sexta-feira, 29 de agosto de 2008

O candidato ecológico

Depois de receber mais uma encomenda, a revelia, de 30 mil “santinhos”, o candidato lamentava:

- Mais outro pacote? O que vou fazer com isso? As pessoas detestam “santinhos”. E ainda suja a rua!

Alguns segundos depois, sorrindo, chegava à solução:

- Vou mandar para a reciclagem. “Santinho”, no meu caso, não funciona mesmo!

As ruas da cidade já acumulam, nas sarjetas e nas calçadas, pilhas de papéis, de formato e visual gráfico parecidos, com fotos de sujeitos de ar amável, seus números abaixo e o nome da coligação. O “santinho” não revela distinção de gênero, classe social, ideologia ou poder econômico do candidato. É a fórmula universal para – oficialmente – reforçar a memória de um eleitor 45 dias antes do voto, mesmo sabendo que a maioria escolhe seu representante às vésperas de 5 de outubro.

A ironia da poluição é que o meio ambiente se transformou em um dos xodós dos candidatos, fato visível nas propostas de oportunidade e nos projetos mirabolantes desta campanha eleitoral. Dois anos atrás, nenhum dos candidatos a presidente, por exemplo, colocou o assunto em sua vitrine de idéias. O meio ambiente não apareceu entre os cinco temas mais abordados entre os presidenciáveis.

No entanto, aconteceram naquele ano dois fenômenos que conectaram definitivamente o ambientalismo à agenda pública, seja para distorcer o tema, relacionando-o exclusivamente a plantinhas e bichinhos, seja para fortalecer a imagem de políticos e empresas. O primeiro deles foi a visibilidade do ex-vice-presidente norte-americano Al Gore e seu documentário “Uma Verdade Inconveniente”, vencedor do Oscar da categoria. Ele retornou ao circuito da política internacional, o filme atraiu os olhos de formadores de opinião e consumidores de classe média e pesquisas científicas sobre o aquecimento global integraram o cotidiano da mídia, nas mais diversas abordagens.

O segundo fenômeno foi, no caso do Brasil, o recorde no número de empresas que implantaram programas de responsabilidade social na área de meio ambiente. Aqui não vale discutir se tais propostas são formas de compor a imagem da empresa ou se há resultados efetivos.

A conseqüência direta é que o ideário de preservação – mesmo o comportamento de boutique – provocou mudanças de hábitos e preocupações anteriormente desprezadas por parcelas de consumidores. Houve relativo esvaziamento da retórica de que preservar é sinônimo de freio ao progresso econômico.

Os políticos – ou seus “marketeiros” – notaram que poderiam falar do assunto de forma genérica, assim como fazem com educação, saúde, cultura e assim por diante. Na prática, o que se vê são propostas de desenvolvimento – presentes nas promessas do “milagre da multiplicação dos empregos” – seguidas da ressalva: sem prejudicar o meio ambiente.

Explicar como transformar especulação em fato é outra história que, nesta ótica eleitoreira, não merece menção. Neste sentido, pipocam termos como sustentabilidade e reciclagem, distantes da perspectiva de planejamento urbano ou de formas de reaproveitamento de resíduos para fomento de atividades sócio-econômicas.

Em Santos, até o Partido Verde – pelo que se vê no horário eleitoral gratuito – perdeu o discurso sincronizado entre os candidatos. Como a sigla atraiu uma série de personalidades políticas – inclusive com histórico de associar ambientalismo à guerrilha anti-progresso -, poucos candidatos ainda tentam debater a questão da preservação e do desenvolvimento planejado. Perdem-se na multidão e nos 15 segundos da TV e do rádio.

Se o eleitor duvida da retórica dos candidatos e dos projetos ambientais para qualquer cidade, recomendam-se dois testes. O primeiro é verificar se o município possui Secretaria de Meio Ambiente. Em caso positivo, confira o tamanho do orçamento (surpresa se não for limitado; basta olhar para o Ministério do governo Lula, símbolo da regra geral) e quais foram os projetos capitaneados pela pasta. Em muitos casos, verá um bibelô sem poder de interferência política.

O segundo teste é avaliar como o candidato se comporta na feira livre, tradicional reduto de visitantes esporádicos a cada quatro anos, sorridentes, dispostos a distribuir beijos, abraços e apertos de mãos. Se não conseguiu ver os estranhos no ninho, utilize os “santinhos” como referência. O asfalto é o limite do papel. Candidatos na feira são capítulo à parte do universo eleitoral, assunto digno de uma reflexão específica.

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