segunda-feira, 1 de setembro de 2008

O baile perfumado

Um baile tradicional, com homens e mulheres separados antes do sinal da orquestra, não sobrevive sem o flerte. A troca de olhares, o movimento dos corpos, uma frase bem colocada ao pé de ouvido podem garantir uma parceria até o final da noite. No fundo, um teatro de negociações, em que a criatividade na aproximação separa os que entram na pista do que se limitam aos aplausos.

Disputar uma eleição para o Poder Legislativo também envolve flertar para uma dança. De um lado, os candidatos com apelos sedutores. De outro, os eleitores, blefando e esperando o melhor momento para a decisão definitiva. A campanha para vereador, em Santos, segue na rota inversa. Não há conversas ousadas de pé de ouvido, mensagens atraentes e debates que sensibilizem quem se encontra do outro lado do salão.

Os cargos, evidentemente, são disputados à base de santinhos e promessas. Nunca houve tantos candidatos para as 17 vagas disponíveis. Parece vestibular de universidade pública ou disputa para estágio em empresas multinacionais. Entretanto, o tom monótono padroniza a corrida e perpetua a indecisão do eleitor.

As propostas não convencem, seja pela artificialidade ou pelo cheiro de megalomania. A impressão é que se aposta na desinformação ou em uma suposta ingenuidade das pessoas. Tornou-se comum propor implantação ou execução de projetos que caberiam exclusivamente ao Poder Executivo. Ou os pretensos vereadores desconhecem seus próprios limites em caso de vitória nas urnas eletrônicas?

A conquista de parceiros para o baile também parte de galanteios genéricos como o “fulano da segurança” ou “o nome da educação”. São slogans que reforçam clichês, sem refrescar a imagem da política-partidária, quando não beiram o risível e o utópico. Frases sem sentido são comuns. Na verdade, interferem minimamente na escolha do voto.

As formas de comunicação são repetitivas. Se um candidato utiliza bicicletas, muitos adversários o imitam. Se um sujeito coloca uma foto enorme no vidro traseiro do carro, a romaria de colantes se multiplica. O congestionamento de mensagens eleva a desinformação e sufoca a atenção do eleitor. Nomes e números se misturam e não vale a desculpa de que a Justiça Eleitoral limitou as regras. Limites são exigências de quem organiza o evento, vistos como mal menor pelos que se adaptam à dinâmica do baile.

O horário eleitoral gratuito no rádio e na televisão poderia ser a saída para uma campanha sem novidades, sem carisma, sem propostas que lembrem como planejamento é fundamental para o desenvolvimento de uma região. Ou que sirvam para convencer da importância de um parlamentar no processo democrático.

No ritmo atual, o horário eleitoral seria o primeiro acorde da orquestra, que chacoalha o salão e acelera a negociação entre os convidados. Mas como esperar criatividade e audácia de quem terá tempo para pronunciar pouco mais do que o próprio nome e o número de identificação diante da câmera?

No mundo contemporâneo, um dos paradoxos é a pressão social para que os indivíduos se destaquem na multidão, ao mesmo tempo em que resulta na padronização de comportamentos. A campanha eleitoral, frágil em termos ideológicos, ressalta este conceito. Os candidatos forçam a entrada no salão de baile, mas quem se encontra do outro lado – esperando pelo flerte – enxerga reproduções idênticas de um mesmo sujeito. Baile sem dança é memorável às avessas, principalmente quando se retorna mais cedo para casa.

2 comentários:

Heloísa disse...

Marcus Vinícius,
Gostei muito dessa sua abordagem. E, como nos bailes, o pior é quando aquele que foi seduzido para entrar na dança, percebe que aceitou um parceiro enganador.
Penso que esse marasmo das eleições está exigindo, cada vez mais, o fortalecimento dos partidos, e o compromisso sério na realização dos programas.E, quem sabe, a adoção do voto distrital.
bjs
Heloísa

Marcus Vinicius disse...

Heloisa, obrigado pela lembrança. Espero que o fortalecimento dos partidos passe pela extinção das legendas de aluguel. Em Santos, são 17 partidos em torno do prefeito. Uma aberração democrática!!! Também sou favorável ao voto distrital. E mais ainda: sejamos suecos!!! Vereador deveria ser cargo sem salário. Ainda bem que vivemos de utopias, eventualmente. (risos)