quarta-feira, 5 de agosto de 2009

A UNE passaria de ano?



A caminhada de centenas de pessoas lembra os tempos de rebeldia, de causas profundas, do sonho que mudar o mundo. As faixas e cartazes trazem impressas palavras pesadas, de indignação, de sangria contra questões que teimam em perdurar na agenda nacional. À primeira vista, estudantes em marcha nas ruas representam a busca por um espírito coletivo, com a pulsação do idealismo, a transpiração pela mudança, a desconfiança com o poder vigente. São estudantes que – historicamente – sempre carregaram junto de si a aura (ou a pecha) de questionadores, dispostos a dar a última palavra ou refletir sobre o contexto de hoje, de ontem.

As imagens de uma passeata em Brasília, durante o Congresso da União Nacional dos Estudantes, quase nos enganaram. Provocaram certa nostalgia por períodos de politização crítica, de luta por independência social, cultural. Mas a velha entidade se deitou com quem mais rejeitava. Agarrou-se aos tostões e aos privilégios dos engravatados. Flertou e resolveu manter relacionamento sólido com os que deveriam roer as unhas de temor pela exposição pública. De temor pelos gritos de protesto. Gritos hoje de ovação. De concordância!

A UNE se ajoelhou ao adversário! Propagou que Luiz Inácio Lula da Silva foi o primeiro presidente a comparecer a um congresso da entidade em 72 anos de trajetória. Mas ele não foi sabatinado como representante de grupos no poder. Foi tratado com benevolência, para não dizer reverência. Afinal, estava pagando, como diz o bordão de uma personagem de programa humorístico na TV.

A idade expôs as rugas do movimento estudantil e o fracasso de vender ares de rejuvenescimento em tempos do Deus-mercado. Partidos políticos inocularam o vírus da mosca azul nas lideranças, que causa insanidade pelo poder e se traduz em acordos políticos para benefício da casta mais elevada. Como exigir crítica politizada de uma instituição que recebeu R$ 100 mil da Petrobras para organizar o congresso anual? Como cobrar transparência e independência de uma entidade que recebeu R$ 2,5 milhões este ano em verbas do Governo Lula? Como pedir distanciamento da corte palaciana se, dos cinco ex-presidentes da UNE, quatro têm cargos no Governo, um deles ministro?

O novo presidente da UNE, Augusto Chagas, de 27 anos, não exala cheiro de mudança. Ele disse em entrevista à Folha de S. Paulo que considera legítimo o financiamento com dinheiro federal e que isso não afetaria a pauta de reivindicações da entidade. Estudante da USP, Chagas é o décimo presidente seguido ligado ao PC do B. Como metas de trabalho, a reforma universitária (enviada pelo Governo ao Congresso Nacional), regulamentar a meia-entrada dos estudantes e a construção da sede no Rio de Janeiro, com projeto orçado em R$ 30 milhões. Nenhuma meta que sirva de contraponto aos programas federais ou aos rumos da política do Palácio do Planalto?



Pela postura apresentada, a UNE – aos 70 - não condiz com a imagem de juventude. Envelhecido, o estudante-institucional marcha em paz, com dinheiro no bolso e urticária a choques com o poder. Poderia se lembrar das borrachadas, dos coturnos ou do risco de passar um tempo preso? Espero que se recorde que um dia pintou o rosto para questionar as sujeiras de um presidente jet-ski.

É claro que, em Brasília, havia faixas pedindo a cabeça do coronel do Maranhão e que muitos estudantes vivem idealismo e têm sede de decência. Mas soou irônico para a instituição que se abraçou ao presidente defensor do senador-coronel e suas práticas de arranjos empregatícios. Como explicar o conflito de interesses da UNE? Não seria moralmente discutível protestar contra a CPI da Petrobrás com o discurso modelo “O Petróleo é nosso!” depois de engordar o caixa?

Àqueles que marcharam por Brasília, a torcida pela desconfiança contra seus líderes. Àqueles que fazem política estudantil sem vínculos partidários ou fisiológicos, a torcida pelo cultivo do espírito libertário. Àqueles que ignoram as costuras políticas, a torcida pela abertura de uma janela para observar como lideranças podem demolir uma história em nome alheio.

A velhice aos 72 anos não é uma fase inevitável de apodrecimento das juntas e dos ossos. Da mesma forma, ser amigo do rei não significa a desilusão pela experiência, mas a escolha pelo caminho mais promíscuo com destino à irrelevância política.

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