sexta-feira, 23 de outubro de 2009

O muito e o pouco

Come-se muito. Nutre-se pouco.

Fazemos muito sexo. Fazemos pouco amor.

Ficamos muito. Namoramos pouco.

Julgamos muito. Compreendemos pouco.

Rezamos muito. Agimos pouco.

Falamos muito. Ouvimos pouco o outro.

Temos muitos colegas. Poucos são amigos.

Diagnosticamos muito. Intervimos pouco.

Cultuamos muito o corpo. Pensamos pouco sobre o mundo.

A aparência vale muito. A essência pouco importa.

Desprezamos muito os desconhecidos. Poucos nos cumprimentamos.

Exigimos muitos direitos. Exercitamos poucos deveres.

Vemos muita novela. Lemos poucos livros.

Corremos muito. Chegamos a poucos lugares.

Muitos se dizem pioneiros. Poucos são originais.

Conversamos muito na Internet. Dialogamos pouco ao vivo.

Somos muito dependentes da tecnologia. Poucos vivemos “in natura”.

Valorizamos muito o status. Poucos conhecemos os invisíveis.

Viajamos muito. Pouco absorvemos outras culturas.

Conectamos em muitas redes sociais. Poucas relações são coletivas.

Compramos muito. Oferecemos pouco.

Vivemos muito o presente. Pouco aprendemos com o passado ou planejamos o futuro.

Prometemos muito. Fazemos pouco.

Produzimos muito. Colhemos poucos frutos.

Engolimos muitas informações. Poucas são digeridas.

Vomitamos muitas informações. Poucas têm a dimensão adequada.

Tomamos muitos remédios. Pouco nos interessamos pela cura.

Vamos muito ao mágico-terapeuta. Pouco mudamos o estilo de vida.

Muito comentamos sobre políticos corruptos. Pouco lutamos contra a desonestidade privada.

Muito moralismo. Pouca ação ética.

Excluímos muito. Toleramos pouco o diferente.

Na balança, vivemos muito mais tempo. Sobrevivemos sempre. Morremos sem perceber.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Rio, um cheque em branco

As cenas de violência, com 22 mortos confirmados pela Polícia no último final de semana, causam aquele impacto momentâneo, o leve toque de surpresa numa rodinha de conversa entre amigos ou entre colegas de trabalho. Tempere com um comentário genérico sobre a violência no Rio de Janeiro.

Mas quem poderia se surpreender com disputas por territórios nos morros, tiroteios entre facções e policiais, com requintes hollywoodianos de helicóptero abatido e dois policiais carbonizados?

No cenário de caos revisitado, os engravatados – eleitos ou indicados - correram para amenizar o problema, abafar os danos que eles conhecem de antemão. São, em parte, os mesmos sujeitos que asseguram – de mãos e pés juntos como uma criança em frente ao sacerdote – que o Rio de Janeiro estará “limpo” em sete anos para os Jogos Olímpicos.

De que forma será feita a limpeza? Permanecerá a separação entre os dois Rios? A cidade do asfalto, de cartão postal, garota de Ipanema e Cristo Redentor de braços abertos sobre a Guanabara, se repetirmos o trecho da letra musical? Ou o Rio de Janeiro dos morros, do Estado Independente e dos subúrbios sem infra-estrutura?

A cidade do samba, futebol, mulatas e caipirinha será trabalhada como clichê para levar brilho os olhos dos gringos em hotéis cinco estrelas? Quais políticas públicas foram anunciadas para o município e região? Como será empregado o dinheiro? E quem fiscalizará?



A preocupação atual, ouvindo o discurso dos cartolas-políticos e dos políticos-cartolas, é de esquecer a experiência dos Jogos Pan-Americanos, e não aprender com ela. O evento custou dez vezes mais do que o previsto (o presidente do Comitê Olímpico Brasileiro, Carlos Artur Nuzman, justificou ao jornal Folha de S.Paulo que o projeto foi refeito), instalações estão abandonadas e as que seguem em uso não atendem padrões olímpicos internacionais.

Um repórter foi chamado de estraga-prazeres por um dirigente quando fez uma destas perguntas. No mesmo dia, outro político afrontou nossa inteligência quando afirmou que o Rio de Janeiro foi escolhido porque o povo brasileiro era alegre e feliz. Lamento pela melancolia excessiva dos moradores de Chicago, Madri e Tóquio. Vencemos a corrida da felicidade.

O pensamento único é ditatorial, intolerante. Ele se apóia, neste caso, no patriotismo de ocasião, latente somente em situações ligadas ao esporte, quando somos convidados a nos comportar como torcedores de arquibancada no domingo de clássico. E os bajuladores de microfone em punho reproduzem o ufanismo, o maniqueísmo de quem derrotou os Estados Unidos de Obama, somado aos rótulos da ausência de contexto.

Por que precisamos abrir mão de uma análise criteriosa apenas para carregar o título de primeira sede da América do Sul? O cheque em branco é uma assinatura insana ou uma possibilidade de segunda chance? Ou mera subserviência com olhar de mercado?

O bangue-bangue com elementos de cinema americano do último final de semana não é de surpreender até quem teve contato com a cidade na semana passada. Se um sujeito assim existir, viu a panela de pressão liberar fumaça com os problemas dos trens, fato também conhecido de todos. No começo do ano, funcionários da empresa concessionária foram gravados enquanto agrediam passageiros para que entrassem nos vagões.

Sardinhas – cidadãos vistos como animais – que se espremiam em latas sobre trilhos. Alguém foi punido diante de um fato indesculpável? Apenas os funcionários foram demitidos? E quem deu a ordem? A vida seguiu na Central do Brasil.

O Rio de Janeiro estará preparado para os Jogos Olímpicos? A competição não dá lucro financeiro. Mas costuma gerar dividendos em outros setores, como turismo, se houver planejamento antes, durante e depois da festa.

Há casos como Barcelona, que aproveitou o evento para reurbanizar a cidade e atrair milhões de turistas por ano. Mas há exemplos como Atenas, cujas instalações esportivas pouco são aproveitadas, e Pequim, onde a maior arena, o Ninho do Pássaro, só atrai mesmo aves ou outros bichos.



A violência no Rio não é apenas uma situação localizada. Não se trata somente de enfrentar traficantes naqueles duelos que cansamos de assistir no noticiário. Como lidar, por exemplo, com as milícias? É o comando azul, e não mais vermelho, como explicam os especialistas em segurança pública, que domina áreas da capital carioca.

Como explicou a antropóloga Alba Zaluar, em artigo recente, as milícias se aproximam do aeroporto e da Baía de Guanabara. Operam com base na política de controle de armas, mas também expulsam aqueles que pensam diferente.

Com a decisão irreversível dos engravatados, torço para que os sete anos sejam suficientes para redesenhar o Rio. Transporte, saúde pública (lembram dos hospitais lotados, sem médicos, no noticiário de tempos em tempos?) e violência são problemas estruturais de uma cidade que receberá milhões de pessoas em um período de 15 dias. O Rio de Janeiro estará pronto ou se manterá dividido em irmãos univitelinos?

Ontem, Rosa Maria Barbosa estava revoltada com a perda do sobrinho, Edney Canazaro de Oliveira, de 29 anos. Ele era um dos ocupantes do helicóptero abatido no último final de semana na cidade. Rosa disse ao repórter Sérgio Torres, da Folha de S.Paulo. “Eles fazem o teatro deles e nós pagamos. Existe verba para a Copa, Olimpíada, mas para equipar a polícia não tem verba. Como mandam para a área de risco um helicóptero que não é blindado? Isso é palhaçada!”

O secretário de Segurança Pública, José Mariano Beltrame, não falou sobre o assunto. Apenas disse - com a obviedade dos alheios - que outros choques entre traficantes vão ocorrer.



Mesmo sabendo que as declarações da tia do PM foram feitas sob emoção da perda do sobrinho, como não pensar nas palavras dela? Aqueles que choraram para as câmeras após o anúncio dos Jogos Olímpicos mais seu círculo de bajuladores com histórico nocivo serão capazes de desmentir esta senhora? O talão de cheques está no nome deles.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

O carnívoro ao volante

Conheci, ontem, o Mercado Municipal de São Paulo. Um passeio com jeitão familiar, que realizou desejo antigo, o de saborear o famoso sanduíche de mortadela. Mais importante do que o sonho gastronômico de classe média, a visita representou o ponto que faltava para o nascimento deste texto.

Logo na entrada, uma tenda do Greenpeace era o foco. Jovens ocupavam o corredor de camisas ou jalecos verdes, sorrisos no rosto e palavras na ponta da língua. Sempre fui simpático à entidade e às formas de protesto pelo (nos dois sentidos!) planeta. A questão ambiental é vista como oportunismo de retóricos de gravata ou como tema submisso à agenda econômico-financeira do universo corporativo.

Uma moça me atendeu educadamente e me explicou as batalhas atuais e os adversários (alimentos transgênicos, escassez de peixes e relação carne-desmatamento) com propriedade e didatismo. Um abaixo-assinado completava o discurso politizado e coerente daquele momento.



Meia hora depois, resolvi observar como as pessoas reagiam diante da abordagem dos jovens ambientalistas. A maioria evitava contato visual e seguia em frente, rumo aos desejos culinários e de consumo. Dos que paravam, alguns fingiam literalmente prestar atenção, loucos para seguir o destino do grupo anterior, enquanto outros engatavam uma boa conversa sobre questões pertinentes da agenda ambiental nacional e internacional.

Vale a pena uma tenda no Mercado Municipal de São Paulo? Qual será o impacto diante da vida das pessoas que apanharam o folheto com explicações sobre os problemas que envolvem o Greenpeace? Elas mudarão de atitude? Confirmarão teses? Pensarão a respeito do problema? Farão algo em seu cotidiano?

O trabalho dos camisas verdes é fundamental. O exercício de contestação com efeitos midiáticos mais a conversa miúda – individualizada – em locais públicos podem expor a agenda pública em torno do meio ambiente. Pode ser o combustível para ultrapassar as barreiras políticas, econômicas e eleitoreiras que empurram o tema para a rabeira das rodas de discussões. E não falo daquelas conversas de boutique, em que se vomitam medidas hipócritas para parecer moderninho ou descolado.

O problema, no entanto, passa pela ausência de atitude das figuras públicas. Eles são os donos da bola (ou seria um globo?) e das canetas que assinam o futuro próximo. Podemos perceber a inércia estatal, por exemplo, e de nós mesmos diante das campanhas que ocorreram em um passado recente. Pensei em duas delas: o Dia Mundial sem Carro e a Segunda-feira sem Carne.



No primeiro caso, uma terça-feira, o dia pareceu o mesmo. Com os mesmos problemas urbanos. O trânsito estava congestionado, com os motoristas traduzindo sua fúria e sua pressa nas buzinas e nos faróis altos. Os ônibus, carregados de gente espremida como bichos, usaram o tamanho para se impor em avenidas que encolhem a cada financiamento nas concessionárias.

No mundo movido a petróleo, o combustível orgânico via pedais não tem espaço. São manchas que alteram a paisagem. Incomodam porque não poluem. Perturbam porque não fazem barulho. Atrapalham porque são lentas perante a mentalidade do progresso.

Não parecia o Dia Mundial Sem Carro. Confesso que, inclusive por não ter automóvel, havia me esquecido da data. Mas me fez lembrar uma campanha realizada na cidade de Santos, onde moro. Era o Mutirão da Carona. Até a própria Companhia de Engenharia de Tráfego reconheceu o fracasso da iniciativa, pois os carros circulavam na mesma quantidade, velocidade e conduzidos pelos mesmos neuróticos, acompanhados de bancos vazios ou com objetos inanimados.



O protesto contra os automóveis é – obviamente - importante, assim como outras manifestações pela coletividade, como a Bicicletada, realizada em vários lugares do planeta. São instrumentos nos quais a sociedade civil retrata seu descontentamento com uma série de questões que envolvem políticas públicas.

O mundo é dos carros. Cada vez mais veículos unitários. Símbolos do consumo como prática individualizada e individualizante. Outro dia, conversava com um taxista, sujeito que vive do trânsito e para o trânsito. Para puxar conversa, basta criticar de leve um micro-congestionamento.

No alto da sabedoria rodoviária de quem passa 12, 14 horas diárias entre semáforos (mais de 300 na cidade) e passageiros com pressa sem destino definido, o motorista diagnosticou um dos sintomas da doença: mais carros, menos ocupantes. Veículos preocupados com conforto e espaço interno, para quem? Cachorros, sacolas, tranqueiras e afins. Se celular e computador são objetos individuais, por que os carros não seriam?

Às segundas, os carnívoros continuam no poder. A campanha pela redução do consumo de carne segue o mesmo caminho: permanecer restrita às entidades ambientais ou aos grupos anteriormente simpáticos à causa. A matriz alimentar atual são os produtos industrializados e, por influências culturais, nos tornamos ainda mais carnívoros. Seja uma carne saudável ou aquela que traz de brinde a lista de substâncias químicas para criar a aparência saudável!



A campanha não afeta nem os donos de churrascarias, pois a segunda-feira é o dia de folga, depois de um final de semana regado à picanha e maminha no alho.

Enquanto não houver representatividade política, dentro dos instrumentos de poder, sinto que veremos o discurso ambiental amarrado aos ambientalistas. É preciso entrar nas rodas de poder para alterar leis, influenciar grupos e ter instrumentos de pressão.

Como disse um cientista político na TV recentemente, o cidadão pobre é o fator de desequilíbrio numa eleição. Dá para convencer – até 2010 - alguém que mal come carne, precisa lutar pela próxima refeição e anda de ônibus que o problema ambiental é parte da vida dele?

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Capítulos de uma aula decadente

Ao entrar na biblioteca da universidade, encontrei um ex-aluno. Recém-formado, ele é o típico caso de alguém que estava pronto para exercer sua profissão sem grandes problemas. Boa formação, ético, antenado em questões sociais, preocupado em se atualizar por meio dos estudos. Tanto que estava contente ao saber que, por ter diploma de ensino superior, não precisaria prestar vestibular (palavra meio em desuso, mas que simboliza a ausência de alterações nas políticas do setor). Bastava esperar pela sobra de vagas. O rapaz pretende fazer o curso de Direito, pois havia abandonado a sala de aula após seis meses como professor de escola pública.

A pergunta óbvia: - Por que largou?

A resposta imediata: - Desisti!!! Não dá para trabalhar à noite sob ameaças dos alunos.

Dois dias depois, uma aluna de Jornalismo veio me procurar para tirar dúvidas. Ela pretende fazer uma reportagem sobre Hiperatividade, doença da “moda” nos sistemas de ensino. Aqui vale uma explicação: uso a palavra moda por duas razões.

1) o termo foi banalizado. Muitos falam sobre a doença sem ter a menor ideia dos sintomas e do tratamento. Qualquer criança mais agitada, bagunceira ou que deseja um pouco mais de atenção pode ser classificada como hiperativa. O carimbo na testa que a tornará marginal na escola.

2) as escolas, além de não terem pessoas com formação – em muitos casos – para diagnosticar crianças com problemas de aprendizagem, não as encaminha para um profissional competente. Quando não ocorre o exercício da negação, por meio do acordo velado entre instituição e pais para preservar da imagem da escola.

A aluna estava com dificuldades de conversar com escolas privadas sobre o tema. As equipes pedagógicas relutavam em reconhecer que poderiam ter crianças com o problema em suas classes. Quando admitiam, transferiam a culpa para os pais. No beco sem saída, tocar no assunto significa automaticamente o estigma. Desconfio que o parecer talvez fosse exercício de auto-imagem.



Escolas públicas e privadas são irmãs gêmeas diante de um espelho. Podemos localizar diferenças nos acessórios, nas roupas e, principalmente, na maquiagem, mas ambas sofrem de males semelhantes, diagnosticados por médicos diferentes e com poses idênticas de vítimas.

- Tire esse bicho daí que o problema não é meu!

- O diagnóstico está errado. Vou procurar uma segunda opinião.

Neste sentido, a escola se manifesta pela rejeição ao diferente. Expulsa o sujeito que tenta lutar contra o estado de coisas. Repele quando esconde embaixo de suas carteiras, em seus armários, disfunções que poderiam servir de motor para uma reformulação estrutural.

Em ambos os casos, com mensalidades em caixa ou não, a escola é violenta. Enxota o professor e outros funcionários por se calar diante da violência verbal e física, interna e externa. Peca ao se calar diante de um problema de ordem médica para assegurar o status quo de instituição saudável. Omitir-se é um ato tão ou mais violento quanto assinar embaixo. Ou tomar posição com consciência do erro crasso.



O irônico da cegueira é a teimosia em fingir que enxerga. São muitos pecadores, mas poucos dispostos a se confessar ou se flagelar para “purificar” a escola. O sarcasmo, a acidez na provocação vem, por exemplo, do próprio Ministério da Educação, quando escancara na TV um filme institucional sobre o papel do professor. O tom alegre era previsível, assim como o falso simbolismo globalizante dos depoimentos em vários idiomas.

Descontando-se a falta de contexto ao se comparar lugares tão diferentes, o filme repete a velha ironia do professor como um herói, como alguém que se doa por altruísmo, por vocação em ajudar o próximo. No fundo, uma estratégia tímida para atrair pessoas dispostas a ensinar pela via escolar.

Ingênuos não são os que acreditaram no filme. Esses se encontram em estado vegetativo. Ingênuos são os que se surpreenderam quando o Ministério da Educação informou – em tom de cinismo – que faltam professores no país. O déficit de docentes tende a crescer.

Em outras palavras, professor não fica desempregado. Mas que não se meta a discutir condições de trabalho, seja com o gestor público ou com o patrão da escolinha do bairro. Pôxa, recebe todo mês para DAR aula!

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Os urubus de gravata

A cena deu enjôo, ânsia de vômito. Era o sintoma de uma tragédia conhecida por todos, de duração secular. Os urubus revoaram agitados quando sentiram cheiro de morte. Alegres, radiantes com a carniça à disposição. A carniça somos nós, digeridos lentamente, ao som do hino nacional e a justificativa cínica da falsa cidadania.

Os urubus vestem ternos caros. Usam gravatas importadas. Vestem a roupa da missa para vender a ideia de participação política. É claro que há participação. O público que se rende ao privado. O jeito de se articular e se esforçar em prol de si e seus pares. O plenário da Câmara dos Deputados, geralmente vazio porque os atores precisam encenar suas farsas em currais, lotou para ver os parlamentares aprovarem a criação de quase 8 mil novas vagas para vereadores.



Nas galerias, braços levantados, punhos cerrados, urros de felicidade, hino nacional cantado com furor. A festa foi digna das arenas romanas. Pão, circo, pompa, circunstância, hino nacional, grito de cidadania, interesse público como o auge da República. Nós, à revelia, paramos no centro da arena para deleite dos leões, que aprovaram a proposta de inchaço nas Câmaras. Os urubus, nas galerias, salivavam pelas ossadas.

A cena – digna de Sucupira - jamais seria descrita por Dias Gomes em qualquer uma de suas obras. A vergonha da semana passada é vanguarda demais para um escritor. Como me disse certa vez o escritor José Roberto Torero, a realidade sempre supera a capacidade do ficcionista.

A maioria dos torcedores inflamados do plenário estava na busca por um empregão. Ser vereador não é apenas uma atividade política. É a garantia por quatro anos de portas abertas, bons relacionamentos, privilégios e salários para si e toda a família. Depende do nível de cara de pau do sujeito que ocupa a cadeira estofada e o ambiente climatizado do gabinete.

Neste trabalho, as segundas e sextas compõem o final de semana prolongado. O plenário é arena morta, fruto de um desinteresse público ou a desculpa oficial de conversar com as bases, um corpo disforme que vaga na mente dos legisladores e bajuladores contratados.



O Congresso Nacional, símbolo maior em todos os sentidos, é uma cidade curiosa. Dá vergonha! Ali, no espetáculo da política, pouca gente se interessa pelo acontece no palco. A dança teatral acontece pelos corredores, gabinetes, saguões. O jogo de cena é peculiar entre jornalistas, assessores e políticos. Valem declarações fortes, documentos que caem no colo dos inimigos, flertes e bravatas de assuntos que, por vezes, não interessam a mais do que meia dúzia de burocratas ou encostados nas tetas da Mãe Legislativa.

E pensar que o plenário já esteve lotado em ocasiões especiais. Históricas. Constituinte, impeachment do então presidente Fernando Collor. Hoje, o Legislativo se arrasta de escândalo em escândalo e sobrevive às custas da baixa politização e nosso desinteresse pelas atividades públicas, da promiscuidade com outros poderes, de uma parcela da imprensa covarde e servil. Aquele que foi expulso volta “nos braços do povo” – para usar um clichê do linguajar urubulino -, com direito a defender o coronel mais velho e veias saltadas pela fúria contra os adversários.

Em Santos (SP), cidade onde resido, voto e trabalho, a Câmara Municipal tem 17 vereadores. Pode chegar a 21, 23 ou 25 parlamentares, dependendo da batalha jurídica que se segue à aprovação da mudança em Brasília. De veteranos há pouco aposentados da vida pública aos pára-quedistas sem passado político, muitos são os que torcem para que a Câmara aumente o número de vagas no condôminio. Um resort com férias prolongadas.

É claro que a “festa da democracia” – outro jargão urubulino – não surpreende. Deveríamos saber que, neste endereço, privado e público se confundem. Quem ocupa cargos públicos se julga normalmente dono do patrimônio e o utiliza sem cerimônia. Demarca território, quase de forma canina.

A coisa pública se manifesta como tal somente em casos de comprometimento do patrimônio. Neste caso, o patrimônio é de todos. A criança se torna órfã sem que o pai sofra remorso por abandoná-la. Não há remorso em que realmente se sente no direito adquirido pelo voto. O poder não é representação coletiva. É causa individual.

Cada vez que olho para os parlamentares brasileiros, especialmente os repetidores do espírito cartorial e burocrático que marcou o início do processo colonial, lembro-me da Suécia. Lá, vereadores não são coronéis. Eleitores não são vistos como vacas dentro de um curral, que balançam – na visão deles – o título de eleitor em troca de dentaduras, sacos de feijão ou o emprego para o irmão sem futuro.



Vereador, na Suécia, é cargo não-remunerado. O sujeito comparece à casa legislativa uma vez por semana para os despachos e demais compromissos. Será que teríamos uma revoada de urubus em Brasília se os suplentes patriotas tivessem que trabalhar de graça? Pelo bafo da carniça, teríamos mais uma espécie na lista de animais em extinção.