sábado, 27 de setembro de 2008

É preciso explicar Paulo Coelho?

Paulo Coelho é um escritor do mundo contemporâneo. Não se trata do momento em que ele vive, mas como lida com os atalhos da indústria cultural e a relação com o público. A cada livro, a crítica brasileira coloca a faca entre os dentes e procura ângulos para demolir a obra. Os textos – que às vezes beiram a briga de boteco de tão rasteiros – confirmam a profecia de Nelson Rodrigues: a crítica é incapaz de levar uma bactéria a qualquer evento cultural.

Coelho sabe da importância da comunicação, da necessidade da presença constante do autor nos pontos de venda e, principalmente, que os tempos atuais exigem a fusão entre escritor e livro como simbiontes num mercado impregnado pela idéia de espetáculo, de cortinas de fumaça para oferecer um produto carregado de imagens muitas vezes artificiais.

É rotina, por exemplo, que ele acompanhe – ao lado da agente Mônica Antunes – gráficos com índices de vendas de livros pelo mundo. Costuma compará-los com os da obra anterior, como estivesse diante de um plano de metas empresarial.

O comportamento mercadológico deste autor campeão de vendas não ajuda a explicar os motivos que levam as pessoas a lê-lo. O jornalista Fernando Morais, calejado por 45 anos de profissão, evitou especular os motivos que transformaram Paulo Coelho em um fenômeno editorial em escala planetária. Neste debate, a qualidade da obra é o menos importante! E sem cair na tentação dos críticos brasileiros. Entenda, leitor, como uma constatação, não com sutil juízo de valor.

Vários argumentos, principalmente os que foram difundidos pelo senso comum da imprensa brasileira, não se sustentam quando se observa o mercado europeu. Como explicar a idéia de que os brasileiros lêem Paulo Coelho porque lêem pouco? Os índices de leitura per capita na Europa são seis, sete vezes maiores. Aliás, lá também ele vende mais livros.

Na Europa, a crítica o valoriza. Aqui, a execração é pública. Lidera listas dos mais vendidos em ambos os lugares. Neste caso, confirma novamente – com a devida adaptação ao mundo da literatura – a tese de Nelson Rodrigues, que falava do teatro na citação original.

Na biografia O Mago, Fernando Morais evita julgamentos profundos. É evidente que o jornalista hierarquiza as informações como parte do processo criativo, mas procura respeitar uma narrativa cronológica. Isso ajuda a compreender a obsessão de Paulo Coelho por se tornar um escritor reconhecido.

Com o apoio de 170 cadernos que compõem os diários do escritor carioca entre os 12 e 48 anos, Morais pôde entender com mais clareza a fragilidade que se encontra por trás da aura do mago. Paulo Coelho cometeu sucessivos erros durante a juventude, mas também enfrentou situações que poderiam tê-lo matado antes do sucesso.

Tentativas de suicídio, eletrochoques, viagens longas nas drogas, relacionamentos fracassados, plágios, fraudes literárias. Paulo Coelho fugia das crises, sabotava o próprio sucesso nos poucos momentos de louros e glórias. Como alguém, em um ano e meio de parceria de Raul Seixas e 41 músicas, adquire seis apartamentos de alto padrão, renda mensal equivalente a R$ 400 mil nos dias de hoje, e larga tudo?

A biografia de Paulo Coelho, que vendeu mais de 100 mil exemplares no Brasil, será traduzida em 47 países. A obra mantém o padrão de trabalho de Fernando Morais, com texto fluente, profunda pesquisa, farta documentação, mais de uma centena de entrevistas. Segundo o autor, Paulo teria ficado surpreso com o resultado do livro, mas depois deu o braço a torcer como um retrato fiel. De qualquer modo, o biografado é atraente também em termos de mercado editorial.

Paulo Coelho é sucesso há 20 anos. Vende em todos os continentes, para culturas diversificadas. Escreve para mais de cem jornais. Atrai a atenção de estadistas e intelectuais das variadas ideologias. A própria tese de que ele escreve para os crêem, como disse Umberto Eco, também me parece frágil. Talvez se sustente na ótica da produção literária, mas é insuficiente diante do marketing e da indústria do entretenimento.

É necessário realmente explicar Paulo Coelho? Tentar entendê-lo soa como uma ponta de inveja, talvez admiração, independente do grau de curiosidade. Parece-me melhor deixá-lo onde está. Nas estantes das livrarias, com a livre prerrogativa de podemos decidir quem leremos a partir de agora.

terça-feira, 23 de setembro de 2008

O mago e o ateu



Reportagem publicada no jornal Boqueirão (Santos/SP), n. 705, 20 a 26 de setembro de 2008 - página 8.

Nascido em Mariana (MG), o jornalista e escritor Fernando Morais, de 62 anos, faz jus à fama dos mineiros. Com 45 anos de jornalismo, ele diz exatamente o que as pessoas desejam ouvir, e no tom ideal, além de ser um contador de causos nato, não apenas nas páginas impressas, mas também em entrevistas e nas conversas com leitores. Ele participou no último final de semana, do Conversatório, evento mensal que aproxima autor e público no Sesc, em Santos.
Quando falou de Paulo Coelho, com quem conviveu por quatro anos para escrever as 632 páginas de “O Mago” (editora Planeta do Brasil), o ateu Fernando Morais remexeu várias vezes na questão da fé.

Antes do projeto biográfico, o jornalista havia lido dois livros de Coelho, por curiosidade. “Minha incredulidade me impedia de continuar lendo.” Para escrever sobre a vida dele, consumiu a obra toda. “Isso não abalou minha ausência de fé. Como disse o escritor italiano Umberto Eco, Paulo Coelho escreve para quem tem fé. Para o leitor, o ideal seria alguém que não acreditasse em nada. E acho que Deus é a grande invenção do homem para se defender do homem.”

Biógrafo e biografado não se conheciam pessoalmente. Eram contratados da mesma editora e, guardadas as proporções entre ambos, acostumados com os holofotes em torno dos autores best-sellers. A diferença era que Paulo Coelho havia batido a marca de 100 milhões de exemplares vendidos em 166 países e se tornado o único escritor vivo mais traduzido do que o inglês William Shakespeare. O autor carioca, que possui 1250 contratos literários em vigor, era lido por chefes de Estado e cortejado por celebridades e intelectuais do mundo inteiro.

O cenário era ideal para a editora, de origem espanhola e presente em 16 países latino-americanos. O projeto não deveria envolver um personagem ou um episódio exclusivamente brasileiro. A primeira sugestão foi a apresentadora Xuxa, proposta recusada por Morais. “De Olga à Xuxa, não é exatamente um progresso. Não seria bom para minha biografia.”, disse às gargalhadas, referindo a Olga Benário, mulher de Luiz Carlos Prestes e biografada pelo próprio escritor mineiro nos anos 80.

Partindo de informações iniciais, Fernando Morais – que recebeu US$ 250 mil de adiantamento - imaginou um pop star, cercado de “puxa-sacos”, nas palavras do biógrafo. Ele disse ter encontrado um homem simples, por vezes inseguro e frágil. Um sujeito que sempre se veste de preto em eventos sociais, reza três vezes ao dia e carrega uma malinha pequena pelos aeroportos. Mas também é o escritor que se hospeda em hotéis com diárias equivalentes a R$ 4 mil, voa de primeira classe e provoca filas de milhares de pessoas em lançamentos de livros pela Europa. O homem que fez questão de se tornar um imortal da Academia Brasileira de Letras, embora freqüente as reuniões somente uma vez por ano.

As contradições iniciais parecem rodapé de página quando se trata da vida de Paulo Coelho até os 50 anos. Obcecado pela idéia de ser reconhecido como escritor, ele teve para muitos uma trajetória mais interessante do que a própria obra. Adolescente deslocado e educado em colégio jesuíta, o mago de origem carioca flertou com o satanismo (o que incluiu vários pactos com o demônio, posteriormente anulados), passou por experiências sexuais diversas, casou-se quatro vezes, tentou suicídio, foi internado pelos pais três vezes em manicômios, onde tomou eletrochoques.

Além disso, Paulo foi seqüestrado duas vezes por militares durante a ditadura (mesmo sem postura ideológica definida), consumiu drogas por vários anos, enriqueceu com o rock nacional a partir da parceria com Raul Seixas, foi ator, dramaturgo, produtor teatral, editor de revista de ocultismo e repórter do jornal O Globo, veículo onde inventou reportagens inteiras. “A grande surpresa desta história é que Paulo esteja vivo. O natural seria que tivesse morrido.”

O baú - Os episódios resumidos nos dois parágrafos acima não foram escavados rapidamente por Fernando Morais. Cerca de 200 páginas haviam sido escritas após dois anos de trabalho, quando o jornalista resolveu reler alguns documentos, entre eles o testamento de Paulo Coelho. Ali, aparecia a indicação: um baú localizado em um dos apartamentos dele, no Rio de Janeiro, deveria ser incinerado com seu conteúdo logo após a morte.

Desconfiado, Fernando Morais telefonou para Paulo de madrugada, no fuso horário da França, onde ele reside em um antigo moinho, numa vila com 200 habitantes. O jornalista insistiu mesmo com a negativa de importância do conteúdo do baú, que teria tralhas de menino, como trens elétricos e revistas em quadrinhos. No final, Paulo fez uma aposta: se Morais descobrisse quem foi o militar que o torturou em Ponta Grossa (PR), receberia as chaves para abrir o baú.

O jornalista acionou uma série de contatos, inclusive no Ministério do Exército e, não só descobriu o major Índio do Brasil Lemes, como o entrevistou e o fotografou. Recebeu as chaves de um compartimento enorme, que parecia um armário. Dentro dele, 170 cadernos, os diários escritos entre os 12 e os 48 anos da vida de Paulo Coelho. “Joguei as 200 páginas escritas fora”, explicou.


Os diários traziam as angústias, as mentiras, as manipulações, as inseguranças, as relações amistosas e conflituosas com pais, amigos e amantes, além da recorrente obsessão em se transformar em um escritor renomado. Para o jornalista, a biografia seria “paupérrima” e retrataria um Paulo “bonitinho” se não houvesse descoberto o baú. “A coluna vertebral do livro O Mago e a dramaticidade da história vem dos diários. O baú foi uma espécie de psicanálise. Colocar a mão na água e remexer até o fundo.”
Fernando Morais, como descrente, não poderia se limitar a reproduzir uma série de cadernos. Era fundamental checar as informações. Entrevistou Paulo Coelho várias vezes. Numa delas, permaneceu na vila francesa de Saint Martin por seis semanas. Acompanhava o biografado até na caminhada diária de uma hora. “Ele andava com um gravador pendurado no pescoço.”
Outras 100 entrevistas foram feitas no Brasil, o que obrigou Morais a alugar um apartamento mobiliado e transformá-lo em residência por oito meses no Rio de Janeiro. Entre as confirmações, a tentativa de suicídio da ex-namorada Adalgisa, que Paulo sacrificou ao “Anjo da Morte”. Para combater a depressão após um aborto, Gisa foi estimulada a tomar calmantes e entrar no mar, sem saber nadar. Paulo acompanhou à distância a tentativa de suicídio e se surpreendeu quando a namorada retornou viva à praia.

Roubo – Fernando Morais confessa ter invadido a privacidade do biografado para obter determinadas informações. Em Madri, os dois estavam em um hotel gravando uma entrevista, no quarto de Paulo Coelho. Após cinco horas, Paulo pediu um intervalo e disse que tomaria banho. Depois de ouvir o barulho do chuveiro, o jornalista abriu a bolsa de seu entrevistado, pegou bulas de remédios, anotou os nomes dos medicamentos na palma da mão, desceu ao apartamento, passou os dados para o computador e retornou ao quarto de Paulo Coelho. Depois, Morais telefonou para um médico no Brasil com o objetivo de descobrir para que serviam os remédios. “Foi coisa de ladrão”, afirma, em tom de brincadeira.

Vinho de quermesse - Até hoje, Fernando Morais afirma que não entende como Paulo Coelho aceitou se expor a um estranho. Como também não compreende certas atitudes dele e evita julgá-las. Um exemplo foi uma festa de reveillon que Paulo deu para 60 pessoas em sua casa na França. No meio da comemoração, pediu a palavra e disse que a comida era por conta da casa, mas o custo do vinho deveria ser repartido entre todos. Preço: 16 euros por pessoa. “Parecia coisa de quermesse”, brinca o jornalista.
Escrever a biografia consumiu a saúde de Morais. Dez quilos mais gordo, o biógrafo ganhou uma hipertensão proporcional ao tamanho da obra que escreveu. A pressão alcançou picos de 18 por 15. Meses depois, ainda toma medicamentos e corre o risco de se tornar diabético. “Foi um livro que me deu muito prazer e muita dor. Lembro da escritora Rachel de Queiroz, que dizia não gostar de escrever. Eu gosto de ter escrito o livro.”

Como recompensa, O Mago já vendeu 100 mil exemplares no Brasil. A obra será traduzida em 47 países a partir de novembro. Mesmo diante dos números, Fernando Morais permanecia descrente com o sucesso da obra no exterior. Acalmou-se apenas quando ouviu a esposa de Paulo Coelho, a artista plástica Christina Oiticica. A opinião dela é ouvida pelo marido até nas questões menores do cotidiano. O jornalista-ateu também passou a escutá-la. “Nesta santa, eu acredito.”

O defunto ainda quente

Matéria publicada no site http://www.boqnews.com/ como complemento à reportagem acima.

Antes de se debruçar sobre a vida de Paulo Coelho, Fernando Morais pretendia escrever a biografia do presidente da Venezuela, Hugo Chavez, de quem é amigo pessoal. Mas ouviu do próprio candidato a biografado que a tarefa já estava nas mãos do jornalista Bob Fernandes (ex-Carta Capital).

Por isso, depois de publicar O Mago, a pergunta de anos atrás reaparece em qualquer encontro pelo Brasil: e o livro sobre o ex-senador Antônio Carlos Magalhães? Esta história acompanha Fernando Morais desde que ele lançou “Corações Sujos” (Cia.das Letras), em 2000, e anunciou o projeto. Na verdade, ele trabalha – com abandonos e retomadas - há 11 anos na biografia do ex-senador baiano, falecido no ano passado. Havia, inclusive, acertado com ACM que ele não leria a obra antes de ser publicada. “Se Paulo Coelho topou a proposta na hora, ACM pediu 15 dias para pensar. Mas ele aceitou.”

O escritor garante que não deve retomar a obra a curto prazo. Para ele, ACM ainda não morreu. Ele se refere à disputa pelo legado político e material do ex-senador. “Vou esperar o defunto esfriar.”

Preguiça - Apesar de distante das disputas eleitorais, Fernando Morais ainda é filiado ao PMDB. Mas afirma que por pura preguiça. “Sou filiado por inércia.” A forma pasteurizada da política o desiludiu e o faz lembrar da ditadura militar como um período mais interessante para o choque, para o debate de idéias. “Naquela época, as ações eram mais objetivas. Você sabia quem deveria derrubar.“, lamenta, entre duas tragadas de charuto.

Deputado federal por duas gestões, ex-secretário estadual da Cultura e da Educação, além de candidato a governador em uma ocasião, ele se cansou do processo político. “Hoje, os candidatos são muito parecidos. Faltam ações conjuntas. Em educação, por exemplo, governadores preferem colocar dinheiro em grandes obras”, lamenta.

Morais se revoltou, inclusive, com a organização das campanhas eleitorais. Ele vê o marketing político como vilão na construção da imagem dos candidatos. O escritor disse que viveu na pele a chance de se tornar um sabonete quando se candidatou a governador, há seis anos. “Queriam que eu cortasse o cabelo e aparasse a barba. Eu me recusei e tiveram que aceitar. Eu não vou me fantasiar. Além disso, tive que ceder tempo no horário eleitoral para o então candidato a senador Orestes Quércia.”

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Sentidos da fotografia

Reportagem publicada no jornal Boqueirão, n.704, página 10, entre 13 e 19 de setembro de 2008.



O formigueiro humano em que se transforma a entrada principal do bloco M, na Universidade Santa Cecília, carrega consigo uma sinfonia de sons na qual se misturam passadas e vozes de jovens cansados, animados ou apressados. Todos estão sempre com os olhos no relógio para dosar o tempo entre uma refeição rápida e a aula que começou há poucos minutos. Mas, na última segunda-feira à noite, o tango mais puro da boca de Buenos Aires destoava da orquestra dos estudantes universitários.

Ao virar a cabeça para a direita, qualquer pessoa poderia ver fortes luzes destacando as fotografias de Sandra Santos, que inaugurava a exposição Vertentes, na Galeria de Arte da universidade. O ar de cansaço transparecia a felicidade da fotógrafa, que recepcionou cerca de 150 pessoas somente no primeiro dia da mostra. Foram dois dias de trabalho para organizar o espaço, fora os três meses de seleção e preparação das 38 fotos finais. O material foi captado nos últimos três anos, dentro e fora do país.

Na entrada da galeria, o aroma adocicado de mato misturava-se ao som de origem argentina e à forte luminosidade. É o cheiro de centenas de folhas secas que cobrem quase todo o piso branco e frio da galeria. Meia hora depois, a fotógrafa explicaria que as folhas representavam uma das vertentes da mostra.

Sandra Santos se referia a uma série de 12 imagens de várias espécies de árvores, captadas no Jardim Botânico do Rio de Janeiro e em Itaipava, na cidade de Petrópolis (RJ). As fotos foram feitas em ângulos muito fechados, com luz natural e foco nos troncos, que transmitem a sensação de textura da vegetação a ponto de aguçar a vontade de tateá-las na parede de fundo branco da galeria. “A natureza é a pele da terra”, filosofa.


O tango que permanece como som ambiente é composição de Astor Piazolla, executada pelo violoncelo de Yo Yo Ma, francês radicado nos Estados Unidos e um dos maiores nomes da música instrumental contemporânea. A trilha sonora é indicativa de outra vertente do trabalho da fotógrafa. O material foi produzido em Buenos Aires. Duas das imagens chamaram a atenção. “A Memória da Dor” reproduz o tradicional protesto das mães da Plaza de Mayo, que reclamam pelos corpos de seus filhos mortos pela ditadura militar daquele país. Hoje, elas se transformaram em avós na praça onde se localiza a Casa Rosada, sede do governo argentino.

A segunda imagem, de nome “Libertango”, retrata um menino que olha ao horizonte. Ao fundo, o logotipo de um banco internacional. Para a fotógrafa, é um registro de cunho político. “O garoto tem atrás de si o capitalismo e procura enxergar o próprio futuro”, explica Sandra.
Da natureza ao humano - Por 25 anos, a fotógrafa focalizou seu trabalho na natureza. Parte deste enfoque resultou no livro Por Todos os Poros, lançado em 2004. Os textos da obra são do professor Gilson de Melo Barros, curador da mostra. “Ele é meu pai artístico”, orgulha-se.

Em 2004, Sandra Santos passou a registrar o que era uma evolução natural de sua percepção fotográfica. O olhar social necessitava do clic da máquina digital. As andanças pela América do Sul, nas férias, foram o gatilho para o registro de imagens sobre a miséria e a desigualdade humanas. Esta terceira e nova faceta, com imagens de pessoas na Bolívia e no Peru, é simbolizada pelo término das folhas secas e a passagem para o piso frio, no centro da galeria.









Ali, a mudança de ambiente é novo reforço para a ânsia da fotógrafa em multiplicar sentidos, ultrapassando os limites da leitura visual. “As pessoas dizem estar cansadas de ver miséria, mas se elas não a virem, quem verá.” No dia da abertura, as fotos de meninas e meninos bolivianos – captadas à distância ou depois de um rápido diálogo - eram mais do que o centro geográfico da exposição, e sim o foco dos debates entre as pessoas.

O resultado atendeu o desejo de Sandra, pois a conversa transitava entre a beleza das imagens e o universo miserável dos indivíduos retratados, como a senhora de rosto com fissuras provocadas por décadas de sol. Os traços dela ganhavam profundidade, segundo a fotógrafa, pela irritação – manifestada em quíchua (idioma local) – por não receber dinheiro estrangeiro para ter a imagem registrada. “Ninguém passa impune por esta foto”, afirma e, na seqüência, eleva o tom de voz para reforçar sua crença nas palavras.

Direito e fotografia - Sandra Santos é uma advogada de 46 anos. De estilo pouco convencional, ela mantém soltos os cabelos vermelhos, contrastados na rotina da universidade pelas roupas casuais que não reproduzem o ar solene do mundo jurídico. Ela, aliás, detesta os tradicionais tailleurs que desfilam pelos fóruns. Especializada em Direito Civil, tem mestrado na área e dá aulas desta disciplina na graduação e na pós-graduação da mesma instituição de ensino que agora abriga suas fotos. Para Sandra, as duas áreas são complementares, como causa e consequência. “O Direito está relacionado a fatos. Foto é fato. E ambos geram emoção nas pessoas.”


Ela ganhou a primeira máquina, uma Kodak, aos cinco anos, mas começou a fotografar na adolescência. Aos 18 anos, Sandra foi estudar na Escola Panamericana de Arte, em São Paulo, e depois na Focus. Antes de optar pela advocacia, teve uma empresa – no estilo exército de um homem só – na qual vendia cartões postais com imagens feitas por ela mesma.

No início da década de 90, Sandra Santos entrou no universo das exposições. Desde então, participou de oito mostras. A atual, na Unisanta, é a sexta individual. A fotógrafa mantém a rotina de uma exposição a cada três anos, em um roteiro que já incluiu Rio de Janeiro e Salvador (BA). Mas orgulha-se de ter quebrado a regra uma vez, quando participou da Bienal de Artes Plásticas, em Santos, em 2004.

Vertentes, de acordo com a própria artista, traz como razão essencial fazer com que “as pessoas trabalhem outros sentidos diante da fotografia”. Na noite de inauguração, faltava somente resolver o problema do paladar, rapidamente equacionado pela discrição de dois garçons que serviam água, refrigerante e vinho branco para os visitantes.

A farsa de Romildo Rosa

Romildo Rosa é um político profissional, daqueles que se apegam ao poder como formigas ao doce, capaz de negociatas e relações promíscuas para beneficiar a si e aos mais próximos. Eficiente na política, inepto na vida pessoal, Rosa não consegue administrar uma família desestabilizada.

Interpretado por Milton Gonçalves na novela “A Favorita”, da Rede Globo, Romildo Rosa é um daqueles vilões clássicos, que atraem os olhares dos espectadores e geram posteriores comentários como se o personagem fosse vizinho de porta.

Milton Gonçalves, com 74 anos e 53 de carreira, não esperava se envolver em polêmicas além dos limites do personagem e da novela. No entanto, o trabalho dele ganhou dimensão pelo fato do ator ser negro em um papel normalmente entregue a brancos. Para alguns críticos, poderia comprometer a imagem do negro na televisão brasileira.





A imagem do negro é distorcida desde o início da televisão. O próprio Milton Gonçalves cansou de interpretar papéis de escravos (por razões óbvias), empregados domésticos e bandidos em produções de TV. Nos últimos anos, alguns papéis que escapam aos estereótipos foram destinados a atores e atrizes negros. Por um lado, são exceções que confirmam a regra. Por outro, representam um lento avanço na principal mídia do país.

A primeira família de classe média negra em uma telenovela apareceu apenas em meados dos anos 90, em “A Próxima Vítima”. A primeira protagonista de um folhetim foi Taís Araújo, por duas vezes. Estranho? Taís protagonizou “Xica da Silva”, na extinta rede Manchete, no papel-título que – obviamente – teria que ser interpretado por uma atriz negra, pela condição de escrava da personagem.

Em 2003, ela ficou com o papel principal em “Da Cor do Pecado”. Tal situação foi capitalizada pela Globo, que trabalhou o caso como o pioneiro das telenovelas em seu material de divulgação.

Diante deste quadro e se observarmos outras linguagens do mundo da mídia, pode-se ter a falsa impressão de que os veículos de comunicação impõem um modelo de relações raciais em seus conteúdos. Na verdade, o debate corre o risco de se tornar insípido, como demonstrado por facções políticas ligadas ao movimento negro. A mídia funciona somente como uma caixa de ressonância a quem – de forma institucional – não interessa colocar as relações raciais na agenda pública. A melhor solução é manter o tema em ponto morto.

A discriminação racial brasileira precisa ser discutida com base em fatos sociais e econômicos, e não por meio da cortina de fumaça da sociedade do espetáculo. Subir no caixote e fazer discurso inflamado sobre a presença ou não de um ator negro numa novela em horário nobre distorce a relação causa-consequência da construção social brasileira.

A quantidade de artistas negros diante de câmeras ou holofotes representa o final da linha de um debate que envolve, essencialmente, as conexões econômicas e sociais. Um exemplo: o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) divulgou essa semana um estudo que compara diversos indicadores sócio-econômicos de negros e brancos entre os anos de 1996 e 2006.
Conforme a pirâmide social se estreita, as diferenças entre os dois grupos se acentuam. Assim como na TV, a comparação com o passado permite compreender que o quadro melhorou, mas segue ainda longe da perspectiva de igualdade.

A educação, por exemplo, reflete a distância. O ensino fundamental apresenta índices parecidos de matrículas entre as duas etnias. No entanto, o Ensino Médio expõe o quadro racial brasileiro. Entre os brancos, 58,4% estão na escola, contra 37,4% dos negros, ambos números baixos para padrões internacionais. Em 1996, o índice de negros era um terço do atual, assim como também era um quarto inferior entre os brancos.

Em resumo: a pesquisa do Ipea indica que negros avançam menos do que brancos na trajetória escolar, apresentam rendimento menor e taxas de alfabetização menores, se consideramos outros dados da pesquisa. Além disso, as mulheres permanecem mais tempo na escola do que os homens.

Segundo o Ipea, a renda entre os brancos sofreu queda, mas são os que recebem melhores salários, na média. As posições na lista não se alteraram nos dez anos de abrangência da pesquisa. Homens brancos recebem R$ 1.181 mensais. Mulheres brancas, R$ 742. Homens negros, R$ 583; e mulheres negras, R$ 383. Neste item, gênero e etnia só podem ser compreendidos se combinados em termos estatísticos.

O fator etnia deve ser considerado como elemento de análise, mas não como variável exclusiva. A desigualdade social não vê cor, embora atinja a maior parte dos negros brasileiros. Se o debate permanecer exclusivamente no campo étnico, parte da população poderá ser alijada – como acontece com as cotas raciais – de programas públicos.

Gastar saliva com a presença de um político negro na telenovela apenas colabora para solidificar o desvio que nos afasta do debate público sobre o papel do negro nos diferentes segmentos da sociedade brasileira. Transformar Romildo Rosa em blábláblá de palanque é tão nocivo quanto ignorar a desigualdade social, que não se manifesta somente pela cor da pele.

A repórter desobediente




Os jornalistas discutem, de tempos em tempos, a ausência de histórias interessantes nos jornais. Faltam repórteres de qualidade? O espaço para o texto diminuiu? As pessoas lêem pouco? As hipóteses se repetem. A inércia segue viva nas matérias declaratórias, repletas de aspas e com ar de telegrama, e expõe também a ausência de criatividade, em um cenário no qual ninguém avança um milímetro sem olhar para as páginas do concorrente. Na verdade, a impressão é que muitos repórteres ficaram cegos. Não olham, não observam, não se arriscam; mal ouvem o que seus entrevistados dizem. Será que apenas os escutam quando teses são reforçadas?



A esperança talvez se concentre nas exceções, em maior número do que imaginamos. Eliane Brum, uma jornalista gaúcha hoje com pouco mais de 40 anos, jamais se contentou com o papel distorcido do jornalismo. Como contadora de histórias, ela não poderia somente informar (é possível se isentar a tal ponto?). Teria que interpretar, explicar fatos e cenários. Transformou inquietações em reportagens. Tornou histórias irrelevantes para muitos jornalistas um prato cheio de vida pulsante. Ela ainda o faz como repórter especial da revista Época, porém eternizou seu passado nas páginas do livro “A vida que ninguém vê” (Arquipélago Editorial).



Durante 11 meses, em 1999, Eliane Brum publicou todo sábado histórias de personagens gaúchos no jornal Zero Hora, de Porto Alegre. Trabalhou lá por 11 anos até ser contratada pela Época, em 2000. No espaço semanal, misto de reportagem, crônica e coluna, ela publicou rotinas que as pessoas próximas aos entrevistados não enxergavam. Ou até mesmo desvalorizavam, por vezes ignoravam.



O livro “A vida que ninguém vê” reúne 23 textos, além de prefácio de Marcelo Rech, editor do Zero Hora, e posfácio de Ricardo Kotscho, que – curiosamente – tentou dissecar aquela que havia se acostumado a desmontar seus entrevistados.



O livro é daqueles que nos obriga – eventualmente - a abandonar a leitura por uns tempos. Ou reler o texto. Não porque seja de má qualidade, mas pelo fato de que certas matérias nos chocam pela poesia, como pela miséria humana. “O encantador de cavalos”, por exemplo, conta a vida de um menino que adorava montar esses animais pelas periferias. Por ter montado em um cavalo alheio, teve a cabeça a prêmio. A fortuna da recompensa: R$ 50.



Em “Sinal fechado para Camila”, a tragédia da menina que pedia esmolas nos semáforos. Ou a vida do mendigo que nunca pediu um trocado. O senhor que é estrela de comerciais de TV décadas depois de vivenciar o holocausto na Segunda Guerra Mundial. O cotidiano de um menino impedido de correr pelo morro onde reside após um acidente. Ou o sujeito que chora compulsivamente em velórios sem conhecer os defuntos. Histórias de pessoas desconhecidas e atraentes pela especialidade de um cotidiano único.



E pensar que a garimpeira-repórter quase foi fazer outra coisa na vida. Até o último ano da faculdade, Eliane Brum não sabia se deveria mesmo seguir o jornalismo. Traçou talvez o caminho natural dos grandes criadores de textos. Passou a adolescência enfiada com a cara nos livros. Compulsiva, leu de tudo. Devorou coleções infanto-juvenis e obras adultas. Produziu aquele primeiro romance que julga digno de se manter enterrado em uma gaveta.





O texto de Eliane abriu as portas para ela. Fez com que pudesse conhecer pessoas escondidas na própria vida anônima. Arrebentou as trancas de uma vida considerada insignificante pela maioria dos sujeitos. A repórter não transformou as pessoas comuns em celebridades. Apenas escreveu sobre o que julgava ser um momento passível de visibilidade, um recorte especial de quem normalmente é ignorado pelo jornalismo, atropelado pela velocidade das informações, ferido pelas declarações vazias, maltratado pelas aparências das “fontes-autoridades”.

O trabalho final na faculdade de Jornalismo, “Esperando na fila da existência”, mostrava como um indivíduo – teoricamente cidadão, mas sem recursos para alcançar tal honraria – freqüentaria filas do nascimento à morte. A qualidade desta história a levou ao jornal Zero Hora, de Porto Alegre (RS). Na primeira matéria para a jovem repórter, a inauguração de uma loja de fast-food. Eliane Brum, desrespeitosa com a pauta quadrada, preferiu relatar o choque cultural entre os aposentados das imediações e a “modernidade”. Quem via começou a ser vista.

A reconstituição da Coluna Prestes, que permitiu uma releitura do suposto heroísmo daquela “cruzada”, despejou os holofotes e as críticas sobre ela. A gaúcha sobreviveu e foi premiada pelo trabalho. Ganhou também como prêmio a tarefa de produzir “A vida que ninguém vê”. Pena que por um período curto, mas suficiente para carimbar o passaporte para uma revista semanal de informação.

Ao terminar o livro, senti-me culpado: por que não o li antes? Foi uma daquelas obras que namorei na livraria, comprei e depositei na pilha de leituras prometidas. Às vezes, a espera e o pó sobre a capa serão eternos. Com o livro de Eliane Brum, foram 16 meses para que aquelas vidas fossem vistas pelo autor deste texto. Restou-me pedir desculpas ao jornalismo fora-de-série, devidamente perdoado com a propagação do “olhar insubordinado” da repórter gaúcha para estudantes universitários, como ela desejou no último texto de sua obra.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

A fábrica de gênios: 16 horas diárias de aulas

A educação é vista como uma entidade abstrata, dentro de uma concepção que mescla o delírio com o desleixo. É comum classificá-la como um paradoxo em si, pois carrega a pecha de responsável por todos os males de um país onde o futuro nunca chega, mas também leva consigo a solução para colocar o Brasil no clube das potências econômicas.

Em ano eleitoral, falar em educação é uma obrigação para qualquer aspirante a cargo público, obviamente sem compromisso com as palavras. É o tema mais presente na campanha. Por vezes, o candidato apenas cita o assunto e o considera encerrado. Por outras, associa a educação à criação de vagas escolares ou em creches e à construção de edifícios, sem entrar no debate sobre qualidade de ensino, demasiado complexo para quem pouco entende do cardápio.

Na prática, quando recebem a autorização para ter o melhor emprego do mundo por quatro anos, os políticos agradecem ao conectar qualidade de ensino à criação de disciplinas. De acordo com reportagem de Mariana Tramontina, do Universo On-Line, existem na Câmara Federal 50 projetos de lei que estabelecem a implantação de matérias na educação básica.

Se todos os projetos fossem aprovados e se levarmos em conta que cada disciplina seria ministrada uma vez por semana, cada estudante teria que permanecer 16 horas e 20 minutos por dia na escola. Isso significa o dobro do tempo previsto em unidades de horário integral e o triplo do período convencional nas redes de ensino.

A idéia de criar matérias para resolver problemas pedagógicos é arcaica há 50 anos. Tal pensamento tem como raiz a lógica de que inchar a escola de aulas representaria acréscimo na qualidade da aprendizagem. Neste caminho distorcido, deixa-se de lado a reflexão a respeito de uma série de itens, como a capacitação dos professores e o diálogo entre as disciplinas.

O erro crucial, no entanto, é a ingênua concepção de que o conteúdo precisa ser institucionalizado, isto é, armazenado em matérias como única saída para ser transmitido a um aluno. Os deputados, que poderiam ter – no mínimo, como lição de casa – conversado com especialistas em educação, perceberiam que há outras formas de inserir um tema em redes escolares. Há temas transversais, tendências pedagógicas que relêem o papel dos conteúdos e conceitos como interdisciplinaridade e transdisciplinaridade.

Em todos os casos, a eficiência do processo educacional não se encontra em uma lista quilométrica de matérias, mas nas formas de abordagem e de transmissão de conhecimento. Os políticos não comparam à exaustão o fracasso escolar brasileiro com o sucesso de modelos como o espanhol, o irlandês e o sul-coreano? Um simples exercício de checagem da informação os faria enxergar que nenhum destes países trabalha com um volume astronômico de disciplinas.

Na Câmara Federal, os deputados ignoram até as idéias dos próprios colegas. Sem considerar Meio Ambiente como tema transversal, previsto nos Parâmetros Curriculares Nacionais, os parlamentares apresentaram oito projetos de lei que transformam educação ambiental em matéria obrigatória. Outros itens semelhantes também virariam aulas específicas como Rio Amazonas, reciclagem, poluição e acidentes ecológicos.

Os deputados federais, talvez interessados na formação de um sujeito eclético e/ou superdotado, propuseram ainda aulas de cooperativismo, legislação fiscal e tributária, direito constitucional, planejamento financeiro pessoal e familiar, empreendedorismo, segurança pública, direitos da mulher e qualidade total, além da volta de educação moral e cívica.

Outros projetos de lei sugerem conteúdos específicos, em disciplinas existentes. Dois exemplos: 1) Educação para o Pensar, em Filosofia; 2) Educação Alimentar, em Ciências e Biologia. O significado dos nomes implica uma investigação utópica!

A queda de braço entre parlamentares e educadores coloca o segundo grupo em posição de defesa. O retorno de Filosofia, Sociologia e Música nasceu no Congresso Nacional, com o aval do presidente da República. As redes que se virassem depois para implementar estas matérias e se responsabilizassem pela formação de docentes e organização da grade curricular.

A longo prazo, se o ritmo for mantido, o que teremos: uma escola com alunos vestidos em capas de super-heróis para absorção de tamanha informação? Ou estudantes cada vez mais desmotivados por um ensino chato e obsoleto, no qual cada matéria vive encastelada em torres e avessa ao diálogo? Se as escolas – salvo dignas exceções - mal ensinam o básico e pouco analisam suas práticas pedagógicas, como esperar delas rápida adaptação aos delírios de quem legisla de costas para estudantes e professores?

Sem autonomia, as redes estaduais e municipais de ensino vão se transformar em depósito de disciplinas, reforçando a imagem de depósito de pessoas. Para uma boa escola, educar passa por pensar criticamente e assumir compromissos sociais. Que exercício doloroso para os legisladores federais!

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Café, fotos e rótulos

Reportagem publicada no jornal Boqueirão, n.701, de 23 a 29 de agosto de 2008, página 09.



A beleza arquitetônica suntuosa da Bolsa do Café, marco de uma fase de glamour econômico de Santos, contrastava com a simplicidade do fotógrafo que chegou ao local em meio a estrangeiros de chinelos de dedo e engravatados nativos do centro. Aos primeiros goles de café e alguns minutos de boa conversa, Marcos Piffer provocou a impressão de que rompera com os rótulos que cercavam a atividade profissional e a própria obra dele.

De mãos vazias, ele não carregava uma máquina fotográfica a tiracolo, embalada pelas tradicionais bolsas de cor preta, comum aos colegas de profissão. Uma hora depois, no andar superior da Bolsa, explicaria que fotografar representa um ato solene. “Não carrego máquina nem no carro. Preciso de concentração e de tempo para registrar uma imagem.”
O fotógrafo santista não se destacou em 30 anos de carreira apenas pela relação com os equipamentos. Como artista, Piffer não tem pressa; fotografa como se os ponteiros do relógio corressem em outra velocidade. O processo de trabalho é semelhante ao de um ourives que, diante de uma pedra bruta, matura a jóia a ser lapidada como única, sem prazo definido para entrega.

Marcos Piffer defendeu esta lógica criativa ao justificar as 28 imagens em preto e branco da mostra fotográfica “Coffea – O café no Brasil no Século XXI”, no Museu dos Cafés do Brasil. É parte de um projeto que inclui livro de mesmo nome, com 208 páginas e 185 imagens de plantio, colheita e benefício de café em seis Estados brasileiros. A exposição permaneceu até o feriado de 7 de setembro, em Santos. Para a curadora Marjorie Medeiros, a mostra se encaixa na proposta do lugar, ao unir cultura, história e café.

A exposição, de caráter itinerante, estará na Fnac, livraria na avenida Paulista, em São Paulo, até o dia 29 de setembro. Depois, outros endereços da capital paulista, além de Rio de Janeiro, Brasília, Porto Alegre e Campinas, isto é, agenda definida até junho de 2009.
Coffea é resultado de cinco anos de trabalho e 23 viagens, a última em janeiro deste ano. O fotógrafo calcula ter feito de 16 mil a 18 mil disparos nos equipamentos que o acompanharam durante o trajeto.



Os textos do livro foram escritos por três autores, escolhidos por suas especialidades. A crítica de fotografia Simonetta Persichetti, por exemplo, escreveu que “mesmo quando o trabalho é pesado, quando sabemos ou pré-concebemos o que existe de dramático por trás do dia-a-dia de um trabalhador rural no Brasil, encontramos nas fotografias a possibilidade de imagens poéticas, de sonho.” Os outros dois autores, Soren Knudsen e Eduardo Carvalhaes Júnior, refletiram sobre o café e a história da planta.

O prazo de conclusão do livro cresce em mais dois anos se incluirmos as primeiras reflexões e experiências com as fases da cultura de café. O fotógrafo se aproximou do tema ao trabalhar por 18 meses, entre os anos de 2001 e 2002, para uma grande empresa do setor. A idéia inicial era documentar todo o processo produtivo nas quatro fazendas da companhia.

A Fazenda Conquista, em Alfenas (MG), particularmente, deixou o fotógrafo inquieto. “Mas não foi um processo linear ou consciente.” Naquele momento, Piffer procurava por um projeto que o afastasse de duas características que marcavam a trajetória profissional: a cultura caiçara e o meio ambiente. Dois livros dele, “Santos – roteiro lírico e poético” e “Litoral Norte”, transitavam nas duas temáticas. “A única maneira de quebrar o rótulo era seguir para o interior do Brasil.”
Aquele ano e meio de trabalho para a empresa cafeeira, mais as leituras sobre o assunto, permitiram a ele entender quais caminhos percorrer para radiografar com fidelidade o setor cafeeiro no país.
Na exposição, mais da metade das imagens retratam trabalhadores. Numa delas, duas mulheres estendem as mãos, repletas de calos, que cobrem seus rostos. São faces de pouca importância diante do símbolo da rudeza na lida do campo. “Também era conhecido como fotógrafo de paisagens, embora sempre registrasse pessoas. Queria deixar clara a presença humana na cultura do café. Mas antes de ser sobre café e trabalho, o livro é sobre fotografia.”
O crítico Juan Esteves, no site Fotosite, acompanhou esta percepção e comparou uma das imagens de Piffer a “um registro épico salgadiano” (em alusão ao fotógrafo Sebastião Salgado).
È o primeiro trabalho de longo prazo que afastou Marcos Piffer de filmes e manhãs de revelação no laboratório. Todo o material foi captado por máquinas digitais. “Jamais imaginaria as vantagens da mudança de equipamento.”



Laboratório na garagem - Como entender um artista que rompe com si mesmo e com o que acreditava ser senso comum? Para iluminar a pergunta, talvez seja necessário compreender a relação sujeito e obra. Aos 46 anos, Piffer tomou a decisão de abandonar o habitat que consumiu parte de sua vida: o laboratório fotográfico. Isso não significou o divórcio absoluto com as origens, mas uma forma de respeitá-las, tanto que o laboratório permaneceu montado, e considerar a evolução pela mudança de balizas técnicas.

Na metade da década de 70, a técnica de revelar e ampliar fotos aguçava a curiosidade do então adolescente de classe média, filho do engenheiro da Codesp Carlos Alberto Piffer, personagem conhecido no porto e visto hoje pelo filho como “competente fotógrafo amador”. Nos fundos da garagem fechada – um espaço de sete metros de comprimento por cinco de largura –, existe até hoje um compartimento à parte, que funcionava na época como depósito de objetos indesejáveis. O local era um laboratório fotográfico desativado pelo engenheiro que abandonava gradualmente o hábito de congelar imagens do cotidiano da família e da cidade. O reflexo era a redução no número de fotos que documentavam o nascimento e a infância de cada um dos quatro filhos.

Aos 14 anos, Marcos chamou a atenção do pai ao fotografar um passeio escolar em Itu, no interior de São Paulo. A resposta foi uma máquina fotográfica usada como presente de Natal. No entanto, a arte deu lugar ao pragmatismo quando o jovem fotógrafo decidiu cursar Arquitetura na Universidade Católica de Santos. Apenas no último ano, ao preparar o trabalho de conclusão, surgiu a dúvida: arquitetura ou fotografia? Ao conversar com a professora Maria Argentina, que orientava a pesquisa, recebeu uma pergunta como resposta:

- Você ainda tinha dúvida sobre a fotografia?

O tempo de se convencer não foi instantâneo. Piffer atuou dois anos como arquiteto, enquanto realizava pequenos trabalhos como fotógrafo. Após as férias, em 1989, retornou ao escritório para se demitir e oficializar a nova profissão.

Hoje, dá aulas de Fotografia nos cursos de Arquitetura e Design de Interiores na mesma instituição de ensino, em Santos. Com os alunos, faz experimentações de linguagem e cor, visando evitar os formatos tradicionais, ainda que seja necessário conhecê-los. “Permito que eles usem qualquer equipamento que capte luz”, disse, antes de sorrir com satisfação.

Nas relações pessoais, Marcos Piffer também não segue modelos tão convencionais. Pai de uma filha de dez anos, ele não se casou com alguém da mesma área (a esposa é dentista) e pouco conversa sobre equipamentos fotográficos. Entedia-se em explicar velocidade, abertura e outros itens de uma imagem, questionamentos comuns dos adeptos da fotografia. “Não converso sobre estes assuntos. Comprar uma máquina é um esforço.”

O fotógrafo santista pretende, como próximo passo artístico, romper com outro limite: as fronteiras nacionais. Com viagem programada para o final do ano, o destino será a América Central. O motivo: entender o papel do café no mundo, mas com imagens em cores. “Será uma viagem de prospecção, de pesquisa.” Neste projeto para mais cinco anos, Marcos Piffer ainda não pensou em custos, personagens ou locais, porém sabe que novamente se deparou com uma pedra em estado bruto, inédita para o artista, que a analisa sem pressa de lapidação pelas lentes fotográficas.

domingo, 7 de setembro de 2008

A esperança do pessimista

Texto publicado no jornal Metrópole (São Vicente/SP), n.170, seção Opinião, em 6 de setembro de 2008.

Os dois sujeitos se sentam em frente ao aparelho de televisão. Repletos de dúvidas, ambos esperam que o horário eleitoral gratuito reforce ou colabore com a decisão do voto até o início de outubro. Um deles se considera esperançoso. Crê que o programa eleitoral servirá para a divulgação de propostas que visem o desenvolvimento da cidade. O outro, pessimista, apenas resmunga que se trata de uma sucessão de oportunistas, loucos pelo melhor emprego do momento.

Os candidatos a vereador, na tela da TV, simbolizam uma versão reduzida da máxima de Andy Warhol. Em vez de 15 minutos de fama, todos têm somente 15 segundos para comunicar algo ou simplesmente ganhar visibilidade. Dependendo do partido, o tempo é mais reduzido, o que limita o discurso ao nome e número do candidato.

O primeiro espectador, ainda crente no processo político, lamenta o espaço limitado. Se os candidatos pudessem falar mais, acredita ele, surgiriam idéias mais consistentes para a cidade. O pessimista olha de lado e dispara: - Propostas repetitivas! Muitos desconhecem os limites de um vereador e prometem coisas mirabolantes.

Os slogans se prendem a rimas pobres. Combinações primárias entre o nome do candidato e termos vagos, como educação, saúde, ética, honestidade (neste contexto, um avanço) e outras qualidades antes obrigatórias para qualquer cidadão que deseja se tornar um representante público. Apelidos também servem como armas para atrair a atenção, seja o nome do bairro, a profissão, a semelhança com o artista da TV. Até aparecer ao lado da esposa serve, pois usar o símbolo da família pode conquistar os desavisados.

O eleitor generoso, exalando esperança, defende que se tratam de recursos legítimos, pois representam a transparência de alguém que – pela simplicidade – tenta renovar o Poder Legislativo. O eleitor descrente, calejado por várias campanhas, critica a miséria das propostas, a falta de comprometimento com o eleitorado e, acima de tudo, a inconsistência em debater o planejamento do município. O aborrecimento dele se fortalece com a indignação perante os sujeitos que se fantasiam de mágicos e personagens afins e fazem piada de si mesmos, da política e do processo democrático.

No horário eleitoral, as diferenças ideológicas inexistem. Se não fossem as vinhetas e a numeração das siglas, ficaria a impressão de um partido único, cenário digno dos bolcheviques, maioria na Revolução Russa. A campanha é focalizada no individualismo do sujeito; as idéias, desconectadas entre os candidatos. Não transparece um projeto de coligação, somente ações individuais, imoralidade entre aqueles que postulam vaga no Poder Legislativo, onde coletividade se constitui na alma das relações políticas.

Ao final de meia hora de programa, o eleitor otimista promete acompanhar o horário gratuito novamente, com esperança de que vários projetos de governo se desenhem até o início de outubro. Nas primeiras semanas, ajustes sempre são necessários, conforma-se. Para o colega ao lado, a esperança se traduz como auto-engano. Um dia de programa é suficiente para se perceber a mesmice de outra campanha eleitoral sem debates, sem planejamento, sem compromissos com projetos de cidadania. O pessimista se sentiu um consumidor que assina o cheque após ser enganado na venda.

Em frente ao aparelho desligado, os dois sujeitos vêem a si próprios num espelho, como duas facetas de um único alvo. A ambigüidade de um único eleitor, que protesta diante do quadro político, mas alimenta a conta-gotas a frágil esperança de mudança, de renovação. Qual deles apertará os botões da urna eletrônica? Ou haverá uma terceira via, o meio-termo do grego Aristóteles?

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

O político-pastel

Texto publicado na seção Campo Neutro, do jornal Boqueirão (Santos/SP), n.702, página 2, 1 a 5 de setembro de 2008.

O retorno é discreto, coerente com o desaparecimento por quatro anos. A conversa, de pé de ouvido, nasce amistosa. Quem ressuscitou finge interesse e estimula o interlocutor a conduzir – de maneira ilusória – o diálogo. O tom baixo de voz contrasta com os berros dos vendedores que precisam atrair os desconfiados clientes. O visitante, tal um elefante em loja de cristais, sabe da má reputação de seus colegas (ele sempre se considera exceção) e, por isso, precisa de paciência para conquistar quem tende a considerá-lo fruta de final de feira.

O estranho no ninho não trabalha como um solitário. O sonho é transparecer onipresença. Um exército de aliados de ocasião foi contratado, devidamente equipado com bandeiras, camisetas e pilhas de papéis cujo nome derivou da religião. Os “santinhos” também estão nas mãos dos que atuam como voluntários. Trabalhar de graça não merece canonização; estes apenas aguardam o melhor momento para cobrar o sagrado esforço.

O visitante não assume responsabilidades. É um bom ouvinte, palpita na hora certa e aproveita a idéia do novo amigo para propor soluções que oferece como inéditas ou criativas. Não se importa em parecer contraditório, pois as palavras se perdem entre as caixas de tomates e alfaces.

O candidato a vereador, este que aparece na feira livre de vez em nunca, pode ser detectado de longe. Bem vestido, ele não carrega os utensílios básicos para a sobrevivência neste local com origem na Idade Antiga. A fantasia pode incluir uma calça social e sapatos – para transmitir elegância – ou um jeans, camiseta e tênis básicos, com ar de casualidade, proximidade com as pessoas que não o conhecem ou não se importaram em reclamar do desaparecimento.

A ordem é chegar como se não houvesse passado. Distribuir “santinhos” é papel dos soldados – educados, por sinal. O candidato distribui “afeto”. Corpo a corpo, apimentado por sorrisos. Beijos, abraços, apertos de mãos indicam um flerte no qual o alvo não precisa ter nome, mas título de eleitor. É importante a disposição para receber um afago na cabeça ou levar um bebê para que o visitante o pegue no colo.

A feira livre é um ponto democrático. Não cobra status. Você pode somente perambular por lá ou conversar com quem quiser sem ser importunado. Os sujeitos folclóricos e criativos nas rimas exalam cultura popular, além de oferecer produtos tradicionais e exóticos e preços a serem barganhados com bom humor. Vendedores e compradores que se conhecem há anos compartilham confidências, sentem falta um do outro quando a ausência é superior a uma semana. Todos assistem com resignação aos visitantes que renascem em períodos eleitorais, conversam, soam (e suam!) preocupação e somem por encanto.

Com sabedoria, um amigo comparou estes personagens ao pastel da própria feira livre. Compõe o cenário, não representa unanimidade entre feirantes e consumidores e é recheado de vento. Neste último caso, vale o olhar sobre as propostas (promessas) de alguns concorrentes.

O baile perfumado

Um baile tradicional, com homens e mulheres separados antes do sinal da orquestra, não sobrevive sem o flerte. A troca de olhares, o movimento dos corpos, uma frase bem colocada ao pé de ouvido podem garantir uma parceria até o final da noite. No fundo, um teatro de negociações, em que a criatividade na aproximação separa os que entram na pista do que se limitam aos aplausos.

Disputar uma eleição para o Poder Legislativo também envolve flertar para uma dança. De um lado, os candidatos com apelos sedutores. De outro, os eleitores, blefando e esperando o melhor momento para a decisão definitiva. A campanha para vereador, em Santos, segue na rota inversa. Não há conversas ousadas de pé de ouvido, mensagens atraentes e debates que sensibilizem quem se encontra do outro lado do salão.

Os cargos, evidentemente, são disputados à base de santinhos e promessas. Nunca houve tantos candidatos para as 17 vagas disponíveis. Parece vestibular de universidade pública ou disputa para estágio em empresas multinacionais. Entretanto, o tom monótono padroniza a corrida e perpetua a indecisão do eleitor.

As propostas não convencem, seja pela artificialidade ou pelo cheiro de megalomania. A impressão é que se aposta na desinformação ou em uma suposta ingenuidade das pessoas. Tornou-se comum propor implantação ou execução de projetos que caberiam exclusivamente ao Poder Executivo. Ou os pretensos vereadores desconhecem seus próprios limites em caso de vitória nas urnas eletrônicas?

A conquista de parceiros para o baile também parte de galanteios genéricos como o “fulano da segurança” ou “o nome da educação”. São slogans que reforçam clichês, sem refrescar a imagem da política-partidária, quando não beiram o risível e o utópico. Frases sem sentido são comuns. Na verdade, interferem minimamente na escolha do voto.

As formas de comunicação são repetitivas. Se um candidato utiliza bicicletas, muitos adversários o imitam. Se um sujeito coloca uma foto enorme no vidro traseiro do carro, a romaria de colantes se multiplica. O congestionamento de mensagens eleva a desinformação e sufoca a atenção do eleitor. Nomes e números se misturam e não vale a desculpa de que a Justiça Eleitoral limitou as regras. Limites são exigências de quem organiza o evento, vistos como mal menor pelos que se adaptam à dinâmica do baile.

O horário eleitoral gratuito no rádio e na televisão poderia ser a saída para uma campanha sem novidades, sem carisma, sem propostas que lembrem como planejamento é fundamental para o desenvolvimento de uma região. Ou que sirvam para convencer da importância de um parlamentar no processo democrático.

No ritmo atual, o horário eleitoral seria o primeiro acorde da orquestra, que chacoalha o salão e acelera a negociação entre os convidados. Mas como esperar criatividade e audácia de quem terá tempo para pronunciar pouco mais do que o próprio nome e o número de identificação diante da câmera?

No mundo contemporâneo, um dos paradoxos é a pressão social para que os indivíduos se destaquem na multidão, ao mesmo tempo em que resulta na padronização de comportamentos. A campanha eleitoral, frágil em termos ideológicos, ressalta este conceito. Os candidatos forçam a entrada no salão de baile, mas quem se encontra do outro lado – esperando pelo flerte – enxerga reproduções idênticas de um mesmo sujeito. Baile sem dança é memorável às avessas, principalmente quando se retorna mais cedo para casa.