quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Café, fotos e rótulos

Reportagem publicada no jornal Boqueirão, n.701, de 23 a 29 de agosto de 2008, página 09.



A beleza arquitetônica suntuosa da Bolsa do Café, marco de uma fase de glamour econômico de Santos, contrastava com a simplicidade do fotógrafo que chegou ao local em meio a estrangeiros de chinelos de dedo e engravatados nativos do centro. Aos primeiros goles de café e alguns minutos de boa conversa, Marcos Piffer provocou a impressão de que rompera com os rótulos que cercavam a atividade profissional e a própria obra dele.

De mãos vazias, ele não carregava uma máquina fotográfica a tiracolo, embalada pelas tradicionais bolsas de cor preta, comum aos colegas de profissão. Uma hora depois, no andar superior da Bolsa, explicaria que fotografar representa um ato solene. “Não carrego máquina nem no carro. Preciso de concentração e de tempo para registrar uma imagem.”
O fotógrafo santista não se destacou em 30 anos de carreira apenas pela relação com os equipamentos. Como artista, Piffer não tem pressa; fotografa como se os ponteiros do relógio corressem em outra velocidade. O processo de trabalho é semelhante ao de um ourives que, diante de uma pedra bruta, matura a jóia a ser lapidada como única, sem prazo definido para entrega.

Marcos Piffer defendeu esta lógica criativa ao justificar as 28 imagens em preto e branco da mostra fotográfica “Coffea – O café no Brasil no Século XXI”, no Museu dos Cafés do Brasil. É parte de um projeto que inclui livro de mesmo nome, com 208 páginas e 185 imagens de plantio, colheita e benefício de café em seis Estados brasileiros. A exposição permaneceu até o feriado de 7 de setembro, em Santos. Para a curadora Marjorie Medeiros, a mostra se encaixa na proposta do lugar, ao unir cultura, história e café.

A exposição, de caráter itinerante, estará na Fnac, livraria na avenida Paulista, em São Paulo, até o dia 29 de setembro. Depois, outros endereços da capital paulista, além de Rio de Janeiro, Brasília, Porto Alegre e Campinas, isto é, agenda definida até junho de 2009.
Coffea é resultado de cinco anos de trabalho e 23 viagens, a última em janeiro deste ano. O fotógrafo calcula ter feito de 16 mil a 18 mil disparos nos equipamentos que o acompanharam durante o trajeto.



Os textos do livro foram escritos por três autores, escolhidos por suas especialidades. A crítica de fotografia Simonetta Persichetti, por exemplo, escreveu que “mesmo quando o trabalho é pesado, quando sabemos ou pré-concebemos o que existe de dramático por trás do dia-a-dia de um trabalhador rural no Brasil, encontramos nas fotografias a possibilidade de imagens poéticas, de sonho.” Os outros dois autores, Soren Knudsen e Eduardo Carvalhaes Júnior, refletiram sobre o café e a história da planta.

O prazo de conclusão do livro cresce em mais dois anos se incluirmos as primeiras reflexões e experiências com as fases da cultura de café. O fotógrafo se aproximou do tema ao trabalhar por 18 meses, entre os anos de 2001 e 2002, para uma grande empresa do setor. A idéia inicial era documentar todo o processo produtivo nas quatro fazendas da companhia.

A Fazenda Conquista, em Alfenas (MG), particularmente, deixou o fotógrafo inquieto. “Mas não foi um processo linear ou consciente.” Naquele momento, Piffer procurava por um projeto que o afastasse de duas características que marcavam a trajetória profissional: a cultura caiçara e o meio ambiente. Dois livros dele, “Santos – roteiro lírico e poético” e “Litoral Norte”, transitavam nas duas temáticas. “A única maneira de quebrar o rótulo era seguir para o interior do Brasil.”
Aquele ano e meio de trabalho para a empresa cafeeira, mais as leituras sobre o assunto, permitiram a ele entender quais caminhos percorrer para radiografar com fidelidade o setor cafeeiro no país.
Na exposição, mais da metade das imagens retratam trabalhadores. Numa delas, duas mulheres estendem as mãos, repletas de calos, que cobrem seus rostos. São faces de pouca importância diante do símbolo da rudeza na lida do campo. “Também era conhecido como fotógrafo de paisagens, embora sempre registrasse pessoas. Queria deixar clara a presença humana na cultura do café. Mas antes de ser sobre café e trabalho, o livro é sobre fotografia.”
O crítico Juan Esteves, no site Fotosite, acompanhou esta percepção e comparou uma das imagens de Piffer a “um registro épico salgadiano” (em alusão ao fotógrafo Sebastião Salgado).
È o primeiro trabalho de longo prazo que afastou Marcos Piffer de filmes e manhãs de revelação no laboratório. Todo o material foi captado por máquinas digitais. “Jamais imaginaria as vantagens da mudança de equipamento.”



Laboratório na garagem - Como entender um artista que rompe com si mesmo e com o que acreditava ser senso comum? Para iluminar a pergunta, talvez seja necessário compreender a relação sujeito e obra. Aos 46 anos, Piffer tomou a decisão de abandonar o habitat que consumiu parte de sua vida: o laboratório fotográfico. Isso não significou o divórcio absoluto com as origens, mas uma forma de respeitá-las, tanto que o laboratório permaneceu montado, e considerar a evolução pela mudança de balizas técnicas.

Na metade da década de 70, a técnica de revelar e ampliar fotos aguçava a curiosidade do então adolescente de classe média, filho do engenheiro da Codesp Carlos Alberto Piffer, personagem conhecido no porto e visto hoje pelo filho como “competente fotógrafo amador”. Nos fundos da garagem fechada – um espaço de sete metros de comprimento por cinco de largura –, existe até hoje um compartimento à parte, que funcionava na época como depósito de objetos indesejáveis. O local era um laboratório fotográfico desativado pelo engenheiro que abandonava gradualmente o hábito de congelar imagens do cotidiano da família e da cidade. O reflexo era a redução no número de fotos que documentavam o nascimento e a infância de cada um dos quatro filhos.

Aos 14 anos, Marcos chamou a atenção do pai ao fotografar um passeio escolar em Itu, no interior de São Paulo. A resposta foi uma máquina fotográfica usada como presente de Natal. No entanto, a arte deu lugar ao pragmatismo quando o jovem fotógrafo decidiu cursar Arquitetura na Universidade Católica de Santos. Apenas no último ano, ao preparar o trabalho de conclusão, surgiu a dúvida: arquitetura ou fotografia? Ao conversar com a professora Maria Argentina, que orientava a pesquisa, recebeu uma pergunta como resposta:

- Você ainda tinha dúvida sobre a fotografia?

O tempo de se convencer não foi instantâneo. Piffer atuou dois anos como arquiteto, enquanto realizava pequenos trabalhos como fotógrafo. Após as férias, em 1989, retornou ao escritório para se demitir e oficializar a nova profissão.

Hoje, dá aulas de Fotografia nos cursos de Arquitetura e Design de Interiores na mesma instituição de ensino, em Santos. Com os alunos, faz experimentações de linguagem e cor, visando evitar os formatos tradicionais, ainda que seja necessário conhecê-los. “Permito que eles usem qualquer equipamento que capte luz”, disse, antes de sorrir com satisfação.

Nas relações pessoais, Marcos Piffer também não segue modelos tão convencionais. Pai de uma filha de dez anos, ele não se casou com alguém da mesma área (a esposa é dentista) e pouco conversa sobre equipamentos fotográficos. Entedia-se em explicar velocidade, abertura e outros itens de uma imagem, questionamentos comuns dos adeptos da fotografia. “Não converso sobre estes assuntos. Comprar uma máquina é um esforço.”

O fotógrafo santista pretende, como próximo passo artístico, romper com outro limite: as fronteiras nacionais. Com viagem programada para o final do ano, o destino será a América Central. O motivo: entender o papel do café no mundo, mas com imagens em cores. “Será uma viagem de prospecção, de pesquisa.” Neste projeto para mais cinco anos, Marcos Piffer ainda não pensou em custos, personagens ou locais, porém sabe que novamente se deparou com uma pedra em estado bruto, inédita para o artista, que a analisa sem pressa de lapidação pelas lentes fotográficas.

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