quarta-feira, 5 de agosto de 2009

A liberdade de Milk



Mais do que discutir o comportamento sexual nos Estados Unidos, Milk – A Voz a Igualdade é um filme sobre liberdade. É o retrato sobre o preço que as pessoas pagam (dispostas ou não) por modificarem modos de viver e resistirem às pressões sociais de um cenário novo, hostil por parte dos que não compreendem as mudanças.

Harvey Milk foi o primeiro homossexual assumido a se eleger para um cargo público nos Estados Unidos. Ele venceu a votação para uma espécie de sub-prefeito da cidade de San Francisco, numa comparação defeituosa, na segunda metade dos anos 70.

Milk resolve, aos 40 anos, abandonar a vida burocrática e dentro do armário em Nova Iorque para buscar a si mesmo do outro lado do país. Era um período de projetos individuais e coletivos em construção, derivados dos protestos por direitos civis de várias minorias.

O filme expõe os paradoxos que fortalecem a imagem vendida pela democracia norte-americana. Ao mesmo tempo, Milk encontra espaço para se posicionar, com ressonância para suas idéias, e vivencia a violência policial, o preconceito de comerciantes e moradores com a comunidade gay.

Milk não é apenas interessante pela temática e por cutucar a complexidade de comportamentos daquela sociedade. Milk torna-se um filme importante pela linguagem, pela atuação de Sean Penn e elenco coadjuvante e, principalmente, pelos sub-temas que fortalecem o eixo principal.

O diretor Gus Van Sant e o roteirista Dustin Lance Black optaram por investir na mistura entre a dramaturgia e as imagens documentais. Como os personagens em sua maioria existiram (muitos ainda vivos!) e o caso foi amplamente documentado, Milk (o ativista na foto abaixo) está repleto de cenas do período, poéticas e violentas, que legitimam a postura dos envolvidos.



Sean Penn fez jus ao segundo Oscar de melhor ator. Sem parecer caricato, risco que papéis gays provocam, ele expõe com clareza as contradições de Harvey Milk, habilidoso no jogo de poder, frágil nas relações amorosas, pára-raio para todos os renegados das redondezas, líder carismático de uma causa e temeroso com o impacto de sua própria ascensão.

Penn, aos 49 anos, dá a impressão de que chegou à maturidade cinematográfica, seja na direção, seja na atuação. Basta observar filmes como Sobre Meninos e Lobos (que rendeu o primeiro Oscar, sob a direção de Clint Eastwood) e Na Natureza Selvagem, belos filmes de temáticas diferentes.

O elenco de apoio fortalece a figura de Milk. James Franco (Duende Macabro da franquia Homem-Aranha) é o namorado que estimula a mudança radical do personagem de Penn. Contido, discreto, como o grande amor que percebe o momento de sair de cena – ainda que contrariado - para que Milk deslanche como político.

Josh Brolin é o ex-bombeiro Dan White, sub-prefeito representante de um bairro radical, típico representante da TFP e incapaz de lidar com o sucesso de Milk e com seus compromissos e projetos políticos. Os diálogos entre os dois são repletos de sutilezas políticas e pessoais.



Outro personagem importante é Cleve Jones, interpretado por Emile Hirsch, jovem homossexual que trabalha nas campanhas eleitorais e se torna amigo de Milk. Hirsch é o mesmo ator que fez Chris McCandless em Na Natureza Selvagem.

Além do debate em torno da questão homossexual e dos choques com republicanos e outros grupos conservadores, Milk também aponta o holofote para certos comportamentos importantes da cultura norte-americana. Um exemplo é a união de grupos minoritários como consumidores em ações de guerrilha. No filme, percebe-se como a comunidade gay boicota e altera, na marra e no bolso, o posicionamento de estabelecimentos comerciais antes “seletivos”.

Embora tenha levado dois Oscars (o outro foi de roteiro original) com sete indicações, Milk – A Voz da Igualdade não fez grande carreira nas salas de cinema. Nenhuma surpresa para um filme político e cuja temática ainda desperta certa rejeição naqueles que vêem o cinema como uma produção meramente maniqueísta. Em tempos medievais, quando psicólogas prometem curar o homossexualismo em sessões “terapêuticas”, Milk se torna ainda mais necessário. Em DVD e Blue-Ray!

2 comentários:

Cravo e (+) pimenta disse...

Bom dia professor!
Fiz questão de assistir Milk por duas simples razões: 1º: é um filme político (e obviamente complexo); 2º por não ter alavancado as bilheterias.
Apesar de ter enredo um tanto lento, merece altos elogios por contar documentos que comprovam as contradições da democracia norte-americana, por enfiar o dedo numa ferida que ninguém faz questão de ver e, principalmente, pela atuação fantástica (não encontrei adjetivo melhor e não poderia deixar de comentar) do Sean Penn.
E, ao contrário do que pode se pensar sobre filmes com teor homossexual, ele nada tem de explícito e de putaria, pois mostra a igualdade, independente da opção sexual, dos conflitos amorosos.
É um filme que vale ser assistido e discutido, além de ser "obrigatório" na cinemateca e amantes da sétima arte.

Mary Hellen Botelho

Marcus Vinicius Batista disse...

Mary Hellen, obrigado pelo comentário crítico, lúdico. Assino embaixo. Abraço!!