sábado, 27 de setembro de 2008

É preciso explicar Paulo Coelho?

Paulo Coelho é um escritor do mundo contemporâneo. Não se trata do momento em que ele vive, mas como lida com os atalhos da indústria cultural e a relação com o público. A cada livro, a crítica brasileira coloca a faca entre os dentes e procura ângulos para demolir a obra. Os textos – que às vezes beiram a briga de boteco de tão rasteiros – confirmam a profecia de Nelson Rodrigues: a crítica é incapaz de levar uma bactéria a qualquer evento cultural.

Coelho sabe da importância da comunicação, da necessidade da presença constante do autor nos pontos de venda e, principalmente, que os tempos atuais exigem a fusão entre escritor e livro como simbiontes num mercado impregnado pela idéia de espetáculo, de cortinas de fumaça para oferecer um produto carregado de imagens muitas vezes artificiais.

É rotina, por exemplo, que ele acompanhe – ao lado da agente Mônica Antunes – gráficos com índices de vendas de livros pelo mundo. Costuma compará-los com os da obra anterior, como estivesse diante de um plano de metas empresarial.

O comportamento mercadológico deste autor campeão de vendas não ajuda a explicar os motivos que levam as pessoas a lê-lo. O jornalista Fernando Morais, calejado por 45 anos de profissão, evitou especular os motivos que transformaram Paulo Coelho em um fenômeno editorial em escala planetária. Neste debate, a qualidade da obra é o menos importante! E sem cair na tentação dos críticos brasileiros. Entenda, leitor, como uma constatação, não com sutil juízo de valor.

Vários argumentos, principalmente os que foram difundidos pelo senso comum da imprensa brasileira, não se sustentam quando se observa o mercado europeu. Como explicar a idéia de que os brasileiros lêem Paulo Coelho porque lêem pouco? Os índices de leitura per capita na Europa são seis, sete vezes maiores. Aliás, lá também ele vende mais livros.

Na Europa, a crítica o valoriza. Aqui, a execração é pública. Lidera listas dos mais vendidos em ambos os lugares. Neste caso, confirma novamente – com a devida adaptação ao mundo da literatura – a tese de Nelson Rodrigues, que falava do teatro na citação original.

Na biografia O Mago, Fernando Morais evita julgamentos profundos. É evidente que o jornalista hierarquiza as informações como parte do processo criativo, mas procura respeitar uma narrativa cronológica. Isso ajuda a compreender a obsessão de Paulo Coelho por se tornar um escritor reconhecido.

Com o apoio de 170 cadernos que compõem os diários do escritor carioca entre os 12 e 48 anos, Morais pôde entender com mais clareza a fragilidade que se encontra por trás da aura do mago. Paulo Coelho cometeu sucessivos erros durante a juventude, mas também enfrentou situações que poderiam tê-lo matado antes do sucesso.

Tentativas de suicídio, eletrochoques, viagens longas nas drogas, relacionamentos fracassados, plágios, fraudes literárias. Paulo Coelho fugia das crises, sabotava o próprio sucesso nos poucos momentos de louros e glórias. Como alguém, em um ano e meio de parceria de Raul Seixas e 41 músicas, adquire seis apartamentos de alto padrão, renda mensal equivalente a R$ 400 mil nos dias de hoje, e larga tudo?

A biografia de Paulo Coelho, que vendeu mais de 100 mil exemplares no Brasil, será traduzida em 47 países. A obra mantém o padrão de trabalho de Fernando Morais, com texto fluente, profunda pesquisa, farta documentação, mais de uma centena de entrevistas. Segundo o autor, Paulo teria ficado surpreso com o resultado do livro, mas depois deu o braço a torcer como um retrato fiel. De qualquer modo, o biografado é atraente também em termos de mercado editorial.

Paulo Coelho é sucesso há 20 anos. Vende em todos os continentes, para culturas diversificadas. Escreve para mais de cem jornais. Atrai a atenção de estadistas e intelectuais das variadas ideologias. A própria tese de que ele escreve para os crêem, como disse Umberto Eco, também me parece frágil. Talvez se sustente na ótica da produção literária, mas é insuficiente diante do marketing e da indústria do entretenimento.

É necessário realmente explicar Paulo Coelho? Tentar entendê-lo soa como uma ponta de inveja, talvez admiração, independente do grau de curiosidade. Parece-me melhor deixá-lo onde está. Nas estantes das livrarias, com a livre prerrogativa de podemos decidir quem leremos a partir de agora.

3 comentários:

Rafael Silva Miramoto disse...

O último parágrafo resumiu bem a questão... Talvez os jornalistas sérios tenham raiva dele pelos plágios e os outros... que também queriam vender milhões... tenham muita inveja...

Obs.: já dá pra resumir as colunas em um livro hein... parabéns pelo aniversário de 1 ano

Rafael

Marcus Vinicius disse...

Rafael,

Sem entrar no mérito da obra dele, vejo certo incômodo pelo sucesso que Paulo Coelho faz. Mas é difícil comprovar esta hipótese. Resta perceber os exageros e refletir sobre os limites entre a crítica e o linchamento. Abraço, Marcus.

Rocio disse...

Eu acho que nós precisamos para fazer as coisas como você está pensando em construir um futuro melhor para a verdade e eu acho que a melhor maneira é encontrar um lugar para morar por enquanto eu vou alugar um apartamentos mobiliados buenos aires