sábado, 5 de setembro de 2009

Carta ao Belchior (o direito de sumir!!!)



OBSERVAÇÃO: O TEXTO ABAIXO FOI ESCRITO TRÊS DIAS ANTES DE BELCHIOR TER SIDO ENCONTRADO, NUMA POUSADA NO URUGUAI. MAS ISSO POUCO IMPORTA!

Caro Belchior,

Não tenho a menor pista de onde você está. Talvez isto sirva para te tranqüilizar, diante da busca frenética por você. Parece mais farra do que força-tarefa de filme hollywoodiano, mas o blábláblá pode ajudar a te achar. Se estiver numa situação complicada, não posso fazer algo além desta carta.

O noticiário indica que você desapareceu há quatro meses. Para mim, o sumiço dura alguns anos. Na verdade, tenho que confessar que nunca me interessei por você. Respeito sua obra, seu trabalho, mas apenas prestei atenção à música “Como nossos pais”, na voz de Elis Regina, que a tornou um clássico. Peço perdão pela minha ignorância, pois sei que Elis gravou mais de dez músicas de sua autoria e seus discos mostram como é eclético.

Não estou aqui para te bajular. Nem lamber a sua biografia. Pareceria obituário e não é o caso! Resolvi escrever porque penso que você foi desrespeitado. Você tem o direito de sumir!!! E mais: quem tem o direito de te procurar? Você – infelizmente – se transformou à revelia em mais uma polêmica descompromissada e vazia da semana. Isso implica em especular sobre sua vida, seus motivos, suas angústias, suas ansiedades, seus relacionamentos.

O circo que te colocou no centro do picadeiro seguirá a uma estação mais distante. Quebrará limites éticos. Vasculhará a sua moral e te julgará sem misericórdia. A partir das especulações, Belchior, muita gente tem escrito sobre as conseqüências dos seus atos. É isso mesmo: elas não têm a menor ideia de onde você se encontra, mas se dão o direito de refletir e propagar pelo megafone o que poderá (ou poderia) acontecer contigo.

Na história que você se envolveu, o objetivo é escarafunchar sua estrada e seus pontos de parada. Dizem que você não fala com a família desde 2007. Bom ... é um direito seu, mas sua ex-mulher e sua filha (mesmo em Londres) são pressionadas para dar uma palavra a respeito, qualquer uma para vender jornal.

Há até campanhas para te localizar, previsível dentro dos exageros do mundo atual. No Orkut, espero que nunca tenha ouvido falar, há três comunidades que brincam com seu paradeiro. Um jornal de Pernambuco ofereceu engradado de cerveja para o sujeito que te achar. O prêmio é tentador, mas pobre demais para sua importância. Não deixe que alguém se venda por tão pouco!

Adepta do humor negro, uma amiga brincou que talvez você deseje uma morte com glamour. Ou o desaparecimento que dê uma nova dimensão para sua obra. Medidas extremas o levariam a um novo patamar na história da música brasileira? Por favor, entenda como teorias derivadas da especulação inicial. Você já foi comparado até ao Michael Jackson, ainda não enterrado porque teria forjado a própria morte. A comparação pode ser ou não ofensiva. Sempre depende do ângulo de análise, não é?

E, se você pensa assim, acredita nesta possibilidade de sucesso por via torta, lamento dizer que será mais uma vítima do espetáculo. Caso esteja decidido, umas dicas óbvias: melhor reaparecer em um hotel cinco estrelas, organizar uma entrevista coletiva, assumir que sumiu pelo marketing, pela necessidade de voltar aos holofotes. Ar de vítima também ajuda! Os jornalistas engolem essa postura e se identificam com os dramas.




O que posso te garantir é que você estará na capa de revistas de celebridades na semana seguinte, frequentará programas de auditório, será convidado a chorar diante de apresentadores de TV no domingo à tarde após ouvir depoimentos melosos de amigos e familiares, inclusive pessoas que te odeiam ou que te levem a ter o mesmo sentimento por elas.

Prepare-se para sentar na cadeira da hipocrisia. Durante uma ou duas semanas, todos falarão em você. Mas, Belchior, entenda uma coisa: voltou, o relógio do prazo de validade começa a contar o tempo da sua morte. Tempo para a vida anônima, comum, como a que você levava. Poderá ser a retomada da paz ou do tormento, depende de como lida com a ausência dos palcos, dos shows, da mídia.

Prefiro não crer nesta hipótese. Acredito que você teve a coragem que falta a muitas pessoas que falam agora de ti. Sumiu por vontade própria, deixou tudo para trás, seguiu o desejo de mudar a rotina, o círculo de amizades sem avisar ninguém. Não me interessa saber se o que provocou isso foram dívidas, mulheres ou outros vícios. Respeito suas razões e me recuso a entrar nestes detalhes.

Mesmo admirando sua atitude, entenda que o que fez não é raro nem incomum. Boa parte das pessoas que desaparecem, segundo a polícia, o faz por vontade própria. Sabe aquela história do sujeito que saiu para comprar cigarro e nunca mais voltou? Está cheio de fumante por aí com o passado coberto pela fumaça.

No fundo, desejo que você jamais leia esta carta. Ignore o noticiário. Não leia as baboseiras dos entendidos da vida privada alheia. Fique escondido com o modo que escolheu para conduzir o dia-a-dia fantasma de um comum. Você já provou o aperitivo de como é interessante ser esquecido, às vezes. Não sei se entendeu assim. Pode ser doloroso para quem fez sucesso.

Lembre-se sempre: é direito legítimo desaparecer!!! Crime é sentir-se o tempo todo vigiado por pessoas e seus equipamentos eletrônicos. E crime hediondo é reclamar dos vigilantes.

3 comentários:

Jonatas disse...

Muito bom! Acho que devemos respeitar a decisão alheia. Quando vi na TV a matéria sobre a "descoberta" do paradeiro dele, ele agiu como se estivesse de férias ou de folga. Na certa a matéria foi muito bem editada para se forjar uma razão qualquer e ocultar o descontentamento dele com essa invasão de privacidade.

Lucas disse...

Concordo que devemos respeitar a decisão alheia, mas como uma pessoa pública que deixou fãs, ele devia uma explicação.
Por outro lado, or jornais e as emissoras de televisão realmente se aproveitam.

Ale... disse...

Gostei muito do texto.
Quando foi feito a chamada, pensei:
Mas, ha quanto tempo ele esta sumido?
Realmente nao ouvia ha muito tempo se falar de Belchior.
E, procura-lo, para que?
Porque procurar uma pessoa que optou por desaparecer?
Acredito que seja uma grande falta de noticias, uma falta enorme de imaginacao, investigar a vida de uma pessoa que nem esta sempre na midia e que penso eu, apenas os fas verdadeiros sentiram falta.
Ele tem todo o direito de sumir, e assim como todos nos, temos esse direito. Para saber como ele se sentiu, eh soh nos colocarmos em seu lugar!

Que chatice nao poder sumir quando se quer!!!