segunda-feira, 24 de novembro de 2008

O casarão teatral

Matéria publicada no jornal Boqueirão (Santos/SP), edição nº 714, de 22 a 28 de novembro de 2008, página 7. Obs.: os dois textos abaixo complementam esta reportagem.



“Vende-se casa com tudo, seus móveis, seus moradores, seus sentimentos.” Os dizeres da placa, entre duas portas de ferro de uma tradicional camisaria, soam como um delírio do proprietário do imóvel. A placa foi pendurada na única entrada de um casarão centenário, no número 99 da rua General Câmara, no Centro de Santos, acima da loja de camisas.

Ali, uma escadaria de 30 degraus íngremes, com corrimões tortos de madeira, leva o espectador aos 10 cômodos da residência (com ares de cortiço), onde acontece a peça “Nossa Vida como Ela É”, encenada pelo grupo Taetro de Teatro. Mas a encenação começa na rua, onde a proprietária do casarão, interpretada pela diretora Maria Tornatore, explica ao público – visto como comprador em potencial do imóvel - a dinâmica do espetáculo. São 30 pessoas em fila indiana na escuridão do centro em um sábado à noite, com chuva. O limite é de 40 pessoas por sessão.

A auxiliar de logística Val Matias de Sousa, de 31 anos, está entre as primeiras da fila. Ela, que veio ao local por achá-lo diferente, demonstra dúvida depois das explicações. “Como vou assistir à peça?”

Ao lado dela, a promotora de vendas Daniele Tavares Roener, de 27 anos, que acompanharia o espetáculo pela décima vez. “No começo, achava desorganizado. Depois, ficou dinâmico. Hoje, evito a cena do banheiro. É pesada e me causa mal-estar porque passei por uma experiência parecida.”

Sentir-se perdido ou chocado com algumas das cenas é normal dentro do casarão. São 50 atores, que se dividem em 40 cenas, quatro por cômodo. No total, 52 histórias, todas elaboradas pelo elenco. “Os casos e informações são factuais, vivências dos atores ou de parentes e amigos deles”, explica Tornatore.

O espetáculo é baseado no universo do dramaturgo Nelson Rodrigues. A proposta é lidar com o cotidiano do ser humano por meio de seus desejos, angústias, hipocrisias e contradições. Neste sentido, as cenas dependem dos espaços da casa, que se transforma em personagem. “As cenas se adaptam à cenografia do cômodo”, afirma a diretora.

As decisões e a organização do espaço são coletivas. Quarenta minutos antes do espetáculo, elenco e diretora definem a distribuição dos personagens pelos espaços do casarão. O imóvel foi cedido por Márcia Marques, amiga da diretora. Os atores pagaram a iluminação. Os móveis, de décadas diferentes, foram comprados de segunda mão, o que torna o ambiente envelhecido, pesado para os temas encenados.




O público não consegue assistir a todas as histórias. Em quase duas horas de peça, o espectador visita somente três cômodos. A peça é dividida em três partes. Em cada cômodo, acontecem quatro cenas que compõem uma etapa da apresentação. Depois de meia hora, a dona da casa toca uma sineta, o público troca de ambiente e as cenas são reapresentadas. Neste momento, atores e espectadores se misturam entre corredores e o hall principal.

Frango com quiabo - Em “Nossa Vida como Ela É”, o público interage com o elenco. Na cozinha, por exemplo, uma senhora, enquanto fala do caso amoroso que tem com o próprio filho, pede ajuda para escolher feijão e distribui balinhas mineiras. A tia dela, na cena seguinte, oferece frango com quiabo, verdura que servirá de metáfora para a seqüência em que um caipira vira amante da cunhada.

O ator Germano Dorna, com 44 anos de teatro, participa de quatro cenas. Ele interpreta, por exemplo, um morador alcoolizado que recebe uma notícia de suicídio e um personagem que reencontra o antigo amor 20 anos depois. È a primeira vez que Germano trabalha com o grupo e se surpreendeu em muitos aspectos. “A liberdade de criação é importante para muitos atores que tem a primeira experiência com teatro. Além disso, você tem que dizer toda uma vida em quatro minutos e meio de cena.”

A dinâmica da peça foi o que atraiu o ator. “Para o público, colocamos um verniz para não traumatizá-lo. Mas é uma muvuca”, explica Dorna, entre risos, antes da última passagem de texto.

Motel - A peça, que faturou cinco prêmios no Festival Santista de Teatro Amador (ver matéria abaixo), mistura dramaturgia e música. O ator Zellus Machado, como um trovador, participa de várias cenas acompanhado de um violão. As letras correspondem às ações do elenco. Como no banheiro, em que duas jovens mantém secretamente um relacionamento amoroso ao som de uma letra que enaltece a sedução feminina.

O espetáculo possui apenas um patrocinador, um motel, que auxiliou no material de divulgação. Nada mais sugestivo? “Eles se interessaram, mas se não houvesse patrocínio a peça sairia do mesmo jeito”, afirmou Maria Tornatore.

Após duas horas, a dona da casa agradece a visita dos supostos compradores do imóvel. No hall de entrada, elenco e público conversam como uma extensão da dramaturgia.

Entre agradecimentos e palavras calorosas, a auxiliar de logística Val Matias de Sousa prometeu voltar, assim como muitos dos espectadores. Ainda faltam sete cômodos para serem visitados e o testemunho de algumas dezenas de histórias incomuns da normalidade cotidiana.

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“Nossa Vida como Ela É” – sábados e domingos, às 20h30, até 7 de dezembro.
Rua General Câmara, 99 – Centro – Santos. Ingressos: R$ 20. Informações pelo telefone: 3028-6680Locais de venda: Loja Hapanui (Av. Pinheiro Machado, 845), em Santos, e na rua João Ramalho, 636 – São Vicente.

O quarto dos loucos

Matéria, em versão integral, publicada no jornal Boqueirão (Santos/SP), edição nº 714, de 22 a 28 de novembro de 2008, página 7.

Seis pessoas, cinco delas sentadas, aguardam mais uma seqüência de cenas. O ar denota curiosidade, pois o ambiente faz jus ao nome que recebeu. À direita, um beliche mal cuidado, com uma boneca de pano na parte de cima. A boneca, aliás, veste uma máscara que a envelhece. Um buquê e um vestido de noiva, em trapos, reforçam o clima de um passado doloroso. Cinco espelhos, com uma penteadeira entre eles, facilitam a visão de todos os ângulos do cômodo.

A penteadeira dá sinais dos personagens que ocuparão aquele espaço. Em cima dela, dois objetos. Uma caixa de música, sem a bailarina, virou porta-jóias. À esquerda, um livro entreaberto: “Longa Jornada Noite Adentro”, de Eugene O´Neill. No espelho, a frase escrita com batom: “Quem de mim eu sou?”.

Quando os seis espectadores – capacidade máxima do espaço – relaxam, entra um rapaz de aproximadamente 25 anos. Magérrimo e com cabelos compridos e cavanhaque, ele está nu. Um casal, na faixa dos 55 anos, se remexe nas cadeiras. Os mais jovens esboçam um sorriso amarelo.

O rapaz protagoniza uma das quatro cenas do Quarto dos Loucos, o único ambiente do casarão a ter um nome próprio. Ali, todos os personagens parecem estar de passagem. São fechados em si e conversam com os espectadores como se os ignorassem. É o caso da aeromoça, vítima de um relacionamento violento com o comandante da companhia em que trabalhava. Naquele quarto, os espectadores são os passageiros de um vôo e podem reproduzir as experiências dela numa viagem ao Rio de Janeiro.

Para a diretora Maria Tornatore, o Quarto dos Loucos simboliza o espetáculo. “Falamos dos desvios. É um grande diálogo sobre a moralidade atual.“

O rapaz nu, após embarcar numa viagem de conflitos com a mãe que o abandonou, sai vestido de mulher do Quarto dos Loucos. O público esboça uma conversa, mas uma nova cena – ao som de disco music - se inicia para colocar em risco as definições de normalidade destes espectadores.

"O palco não me diz respeito"

Matéria que pode ser lida também no site http://www.boqnews.com/

A diretora Maria Tornatore coleciona prêmios. Neste ano, no 50º Festival Santista de Teatro Amador, a peça “Nossa Vida como Ela É” ganhou em cinco categorias: melhor espetáculo adulto, direção, ator coadjuvante (Luciano Andrade), atriz coadjuvante (Luciana Sousa) e menção honrosa para o elenco. Além disso, Tornatore venceu na categoria melhor atriz em peça infantil (“O Segredo da Princesa Alumínia”).

Tornatore retornou aos festivais após briga com membros da classe teatral. “Voltei porque era uma data comemorativa. E fiquei feliz ao ver três pessoas que atuam em festivais internacionais dizerem que Santos tem agora estética teatral. No passado, outros disseram que a cidade não tinha nada.”

Com 35 anos de carreira, entre dança e teatro, ela é vista como uma diretora exigente no controle dos espetáculos. E crente no teatro amador como liberdade. Em entrevista, Maria Tornatore explicou porque busca novos espaços para o teatro que, segundo ela, deve lutar contra a redução da arte ao lucro.

Boqueirão: Você encenou o espetáculo Alemanha em um armazém do Porto de Santos. Trabalhou na Encenação da Chegada de Martim Afonso, em São Vicente. Agora, um casarão centenário no centro. Como o espaço funciona para você?
Maria Tornatore: Teatro não acontece sem espaço. E há o espaço da ficção, que só tem sentido quando é adequado. O palco tradicional, com distanciamento entre ator e platéia, não me diz mais respeito. Só trato quando obrigatório. Espetáculo é lado-a-lado, frente-a-frente. Não vejo mais público parado. Apenas se mexendo. Não volto mais para o palco tradicional. Não consigo.

Boqueirão: O casarão é ao mesmo tempo instalação e personagem?
Maria Tornatore: Exatamente. A casa é personagem quando trato dela como se fosse minha. Ela vive através das pessoas. A casa foi estudada como instalação. O público, além de sentir, também é ator. O público ajuda a vestir o personagem, escreve bilhete, bate à máquina de escrever, faz tudo isso aqui dentro.

Boqueirão: É a evolução do Grupo Taetro de Teatro, que completa 10 anos?
Maria Tornatore: É uma mudança. Para mim, tudo que você vê na rua está aqui dentro. O espetáculo é caótico, mas também cronometrado. A peça é um shopping center. É o que o público quer. Ele quer consumir. Então, vamos trazê-los para consumir. O problema é que as pessoas não conseguem ver a vitrine toda. O espectador pós-moderno não se encaixa no espetáculo tradicional. Trago a crítica a eles: - Não façam isso. Ou façam. Não há verdades. Os atores amadores querem estar na Indústria Cultural, mas não estão. Querem fazer sucesso, mas não fazem. Quero trabalhar com esses. Os que fazem sucesso estão perdidos.

Boqueirão: Você disse que existem atores de verdade e atores de mentira. Qual é a diferença entre eles?
Maria Tornatore: O ator de mentira vive na ficção da ficção. Ele acha que será alguém porque fez uma ficção. Vamos deixar claro. O ator que busca sucesso vive também uma vida de ficção. Não descobriu que a vida é fazer teatro de verdade. O teatro de R$ 10, de pobres. Essa idéia não pode ser comprada por um ator de verdade. Ele pode reconhecê-la. Tem que força e consciência para sobreviver. Arte é crítica da arte. A arte não pode cooperar com o sistema atual. Não gosto de leis de incentivo, de projetos encostados em secretarias. Isso acomoda. Que tenha um espectador, faço para ele.

domingo, 23 de novembro de 2008

O trem para Juquiá

O sobrado do canal 3 é o maior símbolo da família. Ali, aconteceram reuniões, festas, brigas e acordos de paz que formaram quatro gerações. Embora foco de relacionamentos, a casa quase centenária abrigou poucos para uma noite de sono. Isso deveria ser motivo de orgulho para aquele moleque de 13 anos, em plena década de 80. Mas será que um adolescente se importaria com isso? Com a cabeça povoada de dúvidas e de frágeis certezas, provavelmente não pensaria no assunto ou o consideraria irrelevante.

Passar a noite no andar de cima do sobrado não tirou o sono dele. Não havia expectativa alguma por causa daquela experiência noturna. A ansiedade dizia respeito ao que aconteceria na manhã seguinte. Na verdade, logo ao amanhecer. O medo de perder um compromisso que exigia pontualidade britânica.

O que o manteve acordado quase a noite toda era a viagem. Viajar de trem de Santos a Juquiá naquela manhã de sábado. O trem sairia às 7 horas, sem atrasos. Acordaria antes das seis, o que teria provocado a insônia. Mentira! Era a ansiedade de seguir por um caminho novo, desconhecido em absoluto, e por um transporte também inédito para ele.

O passageiro de primeira viagem seria acompanhado pelo primo Orlando Carlos, na época com cerca de 25 anos. A idéia era passar o final de semana no Vale do Ribeira, o que incluía a pousada na casa de parentes.

A estação de trem fascinava. Pessoas correndo, olhos no relógio, malas pesadas com o barulho de arrastadas, a cabine do bilheteiro retirada de um filme sobre o interior de um país qualquer. Depois, embarcar em dos vagões de passageiros. Os bancos pareciam réplicas daqueles que se vêem em lanchonetes norte-americanas do período rockabille. Mas o tempo colocava os assentos nos devidos lugares. Assim como os ingressos faziam com os passageiros.

O desgaste dos bancos cinzentos não trazia glamour ao passeio. Furos eram comuns em um tecido azulado (ou de tom cinza) desgastado, mas não significavam sintoma de desconforto. Irrelevante! O trajeto marcava pelas estações e pelos tipos humanos que transitavam pelos vagões. A lista incluía, claro, os funcionários uniformizados, de humores variados.

A estação do Samaritá, em São Vicente, lembrava uma cidade à parte. Dezenas de pessoas na plataforma, destinos múltiplos, sacolas de compras, rostos cansados de uma semana em que viajar de trem tornara-se uma obrigação a mais, capaz de exterminar a vontade de ver o que corre ao lado de fora.

Após duas horas, Itanhaém! Cidade que o moleque de 13 anos freqüentava duas, três vezes por mês. Mas que provocada novas impressões a partir dos trilhos do trem, que apontavam para outras perspectivas além da faixa de areia.

A partir daí, composições mais vazias e cenários de Mata Atlântica até o Vale do Ribeira. O primo mais velho – hoje não se tem certeza – apontava para as curiosidades do trajeto, fosse espaço urbano, fosse mata fechada. De alguma forma, mantinha-se distraído nas três horas distantes.

Ao meio-dia, quando encostou em Juquiá, o trem poderia ter moído seus passageiros de cansaço. Mas, nesta idade, o que seria uma viagem de cinco horas, naquelas circunstâncias. Tanto que ele não se lembra como voltou. Provavelmente de ônibus. Nunca se importou em perguntar para seu colega de viagem, pois crê no valor da travessia, e não em como se chega ao destino.

Hoje, com mais de 30 anos, o “garoto” observa a Estação da Cidadania, espremida por um hipermercado, perto do cruzamento das avenidas Francisco Glicério e Ana Costa, em Santos. A nostalgia ressuscita sentimentos ambíguos. A estação aguça o prazer de uma viagem idealizada pela memória e recriada pelo presente com elementos talvez distantes do real.

Por outro lado, também cutuca a melancolia de quem não poderá repeti-la, nem com as maravilhas da modernidade, lindas nos projetos e sempre prometidas pelo engravatados do poder. Viajar de trem, na memória do século passado!