segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Vozes na minha cabeça

Valdeci vive há mais de 20 anos no mesmo endereço. Sai pouco de casa. Quando o faz, está sempre com alguém. Ele mora no bairro de Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro. Ali, no subúrbio da capital carioca, ele cultiva um sonho. Embora se sinta feliz em andar de barco, trem e até de ônibus lotado, Valdeci gostaria muito de voar. De avião.

A casa onde ele mora é famosa: o Instituto Municipal Nise da Silveira, também conhecido como hospício do Engenho de Dentro. Ele pode sair dali apenas com supervisão. Passeios acompanhados por estagiários ou residentes médicos.

Se Valdeci tivesse vivido no final do século XIX, seria considerado um alienado, nome dado ao doentes mentais. A casa dele teria um nome diferente: o Palácio dos Loucos, apelido do antigo Hospital D.Pedro II, o primeiro hospício da América Latina. A inauguração aconteceu em 1852, após uma obra com dez anos de duração, com a presença do próprio Imperador. Abrir um hospício integrava a mentalidade progressista da época.

Valdeci foi diagnosticado como alguém que apresentava, em conjunto, retardamento mental e psicose. Desconhecia dinheiro. Era incapaz de fazer contas. Não sabia ler.

Conheci a história do Valdeci através do Edmar. E o Edmar por causa do Stenio. Explico melhor: há um mês e meio, escrevi um texto sobre o personagem Doutor Castanho, interpretado por Stenio Garcia na novela Caminho das Índias, da Rede Globo.



Para mim, o médico e seus pacientes, que se relacionavam a partir de uma reprodução do método da psiquiatra Nise da Silveira, compunham o melhor núcleo da telenovela. A trama mais ajudava do que reforçava ralos rótulos. Apimentou o debate sobre o sistema de saúde mental no país.

Ao pesquisar sobre o personagem, li um pouco sobre o médico Edmar Oliveira, que hoje comanda o Instituto Municipal Nise da Silveira. Nise, morta há 10 anos, tornou-se reconhecida por aproximar a arte de pacientes psiquiátricos, utilizando a pintura – por exemplo – como apoio no tratamento e na redução das dificuldades para encarar a vida social. Edmar trabalhou com ela e seguia suas ideias.



Edmar inspirou o personagem de Stenio na novela. A composição do personagem, além da postura profissional, era de semelhança física. A aproximação entre ambos se deu pelo livro “Ouvindo Vozes – Histórias do hospício e lendas do Encantado”, escrito pelo médico. O livro é um excelente testemunho sobre como a loucura se encaixa na história brasileira e as experiências de mudança (com as dificuldades, retrocessos e avanços) no Instituto, em Engenho de Dentro.

Mais do que percorrer a trajetória histórica do primeiro manicômio nacional, “Ouvindo Vozes” é um relato provocador e sensível da luta para tratar pacientes psiquiátricos como pessoas, e não isolá-los entre castelos de concreto.

Edmar é um dos defensores da reforma psiquiátrica, movimento que procura – entre outros pontos – reduzir períodos de internação, extinguir terapias agressivas – comuns em passado recente – como eletrochoques e lobotomias, e reposicionar o paciente no convívio social, com possibilidades de estudo e trabalho.



No livro do psiquiatra paraense, autor que chegou ao Rio de Janeiro para estudar medicina nos anos 70, há nas últimas cem páginas uma jóia da literatura nacional. “Anotações do cemitério dos vivos” são as impressões do escritor Lima Barreto, que passou anos internados no hospital, no início do século XX. O motivo: alcoolismo.

Edmar consegue nos comover com as histórias pessoais. Gente comum, por vezes diagnosticadas, carimbadas com patologias genéricas, para não ser dizer ficcionais. Homens e mulheres trancafiados por preconceito, por não se encaixarem aos padrões sociais estabelecidos, diferentes em um mundo onde se prega a igualdade de pensamento, de comportamento.

Como se fosse possível isolá-los sem danos, como uma colônia de leprosos em tempos de barbárie. Nas palavras de Edmar Oliveira, “a casa estava cheia de desclassificados da sociedade, mas classificados nos diagnósticos científicos.”



O livro não defende o fim da internação, tema central na questão da reforma psiquiátrica brasileira, e muito menos a ausência de acompanhamento médico. “Ouvindo Vozes” levanta a bandeira para a aproximação de pacientes e sociedade e, principalmente, o fim dos hospitais como depósitos de seres humanos.

A leitura do texto do médico carioca gerou uma série de vozes em minha cabeça. Em concordância. Dissonantes análises. A poesia da obra está, inclusive, em inocular a reflexão sobre a loucura dentro da vida do homem contemporâneo. Quem são os normais? Quem são os insanos? Somos os dois? Em quais circunstâncias?

O homem atual nunca consumiu tantas drogas. Não falo das ilícitas. Falo daquelas prescritas por gente de branco, em um consultório ou atrás do balcão da farmácia do bairro. Será que passaríamos no exame anti-doping? Ou somos absorvidos por uma rotina sufocante, repetitiva como a vida de um rato de laboratório que corre numa roda por sobrevivência e condicionamento?

Vivemos sob pressão e temos dificuldades para suportá-la. Não aguentamos nosso próprio corpo e, por isso, corremos para as academias, para as clínicas de cirurgias plásticas. Fugimos do espelho que tanto nos agride.

Controlamos uns aos outros. Adoramos vigiar. Detestamos a vigilância. São aparelhos eletrônicos individuais e públicos, vidas próximas ou pela TV. Remoendo pequenos problemas, nas palavras do poeta barão vermelho.

Colecionamos doenças, muitas das quais recentes, e que muitas vezes nos orgulhamos de falar sobre ela aos amigos e parentes. Estaríamos diante de um cardápio de pizzas? Meia depressão, meia hiperatividade? Uma bipolaridade coberta como molho de stress e pitadas de ansiedade?

Discutimos as patologias, incluindo o cenário pop, mas na vida privada, desejamos enterrá-las no buraco mais fundo da insegurança, da intolerância, do medo. Ainda vemos o diagnóstico psiquiátrico – ou até uma simples visita ao terapeuta – como sinal de loucura alheia. A medicação: overdose de isolamento e esquecimento.



“Ouvindo Vozes” lança no leitor – ao menos na retórica da palavra – a normalidade presente na loucura. No papel de tradutores, gente como Valdeci, que sonhava em voar. No pensamento de Edmar Oliveira, “o hospício aprisionou sua alma quando seu corpo fez sua morada no Engenho de Dentro.”

Sem gastar a pensão que recebia (o que fazer com dinheiro quando se vive em um hospício), Valdeci pôde comprar uma passagem aérea. Viajou a Vitória (ES), acompanhado por um ex-estagiário – na ocasião do convite, residente em outro hospital. Lá, permaneceu três dias. Se delirou, ninguém sabe. Se surtou, apenas de felicidade.

Um comentário:

luis alvaro disse...

Marcão, belo texto, abç.