quinta-feira, 30 de julho de 2009

O doutor esquizofrenia




Perdi o hábito de assistir às novelas. Duvido que tive algum dia, se considerarmos que meia dúzia de histórias acompanhadas com afinco são insuficientes para garantir o título de fã. As histórias são normalmente redundantes, parecidas. Confirmam a máxima que minha avó repetia, no alto da sabedoria popular.

- Basta ver o primeiro e o último capítulos que você entende tudo!

Já tentei assistir a alguns trechos de “Caminhos das Índias”, a novela do antigo horário das oito (termo de todos as avós). Não vou me justificar com argumentos do tipo “estava passando pela sala” ou “quando mudava de canal”. O jeito concentrado derivou da impressão de que brasileiros vestidos de indianos soariam um tanto caricatos, além da irritação causada pelas expressões do idioma hindu que começam a aparecer nos elevadores, ônibus, botecos, padarias e demais locais onde se joga conversa fora, sem precisar saber o nome do nosso companheiro de papo.

Mais do que minhas teses confirmadas, dois personagens me interessaram pela ligação entre ambos e, principalmente, pela temática que os move: doutor Castanho, interpretado por Stenio Garcia, de 76 anos, e um de seus pacientes, Tarso, vivido por Bruno Gagliasso, quase meio século mais jovem.

As novelas brasileiras, às vezes, são eficientes, dentro das limitações da ficção, em abordar temas que o jornalismo o faz de maneira enviesada ou superficial e outras linguagens de entretenimento, afundadas no preconceito. É claro que as novelas também reforçam estigmas e distorcem valores culturais. É o caso do próprio núcleo indiano, com seus cacoetes, vícios e superficialidade narrativos. Mas pode se redimir, pelo menos em personagens coadjuvantes.

Doutor Castanho, psiquiatra fora dos padrões, ilumina o debate sobre os programas de saúde mental no Brasil. Em entrevista recente ao portal Uol, Stenio Garcia explicou que a composição do doutor Castanho foi influenciada pelo método da médica Nise da Silveira, que utilizava arte para que os pacientes pudessem expressar seus medos, desejos, sonhos, com mudanças eficazes no comportamento deles. O ator frequentou o Instituto que leva o nome dela, em Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro, além de conversar com médicos, assistir a uma dúzia de filmes e ler seis livros sobre loucura.

A relação de Stenio com outros personagens, tanto do núcleo pobre como dos endinheirados da trama, é uma tentativa de reduzir a imagem em torno dos pacientes psiquiátricos no Brasil. Hoje, ainda prevalece o carimbo de que são loucos, e por isso, devem ser despejados em depósitos humanos o mais longe possível. O filme “O Bicho de Sete Cabeças”, com Rodrigo Santoro, nunca foi tão contemporâneo.

Doutor Castanho não enxerga seus pacientes como cobaias de laboratório ou como escoadouros de medicamentos. Gente que precisaria de “sossega leão” para não incomodar. Castanho os humaniza, busca inserí-los socialmente, dentro e fora da clínica onde atende. Ele simboliza um grupo que percebe o tratamento psiquiátrico como uma extensão da rotina de alguém que não se encaixa à revelia de si mesmo. Alguém que necessita de apoio, não somente médico, mas de pessoas próximas, de sua confiança, para amenizar os danos que uma doença ocasiona.



Aí entra o personagem Tarso, de Bruno Gagliasso. A interpretação dele incomoda pela qualidade e gera, simultaneamente, curiosidade. Gera certo desconforto, traduzido na linguagem corporal e na fala repetitiva, obsessiva, paranóica. Realmente é complicado para muitos acreditarem que o indivíduo alucina quando tem manifestações esquizofrênicas. Sem esta crença, a possibilidade de tratamento se reduz.

A autora da novela, Gloria Perez, têm o mérito de evitar certos rótulos sobre a esquizofrenia e focalizar a universalidade do problema, por vezes associado a questões socio-econômicas. Persiste a ótica medieval de que louco é pobre. Rico não enlouquece, torna-se excêntrico.

A relação entre o personagem de Gagliasso e a mãe fútil (Christiane Torloni) é outro ponto da trama que pode auxiliar na modificação da imagem dos pacientes e na visão sobre a esquizofrenia. Até porque a semelhança com o núcleo pobre da novela (Sidney Santiago faz Ademir, também portador) aponta para o óbvio: a gravidade da doença (ou a existência dela) não se mede pelo que se tem na carteira. A diferença aparece nas condições de tratamento e, neste aspecto, a novela se mantém peça ficcional.

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