quarta-feira, 22 de julho de 2009

A fita preta para a moça portuguesa

Acordei no domingo pela manhã bastante preocupado. Na verdade, sentia-me impotente, paralisado diante da doença dela. Estar apaixonado serviu apenas para aumentar minha angústia, pois sabia que o futuro daquela garota dependia de um milagre. O esforço e a disciplina dela no tratamento contariam muito, mas insuficientes diante de um mal prolongado.

Não desejava parecer pessimista. Acreditava que entrar em coma induzido atenuaria uma morte evidente. Não era exercício de morbidez, mas a doença sinalizava como terminal. Não precisava ser especialista para notar que o tumor se alastrava por várias partes do organismo. Uma dor prolongada, detectada em 2006, quando a moça deixou de freqüentar as rodinhas de elite; fato do qual jamais se recuperou.

A decisão médica dependia da dose extra do remédio. Foram duas vitórias nas duas semanas anteriores, o que alimentava a esperança. A aplicação desta vez seria em casa, entre a Santa Casa de Santos, fundada por um português, e a Beneficência Portuguesa, tradicional representante da colônia. Nada mais sugestivo.

O futuro da moça portuguesa não era apenas uma questão do medicamento a ser ministrado. As sucessivas vitórias não significavam uma alteração no quadro. Ela dependia de um parecer de Catanduva. Pode? Um resultado vindo de Catanduva, cidade onde meu amor não punha os pés há anos, seria como tiro na cabeça. De qualquer jeito, ela vai viajar para lá, mas a jornada poderia ser inútil. Agora sei que não servirá para coisa alguma. Apenas um destino protocolar, cristalizado no último domingo.

Minha história com a moça portuguesa começou em 1987, quando tinha 13 anos. Os menos avisados podem achar que ter avós portugueses me aproximou dela. Nunca me lembrei deles quando estávamos perto um do outro. Fui trabalhar como voluntário – pela idade, não poderia ser contratado nem receber salário – na casa da família.

Fiquei por três anos e meio. Jamais faltava e cumpria uma rotina espartana três, quatro vezes por semana. Era o primeiro a entrar e o último a sair. Cheguei a trabalhar com alergia pelo corpo todo depois de ser cair exausto em cima de um formigueiro após uma tarde de excesso de calor. Isso sem contar as viagens nos finais de semana para outras cidades do litoral e interior.

Quando a família me mandou embora, aos 16 anos, tive a maior decepção da adolescência. O tempo mostrou que eles tinham razão. Eu não servia a longo prazo. A saída também realimentou – num certo tom masoquista – o amor que sentia pela moça.

Em 2001, nós nos reencontramos na casa dela. Seu Ulrico Mursa pulou de alegria naquela tarde, também de domingo. A moça estava linda. Atrapalhava-se um pouco, mas dançou o suficiente no carpete verde (com alguns buracos para os inimigos tropeçarem) para ser aceita depois de mais de 20 anos na elite do Estado.

Dois anos depois, a portuguesinha surpreendeu a todos e foi convidada – por méritos próprios – a mostrar sua arte em São Paulo, para a elite do Morumbi. Ainda não estava pronta para concorrer com as grandes modelos, mas ficou entre as quatro melhores do Estado. O resultado rendeu prestígio, dinheiro, algum poder. Apareceu até na TV!

Meu saudosismo é inútil. A casa exala decadência, administrada por um padrasto fraco. Os funcionários – com exceção do último, que conhece o endereço como poucos – eram aventureiros. Reduziram o patrimônio a paredes de concreto gasto.
Eu ainda amo aquela moça. Fisicamente idosa, humilhada na vizinhança, exposta a uma doença quase incurável. Quem ama, tem esperança. Dói como agulhas nos olhos pensar que a Portuguesa Santista estará na terceira divisão do Campeonato Paulista.

Esta moça em coma induzido me obriga a chorar ao lado da cama de hospital. Cheiramos a morte, mas a enxotamos com amor. Sentimos o ar carregado pelo suor de uma moribunda, mas o combatemos com esperança.

Hoje, não nego mais a fraqueza dela. Ponho a fita preta no braço, não para antecipar o fim, mas como luto pelo capítulo manchado de vergonha. A hora é de expurgar os tumores, costurar os pontos de sangue e deixar a moça portuguesa pulsante – bela ou não – como aquela por quem me apaixonei.

2 comentários:

Gabriella Moura disse...

Nossa, a comparação, o texto, tudo ... é lindo e emocionante...Parabéns. Até hoje só fui em um jogo de futebol, que coincidentemente foi POrtuguesa e São Paulo, em 2005, faz muito tempo...Parabéns

Marcus Vinicius disse...

Gabriella,
Tudo bem? Obrigado pelo comentário. Quando o jogo de futebol não está associado à selvageria de uma minoria de torcedores profissionais, torna-se uma experiência fantástica de catarse coletiva. Volte ao estádio se puder. Abraço, Marcus Vinicius.