segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Conquistas militares, conquistas 'espirituais'

Por Alexandre de Souza Costa*


O desabrochar das primeiras flores da primavera do ano 333 a.C. marcou o inicio de uma das mais magníficas histórias de invasão por uma civilização, porém sangrenta. Era a invasão da Ásia Menor pelo exercito de Alexandre, rei da Macedônia. O objetivo era simples: vingança por ataques anteriores à Grécia Antiga, prevenir futuras incursões dos Persas e acumular riquezas materiais, tais como ouro e outros metais preciosos.


Passado pouco mais de um século, na África Ocidental e após a derrota da primeira guerra Púnica, Cartago (uma das mais belas cidades do mundo antigo) começa a florir novamente. Ela expande suas fronteiras e área de influência para a região da Espanha atual. Região esta que poderia gerar novas riquezas, engordando os seus minguados cofres e flanquear no continente Europeu o seu maior inimigo na época, Roma.




Com esta intervenção, Cartago poderia prevenir quaisquer futuros ataques a sua cidade (que ficava na África – hoje, região próxima a Túnis – Tunísia) e também usar esta região como trampolim para um futuro ataque preventivo. E foi assim que aconteceu.

No ano de 58 a.C., a cidade de Roma não era mais uma simples cidade-estado. Ela dominava toda península Itálica, Grécia, Macedônia, parte da Ásia menor, grande parte da península Ibérica, todas as ilhas do mar mediterrâneo. Pedaço da África Norte estava sob seu julgo também. Toda esta pujança fora conquistada durante e após as guerras Púnicas. Com isso, Roma estava se configurando como a principal potência do mundo ocidental.

Motivada por estas conquistas, Roma desejava manter o poder sobre estas áreas, em especial a Européia, pois sabia que atrás dos Alpes estava a Galia Transalpina. Os povos que se encontravam ali eram “parentes” dos que viviam na Galia Cisalpina (subjugados séculos anteriores no norte da península Itálica). Estes poderiam atacá-los em solidariedade aos parentes “Gálicos Italianos”.

Roma, através de um dos seus cônsules, Caio Julius Cesar, invadiu a Galia Transalpina com o argumento de prevenir futuros ataques a sua república. Conquistou toda a região, onde hoje estão França, Suíça e Bélgica.





Os ventos que sopravam no mundo ocidental durante a Antigüidade, tal como citados nos parágrafos anteriores, também sopraram em épocas posteriores, ora com conquistas militares, ora com conquistas espirituais, ora conciliando os dois aspectos. E isso aconteceu em vários lugares e momentos, tal como na Península Ibérica.

Após a independência de Portugal no século XII até as últimas conquistas territoriais contra os mouros e também contra o reino de Castela, Portugal fortaleceu suas instituições, visando algo grandioso que - menos de 4 séculos depois -, o tornaria um dos maiores impérios do mundo cristão. O império ultramarino português.

Oficialmente, muitos historiadores, entre eles o português Jaime Cortesão, afirmam que a conquista de Ceuta em 1415 no norte da África marcou o inicio da política ultramarina. A expedição a Ceuta tinha como meta criar um posto avançado na África Moura, para inibir futuras incursões contra o sul de Portugal, além também de tentar criar influência na região.

Os mesmos ventos que suavizavam o calor, ou aumentavam o frio no inverno, e que levaram os portugueses para o além-mar, também impulsionaram outros reinos a lançar-se nos mares da história. Um destes reinos fora o da Inglaterra que, do século XVII a meados do XX, dominou os mares do mundo e fez valer a sua própria vontade, seus próprios interesses através de sua marinha de guerra, ou como explica o pesquisador Igor Fuser em seu texto intitulado Mundo Britânico “(...) uma retórica em que o interesse econômico do lucro era igualado à preocupação estratégica com a segurança.” Isso pôde ser visto em vários lugares do mundo, como a conquista da América do Norte, ilhas do Caribe, Índia, cidades portos da China etc.


No século XIX, o conceito do livre comércio é a base dos interesses econômicos dos ingleses, que usaram a marinha mercante para propagar tal conceito, ou em muitos outros casos, usaram os canhões de sua marinha de guerra para valer tal ação. Esse novo arcabouço econômico ocidental, também fora copiado por outras nações, tais como: Alemanha, França, Bélgica, Itália, Rússia, Japão e Estados Unidos. Esta última entrou na “competição” direta e embalada pelo fortalecimento interno de sua economia pós-guerra civil e também pelo senso de pan-americanismo dos dirigentes do país que surgirá ao longo dos séculos XIX e XX.

O primeiro momento da história, quando vimos os Estados Unidos usarem como pano de fundo o conceito do livre comercio em sua empreitada imperialista e também como potência mundial, fora em 1853, quando enviaram uma expedição “diplomática” ao Japão, composta por navios militares. Quando os diálogos diplomáticos cessaram por parte do Japão, os Estados Unidos colocaram em prática a outra face da moeda, a diplomacia dos canhões da marinha de guerra.

Não houve um conflito armado propriamente dito, mais houve uma tensão muito grande no ar e fez, que o “bom senso” dos japoneses viesse à tona, dando inicio à modernização do país com acordos comerciais. Assim, os produtos norte-americanos começaram a entrar no Japão.

Tal como uma frota americana singrou os oceanos rumo ao Japão no século XIX, as atuais frotas americanas singram os mares do nosso mundo contemporâneo protegendo os interesses econômicos e estratégicos de seu país, tal como acontecera com a Inglaterra no passado. Entre estas frotas está novíssima 4ª frota com base no sul da Flórida (a mesma Frota já fora criada durante a 2ª Guerra Mundial em detrimento aos aspectos daquele conflito) que percorrera toda a América central, Caribe e América do sul.

De acordo com a marinha norte-americana, esta armada tem como principais objetivos o caráter humanitário e não intimidar os países supostamente amigos nas ditas regiões do continente americano. No mês passado, o navio USS KEARSARGE, cuja bandeira era da 4ª frota, fez operações humanitárias no Caribe, em especial no Haiti.





Contudo, quando houve o anúncio da criação desta nova frota, a intelectualidade brasileira ficou dividida. Uns acreditavam que era uma afronta do governo norte-americano em criar uma nova armada para fornecer ‘ajuda humanitária” a países que são estados soberanos, eleitos pelo voto e que este acontecimento poderia ser o inicio de uma maior pressão sobre a América Latina.

Outros não deram muita importância, por acharem que a mesma América latina não é um risco eminente para a política externa norte-americana, já que há outros conflitos no mundo que pedem mais atenção e que levariam tempo para terminar.

Acredito que ambas as correntes estejam certas em pensar naquilo que acreditam, mas precisamos ter um olhar mais cético para os acontecimentos que estão a nossa volta. Não podemos deixar de pensar, que quando houver um novo amanhã, haverá um novo problema batendo nossa porta, em nossas fronteiras. A história é cíclica; ao longo de mais 5.000 anos, se repete...e se repete...e se repete até criar novas variáveis para velhas fórmulas.

Um bom exemplo disso é a lei NSS-2002 criada por George W. Bush filho após o ataque de 11 de setembro, que permitiu ao governo norte-americano iniciar em qualquer parte do globo conflitos armados a fim de eliminar qualquer suposta ameaça contra os Estados Unidos e levar a democracia a estes lugares. O que supostamente pode acontecer com os países da América Latina com a criação da 4ª frota. Basta um comando das pessoas certas dentro do poder americano para mudar de foco da política externa.




Outro fator que não podemos esquecer é o status quo, sempre o ponto principal de uma nação (seja de qualquer época). Como podemos notar nos dias atuais, o principal império está sofrendo problemas em suas estruturas. Assim, o status quo precisa ser mantido a qualquer custo para contra-balancear os acontecimentos nos últimos 7 anos na política externa e interna deste país. A criação de uma nova frota é uma destas formas para a dita manutenção.

Não seria errado pensar que, tal como fizeram os antigos impérios e principais nações do mundo ocidental do passado, isto é, atacar primeiro, perguntar depois, os Estados Unidos podem fazer o mesmo, ou melhor, já o fizeram (Japão, Afeganistão e Iraque) e podem repetir a dose. Portanto, a questão não é ser radical com os fatos existentes, mas sim lembrarmos da nossa história ocidental, nosso maior legado.

* Alexandre de Souza Costa é historiador.

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