terça-feira, 3 de novembro de 2009

O hino dos autoritários

Quando era criança, tive aulas de duas disciplinas, marcadas como símbolos da interferência do regime militar na educação: Educação Moral e Cívica e Organização Social e Política Brasileira (OSPB). As matérias, como a maioria das humanas, não eram atraentes para os alunos. Exigiam memorização, pouco se conectavam com a realidade contemporânea e eram apresentadas em uma linguagem rebuscada demais para que um moleque de 12,13 anos pudesse compreender.

Ao pensar em conexão com a realidade, não me refiro a esta visão utilitarista que permeia as relações educacionais de hoje, onde tudo tem que servir para algo, imediatamente. Tudo tem que ser medido de forma quantitativa, como um caixa de supermercado. Alunos e professores perdem seu lado humano e passam a vomitar informações que cheiram a um idioma incompreensível, principalmente para os próprios.

Seríamos ratos de laboratório ou corpos mecânicos desprovidos de sentimentos e de sensações, incapazes de absorver conceitos abstratos, valores que – às vezes – só se manifestam de longo prazo?

Além destas aulas, havia outra forma de disciplinar os estudantes, dar a eles – na ótica da escola – valores para toda a vida. Uma delas era cantar o Hino Nacional no pátio, pelo menos uma vez por semana. Assim, os alunos dariam valor à Pátria mãe gentil, seriam melhores cidadãos, seres humanos dignos diante de um futuro melhor (todos os clichês reunidos numa frase só!!!).



Nunca se pensou em trabalhar o significado das palavras – de outra época – presentes na letra musical. Nunca se pensou em debater o contexto no qual o Hino foi escrito e musicado. Nunca se pensou em situar para os alunos quem foram os autores e assim por diante. Cobrava-se disciplina na fila e a letra na ponta da língua. Ah, e a mão direita no peito, como símbolo de amor ao Brasil.

A estupidez deste momento escolar me veio à lembrança quando li que a Câmara Municipal de Santos aprovou – em segunda discussão – projeto de lei que determina que os alunos da rede municipal de ensino cantem os hinos nacional e da cidade. A sessão “cívica” tem que acontecer uma vez por semana.

Em entrevista ao jornal A Tribuna, o vereador Antônio Carlos Banha Joaquim, autor do projeto, argumentou que cantar o hino “aprimora nossa cidadania.” Será que declamar duas letras musicais a cada sete dias nos torna cidadãos melhores?

O ato de cantar – incluindo os trechos que muitos não entendem - nos torna mais brasileiros? Ou mais patriotas? De que pátria falamos? Dos 11 jogadores perfilados em campo, vestidos de camisa amarela ou azul, balbuciando palavras antes de correr 90minutos atrás da bola? Ou falamos, por exemplo, dos vereadores que cantavam animados quando a Câmara Federal aprovou o aumento no número de vagas no Poder Legislativo local?



Sempre desconfiei do nosso patriotismo e da nossa capacidade de falar em cidadania. O patriotismo à brasileira se manifesta por competição. É latente nos esportes quando algum atleta brasileiro – milionário ou abnegado – entra na arena com chances de vitória, mesmo que a infra-estrutura que o apóie esteja fora daqui. Patriotismo que se esvazia na derrota, pela resignação e reclamação coletivas ou pelo linchamento público do atleta.

Surge também quando um filme brasileiro concorre ao Oscar, ainda que seja pouco visto e debatido, ou quando um ator faz filmes em Hollywood. É sinal de evolução. Precisamos da chancela externa para assinar o atestado de qualidade.
Por que, diferente de outras culturas, o patriotismo não se manifesta nas figuras políticas? O complexo de vira-latas esconde a distância entre o poder e os comuns ao longo da história nacional?

Os hinos nas escolas não alteram também o autoritarismo que permeia os processos educacionais. Só o reforçam, estabelecem hierarquia sem justificativa, reprimem sem explicar, estimulam a “decoreba” sem reflexão.

A escola, em linhas gerais, não forma para a cidadania, forma para o consumo. Reproduz – sem criticidade – a dinâmica social do mundo lá fora, rezando a cartilha mercadológica, se sequer pensar se esta postura tem pontos positivos.

Cantar os hinos na escola, após uma canetada legislativa, é um ato autoritário, travestido de proposta de cidadania. Obriga-se um sujeito a reproduzir uma ação sem que ele dimensione o ato. Alguém mais otimista poderia dizer: - Ainda bem que é só o hino! A História está repleta de casos de violência extrema com início em “propostas educacionais” para as crianças.



Novamente, o topo da pirâmide se senta sobre o livro da moralidade para assegurar que valores sejam reproduzidos, sem a liberdade de escolhê-los. Não se trata de educação, mas de doutrinar a mente e a alma do sujeito, de pouca idade e sem possibilidades de se proteger deste discurso.

Vamos supor que a lei venha carregada de boa intenção. Mas ainda me parece uma atitude desconectada da realidade dentro e fora das escolas. Se entrarmos na discussão relativista dos valores no universo escolar, os hinos pouco acrescentam, pois não faz cócegas no gesso que endurece e paralisa os métodos atuais de ensino, impregnados por volume de conteúdos e ausentes de interpretação sobre eles.

Cantar os hinos é outra mão de verniz no tradicionalismo que cerca o mundo da educação escolar. É o OSPB, em outra proporção, nos pátios de hoje.
È possível apostar que as escolas – até por ligações políticas do Poder Executivo – não questionarão a ideia. Seguirão a lei, sem debatê-la. Depende das equipes pedagógicas ignorá-la ou cumpri-la. Por estas bandas, também valem as leis que pegam e as que não pegam. Quem vai receber a visita de um fiscal da Prefeitura para verificar se os alunos cantaram os hinos naquela semana?

2 comentários:

e disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
e disse...

É aquela velha história... "Sabe"-se, mas não sabe-se por e para quê. Tanto no ambiente escolar quanto na vida social o acúmulo de informação é crescente, mas não se pensa na utilidade disso. No caso, o entoar do hino é mais uma medida com o intuito de fazer bonito, ilustrar um quadro com bela moldura, porém pintura sem força, sem fundo.
Encharca-se a esponja até onde dá, mas aperta pra ver o que acontece...