sábado, 29 de agosto de 2009

Marina, a penetra



A política anda muito chata. Os engravatados batem boca em plenário, usam palavrões depois de Vossa Excelência e mudam de posição a cada falso alarme contra José Sarney. Não há platéia que suporte mais do mesmo filme, com final previsível e pobre nos argumentos. Um filme que está nas mãos de ferro do diretor (opa, presidente!) ex-metalúrgico.

Marina Silva, ex-ministra e hoje senadora, trouxe um pouco de vida ao debate político. Abriu o leque de teorias, atraiu novas perspectivas para a eleição presidencial. E, como aquecimento, deixou em aberto um monte de dúvidas.
Se for candidata, ela será capaz de abalar - em parte - o ar de plebiscito que caracteriza a próxima campanha? Conseguirá estimular outros nomes a se lançarem na disputa e reduzir a intensidade dos holofotes sobre PSDB e PT?

Marina era fundadora do Partido dos Trabalhadores. Com 30 anos de militância, tem o modo de agir mais idealista, simpático às causas coletivas. Mulher de partido, a chamada “companheira”, no sentido solidário, e não fisiológico do termo. E aí reside o problema. Marina não se encaixava no lulismo e muito menos no petismo atual. Ela virou uma beata marginal, que pregava no deserto depois de uma queimada devastadora.

A senadora pelo Acre era um empecilho para o projeto de governo do presidente. Travava os tais programas de desenvolvimento e levava a culpa pelas trapalhadas burocráticas de outras pastas. Em outras palavras, parecia interessada em fazer política pública com ética (uma utopia?).

Engaiolada pelos colegas, a ministra deu o primeiro passo: saiu do cargo decorativo. Meio ambiente é irrelevante para o modelo vigente. Note-se que, durante a última campanha, nenhum dos candidatos falou em questões ambientais. O assunto não é parte da agenda pública, salvo os enfeites teatrais do palavrório do momento, como sustentabilidade.

Mas Marina devolveu a frustração com estratégia. Anunciou a saída do PT no mesmo dia em que o partido enterrou a cabeça no escândalo Sarney. Na mesma data em que ficou nítido o óbvio: Lula manda prender e soltar dentro do PT. E vendeu a alma da legenda, com a mente em 2010, para várias espécies de coronéis.

Diante da festa apressada dos descontentes, é preciso considerar três pontos. O primeiro é que Marina Silva, mesmo que queira, não será a próxima presidente. Mas ela é a candidata da balança, capaz de tirar votos dos dois lados e servir de referência para determinados grupos eleitorais.

A ex-ministra daria fôlego à temática ambiental na agenda da eleição. É previsível dizer que ela colocaria em xeque o casamento progresso-devastação, idolatrado pelos defensores do desenvolvimento sem limites. O problema é que Marina poderia se transformar em um novo Cristovam Buarque que, na eleição anterior, recebeu o carimbo de candidato de tema único, que só falava de educação.

E o terceiro ponto, fundamental para se sustentar uma corrida presidencial, é o partido e suas alianças. Com Marina no Partido Verde, que diferença a nova casa fará na campanha? O PV não tem força nacional. É um partido nanico, sem maior representatividade, sem tempo de propaganda na televisão. Poderia se coligar com quem, se os cachorros grandes já acertaram as fatias do almoço?



O partido também não é tão verde assim. Puxa um tom de cinza. Como Marina Silva poderia explicar o passado do PV, se mal o conhece? Como justificar as ligações da legenda com gente que, se pudesse, cobriria a Amazônia com concreto ou com plantações de soja?

Marina Silva, por enquanto, é o elefante na loja de cristais. Causa estranheza, provoca arrepios nos donos do lugar, mas se trata de uma reação inicial, de curto prazo. Se ela atender às previsões de 12% nas pesquisas eleitorais, o jogo mudará. A ex-ministra passará a ser a penetra na festa, aquela que entrou sem convite, destoando no figurino e interessada em um pedaço do bolo do aniversariante. É nesse momento que o dono do Buffet, de barba e gravata, estenderá a mão para arrancar o braço. Ou chamará a tropa de choque, tão comum em tempos políticos de retórica demasiado violenta.

2 comentários:

tenshilivis disse...

post mto grande pra ler na aula então pelo menus meu blog vc ja vai ter...

Cris Eugênia disse...

uau!!!
adorei esse texto.
estou feliz por ter uma candidata que dará a chance a eleitores que ainda votam pensando em convicções e princípios, e não simplesmente para não deixar o voto em branco, por falta de opção.