sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Sucupira sem Odorico

“O Bem-amado” é um das obras mais profundas e populares da dramaturgia de Dias Gomes. Produzido na TV durante o regime militar, o texto funcionava como uma metáfora para o comportamento da classe política no Brasil, caracterizada pelo clientelismo, pelo nepotismo e, principalmente, pelas estratégias focalizadas na perpetuação do poder. Na novela (e depois seriado), as artimanhas passavam pela malandragem e pela demagogia.

Ao olhar para o resultado eleitoral em São Vicente, segundo maior colégio eleitoral do Litoral de São Paulo, é possível notar a reedição de diversas características do universo de Sucupira, governada por Odorico Paraguassu. Mas há uma diferença, que pode ser vista como substancial e, ao mesmo tempo, insuficiente para afetar o todo.

Paulo Gracindo interpretava o papel do prefeito matreiro, sempre envolvido em negociatas, com capacidade ilimitada de costurar articulações para permanecer no controle da política, além de exibir um caricato e competente carisma que iludia a população.

Aí está a diferença. Tércio Garcia não é Odorico Paraguassu. Trata-se de um técnico (engenheiro agrônomo de profissão) que virou prefeito. Tércio se encaixa no molde de político que agrada o eleitorado acomodado, pouco afeito aos embates naturais do processo democrático.

O prefeito reeleito de São Vicente trabalha como um gerente, que demonstra eficiência no andamento das coisas cotidianas, sem elevar o tom de voz ou sacudir a rotina previsível da cidade. Tércio não prima pelo carisma e pelo populismo, elementos inerentes nos políticos de velha guarda (o que não significa aposentados do poder; basta Brasília). Não são exatamente defeitos, mas implicam na imagem de alguém que ainda não conseguiu se livrar da sombra do mentor, o deputado federal Márcio França. Por isso, Tércio não foi reconhecido como articulador, somente como executor.

A vantagem do político-gerente é ter a personalidade associada à integridade. Escândalos podem explodir à volta, mas ele jamais sai chamuscado do incêndio. Esta postura garante uma separação adequada de outras esferas de poder durante uma eleição, ao mesmo tempo que assegura excelente relacionamento com as mesmas instituições.

Tércio Garcia foi reeleito com quase dois terços dos votos válidos. O resultado o legitima a permanecer como representante de um grupo que governa São Vicente há 12 anos. Outros quatro anos expõem as semelhanças com a cidade criada por Dias Gomes.

São Vicente, assim como Sucupira, não respira política. Apenas reproduz um falso espectro de debate; na verdade, vive a anti-política, marcada pela ausência completa de discordância.

A Câmara Municipal é o símbolo deste momento. Houve renovação no Poder Legislativo. Nove das 15 cadeiras terão novos “donos”. Veteranos como Carlos Gigliotti, Roberto Rocha e Nicolino Bozzela não conseguiram se reeleger. Ex-vereadores como Carlos Santiago também não tiveram votação suficiente para retornar ao cargo.

Os parceiros de dança mudaram, mas o ritmo da música permanece. A Câmara de São Vicente é caso único na Baixada Santista, já que a espécie “vereadores-de-oposição” foi extinta, com o aval das urnas. O quadro soa como um paradoxo, pois o eleitor demonstrou vontade de mudança, mas manteve o mesmo grupo no comando. O eleitor foi incapaz de perceber que permitia mais do mesmo? A hipótese é razoável, pois sabe-se que os candidatos são escolhidos pelo seu personalismo, e não por sua ligação partidária-ideológica.

Outro ponto importante na cidade que Dias Gomes não imaginou é a confirmação de dinastias. Além de fazer o sucessor e garantir sua reeleição, França foi competente em conduzir a campanha do filho Caio, de 20 anos, vereador mais votado da história do município. O garoto, estudante de terceiro ano de Direito, será o próximo presidente da Câmara? Ele tem o reconhecimento das urnas. Ele terá habilidade política ou será dependente do pai? O rapaz, em entrevista recente, falou até em Prefeitura no futuro.

O deputado estadual Luciano Batista, também do PSB, também deixou herdeiros no Legislativo, com a eleição do sobrinho Diogo Batista.

É uma pena que São Vicente tenha abdicado do embate de idéias. A cidade seguirá morna, com uma imagem construída sem contestação, e inviabilizada para outras formas de gestão. Valerá apenas a manutenção de um sistema de governo, sem a perspectiva, a curto e médio prazos, do surgimento de novas lideranças que não sejam as que rezam uma cartilha conhecida por todos.

O prefeito Tércio Garcia será o Bem-amado, no sentido de receber tapinhas nas costas de todos, como sintoma de afetividade circunstancial. De resto, São Vicente terá um gerente, mas não uma réplica de Odorico Paraguassu, papel a ser exercido por outras personalidades do local.

2 comentários:

Revista Pausa disse...

Caro professor, o melhor comentário sobre as eleições na Baixada que li até o momento.

Marcus Vinicius disse...

Amigos da revista Pausa,

Agradeço pelo comentário!!! Acompanho a revista e sei do cuidado desta publicação com o conteúdo e da capacidade intelectual de seus integrantes. Muito obrigado!!!