sábado, 19 de setembro de 2009

O gado indiano na TV

Uma amiga, professora universitária, não conseguia entender porque os alunos não retornavam para a aula após o intervalo das 21 horas. Ela sabia que não tinham ido embora porque vários largaram bolsas e mochilas sobre as cadeiras. Depois de alguns minutos, ao conversar com a colega da sala ao lado, descobriu: todos ainda estavam na universidade, mas os olhos diante da TV para acompanhar o último capítulo da novela das nove.

Ela me contou o episódio no dia seguinte, indignada com o comportamento dos estudantes de pós-graduação. Ao mesmo tempo, não parecia surpresa com o fato, pois percebera que a postura diante da TV não é diretamente associada ao diploma que o sujeito pendura na parede de casa.



A conversa com a professora me fez pensar porque gostamos tanto de novelas. O que faz as pessoas pararem diante de aparelhos de TV para seguir o último capítulo de uma história que todos sabem o desfecho, tamanha a obviedade da obra? Antes, uma correção redundante: paramos diante da TV não apenas para ver o último capítulo da telenovela, mas também para assistir à final do campeonato de futebol ou à última eliminação de um reality show.

Há dois anos, ao sair da sala de aula em uma terça-feira qualquer do mês de abril, encontrei às escuras à mesma instituição de ensino onde houve a fuga para a Índia. Vários funcionários e alunos andavam apressados, pois o paredão seria decidido em minutos.

Caminhando para casa, ouvi uma senhora despedindo-se do vizinho:

- A conversa tá boa, mas tenho que subir. Quero que o Alemão ganhe o BBB!!!

E falava das qualidades dele como se fosse um parente próximo ou um vizinho de porta há anos. Nada diferente das pessoas que conversam sobre os personagens de novelas como se fossem reais.

Os programas de TV são capazes de promover experiências coletivas em um mundo tão individualizado. É a tal sensação de pertencimento, pregada pelos teóricos. Assistir ao último capítulo nos coloca nas rodas de conversa, permite que opinemos sem muito conhecimento de causa ou profundidade, que tenhamos a impressão de que estamos bem informados. Ver a novela nos coloca no mundo, nos põe em posição confortável para interagir em igualdade de condições com nossos pares.

O último capítulo garante a impressão (falsa) de fazer parte de uma história, mesmo que seja descartável ou irrelevante de conteúdo. Por que precisamos entrar em catarse coletiva diante de uma história previsível e redundante?

É simples saber que a novela, uma narrativa circular, sujeita a pequenas mudanças por causa do temperamento da audiência, vai terminar muito próxima de como começou. Os nós da trama, expostos no início, serão desatados no último episódio.

A questão é que sempre estamos insatisfeitos com a vida ordinária que levamos. Precisamos do glamour, do sonho, do desejo de uma vida cheia de aventuras que abdicamos pelo conforto ou que nunca tivemos coragem ou oportunidade de buscar. No último capítulo, recebemos injeções (em overdose) de uma vida idealizada, ainda que por transferência ou terceirização ficcional via TV.



O caminho é semelhante no reality show. Milhões de espectadores acompanham, por exemplo, um sujeito e seu ato de escovar os dentes. Existe algo mais anônimo e solitário, mas visto ao vivo na TV? E ouvir o ressonar por horas de um BBB dormindo? É a magia do pay-per-view.

A questão é que relutamos em reconhecer que, em muitos casos, o nosso comportamento se aproxima ao de uma vaca. Não se trata do animal sagrado da última novela das nove nem ser tratado com desrespeito, algo tão comum, por exemplo, em serviços públicos. Seguimos a boiada, acompanhamos as “tendências” para não pagarmos o preço da marginalidade.

Ser alternativo implica em receber a carga de intolerância do desencaixe social. Virar o chato do grupo, aquele que reclama de tudo (quem sabe o sinônimo de ser reflexivo ou crítico?). Correr contra o pensamento único ou predominante de quem busca a redenção, como parte dos personagens da trama. Pensar – neste caso – dói como a marca da diferença.

Talvez acreditemos estar dentro de uma novela, mas sem personagens maniqueístas ou tramas previsíveis. Nesta história, ser bondoso não assegura recompensa, como o oposto também não significa a punição exemplar ou hipócrita. A ironia do comportamento diante da novela se dá imediatamente após o término do capítulo derradeiro. Fica no ar um cheiro de decepção, de frustração pelo fim da história, mas também pelo retorno ao cotidiano comum, repetitivo, indesejado, suportável no limite.

O sintoma imediato é a própria contradição de quem viu o programa. Reclama-se da obviedade da trama, das soluções evidentes, dos encontros e desencontros sem sentido ou inverossímeis entre os personagens. É difícil de admitir, mas a redenção ficou dentro da programação de TV, enquanto o espectador retorna ao reality show de si mesmo.



A reação das pessoas ao último capítulo da novela me lembrou minha avó. Com sua sabedoria mineira, ela respondia àqueles que perguntavam como conseguia dormir todos os dias depois do telejornal. A pergunta não era feita por causa do horário, muito cedo, mas pela perda do programa a seguir. Com calma, ela respondia:

- Novela? Basta ver o primeiro e o último capítulos para entender a história inteira. E quem viu uma, viu todas!

Não parece ser necessário um diploma de pós-graduação na parede para entender como se laça o gado pela TV. Pelo contrário! Enquanto isso, a boiada recomeça a ruminar a nova (velha) história na segunda-feira seguinte.

2 comentários:

Anônimo disse...

Poxa muito bacana seu blog, além de vc escrever super bem, ainda nos faz pensar.
Parabéns.
bjs

Valdeni Cruz disse...

É ótimo encontrar pessoas que se sobressaem dos outros. Pensam livre e contra a maioria.

Muito bom este espaço de conscientização e filosofia. Você não está eu também pesse muito este e lado e por isso muitas vezes incomodo ambiente com minhas contradições.

Professor Valdeni Cruz
valdenycruz.blogspot.com