sexta-feira, 3 de abril de 2009

Vestibular para quê?

O Ministério da Educação resolveu mexer em um vespeiro. Ainda como proposta, o Ministério estuda a unificação do vestibular para as 55 universidades federais brasileiras. A ideia seria criar uma listagem única, que permitiria ao estudante escolher onde frequentar o ensino superior, dependendo do número de vagas e cursos disponíveis.

Outra proposta do governo seria extinguir o vestibular das instituições federais e estabelecer a listagem dos candidatos a partir do desempenho deles no Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM). É claro que, se o estudo virar ação política concreta e houver ressonância positiva, o Ministério poderia debater também a unificação de todos os vestibulares de instituições estaduais.

Em primeiro lugar, se o Ministério da Educação mantiver o ritmo de suas atitudes a respeito do ensino superior, este governo acabará antes que qualquer modificação seja posta em prática. Mas o que interessa é como o Governo Federal pretende rediscutir o papel no vestibular e sua relação com o Ensino Médio.

Para que serve o vestibular atualmente? É ainda ritual de passagem? Tem como papel avaliar os conhecimentos adquiridos pelo aluno durante os três anos do Ensino Médio? É o final da linha de um processo industrial que alimenta escolas caríssimas e cursinhos pelo país afora?

Salvo exceções, vestibular vale como mecanismo de avaliação somente nas universidades públicas, com algumas exceções privadas. Nas demais instituições particulares, virou apenas uma prova pró-forma (ou várias delas), cujas aberrações se materializam em estudantes aprovados com desempenhos patéticos ou notas zeradas em diversas disciplinas. Bastou somente assinar o nome e provar que segue respirando, a matrícula se encontra à disposição.

Na outra ponta da corda, milhares de alunos – e suas famílias – investem somas astronômicas, com valores mensais superiores àqueles cobrados por universidades particulares. Neste sentido, o sistema de ensino – em caráter tradicional – por vezes encara o estudante como caixa depositária de conteúdos sem maior serventia ou desconectado com o mundo que o cerca.

Capacidade de análise e interpretação – o velho contexto – soa como abstração absoluta. Não é à toa que são necessárias musiquinhas ou paródias para, além de animar o auditório, fazer com os alunos memorizem uma carga de fórmulas, equações e outros conceitos. O destino de tais informações: nascer para morrer nos cantos mais obscuros da memória.

O que me parece mais urgente não é o Ministério da Educação abrir a porta para unificar o vestibular ou substituí-lo pelo ENEM, que seria descaracterizado como instrumento de avaliação. Mais uma vez, o Ministério queima etapas e se esquece da importância de se analisar os rumos tomados pelo Ensino Médio no país. Nas escolas públicas, por exemplo, é extremamente comum – visto por muitos inclusive como natural – os estudantes passarem os três anos sem aulas de Matemática, Física ou História.

Outras disciplinas, como Filosofia e Sociologia, que poderiam fomentar o espírito crítico em sala de aula (aliás, deveria ser papel da escola como um todo), servem como tapa-buracos de final de expediente, quando não desconectadas do restante das atividades. Isso sem falar nos docentes que ensinam História da Filosofia e História da Sociologia em vez de focalizar estas áreas do conhecimento.

Neste sentido, o governo atual repete – a sua maneira – os erros da gestão anterior, que pouco investiu no Ensino Médio, alegando liberdade aos Estados pelo discurso da descentralização. É fundamental repensar a função e até a existência do vestibular (ou processo seletivo, em tempos de nomes mais “bonitinhos”), mas se não houver reflexão sobre a estrutura no Ensino Médio, teremos apenas uma mudança de procedimento, com os efeitos nefastos de sempre.

6 comentários:

Loner disse...

É, o tempo passa, e mais ficamos acomodados nesses sistemas falhos... pra que mexer em time que está ganhando, não é mesmo?

Anônimo disse...

Falou e disse...eu bem sei o descaso do ensino público...No terceiro ano, eu fui ter professor de história em agosto.

Daniel Brandão disse...

Acredito que o Vestibular para escolas públicas deveria ser extinto. Para que ele serve afinal? O que deveria servir de avaliação é a conta bancária do Pai, pois este investiu muito em cursinhos pré-vestibulares tirando a vaga de quem não tem condições de pagar uma faculdade, deixando-a para alunos filhos de papai e muitos irresponsáveis, fazendo trotes como os que nós vimos no começo do semestre, violentos, etc.
Mas não acredito que a culpa seja do governo, pelo contrario, a culpa é nossa que não fazemos nada para mudar. Culpa não é do Lula, não é do Fernando Henrique, Não é do Collor, muito menos do Sarney... Culpa é nossa que deixamos morrer nosso direito de protestar, nos acomodamos sentados com o rabo aparafusado no sofa e um controle remoto na mão que não para nem se quer num canal... Apenas mudando e assistindo 5 canais diferentes e ao mesmo tempo.

Anônimo disse...

Acho o sistema de vestibular injusto. É uma forma de discriminação social também, pois o aluno mais preparado é aquele que investiu financeiramente em cursos prepatórios ou fez o ensino médio em escolas de ponta. É claro que quem faz a escola é o aluno, e existe casos de alunos de rede pública que conseguem passar nas universidades públicas. Mas se verificarmos a escola pública tem destaque porque foi uma escola modelo ( li isso em algum lugar).
Tive amigos que fizeram três anos de cursinho para entrar nas universidades públicas. MAs tive um amigo, o Raul*, que depois de ficar cinco anos estudando, tentando passar em medicina,desistiu do sistema de avaliação brasileira, e foi estudar medicina na Argentina.
É meio triste, porque depois que você se prepara e passa, tod a matéria que se aprende, física, quimica, geometria, não serão mais usadas e talvez esquecidas.

Marcus Vinicius disse...

loner e daniel,

agradeço pelo comentário de vocês. concordo com muitos dos argumentos colocados. mas o importante é que o sistema de vestibular deve ser realmente repensado, pois não cumpre nenhum dos objetivos propostos, pelo ponto de vista pedagógico. grande abraço.

Paulo disse...

Esse projeto de implantar o Vestibular Unificado, vai facilitar muito para aqueles estudantes que moram longe das grandes instituições.