sexta-feira, 11 de julho de 2008

A liberdade do selvagem

A felicidade somente é real quando compartilhada. A frase talvez seja a última escrita pelo jovem Chris McCandless em um ônibus abandonado no extremo Alasca, nos Estados Unidos. A história de Chris é o retrato da busca mais elementar do ser humano: alcançar – sabendo ou não ser uma utopia – o estado permanente de liberdade.

Três anos da vida de McCandless são acompanhados pelas lentes de Sean Penn, no filme “Na Natureza Selvagem” (Into the Wild, 2007). Chris era um jovem de classe média alta, recém-formado em uma escola respeitável e com provável ingresso na Universidade de Harvard. Possuía, inclusive, uma poupança que permitiria a ele custear parte dos estudos longe de casa.

Logo após a formatura, Chris doa a poupança a uma instituição e, sem avisar a família, segue em viagem pelos Estados Unidos em um velho carro. O veículo é abandonado e ele se transforma em um andarilho com uma meta definida: chegar ao Alasca e viver da natureza.

O que ele buscava? Quais motivações levaram o rapaz de 20 anos deixar o passado e todos os contatos sociais para trás? Chris se transformou em Alexander Supertramp, o que incluiu incinerar dinheiro e documentos.

A trajetória do jovem norte-americano no cinema é uma adaptação do livro de mesmo nome, escrito pelo jornalista Jon Krakauer. Ele é autor também de “No ar rarefeito”, sobre uma expedição mal sucedida ao Monte Everest, e “Pela Bandeira do Paraíso” (todos pela Companhia das Letras), sobre o grupo de mórmons que ainda praticam a poligamia nos Estados Unidos e Canadá.

A reportagem de Krakauer, de primeiro nível, recebeu uma adaptação à altura. Penn – ao lado de George Clooney – é um ator que resolveu ir para trás das câmeras e produzir obras reflexivas, que retratem a cultura norte-americana por meio de personagens políticos, conscientes de suas ações e fora dos padrões tradicionais das grandes cidades. Penn radiografa uma sociedade norte-americana normalmente desprezada, anônima, distante do glamour e das preocupações tradicionais da vida contemporânea.

A posição dele pode ser notada em três fatores. O primeiro é a passagem do tempo. A narrativa não-linear informa ao espectador o passado de Chris McCandless e possibilita especular sobre as reais motivações do protagonista. O caminho é lento, poético, calcado nos detalhes da narrativa, nos pormenores dos sujeitos que passam pela vida do jovem ao longo de dois anos como andarilho.

A trilha sonora, que tem as mãos, o cérebro e a voz de Eddie Vedder, vocalista da banda Pearl Jam, serve como suporte para as tortuosidades desta estrada. A música, obviamente primordial para um filme, torna-se personagem pela força do casamento melodia-letra. Legendas auxiliam o espectador a compreender a plenitude da proposta. A trilha é um novo narrador para a história.

Além disso, o protagonista, interpretado por Emile Hirsch (de Alpha Dog e Speed Racer), repetidamente olha para a câmera, como se permitisse, autorizasse que acompanhássemos sua busca individual. Abandonar tudo representava um rompimento com o passado familiar, de status e normas sociais, mas sem significar uma quebra com o modo de vida social. A dependência do reconhecimento alheio o acompanha.

Esta postura fica clara na relação de McCandless com os vários personagens ao longo da viagem. É o momento em que Sean Penn opta por retratar as várias identidades de um país com grandes dimensões. Desta forma, o entendimento de uma cultura funciona pela voz, pelos gestos, pelos hábitos de sujeitos anônimos, aparentemente satisfeitos com as escolhas que fizeram na vida.

O casal de hippies, Rainey (Brian Dekker) e Jan (Catherine Keener), funciona como segundos pais para o jovem, indica o que poderia ser o futuro dele e como seria possível – com os obstáculos específicos e proporcionais – manter uma vida itinerante, sem conexões com os processos de consumo e até de cidadania.

Mas o que impressiona é a atuação de Hal Holbrook, na época com 83 anos, que interpreta um solitário veterano de guerra. Ele e McCandless agem reciprocamente no sentido de dar novo significado para as relações humanas, reforçando a obsessão de encontrar no outro alicerces para decisões solitárias. Assista com cuidado ao diálogo de despedida no carro. Holbrook recebeu indicação ao Oscar por melhor ator coadjuvante.

O filme de estrada de Penn também desnuda a hipocrisia da instituição familiar, aquela construída pela sociedade norte-americana a partir a Segunda Guerra Mundial e que integra o American Way of Life. A famosa família das propagandas de margarina!!! Isso não significa que o filme seja um panfleto pelo fim da ordem familiar. Pelo contrário, Na Natureza Selvagem defende a força dos grupos sociais, porém construídos também de formas alternativas, sem a necessidade inquestionável do sangue como única referência.

A busca de Chris McCandless, que resulta na ânsia por viver livremente, exige um alto preço. Para o jovem que abandonou uma vida em troca de outra, a chave do negócio é ter a chance de decidir quanto se quer apostar em um estilo de vida, sem julgamentos alheios. A tal da felicidade de forma compartilhada.

2 comentários:

Márcio R. Garoni disse...

É mesmo uma grande história, Marcão. E se tornou um grande filme. Se tem uma coisa que eu invejo nos americanos é esse ideal de viver ao sabor do vento, abdicar de alguns bens em nome de um desejo interior, forte o bastante para não se submeter às exigências da sociedade 'comum'. O destino do Super-vagabundo foi cruel, mas o exemplo é inspirador. Agora quero correr atrás do livro.

Marcus Vinicius disse...

Márcio, corra mesmo!! A obra é fascinante, assim como No ar rarefeito, do mesmo autor. Obrigado por escrever. Grande abraço!!!