sábado, 18 de abril de 2009

Livre para estar preso

Como regra de convivência hoje, as pessoas têm que parecer felizes. A transpiração de felicidade garante ao sujeito, seja na escola, no trabalho, na religião, no shopping center, a sensação de liberdade. O país é democrático, onde todos são livres para fazer o que quiserem, com direitos e deveres.

No Brasil, 40 crianças indicam como a liberdade é frágil como pregação ou argumento, desconhecido por aqueles que costumam ser vistos como gado em currais. No Paraná, estas crianças, de cinco a sete anos, estudam dentro uma cadeia. Os alunos estão em regime semi-aberto escolar desde agosto do ano passado. Até prova em contrário, eles ainda podem ir para casa ao final das atividades.

Os estudantes moram na zona rural de São Pedro do Iguaçu, no oeste do Estado. A escola foi destruída por um vendaval, segundo reportagem de José Maschio, da Folha de S. Paulo. O governo – promessa de decisão provisória - alojou as crianças em uma delegacia desativada. Outros 295 alunos têm aulas em creches e em um salão paroquial.

Para reduzir o medo das crianças, as professoras “decoraram” as grades da cela com cortinas. Em dia de chuva, as infiltrações não permitem a realização das aulas. A Secretaria de Educação da cidade explicou ao jornal que tem esperança de que a construção de uma nova escola comece este mês.

No universo educacional, a escola é definida como o primeiro local onde a criança pode viver e reproduzir publicamente a idéia de democracia. No pedagoguês das políticas públicas, a escola está aberta a todos, pois se trata de uma instituição cujo papel é praticar a inclusão social.

Ironicamente, o Estado do Paraná transformou o simbólico em literal. Escolas são prisões disfarçadas. Guardas nas portas, muros altos, grades e portões trancados, muitas unidades com câmeras, horários para todas as atividades, castigos para aqueles que são vistos como indisciplinados.

Os gestores – palavra da moda no pedagoguês – com jeito e cheiro de autoritarismo compõem o cenário em parte das instituições. Os familiares e pais dos “alunos-detentos” não têm voz ativa – ou participam do jogo-de-cena – e só podem visitar as dependências prisionais com hora marcada.

As prisões escolares só mudam de endereço pelo Brasil. Em São Paulo, por exemplo, ainda existem escolas de lata. Salas de aula que um dia foram contêineres. Como aprender liberdade se o ambiente é a sombra da detenção? Como vomitar democracia se a própria escola se alimenta de ingredientes repressores?

Quando instalaram cortinas na cela, as professoras paranaenses deixaram a impressão de que olharam para um ponto importante: crianças, à maneira delas, percebem quando são tratadas como animais. Cortinas ou contêineres – ou as prisões - servem para proteger o aluno de quem? Do mundo? Do sistema escolar? Da vergonha de si mesmo? Da liberdade utópica?

Sem regalias por bom comportamento, as 40 crianças cumprem há oito meses pena pelo crime de irrelevância social, enquanto a rede de ensino do Paraná confirma a teoria de que as prisões devem ter função educacional.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

O guarda-tempo

Ao entrar no prédio de minha tia, ele me faz recordar daquele filme do Bill Murray, “Feitiço do Tempo”, história de um repórter que vai cobrir a Festa da Marmota e todos os dias dele se tornam idênticos. No caso de Regis, é aguardar sempre pelo mesmo comentário, variável somente conforme o clima.

– Que chuva hoje!

- O sol está abrindo! Vai fazer calor!

- O tempinho esfriou, hein?

Depois da aposentadoria por questões de saúde, a vida de Regis se estabilizou. Parou no mesmo lugar. Está paralisada no pátio daquele edifício de três andares. É lá que Regis passa a maior parte do dia, conversando com vizinhos, conhecendo visitantes, espanando os carros dos moradores, atiçando as crianças, cuidando do próprio neto.

Regis tem cerca de 60 anos. Não se sente velho, mas a calvície e o cansaço físico denunciam um sujeito que não prefere maiores esforços para sair do prédio. O máximo é o supermercado – tarefa normalmente delegada à esposa – ou o bar da esquina, onde puxa conversa com os pinguços de plantão.

Regis não bebe mais. Também abandonou o cigarro. O médico colocou medo nele. Disse que morreria, que ficaria travado numa cama. Foi o suficiente para que hábitos mudassem. Não pegou em um cigarro novamente, mesmo nos períodos mais turbulentos da abstinência.

A dificuldade foi com a cerveja. Regis era conhecido pelos porres, daqueles de cair na calçada. Também era conhecido pela mão aberta. Rodeado de amigos de ocasião (e de copo!), ele torrou parte do dinheiro do carro vendido, fora a aposentadoria. O medo de morrer (e talvez a vergonha) fez com que parasse de beber e apenas freqüentasse o bar eventualmente, muitas vezes limitado à porta do honroso estabelecimento.

O carro de Regis, aliás, era um símbolo de sua rotina. Era um daqueles Gols de frente quadrada, com menos de 20 mil quilômetros rodados. A baixa rodagem atraía curiosos e demais entendidos (ou metidos!) de automóveis. O Gol quase não saía da garagem. Estava sempre limpo, de tanque cheio. O espanador na lataria era religioso: todos os dias. O orgulho de Regis era se ver no brilho da carroceria.

Sair com o carro significava outra história. No máximo, o veículo seguia até a Zona Noroeste de Santos, do outro lado da cidade. Uma vez, viajou – expedição vista como memorável – a Bertioga, cidade a 45 minutos de distância.

A vida de Regis representava pauta para comentários da vizinhança (ou para textos como este!). A questão era que a opção de vida dele se transformava em telhados para pedras. Outros com rotina semelhante adoravam criticá-lo; por sinal, no mesmo pátio do prédio onde ele costuma ficar todos os dias.

A impressão é que o jeito pacato e solícito de Regis permite este tipo de comentário. Ele talvez viva como desejou, aquela idéia de paz na aposentadoria, sem grandes responsabilidades ou preocupações, vida capaz de possibilitar que um relógio seja jogado no lixo ou que não seja necessário possuir um celular e verificar o funcionamento dele a cada cinco minutos.

Regis exibe uma pureza digna de crianças. Não se incomoda do lugar onde se encontra. Vê vantagens nisso, valoriza o que os visitantes ou passantes podem oferecer de interessante, principalmente histórias. O tempo, que gera a sensação de falta de importância, é o alimento desta relação com os que o rodeiam.

Outro dia, ao entrar no prédio, senti uma diferença. O que poderia ser banal me causou incômodo. Passei por Regis e ele apenas me cumprimentou. Não comentou sobre o clima – calor de rachar -, pois atendia dois funcionários de uma empresa desentupidora.
Ele virou sub-síndico. Esta nova função – imposta e ao mesmo tempo desejada – toma muito seu tempo. É obrigado a permanecer no pátio do prédio, agora sem escolha.

Vestibular para quê?

O Ministério da Educação resolveu mexer em um vespeiro. Ainda como proposta, o Ministério estuda a unificação do vestibular para as 55 universidades federais brasileiras. A ideia seria criar uma listagem única, que permitiria ao estudante escolher onde frequentar o ensino superior, dependendo do número de vagas e cursos disponíveis.

Outra proposta do governo seria extinguir o vestibular das instituições federais e estabelecer a listagem dos candidatos a partir do desempenho deles no Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM). É claro que, se o estudo virar ação política concreta e houver ressonância positiva, o Ministério poderia debater também a unificação de todos os vestibulares de instituições estaduais.

Em primeiro lugar, se o Ministério da Educação mantiver o ritmo de suas atitudes a respeito do ensino superior, este governo acabará antes que qualquer modificação seja posta em prática. Mas o que interessa é como o Governo Federal pretende rediscutir o papel no vestibular e sua relação com o Ensino Médio.

Para que serve o vestibular atualmente? É ainda ritual de passagem? Tem como papel avaliar os conhecimentos adquiridos pelo aluno durante os três anos do Ensino Médio? É o final da linha de um processo industrial que alimenta escolas caríssimas e cursinhos pelo país afora?

Salvo exceções, vestibular vale como mecanismo de avaliação somente nas universidades públicas, com algumas exceções privadas. Nas demais instituições particulares, virou apenas uma prova pró-forma (ou várias delas), cujas aberrações se materializam em estudantes aprovados com desempenhos patéticos ou notas zeradas em diversas disciplinas. Bastou somente assinar o nome e provar que segue respirando, a matrícula se encontra à disposição.

Na outra ponta da corda, milhares de alunos – e suas famílias – investem somas astronômicas, com valores mensais superiores àqueles cobrados por universidades particulares. Neste sentido, o sistema de ensino – em caráter tradicional – por vezes encara o estudante como caixa depositária de conteúdos sem maior serventia ou desconectado com o mundo que o cerca.

Capacidade de análise e interpretação – o velho contexto – soa como abstração absoluta. Não é à toa que são necessárias musiquinhas ou paródias para, além de animar o auditório, fazer com os alunos memorizem uma carga de fórmulas, equações e outros conceitos. O destino de tais informações: nascer para morrer nos cantos mais obscuros da memória.

O que me parece mais urgente não é o Ministério da Educação abrir a porta para unificar o vestibular ou substituí-lo pelo ENEM, que seria descaracterizado como instrumento de avaliação. Mais uma vez, o Ministério queima etapas e se esquece da importância de se analisar os rumos tomados pelo Ensino Médio no país. Nas escolas públicas, por exemplo, é extremamente comum – visto por muitos inclusive como natural – os estudantes passarem os três anos sem aulas de Matemática, Física ou História.

Outras disciplinas, como Filosofia e Sociologia, que poderiam fomentar o espírito crítico em sala de aula (aliás, deveria ser papel da escola como um todo), servem como tapa-buracos de final de expediente, quando não desconectadas do restante das atividades. Isso sem falar nos docentes que ensinam História da Filosofia e História da Sociologia em vez de focalizar estas áreas do conhecimento.

Neste sentido, o governo atual repete – a sua maneira – os erros da gestão anterior, que pouco investiu no Ensino Médio, alegando liberdade aos Estados pelo discurso da descentralização. É fundamental repensar a função e até a existência do vestibular (ou processo seletivo, em tempos de nomes mais “bonitinhos”), mas se não houver reflexão sobre a estrutura no Ensino Médio, teremos apenas uma mudança de procedimento, com os efeitos nefastos de sempre.