sábado, 29 de agosto de 2009

Marina, a penetra



A política anda muito chata. Os engravatados batem boca em plenário, usam palavrões depois de Vossa Excelência e mudam de posição a cada falso alarme contra José Sarney. Não há platéia que suporte mais do mesmo filme, com final previsível e pobre nos argumentos. Um filme que está nas mãos de ferro do diretor (opa, presidente!) ex-metalúrgico.

Marina Silva, ex-ministra e hoje senadora, trouxe um pouco de vida ao debate político. Abriu o leque de teorias, atraiu novas perspectivas para a eleição presidencial. E, como aquecimento, deixou em aberto um monte de dúvidas.
Se for candidata, ela será capaz de abalar - em parte - o ar de plebiscito que caracteriza a próxima campanha? Conseguirá estimular outros nomes a se lançarem na disputa e reduzir a intensidade dos holofotes sobre PSDB e PT?

Marina era fundadora do Partido dos Trabalhadores. Com 30 anos de militância, tem o modo de agir mais idealista, simpático às causas coletivas. Mulher de partido, a chamada “companheira”, no sentido solidário, e não fisiológico do termo. E aí reside o problema. Marina não se encaixava no lulismo e muito menos no petismo atual. Ela virou uma beata marginal, que pregava no deserto depois de uma queimada devastadora.

A senadora pelo Acre era um empecilho para o projeto de governo do presidente. Travava os tais programas de desenvolvimento e levava a culpa pelas trapalhadas burocráticas de outras pastas. Em outras palavras, parecia interessada em fazer política pública com ética (uma utopia?).

Engaiolada pelos colegas, a ministra deu o primeiro passo: saiu do cargo decorativo. Meio ambiente é irrelevante para o modelo vigente. Note-se que, durante a última campanha, nenhum dos candidatos falou em questões ambientais. O assunto não é parte da agenda pública, salvo os enfeites teatrais do palavrório do momento, como sustentabilidade.

Mas Marina devolveu a frustração com estratégia. Anunciou a saída do PT no mesmo dia em que o partido enterrou a cabeça no escândalo Sarney. Na mesma data em que ficou nítido o óbvio: Lula manda prender e soltar dentro do PT. E vendeu a alma da legenda, com a mente em 2010, para várias espécies de coronéis.

Diante da festa apressada dos descontentes, é preciso considerar três pontos. O primeiro é que Marina Silva, mesmo que queira, não será a próxima presidente. Mas ela é a candidata da balança, capaz de tirar votos dos dois lados e servir de referência para determinados grupos eleitorais.

A ex-ministra daria fôlego à temática ambiental na agenda da eleição. É previsível dizer que ela colocaria em xeque o casamento progresso-devastação, idolatrado pelos defensores do desenvolvimento sem limites. O problema é que Marina poderia se transformar em um novo Cristovam Buarque que, na eleição anterior, recebeu o carimbo de candidato de tema único, que só falava de educação.

E o terceiro ponto, fundamental para se sustentar uma corrida presidencial, é o partido e suas alianças. Com Marina no Partido Verde, que diferença a nova casa fará na campanha? O PV não tem força nacional. É um partido nanico, sem maior representatividade, sem tempo de propaganda na televisão. Poderia se coligar com quem, se os cachorros grandes já acertaram as fatias do almoço?



O partido também não é tão verde assim. Puxa um tom de cinza. Como Marina Silva poderia explicar o passado do PV, se mal o conhece? Como justificar as ligações da legenda com gente que, se pudesse, cobriria a Amazônia com concreto ou com plantações de soja?

Marina Silva, por enquanto, é o elefante na loja de cristais. Causa estranheza, provoca arrepios nos donos do lugar, mas se trata de uma reação inicial, de curto prazo. Se ela atender às previsões de 12% nas pesquisas eleitorais, o jogo mudará. A ex-ministra passará a ser a penetra na festa, aquela que entrou sem convite, destoando no figurino e interessada em um pedaço do bolo do aniversariante. É nesse momento que o dono do Buffet, de barba e gravata, estenderá a mão para arrancar o braço. Ou chamará a tropa de choque, tão comum em tempos políticos de retórica demasiado violenta.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

O twitter

Outros textos meus podem ser acompanhados agora no twitter. Ali, são postadas pequenas histórias de ficção como forma de exercício. O critério é respeitar o limite de 140 caracteres por mensagem. Muitos chamam de microcontos. Para mim, é uma experiência de escrita e de exposição de ideias. Não importa a nomeclatura. Por que o nome "casadomedo"? Não sei! Talvez pese o fato de que havia acabado de assistir ao filme "Arraste-me para o inferno", do diretor Sam Raimi, e me senti inspirado a me conectar. Visite, leitor, se puder!

www.twitter.com/casadomedo

sábado, 22 de agosto de 2009

O ladrão ofendido

Texto publicado na versão impressa do jornal Boqueirão (Santos/SP)- página 2, edição número 752

Dona Teresa* é uma daquelas senhoras vistas como boa gente, educada, de fala mansa no trato diário. Trabalhar muito e ter criado três filhos sem um marido do lado (e sóbrio!) aumentou a fama dela na vizinhança, no bairro da Aparecida, em Santos.

As mãos calejadas por 35 anos de faxina, o andar mais lento e as costas curvadas registram quem ainda frequenta diariamente as chamadas casas de família. Coisas da aposentadoria minguada, diz ela.

Numa noite recente, Dona Teresa entrou trêmula na pizzaria a duas quadras do prédio onde mora. Uma das funcionárias, que a conhece de boa tarde, boa noite, percebeu que a tremedeira e a brancura da pele não eram normais para aquela mulher de 60 anos e aparência de meio século. Pediu que Dona Teresa sentasse e a uma colega que trouxesse o calmante “água com açúcar”, popular para casos inesperados.

Quando Dona Teresa abriu a boca, as palavras não tinham sentido, eram entrecortadas por um choro soluçante. A fala dela misturava uma corrente de ouro, o dinheiro da semana, prejuízos e “o que vou fazer agora?”.

Acostumada a ouvir cantadas de clientes calibrados, queixas de fregueses indigestos e protestos de motoboys, a funcionária sentiu que deveria escutar o desabafo de quem sofrera um assalto no Canal 5, a três quadras de casa e outras três da orla da praia. Dona Teresa foi roubada duas vezes, pelo mesmo ladrão, com uma diferença de 150 metros ou 30 segundos de caminhada.

No primeiro assalto, o ladrão – apressado e nervoso – pediu a corrente de ouro. Presente da filha de Dona Teresa, com o nome gravado da própria. Um talismã antes visto como símbolo de proteção e sorte. Ela, se convencendo a não reagir, deu a corrente. O ladrão agradeceu e subiu na bicicleta!

Sentindo-se novamente segura, a senhora conseguiu vomitar:

- Ladrãozinho filho da puta!

Na esquina seguinte, o rapaz a esperava. Novamente apontando a arma, pediu a bolsa, com documentos e dinheiro. Dona Teresa argumentou que já fora assaltada há pouco, sem reconhecer o ladrão. Ela pediu os documentos, pois imaginava a burocracia para tirar a papelada outra vez. Mas não conseguiu negociar os R$ 250 de cinco dias de faxina.

Novamente pedalando, o assaltante se despediu e avisou:

- Tia, deixo os papéis da senhora porque sou de paz. Mas da próxima, não xinga minha mãe. Voltei porque me xingou. A velha não tem nada a ver com o que faço na rua.

Avisada pelo telefone da pizzaria, a filha foi buscar Dona Teresa, já refeita do susto. Sabia que o dinheiro faria falta no dia seguinte, mas não tirava da cabeça o preço do palavrão, naquela noite mais alto do que a insegurança do bairro, comentada repetidamente pelos vizinhos.

* (nome ficcional)

A cura medieval

O preconceito é inerente às relações humanas. Muitos conseguem se policiar, dependendo do grau de consciência que possuem do mundo que os cerca, da percepção de coletividade e de respeito ao outro. Outros se alimentam de ideias pré-concebidas para controlar, dominar os que se fragilizaram, sem explicar quais os interesses de seu próprio comportamento.

Quando o preconceito se une à falsa promessa de mudança (ou de cura) de um indivíduo, o cheiro de charlatanismo se desenha no ambiente. Como diz uma amiga, para se curar uma doença, é necessário que ela se caracterize como tal. Caso contrário, o paciente será lesado, talvez de forma permanente.

A censura pública a uma psicóloga carioca que promete curar o homossexualismo trouxe de volta o debate sobre o impacto da religião nas práticas científicas e terapêuticas. O caso mostra como o discurso ideológico – com respaldo de fanatismo religioso – se reforça em forma de preconceito. Transformado em prática, pode se manifestar e proliferar como indiferença por aqueles que entraram em dúvida sobre si.

Ciência e religião, numa falsa aparência, não se combinariam. Por trás de uma conversa mais calorosa, ambas se complementam. Dependendo da corrente dominante e do período histórico, as duas se afastam ou voltam a flertar. Na Idade Média, muitos queimaram na fogueira e sofreram nas masmorras por expor avanços científicos que colocavam em xeque dogmas e poder religiosos.

Na modernidade, a ciência, de forma geral, evitava o diálogo com a religião. Prevalecia a idéia de que os cientistas deveriam manter distância “segura” das instituições religiosas e tampouco buscar explicações metafísicas para fenômenos ainda incompreensíveis.

A terapia psicológica não costuma se entender com doutrina religiosa. Fora o fato de que jamais promete a cura. Em casos patológicos, um terapeuta solicita apoio psiquiátrico, que recorrerá a remédios e outros procedimentos médicos.
A terapia permite que o indivíduo avalie atitudes e relacionamentos, e reflita sobre quais caminhos poderá seguir a partir do momento atual. Jamais um terapeuta pode assegurar a cura para um comportamento não-classificado (no caso, homossexualismo) como patologia, inclusive pela Organização Mundial de Saúde (OMS).

A psicóloga carioca falou, de rosto coberto, à revista Veja. Os argumentos dela são de um simplismo que beira teoria conspiratória de seriado de TV. Ela alega que sofreu censura pública porque o Conselho Federal de Psicologia está repleto de homossexuais. Aliás, compara, na entrevista, o movimento homossexual ao nazismo, pois ambos possuem intenções de “domínio econômico e político mundial”. As políticas públicas, segundo ela, pretendem eliminar pessoas e criar uma nova raça.

Muitos religiosos alegaram e ainda alegam direito e dever divinos para justificar suas maledicências e atrocidades. Basta entrar em qualquer templo de fundo de quintal ou em palácios com milhares de fiéis. O homem contemporâneo consegue adaptar, por razões múltiplas, e tirar proveito de discursos medievais, na perspectiva materialista, arcaica e nociva do termo.

A psicóloga se justifica com a religião. Vinculou-se a uma igreja protestante em 1983. Afirma que teve uma visão ao comprar um disco de Chico Buarque que, danificado em um dos lados, indicava a mensagem de Deus.

Ninguém é obrigado a simpatizar com o diferente. Ou tornar-se semelhante. A questão passa por senso coletivo, que implica em tolerância, respeito e decência nas relações humanas. HUMANAS! Qualquer coisa além abre a porta para perseguições. A história está recheada de exemplos. Basta abrir o jornal de hoje!

Recuso-me a publicar nome dela aqui. A psicóloga em questão não merece o espaço dedicado pela mídia. Ela merece o obscurantismo medieval de suas ideias, que devem ser discutidas pelas conseqüências de sua propagação.

No entanto, a psicóloga não merece ser perseguida. Tem o direito de se expressar, pelos canais que desejar. Menos interferir – pelo charlatanismo – na vida dos pacientes que acreditaram na palavra dela.

Mais do que medievais, as práticas dela são irresponsáveis diante dos danos provocados a essas pessoas e que, infelizmente, talvez não possam ser medidos em curto prazo. Por tudo, a psicóloga merece ser avaliada com respeito e justiça, por seus pares, pacientes e ex-pacientes.

O problema mais grave, porém, é que ela não está sozinha.

Observação: caso o leitor tenha curiosidade em conhecer as ideias da psicóloga-curandeira, o link da entrevista concedida à revista Veja:

http://veja.abril.uol.com.br/120809/homossexuais-podem-mudar-p-015.shtml

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Caveiras, hiperativos e viciados em celular

Não foi por falta de tentativa. A proposta é feita de tempos em tempos na sala de aula, para estudantes na faixa dos 20 anos. Proponho a eles que façam o teste: uma semana sem TV, computador e celular. A rejeição é óbvia e veloz como as conexões do último modelo de laptop. Normalmente me olham como se a proposta fosse prisão perpétua ou câmara de torturas em Guantánamo. Ou enxergam um alienígena com giz nas mãos.

Em um país com mais de 150 milhões de aparelhos celulares em circulação, parece inevitável que alcancemos um grau de dependência dessa tecnologia. 85% dos aparelhos só recebem chamadas, como a surrada piada de pai-de-santo. Aliás, a maioria deles também só pode receber ligações dos vivos. Jamais chamá-los, papel voltado aos que não estão mais entre nós!

Existem os que demonizam e os que se ajoelham, seguido do sinal da cruz, perante uma loja de operadora no Shopping Center. É preferível, diante das alternativas, o purgatório, onde se pode refletir melhor sobre o assunto, sem a serenidade absoluta do paraíso ou o fogo que incinera a alma vendida por uns créditos a mais.

O celular, como símbolo de consumo, representa status, atende a desejos de várias ordens (inclusive sexual – conversa para outro dia), exclui ou inclui o sujeito em grupos, dependendo do modelo, tamanho, marca, operadora e recursos tecnológicos do aparelho.

Não culpe a tecnologia! O problema é o que fazemos com ela. Como se lida com as mudanças rápidas nos suportes tecnológicos e de que maneira interferem na vida das pessoas?

O celular, por exemplo, serve a comunidades com dificuldades de comunicação, que podem se organizar para promover certos “eventos sociais”. O PCC, com a mordomia telefônica, planejou e executou – das celas dos presídios – uma série de ataques no Estado de São Paulo. Foi como pedir pizza sem sair de casa. Durante este parágrafo, você – leitor – pode receber uma ligação da “empresa”, onde o “atendente” te informará que algum parente seu foi falsamente seqüestrado. Basta colocar crédito no aparelho indicado pelo funcionário que tudo se resolve, caso acreditou na conversa.

A telefonia celular também mobilizou iranianos, que enfrentaram a censura do governo e conseguiram mostrar a violência contra manifestantes de oposição nas ruas da capital Teerã. A morte de uma estudante foi registrada ao vivo, num misto de morbidez e protesto político.

São casos de manifestações coletivas, mas o celular é – essencialmente – retrato de como as relações se tornaram individualizadas. Ligo para você porque desejo apenas falar contigo! O telefone fixo não possui essa vantagem. Tua sogra pode atender!
Também permite que o sujeito saia do trabalho sem jamais deixá-lo. Como se esconder do chefe ou do subordinado inseguro? Culpando o trânsito, o túnel ou o elevador?

A atração pela morte conduz o ser humano à estupidez quando exibe o brinquedinho último tipo. No Rio de Janeiro, motoristas pararam seus carros na Linha Vermelha, há alguns anos, para fotografar – com seus telefones – duas caveiras que adormeciam na capota de um veículo queimado. Os corpos, carbonizados, estavam no carro. Uma foto como lembrança, o souvenir da cidade maravilhosa!

No dia-a-dia, ter um celular pode aflorar a preguiça, a impaciência e cobrança nos relacionamentos. Telefone desligado é certeza do interlocutor ofendido, mesmo que o chato que reclama não tenha nada para dizer.

- Só queria saber se você está bem!

O celular combate o ócio e tem fins terapêuticos para algumas pessoas. Ninguém consegue ficar sem fazer nada, ainda que sonhe com a vida mansa. Depois de alguns segundos, o “paciente” apanha o aparelho e tecla sem rumo, quando não se encaixa no exemplo anterior. Liga para alguém sem ter o que falar. Manda mensagens em busca de diálogo. Qualquer um!

Se o telefone combate a falta do que fazer, pode cuidar do indivíduo hiperativo. Se fulano não fica parado, sugira que mexa no celular. Pelo menos para de se mover enquanto espera aquele que manteve o brinquedo desligado e o irritou.

A dependência dos produtos é característica das sociedades obcecadas por consumo, que cobiça novos modelos de mercadorias por vaidade, ganância, reconhecimento social ou auto-afirmação. O que resolve problemas hoje poderá nos tornar dependentes amanhã.

Ficar sem a parafernália por uma semana não nos matará. Apenas nos adaptaremos! E trocaremos por outras injeções de ânimo do mercado. Se tivermos crédito!

O protesto

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

O novo sobrenome

Resolvi que vou mudar de sobrenome. Na próxima semana, vou procurar o Poder Judiciário e entrar com o pedido formal para alteração, o que inclui o documento de identidade e, obviamente, demais registros que compõem a praga burocrática brasileira.

Tenho cinco nomes, o que eventualmente gera os tradicionais comentários sobre o tamanho do conjunto. Abreviaturas são comuns. Cansaço de quem anota, também. Mas não me incomoda aumentar a lista, pois a partir daí minha vida mudará. Seria como entrar e delirar em Alice no País da Impunidade, com direito ao chapeleiro maluco das Alagoas, com olhos faiscantes e corpo teatral, entre outros personagens caricatos.

Resolvi pedir a inclusão do sobrenome Sarney. As vantagens são inúmeras para quem não possui escrúpulos ou tem cara de pau suficiente para aceitar as regalias e negar tudo depois. Qualquer coisa! A ordem é resistir ao escândalo. Na verdade, perseguição dos outros, invejosos porque não têm a tradição do meu novo sobrenome. O clã – mais os escravos engravatados de ocasião – fariam o papel de tropa de choque contra estes adversários.

O pai de todos, José Sarney, tem 80 anos. Poderia ser meu avô. Jamais me negaria um emprego. Depois de mim, poderia assegurar uma vaga para minha namorada, mesmo que ela não tivesse competência ou formação para o cargo. Uma das netas do coronel tem um namorado-físico (aqui falo da área científica, e não de qualidades pessoais) e ele trabalha na Senadolândia. Para que o parque de diversões precisaria de um físico? Quais fenômenos poderiam ser estudados? Talvez a montanha-russa, com viradas de ponta cabeça entre os que sentam nos carrinhos do plenário.

Com sobrenome eleito por Deus do Maranhão, jamais ficaria sozinho. Bastava arrumar alguém desempregada e disposta a ganhar mais do que a maioria dos brasileiros para ser parte da mobília no Congresso Nacional. Único pré-requisito: discrição absoluta. Não se pergunta. Repete-se a palavra NÃO! Afinal, a nomeação é um ato secreto.

Adotar um novo sobrenome não seria garantia de parentesco. Não há problema. O presidente do Senado ajuda sem conhecer. Poderia até ser padrinho do meu casamento com a funcionária-fantasma que ele empregou. Mesmo com fotos e filmagem, o coronel-benfeitor juraria de pés juntos e mãos trêmulas que não me conhece e nunca esteve no evento. O juramento aconteceria na tribuna do Senado, diante dos colegas e da imprensa. Fato legitimado!

Caso tenha problemas financeiros, o novo sobrenome me poupará (palavrinha sugestiva!) de enfrentar a desconfiança e o desprezo de um gerente de banco. Terei garantido empréstimo consignado, com juros convidativos.



Engana-se quem pensa que ser zelador de uma ilha paradisíaca na Austrália, como saiu na imprensa, é o melhor emprego do mundo. Com o cargo dado pelo meu “avô-coronel”, teria moradia, passagens aéreas, alimentação, roupas e talvez até motorista. Menos ter que trabalhar! O melhor emprego do mundo fica no cerrado, em Brasília. É paradisíaco, ainda que no sentido figurado.

Adotar um sobrenome novo poderia me garantir o direito de processar quem quisesse e ganhar liminares rapidamente. Basta procurar um “conhecido” no Judiciário, de preferência que tenha freqüentado um dos muitos casamentos que meu parente-presidente apadrinha, e pedir que passe a mordaça na boca dos jornalistas. Pode até ser o meu casamento com a funcionária-fantoche.

Como os jornais ousam mencionar meu nome e sobrenome com fatos que não pode ser comprovados? Caso tenha confessado por telefone, trata-se de invasão de privacidade. Para a minha família, tudo o que é público se transforma em privado. E vice-versa, desde que a gente controle.

As vantagens são grandes. Se não der certo em Brasília, posso trabalhar em fundações no Maranhão. Se falhar também, garanto-me no Amapá. Se tudo der errado, o Governo Federal me garante. Apoios são pactos que incluem todos de mesmo sobrenome, com validade até novembro de 2010.

Pensando melhor, vou ficar com o nome que possuo desde o nascimento. Com ou sem o sobrenome Sarney, sou eu quem administra minha própria biografia. Ensinamentos do coronel. Meu pai - biológico, aliás, e sem vínculos com o Senado – já dizia que a única coisa que temos é o nome. E levar o título de Sarney para o túmulo, atualmente, é arriscar o hábito dos brasileiros de elogiar (ou evitar falar mal) do morto.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Halloween: a fraude no cinema



O filme Halloween – O Início é uma fraude. Desconheço se a produção é ruim, pois ainda não a assisti. Mas não pretendo vê-la – terror é um dos meus gêneros preferidos – nas salas de cinema. Como aceitar uma refilmagem que perdeu 26 dos 109 minutos de duração original?

Além de o filme chegar ao circuito nacional com quase dois anos de atraso, a Play Arte, distribuidora de Halloween, cortou quase meia hora da história sem explicação pública. Assassinatos ficaram mal justificados, e narrativas em OFF do psiquiatra (Malcolm McDowell – Laranja Mecânica) que atende Mike Myers (Tyle Mane – X-Men) desapareceram, entre outras alterações. O site CineClick, por exemplo, separou 11 momentos dilacerados pela edição brasileira.

A distribuidora reduziu Halloween na expectativa de faturar mais nas bilheterias, mesmo dois anos depois da produção e em tempo de downloads. A versão integral seria classificada como 18 anos pelo Ministério da Justiça. Com 26 minutos extirpados, o filme poderia ser visto por maiores de 14 anos. Falsa expectativa de mais ingressos vendidos.

Nada mais melancólico para o desfecho – sem clímax – de uma história que sacudiu o gênero terror no final dos anos 70. Halloween, de John Carpenter, é um marco entre os filmes de assassinos seriais. Eu o colocaria entre os cinco melhores da história do cinema. A genialidade de Carpenter está na capacidade de tirar o máximo do mínimo. Criar sensações no espectador a partir de poucos recursos técnicos, como a trilha de uma música só, composta de quatro notas. Cenas onde nada acontece geram apreensão na poltrona.

O filme, de 1978, como me disse certa vez um amigo, provocava medo nas salas de cinema. Fazia com que muitos evitassem ficar sozinhos depois da sessão. Na época, sessões da meia-noite. O filme transformou este tipo de trama em um sub-gênero, sendo imitado inúmeras vezes, em várias mídias.

Halloween virou franquia. São oito filmes, sem contar a refilmagem em cartaz. O número 2 ainda tinha o dedo de Carpenter na produção e dava sequência à loucura por sangue de Mike Myers, obcecado pela irmã, papel que tornou Jamie Lee Curtis conhecida. Depois, apenas filmes com roteiro para adolescentes, que privilegiavam modelos sendo mortas aos gritos histéricos, com sustos previsíveis.

A versão do momento foi dirigida e escrita por Rob Zombie (foto abaixo), cineasta conhecido do gênero. Ele dirigiu, por exemplo, a “Casa dos 1000 corpos”.



A proposta de Halloween – O Início é contar a infância de Myers, tentando explicar porque ele se tornou um assassino em série. Mostra Myers aos 10 anos, cometendo as primeiras atrocidades, o período de 17 anos em um hospital psiquiátrico e a fuga com posterior caça às vítimas.

Myers é ironicamente um moralista, que mata casais que fazem sexo antes do casamento. O motivo seria a mãe, que trabalhava como stripper, e o pai ausente. Tudo bem! Explicação simplória demais, mas quem deseja profundidade freudiana em um filme que serve apenas para assustar o espectador? O original, de Carpenter, não se arrisca na psicologia de banheiro.



A refilmagem apanhou da crítica, vazou na Internet antes de chegar aos cinemas americanos, mas rendeu – nos EUA – quatro vezes o orçamento de US$ 15 milhões.

No Brasil, Halloween – O Início é um típico caso de PROCON. Propaganda enganosa contra o espectador, que deveria ter o dinheiro do ingresso de volta. E não vale se queixar do critério qualidade.

A UNE passaria de ano?



A caminhada de centenas de pessoas lembra os tempos de rebeldia, de causas profundas, do sonho que mudar o mundo. As faixas e cartazes trazem impressas palavras pesadas, de indignação, de sangria contra questões que teimam em perdurar na agenda nacional. À primeira vista, estudantes em marcha nas ruas representam a busca por um espírito coletivo, com a pulsação do idealismo, a transpiração pela mudança, a desconfiança com o poder vigente. São estudantes que – historicamente – sempre carregaram junto de si a aura (ou a pecha) de questionadores, dispostos a dar a última palavra ou refletir sobre o contexto de hoje, de ontem.

As imagens de uma passeata em Brasília, durante o Congresso da União Nacional dos Estudantes, quase nos enganaram. Provocaram certa nostalgia por períodos de politização crítica, de luta por independência social, cultural. Mas a velha entidade se deitou com quem mais rejeitava. Agarrou-se aos tostões e aos privilégios dos engravatados. Flertou e resolveu manter relacionamento sólido com os que deveriam roer as unhas de temor pela exposição pública. De temor pelos gritos de protesto. Gritos hoje de ovação. De concordância!

A UNE se ajoelhou ao adversário! Propagou que Luiz Inácio Lula da Silva foi o primeiro presidente a comparecer a um congresso da entidade em 72 anos de trajetória. Mas ele não foi sabatinado como representante de grupos no poder. Foi tratado com benevolência, para não dizer reverência. Afinal, estava pagando, como diz o bordão de uma personagem de programa humorístico na TV.

A idade expôs as rugas do movimento estudantil e o fracasso de vender ares de rejuvenescimento em tempos do Deus-mercado. Partidos políticos inocularam o vírus da mosca azul nas lideranças, que causa insanidade pelo poder e se traduz em acordos políticos para benefício da casta mais elevada. Como exigir crítica politizada de uma instituição que recebeu R$ 100 mil da Petrobras para organizar o congresso anual? Como cobrar transparência e independência de uma entidade que recebeu R$ 2,5 milhões este ano em verbas do Governo Lula? Como pedir distanciamento da corte palaciana se, dos cinco ex-presidentes da UNE, quatro têm cargos no Governo, um deles ministro?

O novo presidente da UNE, Augusto Chagas, de 27 anos, não exala cheiro de mudança. Ele disse em entrevista à Folha de S. Paulo que considera legítimo o financiamento com dinheiro federal e que isso não afetaria a pauta de reivindicações da entidade. Estudante da USP, Chagas é o décimo presidente seguido ligado ao PC do B. Como metas de trabalho, a reforma universitária (enviada pelo Governo ao Congresso Nacional), regulamentar a meia-entrada dos estudantes e a construção da sede no Rio de Janeiro, com projeto orçado em R$ 30 milhões. Nenhuma meta que sirva de contraponto aos programas federais ou aos rumos da política do Palácio do Planalto?



Pela postura apresentada, a UNE – aos 70 - não condiz com a imagem de juventude. Envelhecido, o estudante-institucional marcha em paz, com dinheiro no bolso e urticária a choques com o poder. Poderia se lembrar das borrachadas, dos coturnos ou do risco de passar um tempo preso? Espero que se recorde que um dia pintou o rosto para questionar as sujeiras de um presidente jet-ski.

É claro que, em Brasília, havia faixas pedindo a cabeça do coronel do Maranhão e que muitos estudantes vivem idealismo e têm sede de decência. Mas soou irônico para a instituição que se abraçou ao presidente defensor do senador-coronel e suas práticas de arranjos empregatícios. Como explicar o conflito de interesses da UNE? Não seria moralmente discutível protestar contra a CPI da Petrobrás com o discurso modelo “O Petróleo é nosso!” depois de engordar o caixa?

Àqueles que marcharam por Brasília, a torcida pela desconfiança contra seus líderes. Àqueles que fazem política estudantil sem vínculos partidários ou fisiológicos, a torcida pelo cultivo do espírito libertário. Àqueles que ignoram as costuras políticas, a torcida pela abertura de uma janela para observar como lideranças podem demolir uma história em nome alheio.

A velhice aos 72 anos não é uma fase inevitável de apodrecimento das juntas e dos ossos. Da mesma forma, ser amigo do rei não significa a desilusão pela experiência, mas a escolha pelo caminho mais promíscuo com destino à irrelevância política.

A liberdade de Milk



Mais do que discutir o comportamento sexual nos Estados Unidos, Milk – A Voz a Igualdade é um filme sobre liberdade. É o retrato sobre o preço que as pessoas pagam (dispostas ou não) por modificarem modos de viver e resistirem às pressões sociais de um cenário novo, hostil por parte dos que não compreendem as mudanças.

Harvey Milk foi o primeiro homossexual assumido a se eleger para um cargo público nos Estados Unidos. Ele venceu a votação para uma espécie de sub-prefeito da cidade de San Francisco, numa comparação defeituosa, na segunda metade dos anos 70.

Milk resolve, aos 40 anos, abandonar a vida burocrática e dentro do armário em Nova Iorque para buscar a si mesmo do outro lado do país. Era um período de projetos individuais e coletivos em construção, derivados dos protestos por direitos civis de várias minorias.

O filme expõe os paradoxos que fortalecem a imagem vendida pela democracia norte-americana. Ao mesmo tempo, Milk encontra espaço para se posicionar, com ressonância para suas idéias, e vivencia a violência policial, o preconceito de comerciantes e moradores com a comunidade gay.

Milk não é apenas interessante pela temática e por cutucar a complexidade de comportamentos daquela sociedade. Milk torna-se um filme importante pela linguagem, pela atuação de Sean Penn e elenco coadjuvante e, principalmente, pelos sub-temas que fortalecem o eixo principal.

O diretor Gus Van Sant e o roteirista Dustin Lance Black optaram por investir na mistura entre a dramaturgia e as imagens documentais. Como os personagens em sua maioria existiram (muitos ainda vivos!) e o caso foi amplamente documentado, Milk (o ativista na foto abaixo) está repleto de cenas do período, poéticas e violentas, que legitimam a postura dos envolvidos.



Sean Penn fez jus ao segundo Oscar de melhor ator. Sem parecer caricato, risco que papéis gays provocam, ele expõe com clareza as contradições de Harvey Milk, habilidoso no jogo de poder, frágil nas relações amorosas, pára-raio para todos os renegados das redondezas, líder carismático de uma causa e temeroso com o impacto de sua própria ascensão.

Penn, aos 49 anos, dá a impressão de que chegou à maturidade cinematográfica, seja na direção, seja na atuação. Basta observar filmes como Sobre Meninos e Lobos (que rendeu o primeiro Oscar, sob a direção de Clint Eastwood) e Na Natureza Selvagem, belos filmes de temáticas diferentes.

O elenco de apoio fortalece a figura de Milk. James Franco (Duende Macabro da franquia Homem-Aranha) é o namorado que estimula a mudança radical do personagem de Penn. Contido, discreto, como o grande amor que percebe o momento de sair de cena – ainda que contrariado - para que Milk deslanche como político.

Josh Brolin é o ex-bombeiro Dan White, sub-prefeito representante de um bairro radical, típico representante da TFP e incapaz de lidar com o sucesso de Milk e com seus compromissos e projetos políticos. Os diálogos entre os dois são repletos de sutilezas políticas e pessoais.



Outro personagem importante é Cleve Jones, interpretado por Emile Hirsch, jovem homossexual que trabalha nas campanhas eleitorais e se torna amigo de Milk. Hirsch é o mesmo ator que fez Chris McCandless em Na Natureza Selvagem.

Além do debate em torno da questão homossexual e dos choques com republicanos e outros grupos conservadores, Milk também aponta o holofote para certos comportamentos importantes da cultura norte-americana. Um exemplo é a união de grupos minoritários como consumidores em ações de guerrilha. No filme, percebe-se como a comunidade gay boicota e altera, na marra e no bolso, o posicionamento de estabelecimentos comerciais antes “seletivos”.

Embora tenha levado dois Oscars (o outro foi de roteiro original) com sete indicações, Milk – A Voz da Igualdade não fez grande carreira nas salas de cinema. Nenhuma surpresa para um filme político e cuja temática ainda desperta certa rejeição naqueles que vêem o cinema como uma produção meramente maniqueísta. Em tempos medievais, quando psicólogas prometem curar o homossexualismo em sessões “terapêuticas”, Milk se torna ainda mais necessário. Em DVD e Blue-Ray!