quarta-feira, 16 de setembro de 2009

"Quero o direito de ser cinza"

A filósofa Márcia Tiburi segue à risca a cartilha do “bom pensador”: incomodar o outro, tirá-lo da chamada zona de conforto, fazê-lo refletir além do senso comum. O filósofo, neste sentido, deve caminhar contra a corrente, com provocações, expondo a capacidade de observar o incomum, dar importância ao detalhe, valorizar o que foge aos regulamentos sociais, lutar contra o pensamento único que empurra a sociedade de massa. “A Filosofia é o pensamento atento de si mesmo.”

Tiburi participou da Tarrafa Literária, o 1º Encontro Internacional de Escritores, no Teatro Guarany, em Santos. Ela dividiu o palco com o filósofo alemão Theo Ross (ver texto neste blog). A conversa foi mediada pela jornalista Mona Dorf.

A filósofa, que faz parte do programa Saia Justa, no canal fechado GNT, vê como fundamental a presença de pensadores no universo da TV. “Estamos apáticos, conformados, deprimidos. O capitalismo nos torna burros. Se você não pensa por conta própria, a publicidade pensa por você.”



Ao abaixar a cabeça para a persuasão comercial, o “sujeito-idiota” se transformaria em presa para o discurso falso de liberdade e, principalmente, de felicidade. A conseqüência é o desrespeito pela dor do outro, a intolerância diante da melancolia, na visão de Márcia Tiburi. “Eu quero o direito de ser infeliz. Quero o direito de ser cinza.”

A declaração provocou salva de palmas na platéia, embora parte esboçasse um sorriso amarelado enquanto batia as mãos para a escritora.

Caretas da academia - Márcia é a acadêmica que virou figura pop. Em parte pelo escreve. Em parte pelo que diz sobre assuntos do dia-a-dia. Além da presença na TV, ela tem colunas mensais em revistas como Cult e Vida Simples. Não que ela adore os holofotes. È o preço a ser pago para propagar uma mensagem, para levar a filosofia além dos muros da universidade.

Neste caminho de raciocínio, ela vê com resignação as críticas por estar nos meios de comunicação. “O grande conflito hoje são as figuras caretas da academia que preferem nos criticar por estar na mídia. Acham que fazer Filosofia é somente a História da Filosofia. Como nós falamos uns com os outros? Este é o lugar da Filosofia.”

Para muitos, filósofo na TV é fenômeno raro da natureza, um eclipse singular que merece admiração, porém incompreensível em si mesmo. Um espécime em extinção deslocado de seu habitat. É o sujeito que dirá coisas prolixas para meia dúzia de complicados que fingem entender, durante a programação da madrugada.



Na Tarrafa Literária, Tiburi defendeu que a Filosofia deve fugir da prisão acadêmica e se assumir diante da vida prática. Significa o pensar humano como auxílio na rotina, como apoio – sem ser solução direta – para as dificuldades do homem com o mundo que o cerca e que o incomoda.

Erro filosófico - Ela é dura com o senso comum. Professora da FAAP e do Mackenzie, em São Paulo, Márcia Tiburi afirma que mal sabemos refletir. “Nós precisamos aprender a pensar. Para isso, o Brasil precisa investir no seu afeto, de forma racional, auto-reflexiva.” Ela e o filósofo alemão Theo Ross chegam a um consenso de que a razão é o mecanismo para se compreender os sentimentos, as sensações, sem podá-los ou castrá-los.

Depois de duas horas de conversa com Ross, Márcia Tiburi era esperada para autógrafos de seus romances e livros de filosofia. Ela preferiu não permanecer no Teatro Guarany. Argumentou que no local ninguém estava interessado em comprar suas obras. Pela reação de parte do público, com livros debaixo do braço, ou pelas dedicatórias de Ross nas suas “Vitaminas Filosóficas”, talvez tenha sido um erro de avaliação filosófica.

Um comentário:

Érika Pereira disse...

Jura que ela foi embora? Ainda bem que não esperei, pois comprei um livro dela, mas fiquei com preguiça de esperá-la para autografar!