sábado, 2 de agosto de 2008

O jardim de João

Texto publicado na seção Campo Neutro, no jornal Boqueirão, n.698, de 2 a 8 de agosto de 2008 - página 2.

João passou quase metade da vida, cerca de 23 anos, entre árvores, pássaros, peixes e lagos. Embora seja um trabalho, o cotidiano dele é o sonho de consumo de muitas pessoas. São mais de oito horas diárias em meio ao ar purificado do Jardim Botânico de Santos.

A generosidade e a espontaneidade fazem com que ele não se dê conta disso. Valoriza o ambiente em que trabalha, mas o vê como algo natural na relação do homem com o mundo ao redor. Ele fala de árvores com conhecimento de causa, sem a pose ou a arrogância daqueles que associam o saber ao poder.

João não tem poder algum. Nunca exerceu um cargo de chefia. É um executor de tarefas, mas não entende esta posição como um obstáculo para si mesmo. Sente-se satisfeito onde está, sem maiores aspirações. Despreza o carreirismo com a própria simplicidade de quem não conhece esta palavra. Seu conhecimento é pragmático, obtido no contato com plantas e bichos. Explica, por minutos, quais os benefícios de uma semente. Discorre com alegria sobre outra que, se cozida com sal, fica deliciosa.

- Se você comer uma vez, não vai conseguir parar.

João é fácil de ser visto, mas poucos o encontram. Entre as centenas de caminhantes e corredores que lotam as alamedas do Jardim Botânico no início da manhã e no final de tarde, incomuns são os que notam aquele homem de boné, no qual mal se enxerga o logotipo da marca há tempos fora do mercado. O paletó acima do tamanho e largo nas pontas das mangas também não destoa diante do cenário de invisibilidade e do calor de 30 graus. O rabo de cavalo, escondido no boné durante o dia, complementa o cavanhaque cultivado há mais de mês.

Conversar sobre política o aproxima de qualquer visitante. João não pergunta por nomes ou partidos (leia-se o político de preferência) e conta que sobreviveu a cinco prefeitos. Tem opinião formada sobre todos, baseada essencialmente no contato humano ou na invisibilidade proporcionada pelos administradores públicos que, de vez em quando, lembram-se do meio ambiente ou de ouvir a experiência de um funcionário que não ocupa cargo de confiança.

O que o ignorou não merece mais do que um minuto de prosa. O ex-prefeito que tomou café com ele e ouviu seu desabafo, suas dificuldades profissionais, ganhou admiração posterior ao término do mandato. O abraço eternizado em fotografia é o troféu que simboliza a gratidão por alguém que provavelmente não se lembra mais dele e do momento em que se encontraram.

Durante uma exposição sobre meio ambiente no Jardim Botânico em julho, João conseguiu – em um único dia – atrair 200 pessoas para o evento. A conversa era inaudível para quem o assistia convencer os caminhantes e corredores. Em três frases, fazia com o que visitante parasse, mudasse a rota para o galpão de exposição e o agradecesse, após dez minutos, pelo passeio cultural.

De boné, paletó e sapatos da lida diária, sem pompa ou vocabulário empolado, ele alterou o cotidiano do parque que respira pelo nome das sementes e das árvores. Ironicamente, João acabou transferido de função no dia seguinte.

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