sábado, 22 de agosto de 2009

O ladrão ofendido

Texto publicado na versão impressa do jornal Boqueirão (Santos/SP)- página 2, edição número 752

Dona Teresa* é uma daquelas senhoras vistas como boa gente, educada, de fala mansa no trato diário. Trabalhar muito e ter criado três filhos sem um marido do lado (e sóbrio!) aumentou a fama dela na vizinhança, no bairro da Aparecida, em Santos.

As mãos calejadas por 35 anos de faxina, o andar mais lento e as costas curvadas registram quem ainda frequenta diariamente as chamadas casas de família. Coisas da aposentadoria minguada, diz ela.

Numa noite recente, Dona Teresa entrou trêmula na pizzaria a duas quadras do prédio onde mora. Uma das funcionárias, que a conhece de boa tarde, boa noite, percebeu que a tremedeira e a brancura da pele não eram normais para aquela mulher de 60 anos e aparência de meio século. Pediu que Dona Teresa sentasse e a uma colega que trouxesse o calmante “água com açúcar”, popular para casos inesperados.

Quando Dona Teresa abriu a boca, as palavras não tinham sentido, eram entrecortadas por um choro soluçante. A fala dela misturava uma corrente de ouro, o dinheiro da semana, prejuízos e “o que vou fazer agora?”.

Acostumada a ouvir cantadas de clientes calibrados, queixas de fregueses indigestos e protestos de motoboys, a funcionária sentiu que deveria escutar o desabafo de quem sofrera um assalto no Canal 5, a três quadras de casa e outras três da orla da praia. Dona Teresa foi roubada duas vezes, pelo mesmo ladrão, com uma diferença de 150 metros ou 30 segundos de caminhada.

No primeiro assalto, o ladrão – apressado e nervoso – pediu a corrente de ouro. Presente da filha de Dona Teresa, com o nome gravado da própria. Um talismã antes visto como símbolo de proteção e sorte. Ela, se convencendo a não reagir, deu a corrente. O ladrão agradeceu e subiu na bicicleta!

Sentindo-se novamente segura, a senhora conseguiu vomitar:

- Ladrãozinho filho da puta!

Na esquina seguinte, o rapaz a esperava. Novamente apontando a arma, pediu a bolsa, com documentos e dinheiro. Dona Teresa argumentou que já fora assaltada há pouco, sem reconhecer o ladrão. Ela pediu os documentos, pois imaginava a burocracia para tirar a papelada outra vez. Mas não conseguiu negociar os R$ 250 de cinco dias de faxina.

Novamente pedalando, o assaltante se despediu e avisou:

- Tia, deixo os papéis da senhora porque sou de paz. Mas da próxima, não xinga minha mãe. Voltei porque me xingou. A velha não tem nada a ver com o que faço na rua.

Avisada pelo telefone da pizzaria, a filha foi buscar Dona Teresa, já refeita do susto. Sabia que o dinheiro faria falta no dia seguinte, mas não tirava da cabeça o preço do palavrão, naquela noite mais alto do que a insegurança do bairro, comentada repetidamente pelos vizinhos.

* (nome ficcional)

2 comentários:

Mari disse...

É professor, a coisa tá feia mesmo. Lembrei de um caso parecido, duma amiga que andava pela orla, e quando o cara parou para assaltá-la, ela disse que não ia entregar o mp3 e mandou ele para um lugar nada agradável. Ele ameaçou dizendo pra ela ficar esperta, que qualquer dia ela levaria um tiro. O ladrão estava de bike, deu algumas pedaladas à frente, e tentou assaltar outro cara. O rapaz teve a mesma reação. Ele sacou a arma e deu um tiro nele. Acho que nunca mais ela enfrenta um ladrão. Causa indignação, mas não podemos reagír, né.

Marcus Vinicius Batista disse...

Que história, hein, Mariana?? Como diz um amigo, a realidade sempre ganha da ficção. Imagine se as duas histórias - a minha e a da sua amiga - fossem ficcionais? Muitos poderiam considerar inverossímeis. Grande abraço!!!