vitória do capitalismo (e consequente derrota do adversário) foi tão recorrente quanto falso, em detrimento de um olhar mais ponderado, que implicasse no contexto histórico correto, com a deterioração natural do mundo vermelho, a inclusão do processo globalizatório e da crise econômica contemporânea (fenômeno cíclico, é bom que se diga).




Independente do blábláblá geopolítico, a questão é que o muro não caiu. Não caiu como símbolo em si, que representa separação, exclusão. O muro não caiu como sintoma de intolerância, de esforço em se ratificar e salientar diferenças entre grupos, por razões múltiplas.

Erguer um muro é ato inerente de decisão de poder. Quem o ergue se interessa pelo outro à distância. Se é que o observa. O muro mantém seus construtores afastados do perigo que se julga iminente e reforça que o outro não merece estar nos mesmos círculos de relações. Aquele que levanta a barreira deixa transparente sua condição de superioridade, estabelece o julgamento moral (ou moralista) de que o vizinho não está à altura de pular ou ultrapassar o obstáculo construído.

O muro pode ter caído em Berlim, mas se multiplicou em diversos endereços. A primeira década do século XXI, como escreveu o falecido sociólogo Octavio Ianni, seria marcada – direta ou indiretamente – pelas diferenças de fundo étnico. Se combinarmos com religião ou economia, teremos o “milagre da multiplicação dos muros”.

A xenofobia se traduz pela parede entre Israel e Palestina ou pelo obra entre os Estados Unidos e o México (veja foto abaixo). As razões não são semelhantes, mas envolve o afastamento explícito do “inimigo”, sem possibilidades de conversa entre as partes. Eventualmente, sinais de fumaça servem como jogo-de-cena na fragilidade e na incoerência dos discursos dos líderes. A conversa acontece somente quando o dono do muro deseja que o vizinho o sirva.




O muro é mais nocivo quando mascarado de medida “sócio-educativa”, acoplado a uma proposta de melhoria na infra-estrutura. Vocês se lembram quando o governo do Rio de Janeiro aventou com a ideia de cercar por muros a Rocinha? A desculpa seria de caráter ambiental e parte da política de urbanização do bairro. Proteger quem? De quem? No mês seguinte, diante da imagem negativa, o Governo alterou a proposta para uma mureta de 60 centímetros.




O muro está em nós, principalmente quando passa a ser visto como natural. Como um elemento inerente à paisagem. Como algo necessário para compor o pacote de valores, com conforto, segurança e tranquilidade, palavrinhas recorrentes nos encartes publicitários das casas e prédios em condomínios fechados.

Em Santos, onde resido, um muro separa dois morros. Um deles abriga mansões. O outro morro é um dos bairros mais populares da cidade. O muro virou ponto natural da paisagem.

O muro nunca está sozinho. Ele vem acompanhando de grades, trancas e câmeras. Traz consigo sujeitos uniformizados, com feições sérias e leituras superficiais dos forasteiros, geralmente construídas a partir de rótulos, mesmo que ele seja a reprodução do que foi treinado para rejeitar. Ou barrar pelo muro.

A multiplicação do muro não pode ser explicada apenas pela segurança pública. O muro é símbolo do status, da ostentação, da diferenciação social pela conta bancária.

Quanto mais badulaques eletrônicos estiverem associados a um muro, maior a expectativa de desejo e curiosidade a respeito do que esconde atrás dele. È a lógica dos condomínios fechados. Ali, a ilusão do exclusivo e do individual se reforça com a barreira para o outro. A dificuldade de acesso valoriza o que há atrás da parede de tijolos ou concreto. Uma nova sociedade com vizinhos quase sempre desinteressados pelo morador ao lado, mas que se constitui pela similaridade de renda, de desejos de consumo e de um muro que os protege dos “diferentes”.

O muro nos domestica. Fortalece a imagem de separação, nos prepara para entender que nossos pares devem estar do nosso lado da parede. O muro restringe o diálogo, o interesse pelos valores, pelos comportamentos, pelos rituais de quem não consigo ver. O muro é capaz de cegar, de estigmatizar, de gerar a falsa visão de que somos o centro das atenções. Um exercício contínuo de egocentrismo coletivo, no qual prevalecem a auto-valorização excessiva e a ignorância por outras formas de relação.

No Brasil, o muro como reprodução do olhar repressor e de repulsa ao outro, ao diferente também é característica do local que deveria combater ou repensar tais posturas. As escolas parecem ter sido projetadas pelo mesmo arquiteto que desenhou presídios. São repletas de grades e trancas, que se combinam com as paredes cinzentas que as cercam. A conversa segue pela estrada da proteção: é necessário preservar os equipamentos públicos e as pessoas do mundo lá fora. Mas o mundo lá fora não é parte da escola?

É mais fácil segregar do que buscar o diálogo. Conversar com o outro significa ouvi-lo, tentar entendê-lo, rever posições e valores. Numa sociedade que se vangloria da exclusividade e reage com individualismo, sobrevive a cegueira e a surdez diante daquilo que não se parece comigo. Se há alguma chance de vê-lo ou escutá-lo, coloque uma parede no meio. A ignorância responde como o melhor remédio para se manter aonde está.

Os homens constróem muros desde a Idade Antiga. As razões para erguer uma parede mudaram ao longo da história. O que não se altera é a essência da obra: exercitar poder por meio de um símbolo visível a todos. Não importa o lado do sujeito.

2 comentários:

Marcia Leite disse...

Olá!
Pedido feito, pedido atendido!

Aqui vai o comentário:

Texto muito bem escrito e de grande valia, sobretudo quanto a dificuldade da natureza humana para a construção de pontes , antes dos muros.
Burgos, feudos, castelos ... faz pensar ... Mas, e os que trabalharam duro para poder desfrutar das delícias de morar em castelos? Já pensou nisso?
Beijo.

Deixo a poesia de Lennon para ilustrar seu pensamento.


Imagine
John Lennon
Composição: John Lennon
Imagine there's no heaven
It's easy if you try
No hell below us
Above us only sky
Imagine all the people
Living for today

Imagine there's no countries
It isn't hard to do
Nothing to kill or die for
And no religion too
Imagine all the people
Living life in peace

You may say,
I'm a dreamer
But I'm not the only one
I hope some day
You'll join us
And the world will be as one

Imagine no possessions
I wonder if you can
No need for greed or hunger
A brotherhood of man
Imagine all the people
Sharing all the world

You may say,
I'm a dreamer
But I'm not the only one
I hope some day
You'll join us
And the world will be as one

Victor disse...

faltou os muros das faculdades. sejam elas publicadas com sua vestibular-barreira, ou particular com seu boleto-barreira.

quase todas as particulares aqui da baixada já implantaram, como forma de "segurança", o muro-catraca.

abr
victor