quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Ditador morto, golpe na praça




O corpo não havia esfriado. O presidente Lansana Conté, de 74 anos, morreu na última segunda-feira, dia 22, e o Exército da Guiné já deu um golpe de Estado. No dia seguinte, por sinal! O porta-voz dos golpistas, o capitão Mussa Dadis Câmara, informou à BBC que um conselho – composto por vários coronéis, um general e seis civis – passaria a governar o país.



A União Africana resolveu se reunir na véspera de Natal para discutir situação da Guiné, embora o primeiro-ministro Ahmed Tidiane Souare tenha dito em rede de TV que o governo civil mantém a legitimidade. O primeiro-ministro e outros integrantes do governo são protegidos por tropas leais a Conté. A União Africana condenou o golpe militar com o argumento de que houve violação à Constituição. A carta magna, aliás, prevê eleições em 60 dias, numa situação como a atual. Ou seja: com a morte do presidente.



O porta-voz dos militares que assumiram o governo afirmou, na rádio estatal, que “as instituições da república foram dissolvidas”, pois o país se encontraria em “profundo desespero”, gerando a necessidade de intervenção sobre a economia e redução da corrupção do Estado.



É mais um capítulo que envolve ditadores e tomada de poder – de maneira ilegal – na história da África Contemporânea. O cheiro de guerra civil está forte! O fedor caracteriza o cenário que parece repetição de inúmeros casos no continente. Quem toma o poder à força utiliza o mesmo discurso do antecessor. Alega dificuldades econômicas e desmandos institucionais como equívocos que justificariam a substituição de comando.



A violência – que será utilizada posteriormente para conter adversários – serve também como argumento para o descontrole de quem foi retirado do poder. Uma curiosidade: o grupo golpista da Guiné adotou o sugestivo nome de “Conselho Nacional para a Democracia e Desenvolvimento”.



Uganda, Ruanda, Congo, Sudão, Etiópia, entre outros. A Guiné engrossa a lista de países sentados sobre indicadores sócio-econômicos sofríveis, com governantes agarrados a uma escalada de violência para se manter no controle da mina de matérias-primas de alto valor, negócios milionários com o primeiro mundo e as benesses da máquina burocrática.



A União Africana, por seu lado, é incapaz de localizar saídas práticas para problemas emergenciais. Cumpre, em parte, seu papel político ao se restringir ao campo da retórica, até porque muitos de seus membros possuem esqueletos no armário e em outros móveis da casa.



No caso da Guiné, a causa da morte de Conté é desconhecida, mas sabe-se que sofria de diabetes e teve leucemia. Conté governava o país desde 1984, quando assumiu o governo também em um golpe de Estado. Acusado de corrupção, ele superou duas eleições e agiu com braço duro contra os opositores. No ano passado, o Exército conteve com violência manifestações de dissidentes. Houve 186 mortos e cerca de 1200 feridos.



A Guiné, vizinha de Guiné-Bissau (onde se fala português), fica na costa oeste do continente e é banhada pelo Oceano Atlântico. Colonizado por franceses, o país se tornou independente há exatos 50 anos. A Guiné é rica em ferro, ouro e diamante e um dos maiores produtores mundiais de bauxita. No entanto, 53% da população vive abaixo do limite mínimo de pobreza.

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