segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Tempos atuais (ou modernos?)



Revi duas vezes, recentemente, o filme “Tempos Modernos”, de Charles Chaplin, para uma avaliação com meus alunos de História Contemporânea, na Universidade Católica de Santos. Confesso que não esperava tamanha atualidade no roteiro, capaz de indicar – com a sutileza necessária do humor poético de Carlitos – as bases para a crise econômica do mundo de hoje.
“Tempos Modernos” foi produzido em 1936, três anos após o fim da Grande Depressão, nos Estados Unidos. É justa a comparação entre o período e a crise econômica atual, sem as neuroses típicas de um pregão da Bolsa de Valores. Chaplin fala de uma sociedade vítima da recessão, que pouco entende os processos da economia, pois precisa resolver questões mais imediatas, como a próxima refeição ou o local para dormir a noite seguinte.

As duas primeiras cenas são cerejas no bolo. A primeira mostra uma manada de bois entrando num curral. A segunda, uma “manada” de pessoas apressadas rumo ao trabalho numa grande cidade.

O filme é o retrato da sociedade norte-americana que buscava superar os quatro anos de escassez, fruto de uma série de medidas equivocadas que culminaram na quebra da Bolsa de Valores de Nova Iorque, em 1929. Na verdade, Chaplin enxergava além ao apontar as contradições, deficiências e esquisitices de uma forma de viver que colocava o trabalho como dogma, como valor moral.



Naquele contexto, apareciam os primeiros indicativos de uma cultura onde o trabalho caminhava de braços dados com os movimentos sociais de consumo. A sociedade que apontava na face do indivíduo a posição que ocuparia (e locais onde transitar, mesas a se sentar, amigos a dividir etc.) pelo poder de compra, pelo poder adquirido a partir da possibilidade real de se enquadrar conforme as normas simbolizadas, por exemplo, pelo status.

Carlitos é o operário típico de um fábrica. Arrumou aquele emprego na falta de outro melhor. Não tem formação. È um mero executor de tarefas primárias, uma máquina repetidora de movimentos que abrem mão do pensamento. Pensar atrapalha a produção, atrapalha a lucratividade, gera o empregado preguiçoso.
A tecnologia, na produção industrial, é oferecida como maravilha sedutora, de engrenagens perfeitas. O homem-máquina, hoje uma extensão dos olhos no monitor, das mãos no mouse ou dos ouvidos no celular, sobrevive como réplica das engrenagens, iludido com a percepção de que as comanda, quando – na verdade – apenas as atende. As engrenagens permanecem; o homem, ser substituível.
“Tempos Modernos” nasce no auge do fordismo, da concepção de que vale a pena produzir em massa para um consumidor massificado. Não se pensava na diversificação de produtos e serviços. Valia o ato mecânico, o ser mecânico. Esta forma de produção – da transformação do homem na mercadoria em si – se reproduz atualmente em inúmeros endereços. Basta, por exemplo, visitar a praça de alimentação de um shopping center. Ali, podemos comer qualquer um dos sanduíches padronizados, feitos por um indivíduo em processo de desumanização, que falará com você de maneira robótica. O nome dele? O passado do sujeito? Absolutamente irrelevantes.




O homem-máquina das fábricas de “Tempos Modernos” é clonado no mundo contemporâneo. Independente de movimentos braçais e/ou cerebrais, o sujeito deve se manter como gado, seguindo os demais nos corredores demarcados do curral. Abdicando da reflexão. Impotente para questionar. Frágil para a desconfiança. A quebra destas premissas implica invariavelmente em choques, em conflitos nos quais o perdedor é o homem acoplado ao maquinário, o homem dependente de tecnologia.
A tecnologia não seria o meio, funcionaria como o fim das atitudes, o ponto de chegada de quaisquer teorizações sobre a vida cotidiana. Apagaria sentimentos, relacionamentos. A rotina na fábrica de Carlitos poderia tê-lo desumanizado. Mas a graça do personagem reside em criticar e rejeitar a ditadura do relógio, do ponto, do transcorrer das engrenagens e da ausência de diálogo entre empregados e entre empregados e patrões.
É evidente que o resultado se mostra nefasto e irônico. Carlitos é sempre visto como louco ou como alguém que deve ser preso. O marginal tem que ser detido. Deve ficar longe da exposição, exceto quando cumprir o papel de exótico, maluco, bizarro.
Chaplin ainda tateia no contemporâneo quando observa este comportamento social nas relações de consumo. A sociedade de consumo estava em fase embrionária, mas ele consegue perceber como a exclusão e a inclusão pela compra de objetos se tornam pilares no cenário público.
“Tempos Modernos” vê também como a cultura pode ser devidamente repaginada numa embalagem de entretenimento, absorvendo a implacável estratégia de desvio do foco, principalmente quando explodem dificuldades na economia. Hollywood não apenas sobreviveu como lucrou com a Grande Depressão. O cinema da época se caracterizou por histórias de amor, produzidas em série como carros de uma mesma tonalidade.




Em 1936, Chaplin – ainda dentro deste modelo – consegue analisá-lo sem deixar de lado o humor, como pode ser visto nas seqüências finais, em que Carlitos trabalha de garçom em um restaurante e se vê obrigado a cantar para a platéia. A letra, sem aparente sentido, pouco importa para aqueles que pretendem somente esvaziar a mente e comer bem.

Chaplin mantém o caráter visionário e atemporal nesta obra. Ele é genial na universalidade de temas, na descrição de ações humanas que transcendem a maioria das culturas, somente com adaptações de espaço e tempo. No caso de “Tempos Modernos”, a ironia do título aponta, infelizmente, o medieval em nós, crentes que somos modernos.

3 comentários:

osvaldo pereira de souza disse...

Eu gostei muito de tudo que voces comentariom sou educador e na verdade e uma covardiaa nao termos O.S.P.B e E.DM.C.VISITE O SITE, www.professorosvaldo.com.br

osvaldo pereira de souza disse...

Eu gostei muito de tudo que voces comentarom sou educador e na verdde e uma covardia não termos O.S.P.B e E.M.C visite o site.www.professorosvaldo.com.br

Anônimo disse...

Neste filme mostra aindiferença do homem para o homem o que importa e a maquina, Deus não participa de suas vidas, o que vale é o dinheiro a produção.