sexta-feira, 3 de abril de 2009

O guarda-tempo

Ao entrar no prédio de minha tia, ele me faz recordar daquele filme do Bill Murray, “Feitiço do Tempo”, história de um repórter que vai cobrir a Festa da Marmota e todos os dias dele se tornam idênticos. No caso de Regis, é aguardar sempre pelo mesmo comentário, variável somente conforme o clima.

– Que chuva hoje!

- O sol está abrindo! Vai fazer calor!

- O tempinho esfriou, hein?

Depois da aposentadoria por questões de saúde, a vida de Regis se estabilizou. Parou no mesmo lugar. Está paralisada no pátio daquele edifício de três andares. É lá que Regis passa a maior parte do dia, conversando com vizinhos, conhecendo visitantes, espanando os carros dos moradores, atiçando as crianças, cuidando do próprio neto.

Regis tem cerca de 60 anos. Não se sente velho, mas a calvície e o cansaço físico denunciam um sujeito que não prefere maiores esforços para sair do prédio. O máximo é o supermercado – tarefa normalmente delegada à esposa – ou o bar da esquina, onde puxa conversa com os pinguços de plantão.

Regis não bebe mais. Também abandonou o cigarro. O médico colocou medo nele. Disse que morreria, que ficaria travado numa cama. Foi o suficiente para que hábitos mudassem. Não pegou em um cigarro novamente, mesmo nos períodos mais turbulentos da abstinência.

A dificuldade foi com a cerveja. Regis era conhecido pelos porres, daqueles de cair na calçada. Também era conhecido pela mão aberta. Rodeado de amigos de ocasião (e de copo!), ele torrou parte do dinheiro do carro vendido, fora a aposentadoria. O medo de morrer (e talvez a vergonha) fez com que parasse de beber e apenas freqüentasse o bar eventualmente, muitas vezes limitado à porta do honroso estabelecimento.

O carro de Regis, aliás, era um símbolo de sua rotina. Era um daqueles Gols de frente quadrada, com menos de 20 mil quilômetros rodados. A baixa rodagem atraía curiosos e demais entendidos (ou metidos!) de automóveis. O Gol quase não saía da garagem. Estava sempre limpo, de tanque cheio. O espanador na lataria era religioso: todos os dias. O orgulho de Regis era se ver no brilho da carroceria.

Sair com o carro significava outra história. No máximo, o veículo seguia até a Zona Noroeste de Santos, do outro lado da cidade. Uma vez, viajou – expedição vista como memorável – a Bertioga, cidade a 45 minutos de distância.

A vida de Regis representava pauta para comentários da vizinhança (ou para textos como este!). A questão era que a opção de vida dele se transformava em telhados para pedras. Outros com rotina semelhante adoravam criticá-lo; por sinal, no mesmo pátio do prédio onde ele costuma ficar todos os dias.

A impressão é que o jeito pacato e solícito de Regis permite este tipo de comentário. Ele talvez viva como desejou, aquela idéia de paz na aposentadoria, sem grandes responsabilidades ou preocupações, vida capaz de possibilitar que um relógio seja jogado no lixo ou que não seja necessário possuir um celular e verificar o funcionamento dele a cada cinco minutos.

Regis exibe uma pureza digna de crianças. Não se incomoda do lugar onde se encontra. Vê vantagens nisso, valoriza o que os visitantes ou passantes podem oferecer de interessante, principalmente histórias. O tempo, que gera a sensação de falta de importância, é o alimento desta relação com os que o rodeiam.

Outro dia, ao entrar no prédio, senti uma diferença. O que poderia ser banal me causou incômodo. Passei por Regis e ele apenas me cumprimentou. Não comentou sobre o clima – calor de rachar -, pois atendia dois funcionários de uma empresa desentupidora.
Ele virou sub-síndico. Esta nova função – imposta e ao mesmo tempo desejada – toma muito seu tempo. É obrigado a permanecer no pátio do prédio, agora sem escolha.

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