sexta-feira, 19 de setembro de 2008

A farsa de Romildo Rosa

Romildo Rosa é um político profissional, daqueles que se apegam ao poder como formigas ao doce, capaz de negociatas e relações promíscuas para beneficiar a si e aos mais próximos. Eficiente na política, inepto na vida pessoal, Rosa não consegue administrar uma família desestabilizada.

Interpretado por Milton Gonçalves na novela “A Favorita”, da Rede Globo, Romildo Rosa é um daqueles vilões clássicos, que atraem os olhares dos espectadores e geram posteriores comentários como se o personagem fosse vizinho de porta.

Milton Gonçalves, com 74 anos e 53 de carreira, não esperava se envolver em polêmicas além dos limites do personagem e da novela. No entanto, o trabalho dele ganhou dimensão pelo fato do ator ser negro em um papel normalmente entregue a brancos. Para alguns críticos, poderia comprometer a imagem do negro na televisão brasileira.





A imagem do negro é distorcida desde o início da televisão. O próprio Milton Gonçalves cansou de interpretar papéis de escravos (por razões óbvias), empregados domésticos e bandidos em produções de TV. Nos últimos anos, alguns papéis que escapam aos estereótipos foram destinados a atores e atrizes negros. Por um lado, são exceções que confirmam a regra. Por outro, representam um lento avanço na principal mídia do país.

A primeira família de classe média negra em uma telenovela apareceu apenas em meados dos anos 90, em “A Próxima Vítima”. A primeira protagonista de um folhetim foi Taís Araújo, por duas vezes. Estranho? Taís protagonizou “Xica da Silva”, na extinta rede Manchete, no papel-título que – obviamente – teria que ser interpretado por uma atriz negra, pela condição de escrava da personagem.

Em 2003, ela ficou com o papel principal em “Da Cor do Pecado”. Tal situação foi capitalizada pela Globo, que trabalhou o caso como o pioneiro das telenovelas em seu material de divulgação.

Diante deste quadro e se observarmos outras linguagens do mundo da mídia, pode-se ter a falsa impressão de que os veículos de comunicação impõem um modelo de relações raciais em seus conteúdos. Na verdade, o debate corre o risco de se tornar insípido, como demonstrado por facções políticas ligadas ao movimento negro. A mídia funciona somente como uma caixa de ressonância a quem – de forma institucional – não interessa colocar as relações raciais na agenda pública. A melhor solução é manter o tema em ponto morto.

A discriminação racial brasileira precisa ser discutida com base em fatos sociais e econômicos, e não por meio da cortina de fumaça da sociedade do espetáculo. Subir no caixote e fazer discurso inflamado sobre a presença ou não de um ator negro numa novela em horário nobre distorce a relação causa-consequência da construção social brasileira.

A quantidade de artistas negros diante de câmeras ou holofotes representa o final da linha de um debate que envolve, essencialmente, as conexões econômicas e sociais. Um exemplo: o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) divulgou essa semana um estudo que compara diversos indicadores sócio-econômicos de negros e brancos entre os anos de 1996 e 2006.
Conforme a pirâmide social se estreita, as diferenças entre os dois grupos se acentuam. Assim como na TV, a comparação com o passado permite compreender que o quadro melhorou, mas segue ainda longe da perspectiva de igualdade.

A educação, por exemplo, reflete a distância. O ensino fundamental apresenta índices parecidos de matrículas entre as duas etnias. No entanto, o Ensino Médio expõe o quadro racial brasileiro. Entre os brancos, 58,4% estão na escola, contra 37,4% dos negros, ambos números baixos para padrões internacionais. Em 1996, o índice de negros era um terço do atual, assim como também era um quarto inferior entre os brancos.

Em resumo: a pesquisa do Ipea indica que negros avançam menos do que brancos na trajetória escolar, apresentam rendimento menor e taxas de alfabetização menores, se consideramos outros dados da pesquisa. Além disso, as mulheres permanecem mais tempo na escola do que os homens.

Segundo o Ipea, a renda entre os brancos sofreu queda, mas são os que recebem melhores salários, na média. As posições na lista não se alteraram nos dez anos de abrangência da pesquisa. Homens brancos recebem R$ 1.181 mensais. Mulheres brancas, R$ 742. Homens negros, R$ 583; e mulheres negras, R$ 383. Neste item, gênero e etnia só podem ser compreendidos se combinados em termos estatísticos.

O fator etnia deve ser considerado como elemento de análise, mas não como variável exclusiva. A desigualdade social não vê cor, embora atinja a maior parte dos negros brasileiros. Se o debate permanecer exclusivamente no campo étnico, parte da população poderá ser alijada – como acontece com as cotas raciais – de programas públicos.

Gastar saliva com a presença de um político negro na telenovela apenas colabora para solidificar o desvio que nos afasta do debate público sobre o papel do negro nos diferentes segmentos da sociedade brasileira. Transformar Romildo Rosa em blábláblá de palanque é tão nocivo quanto ignorar a desigualdade social, que não se manifesta somente pela cor da pele.

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