terça-feira, 24 de novembro de 2009

A "puta", a escola e as imagens

Conversava com uma amiga sobre o caso da estudante de turismo da Uniban. Diante da selvageria dos estudantes e da omissão inicial da universidade, ela me disse: - Acho que chegamos ao fundo do poço.

Sem pensar, respondi: - Sempre pode ficar pior.

A história da aluna e seu micro-vestido, com contornos de dramaturgia, ganhou novos episódios – é óbvio – que indicam como uma sociedade autoritária e moralista lida com as questões públicas. Era uma novela que, se escrita por autores profissionais, colocaria uma carreira em risco. A do próprio autor, sob a acusação de excessiva fantasia.

Nas rodas de conversas, comecei ter a impressão de que a garota não importava mais. Ela havia virado uma imagem, personagem moldada conforme os argumentos (ou achismos) de quem falava.

O roteiro da estudante e do vestido dela se transformou numa sucessão de imagens, que podem ser vistas de vários ângulos. Podem, inclusive, ser recombinadas, reeditadas ao gosto do freguês. Somos tão escravos delas que nos esquecemos do ser humano que originou a história.

Pensando, por exemplo, no ângulo dos agressores. O que fazem autoritários e moralistas? Vendem, apontam e vomitam imagens que os demais devem atender para serem aceitos.

Não conheço um autoritário ou moralista que se veja desta forma. Um indivíduo que se encaixa nestes adjetivos constrói uma imagem superior diante dos outros. Aponta o dedo com o orgulho e a vaidade do conhecimento de causa. Ataca antes de ser atacado. E dita regras pelo fato de estar preocupado com a imagem que os outros farão dele. E esta imagem tem que refletir o próprio sujeito.

Uma imagem nunca é retrato fiel da realidade. Limita-se a ser recorte dela. É versão mal acabada de quem a captou. A imagem, sozinha, sofre de superficialidade, mal se sustenta em pé sem a interpretação, o contexto, a análise. Imagem não possui consistência sem pensamento, sem diálogo, nem que seja consigo mesmo. Mas sobrevive. E se perpetua como vazio.

O caso de Geisy Arruda transborda imagens. Frágeis como o debate raso que cerca o tema. Insossas como os argumentos das mulheres que rasgaram as conquistas feministas. São imagens que apontam para a crueldade de quem poda a diversidade, o diferente, o desejo próprio do feminino. Mulher como imagem de mercadoria, digna dos programas populares de TV. Jamais uma mulher que pode desejar ou ser desejada, no dicionário da moral e dos bons costumes. Não passamos esta fase?

A imagem, quando perversa, vira rótulo. Transforma-se no carimbo sem cartilha explicativa. Sacode a lógica. Ou melhor: inverte-a para que a vítima suba no banco dos réus e se explique para o júri. Ou o Conselho Universitário, que acendeu a fogueira para a bruxa!

A estudante recebeu um rótulo de presente: “puta”. Roupas que autorizavam o estupro e a execração pública. E assinados por uma instituição de ensino, pela responsabilidade educacional, como publicou em anúncio na grande imprensa. Alguém – como repetem mulheres “independentes” – que não se deu ao respeito. Por trás do discurso, o dedo aponta a “meretriz” que deveria ser punida.

A Uniban também pensou na própria imagem, só que duas vezes: quando expulsou a aluna e quando revogou a medida. A universidade agiu sob efeito dos holofotes da mídia, reprodutora e construtora de imagens. Alegou conduta moralmente inadequada, sem explicar o significado do termo.

Diante da ressonância negativa do caso, inclusive com reportagens na imprensa internacional, a universidade voltou atrás. Não deu maiores explicações. Apenas tentou salvar a própria imagem. Confirmou o retrato do ambiente escolar.

Qual é a imagem da escola? A escola, na prática, está longe de ser democrática, embora se agarre no manto da pluralidade e da diversidade. Retórica bonita do pedagoguês! A escola é, em linhas gerais, conduzida com autoritarismo dentro e fora da sala de aula. Equipes pedagógicas que mal escutam professores, que ignoram os desejos dos alunos. Políticas públicas unilaterais que engolem a todos. As regras do jogo sempre caem no colo – ou na cabeça – de quem está embaixo. E cumpra-se!!!

O problema não é exclusivo dela. A escola está inserida de um modelo social, impregnado por preconceitos múltiplos. Vivemos sob a busca do padrão, a valorização dos iguais. Para os demais, a exclusão, velada em palavras doces ou na ponta de um cassetete.

A Uniban fez o que muitas instituições fariam. Isso não a exime de responsabilidade. Somente indica que a instituição tenta sobreviver e apagar a imagem de intolerância. E vai sobreviver, com a benção de um Ministério que lambe a própria imagem de fiscalizador.

Os autoritários e moralistas se escondem em seus próprios espelhos. Escondem-se na multidão, certos de que a imagem de comuns passará ilesa. A camuflagem permite que transitem em silêncio. Nas sombras, riscam o fósforo da fogueira que incinera o opositor. Falam baixo e fogem da luz. São covardes. Sofrem de pavor paralisante!! Autoritários temem que a imagem de correção se dilua em um choque público.

Recentemente, em sala de aula, discutíamos mídia. Em um determinado momento, o diálogo caminhou para o tratamento que prostitutas recebiam em certos programas de TV. Eu disse que muitos apresentadores – e suas macacas de auditório - não as tratavam como seres humanos. Ouvi, em seguida, uma frase, em tom quase inaudível, que poderia passar por envergonhado.

- E elas são?

O autor da pergunta olha para o chão e se fecha em silêncio. Quase uma imagem sacra de quem nada fez!

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