terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Ruanda, o anonimato africano






A notícia ganhou o espaço tradicional para àqueles que pouco interferem nos aspectos da crise econômica mundial, infestada de medos, medidas e contra-medidas, auxílios financeiros e paranóias corporativas. No maior portal de notícias do Brasil, o fato recebeu exatas 20 linhas, traduzidas de uma agência internacional de informação.



O Tribunal Penal Internacional para Ruanda (TPIR), localizado em Arusha (Tanzânia), condenou, no último dia 18, três oficiais do exército à prisão perpétua. Outro oficial foi absolvido. O coronel Theoneste Bagosora foi considerado o líder do movimento que promoveu o genocídio contra tutsis e hutus moderados em 1994. Segundo o juiz norueguês Erik Mose, os três devem ser responsabilizados por “genocídio, crimes contra a humanidade e crimes de guerra”.



O coronel tem 67 anos e era diretor de gabinete do Ministério da Defesa no período em que aconteceu o massacre. Bagosora é de etnia hutu, que se encontrava no poder na ocasião. Ele negou as acusações. Em 1993, o coronel teria dito que prepararia o “apocalipse” após o fim das negociações com a Frente Patriótica Ruandesa, ligada à etnia tutsi, hoje no poder.



Ruanda é um país africano do tamanho do Estado de Sergipe. Lá, vivem cerca de oito milhões de pessoas, a maioria sem infra-estrutura básica. No contexto geopolítico, a importância de Ruanda se aproxima de zero. Trata-se de mais uma nação com péssimos indicadores sócio-econômicas, sem fontes econômicas sustentáveis (como parque industrial), fruto de exploração de matéria-prima, cercada por países em guerra civil e sem apoio de organismos internacionais com projetos de desenvolvimento.



Ruanda estaria condenada ao ostracismo se não tivesse sido palco de um dos maiores genocídios da história. Em 1994, durante uma guerra civil entre hutus e tutsis, as duas principais etnias do país, cerca de 800 mil pessoas foram assassinadas, muitas delas a golpes de facão. As mortes ocorreram em cem dias. Isso que você acabou de ler!!! 10% da população morta em pouco mais de três meses.






Mais do que militares ou mercenários, muitos assassinos eram até então pessoas comuns, sujeitos que sobreviviam à miséria do local. Passaram a cumprir “expediente” de facão nas mãos, executando amigos, vizinhos, colegas, idosos, mulheres e crianças. Uma macabra catarse coletiva, ignorada pela mídia internacional. Um território abandonado pela ONU, que retirou suas tropas, pois estava mais interessada nos problemas da Bósnia, também foco de massacres.



É possível crer que um tribunal internacional pode ser justo depois um genocídio? Até que ponto apontar e condenar culpados altera o cenário político e social de um país esfacelado por disputas contínuas de poder? É evidente que não se podem misturar as estações. Os responsáveis – os sujeitos de que deram as ordens, traçaram as estratégias e desprezaram quaisquer rastros de decência humana - merecem punições exemplares, inclusive no sentido de se registrar historicamente a resposta para tais atrocidades.



No entanto, o debate deve ir além da mera contabilidade de uma condenação jurídica. Uma situação como esta implica em contextualizar o papel da África no mundo contemporâneo. Significa compreender que Ruanda não representa exceção. É a multiplicação da regra.



Ruanda, assim como a maioria dos países africanos, enfrenta sucessivas trocas de poder entre os mesmos atores, todos semelhantes na violência, na corrupção e na perpetuação da desigualdade econômica e social, calcada no cultivo do assistencialismo barato. O Estado como elemento diretivo da transgressão. O Estado como organizador do crime.



Dos 53 países africanos, somente 19 podem ser considerados democráticos. O continente testemunha cerca de 15 guerras civis. A região onde se localiza Ruanda é o principal foco de combates. Todos os vizinhos ao redor lutam contra si mesmos. Em Ruanda, hutus e tutsis – divisão fruto do controle do colonizador belga no século XIX – mal resolvem suas rusgas, mas se abraçam na instabilidade política.



Não se pode admitir como natural que muitos dos países africanos ganhem visibilidade pelo desastre ou pelo futebol em tempos de Copa do Mundo. Ou ainda pelos olhos chineses, os colonizadores do início deste século. Também não se pode considerar inerente a presença de aviões repletos de comida e remédios como a solução para os males de um continente com 900 milhões de habitantes, metade dos quais se mantendo com menos de um dólar por dia. Até porque uma parte é normalmente desviada pelos próprios governos.



Duas sugestões para entender Ruanda. A primeira é o filme Hotel Ruanda (EUA, 2005), com Don Cheadle, Joaquin Phoenix e Nick Nolte. Direção de Terry George e três indicações ao Oscar.






A outra é o livro Gostaríamos de informá-lo de que amanhã seremos mortos com nossas famílias (Cia. das Letras), do jornalista norte-americano Philip Gourevitch. Nos dois casos, pode-se perceber que hutus e tutsis são reflexos do mesmo espelho, física e culturalmente, e que seu líderes representam a ferida de um minúsculo país ainda em sangria. Hoje, a denominação das etnias é proibida, mas uma mancha como esta não se apaga com canetadas governamentais.

Um comentário:

marciogaroni disse...

Que ruim que ainda não dão a devida atenção e importância à situação na África. Hoje o principal assunto é Israel e Palestina, também bastante sério, mas onde se concentram todas as ações, seja de ONU ou dos países ricos. E como fica a África? Da mesma maneira que antes. A colonização européia arrasou as nações, as dividiu como bem entendeu e, quando perdeu o interesse por elas, simplesmente foi embora. E deixou essas heranças malditas.