sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Os nomes que nos enganam

Sem muito o que fazer, passava os olhos no jornal e resolvi abrir um encarte voltado para noivas e noivos. Nenhum interesse em especial; ainda estou casado. Ao ler os anúncios, vi uma daquelas profissionais prometendo a felicidade eterna no momento único (em teoria) do casamento. Ela era “personal marriage”. Bom ... uma cerimonialista, alguém que organiza o casamento (igreja, cartório, festa) para que os noivos possam apenas aproveitar o mundo de fantasia.

Não há como culpar a moça. Ela apenas tenta sobreviver no mundo atual, que provoca a necessidade de se destacar na multidão. Neste caminho de poucas novidades e muita repetição, ter um nome diferente pode ser uma maneira de atrair aos holofotes. E – é claro – de vender a casca nova com recheio antigo.

A situação me fez lembrar de um colega de trabalho, que atua no setor de design de embalagens. Ele estava indignado com o fato de que a palavra design havia sido banalizada. Mas ficou surpreso quando conversamos sobre a praga dos nomes no ramo de estética, o velho salão de cabeleireiros. É um dos locais onde os nomes mudam mais rápido, regra que não vale para corpos tão vaidosos quanto fora dos padrões.

Numa clínica de estética (neste caso, era apenas uma portinha três por dois), a faixa indicava, entre outros serviços, o design de sobrancelha. Para as mulheres mais calejadas, o serviço de aparar a sobrancelha. Para as crentes, uma arte de desenhar, com formas criativas, os incômodos cabelinhos acima do olho. No mesmo local, a novidade era a prótese capilar. Em outras palavras, perucas de várias cores.

Meia quadra depois, outro salão de beleza, mas com o nome Coiffeur (nomenclatura mais tradicional). Entre os novos serviços, a “escova marroquina”, que se junta aos tratamentos com chocolate, petróleo e outras substâncias antes aproveitadas em outros setores da economia.

Uma cliente, bastante curiosa e tentando se convencer de que o gasto valia a pena, perguntou:

- Por que se chama “escova marroquina”?

A cabeleireira (ou “personal hair stylist”) respondeu:

- Olha, querida, eu não sei. Mas dizem que foi inventada por um egípcio. Por que será que ele não chamou de “escova egípcia”?

Uma questão de vizinhança geográfica?

Ter um personal “alguma coisa”, provavelmente, dá aquela sensação de exclusividade, de posse, de ineditismo, peculiaridades do mundo do consumo. O mais antigo deles talvez seja o “personal trainer”, que simboliza status, diferenciação quando uma dondoca enche a boca para falar: - Ontem, fiz 200 abdominais com meu “personal trainer”. Daí, surgiram “personal stylist” (que ajuda a pessoa a se vestir) e o “personal coach” (que auxilia o sujeito a administrar a carreira), entre outros ilusórios serviços individuais.

O mundo das academias, uma das igrejas da aparência, e o mundo das empresas (onde a carreira e o sucesso caminham de braços dados, ao menos nos livros de auto-ajuda e no discurso dos gurus) são símbolos das mudanças de nomes, sem efetivamente se alterar nada. Nas empresas, um caso clássico é a troca de Recursos Humanos por Gestão de Pessoas. Será um departamento exclusivo? Qual sujeito numa empresa (ou corporação) não administra (ou se relaciona com) pessoas no seu dia-a-dia?

É claro que os adeptos do mundo corporativo tentarão arrumar alguma justificativa pseudo-técnica (ou enroladora mesmo!) para garantir que o cenário é novo. É como os funcionários (ou trabalhadores), que agora se chamam “colaboradores”. Parece trabalho voluntário: - Aquele é meu colaborador!

No caso das academias, vira e mexe aparece uma nova técnica de exercício que, muitas vezes, soa como uma mistura de outras pré-existentes. Na semana passada, um anúncio publicitário falava na nova modalidade do verão (a época para os “lançamentos”). A hidroboxe prometia mundos e fundos para o condicionamento físico, claro. Nas fotos e no texto, a aula clássica de hidroginástica, com alguns movimentos de braços que simulavam a prática do boxe. O preço da “novidade” quase me levou a nocaute.

Dentro de casa, a mesma situação. A patroa continua pagando mal, explorando a empregada doméstica que, sem mudanças nas relações trabalhistas, ganhou o status de “secretária”. As pessoas medem as palavras, pensam um pouco e dizem, com falsa naturalidade: - Minha secretária vem duas vezes por semana. Aí não seria a diarista ou faxineira?

E quando se utiliza outro idioma, geralmente o inglês? Não é o caso de defender nossos preocupados deputados federais e seus projetos de defesa da língua portuguesa. Ou de criar o Dia do Saci para combater o Halloween.

A pronúncia e a língua enrolada do freguês dão o tom da enganação. Basta olharmos os encartes imobiliários. Os apartamentos, com preços de seis dígitos, geralmente são pequenos, mas o comprador se encanta com os atrativos do condomínio, que provavelmente serão usados no primeiro mês, na lua-de-mel com a nova moradia. São os espaços, perceptíveis depois na conta mensal do condomínio.

O playground (em inglês, mas nome antigo!) vira “espaço kids”. A famosa churrasqueira ganhou o título de “espaço gourmet” (uma exceção em francês, talvez pela fama da culinária daquele país). A sala de ginástica (que manterá o cheiro de borracha nova pela ausência de freqüentadores) terá a magia de ser chamada de “fitness center”. Fora o “espaço zen” (se houver ofurô), o “garden´s place”, entre outros badulaques repetidos à exaustão pelo corretor de imóveis.

A lista de nomes poderia ser muito maior, se observamos o jogo-de-cena do cotidiano. Afinal, quem não gosta de ser bajulado no atendimento ao consumidor? Ter a vida ordinária da maioria dos anônimos revirada em alguns instantes de glamour (opa, uma palavra estrangeira!), mesmo que seja em palavras? Para muitos, a resposta positiva vive no desejo de ser diferente na banalidade do igual.