segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Uma lágrima para Alfredo e Totó


Quando um homem abandona a própria terra e deixa para trás suas referências, as pessoas próximas e as lembranças, é possível que todo este passado seja enterrado a ponto de jamais deixar a sepultura, mesmo que o sujeito vivencie um instante de fraqueza? O que faz alguém largar uma vida e assumir uma nova identidade, ainda que mantenha o mesmo nome e local de nascimento?

Assisti, depois de muitos anos, pela segunda vez ao filme “Cinema Paradiso” (Itália/França, 1989), de Giuseppe Tornatore. O filme, em flashback a partir da memória de Salvatore, cineasta de sucesso em Roma, conta a relação entre o menino Totó (apelido de infância do protagonista) e Alfredo (Phillipe Noiret). Alfredo é projetista do único cinema da localidade de Giancaldo, em algum lugar da Itália no pós-Segunda Guerra.

"Cinema Paradiso" ganhou o Oscar de melhor estrangeiro e o Globo de Ouro em 1990, além do Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes, no ano anterior. Trata-se de uma das melhores homenagens ao cinema, carta de amor à tela branca em um local escuro.
A sala de projeção é o pano de fundo para os personagens de um lugar onde ver filmes é a única atração além das missas. Há o padre que obriga Alfredo a cortar cenas de beijo. O sujeito que chora e decora diálogos inteiros das histórias. O espectador que vai ao cinema para dormir e roncar. É no cinema que acontecem as primeiras paixões, as discussões em família, as travessuras das crianças e os primeiros desejos pelo sexo oposto a partir da ficção.
Os relacionamentos sociais da pequena cidade que sobreviveu à guerra, mas que sofre para se reerguer diante da miséria econômica, auxiliam na compreensão de uma história sobre amizade. Totó, um menino de nove anos apaixonado por cinema, e Alfredo, o projetista com mais de 50, ranzinza, porém generoso.
"Cinema Paradiso" é um tributo ao contato humano, no sentido mais puro e descompromissado, se é possível localizarmos exceções. Em tempos de amizades líquidas, fugazes, o filme expõe como dois sujeitos – de faixas etárias distantes – conseguem ser cúmplices e se abrem para a troca de experiências e o diálogo, dispostos a compreender e respeitar o que o outro sente e tem a dizer.


A amizade entre os dois personagens não se comprova somente quando a sala de projeção se incendeia e o menino salva Alfredo. É a relação de confiança. É abdicar de uma posição em relação ao outro, sabendo que aquele necessita de apoio para não fracassar numa nova tarefa. Salvatore, por exemplo, herda a função de projetista até se encaminhar para o serviço militar no final da adolescência. O trabalho se dá por paixão, mas também pelo senso de coletividade, de continuidade ao que é comum a todos.
A cumplicidade de ambos é cristalina nas confidências, no apoio ao primeiro amor de Salvatore, aparentemente impossível diante de posições sociais diferentes. A garota, filha de um diretor de banco. Ele, um jovem que perdeu o pai na guerra e projetista daquela sala de cinema, resistente à “modernidade”.
A amizade precisa ser testada? Qual é o momento da generosidade absoluta? É preciso se anular para que o outro avance, atinja seus objetivos e concretize sonhos? Talvez isso se evidencie no ponto em que Salvatore – sem perspectivas econômicas e desiludido amorosamente – resolve seguir para Roma. É quando Alfredo se anula, assassina simbolicamente um filho adotado, mas determina que Totó jamais retorne àquela localidade, àquela terra que – embora ponto de origem – estaria amaldiçoada pelo fim em si mesma.
Duas tristes observações: o garoto Salvatore Cascio, que interpreta Totó quando criança, se tornou mais um caso de sucesso mirim da indústria cinematográfica que desapareceu com o peso da idade. Este foi seu único papel marcante. O ator Phillipe Noiret, também conhecido pela atuação em O Carteiro e O Poeta, faleceu de câncer ao 76 anos, em novembro de 2006. Noiret trabalhou em 125 filmes.


E um ponto a se notar: a trilha de Ennio Morricone e Andrea Morricone, completamente instrumental, é poesia em tempos de sofrimento. A música incidental – hoje clássica - nos conduz ao limite da fábula, no tom da ingenuidade (ou seria simplicidade?) entre os personagens.

Depois de quase 20 anos, "Cinema Paradiso" ainda é obra-prima pelo amor ao cinema, pela delicadeza sonora e, principalmente, pela crença na capacidade humana de, eventualmente, se interessar e se importar pelo outro, que merece as lágrimas ou a garganta que engole a seco de muitos espectadores.

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