terça-feira, 20 de outubro de 2009

Rio, um cheque em branco

As cenas de violência, com 22 mortos confirmados pela Polícia no último final de semana, causam aquele impacto momentâneo, o leve toque de surpresa numa rodinha de conversa entre amigos ou entre colegas de trabalho. Tempere com um comentário genérico sobre a violência no Rio de Janeiro.

Mas quem poderia se surpreender com disputas por territórios nos morros, tiroteios entre facções e policiais, com requintes hollywoodianos de helicóptero abatido e dois policiais carbonizados?

No cenário de caos revisitado, os engravatados – eleitos ou indicados - correram para amenizar o problema, abafar os danos que eles conhecem de antemão. São, em parte, os mesmos sujeitos que asseguram – de mãos e pés juntos como uma criança em frente ao sacerdote – que o Rio de Janeiro estará “limpo” em sete anos para os Jogos Olímpicos.

De que forma será feita a limpeza? Permanecerá a separação entre os dois Rios? A cidade do asfalto, de cartão postal, garota de Ipanema e Cristo Redentor de braços abertos sobre a Guanabara, se repetirmos o trecho da letra musical? Ou o Rio de Janeiro dos morros, do Estado Independente e dos subúrbios sem infra-estrutura?

A cidade do samba, futebol, mulatas e caipirinha será trabalhada como clichê para levar brilho os olhos dos gringos em hotéis cinco estrelas? Quais políticas públicas foram anunciadas para o município e região? Como será empregado o dinheiro? E quem fiscalizará?



A preocupação atual, ouvindo o discurso dos cartolas-políticos e dos políticos-cartolas, é de esquecer a experiência dos Jogos Pan-Americanos, e não aprender com ela. O evento custou dez vezes mais do que o previsto (o presidente do Comitê Olímpico Brasileiro, Carlos Artur Nuzman, justificou ao jornal Folha de S.Paulo que o projeto foi refeito), instalações estão abandonadas e as que seguem em uso não atendem padrões olímpicos internacionais.

Um repórter foi chamado de estraga-prazeres por um dirigente quando fez uma destas perguntas. No mesmo dia, outro político afrontou nossa inteligência quando afirmou que o Rio de Janeiro foi escolhido porque o povo brasileiro era alegre e feliz. Lamento pela melancolia excessiva dos moradores de Chicago, Madri e Tóquio. Vencemos a corrida da felicidade.

O pensamento único é ditatorial, intolerante. Ele se apóia, neste caso, no patriotismo de ocasião, latente somente em situações ligadas ao esporte, quando somos convidados a nos comportar como torcedores de arquibancada no domingo de clássico. E os bajuladores de microfone em punho reproduzem o ufanismo, o maniqueísmo de quem derrotou os Estados Unidos de Obama, somado aos rótulos da ausência de contexto.

Por que precisamos abrir mão de uma análise criteriosa apenas para carregar o título de primeira sede da América do Sul? O cheque em branco é uma assinatura insana ou uma possibilidade de segunda chance? Ou mera subserviência com olhar de mercado?

O bangue-bangue com elementos de cinema americano do último final de semana não é de surpreender até quem teve contato com a cidade na semana passada. Se um sujeito assim existir, viu a panela de pressão liberar fumaça com os problemas dos trens, fato também conhecido de todos. No começo do ano, funcionários da empresa concessionária foram gravados enquanto agrediam passageiros para que entrassem nos vagões.

Sardinhas – cidadãos vistos como animais – que se espremiam em latas sobre trilhos. Alguém foi punido diante de um fato indesculpável? Apenas os funcionários foram demitidos? E quem deu a ordem? A vida seguiu na Central do Brasil.

O Rio de Janeiro estará preparado para os Jogos Olímpicos? A competição não dá lucro financeiro. Mas costuma gerar dividendos em outros setores, como turismo, se houver planejamento antes, durante e depois da festa.

Há casos como Barcelona, que aproveitou o evento para reurbanizar a cidade e atrair milhões de turistas por ano. Mas há exemplos como Atenas, cujas instalações esportivas pouco são aproveitadas, e Pequim, onde a maior arena, o Ninho do Pássaro, só atrai mesmo aves ou outros bichos.



A violência no Rio não é apenas uma situação localizada. Não se trata somente de enfrentar traficantes naqueles duelos que cansamos de assistir no noticiário. Como lidar, por exemplo, com as milícias? É o comando azul, e não mais vermelho, como explicam os especialistas em segurança pública, que domina áreas da capital carioca.

Como explicou a antropóloga Alba Zaluar, em artigo recente, as milícias se aproximam do aeroporto e da Baía de Guanabara. Operam com base na política de controle de armas, mas também expulsam aqueles que pensam diferente.

Com a decisão irreversível dos engravatados, torço para que os sete anos sejam suficientes para redesenhar o Rio. Transporte, saúde pública (lembram dos hospitais lotados, sem médicos, no noticiário de tempos em tempos?) e violência são problemas estruturais de uma cidade que receberá milhões de pessoas em um período de 15 dias. O Rio de Janeiro estará pronto ou se manterá dividido em irmãos univitelinos?

Ontem, Rosa Maria Barbosa estava revoltada com a perda do sobrinho, Edney Canazaro de Oliveira, de 29 anos. Ele era um dos ocupantes do helicóptero abatido no último final de semana na cidade. Rosa disse ao repórter Sérgio Torres, da Folha de S.Paulo. “Eles fazem o teatro deles e nós pagamos. Existe verba para a Copa, Olimpíada, mas para equipar a polícia não tem verba. Como mandam para a área de risco um helicóptero que não é blindado? Isso é palhaçada!”

O secretário de Segurança Pública, José Mariano Beltrame, não falou sobre o assunto. Apenas disse - com a obviedade dos alheios - que outros choques entre traficantes vão ocorrer.



Mesmo sabendo que as declarações da tia do PM foram feitas sob emoção da perda do sobrinho, como não pensar nas palavras dela? Aqueles que choraram para as câmeras após o anúncio dos Jogos Olímpicos mais seu círculo de bajuladores com histórico nocivo serão capazes de desmentir esta senhora? O talão de cheques está no nome deles.

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