segunda-feira, 16 de junho de 2008

Violência em qual sentido?


Reportagem publicada no Jornal Boqueirão - edição n. 690, de 7 a 13 de junho, pág.12.


O professor universitário Christian Godoi, de 39 anos, conhece – de forma cristalina – as consequências de ser diferente em uma sociedade que valoriza a padronização de aparência, de pensamento, de comportamento. Ele cansou, por exemplo, de ser analisado por olhares desconfiados nos corredores da Universidade de São Paulo (USP), onde cursa mestrado em Comunicação Social, pelo fato de andar com camisetas floridas e ter bronzeado de surfista e físico de halterofilista. Por sinal, Godoi é campeão sul-americano de levantamento de peso, categoria sub-master.

Esta sociedade que julga com base em posicionamentos sociais (status) funciona como laboratório para as idéias do professor, que leva a sério a proposta de mente sã em corpo são. A postura trouxe inimigos e uma das situações que cultiva: o choque acadêmico a partir de conceitos defendidos por ele.

Um exemplo é a desvalorização do papel da TV na sociedade brasileira. Godoi questiona o poder de influência da “caixa de luzes e fios” e critica de maneira ferrenha os defensores da televisão como mecanismo de mudanças de comportamento.

Professor de cursos de comunicação na UNISANTA e na UNIMONTE, além das Oficinas Querô, Godoi é fascinado por analisar a violência do mundo contemporâneo. Isso não significa exatamente observar apenas a violência física, mas principalmente as agressões simbólicas, muitas delas mediadas pelos veículos de comunicação. A análise não representa repudiá-la. Pelo contrário, compreender a violência em certos casos.

O conjunto destas reflexões compõe o livro “Os Sentidos da Violência” (Realejo Livros & Edições), primeira obra de não-ficção do professor Christian Godoi. São nove ensaios que transitam entre o terrorismo, o uso de celulares e o papel da TV, entre outros temas. O livro foi lançado no dia 14 de junho, na livraria Realejo, no Gonzaga, em Santos. Na entrevista abaixo, algumas opiniões do autor:

Boqueirão: No livro, você afirma que as pessoas muitas vezes culpam a mídia pelo que acontece com elas. O que você quis dizer exatamente?
Godoi: É comum as pessoas atribuírem boa parte da responsabilidade delas à mídia, principalmente no que se refere à violência. Não têm competência de resolver e culpam a mídia, que constrói sentido a partir do real. A vida real é a vida das pessoas. Elas culpam os meios de comunicação, o videogame. Isso é uma idiotice. Não dá para acreditar que os meios tenham tanto poder. Precisam se renovar sempre; precisam se policiar dentro do que produzem. Você nunca sabe o que a massa vai fazer. Você não consegue manipular as massas. As pessoas continuam cobrando as instituições.

Boqueirão: Você fica muito irritado quando alguém te diz que os meios de comunicação influenciam as pessoas. Por que você pensa o contrário?
Godoi: Por estudar a recepção das mensagens, você passa a observar melhor os papéis das pessoas no diálogo com os meios de comunicação. Não existe uma influência. Existe um diálogo. É uma conversa entre o público e a informação que lhe interessa. A informação está dada para todo mundo poder consumir. A comunicação se efetiva muito pouco nos veículos. Você está olhando, mas não percebe. Você está vendo, mas não dialoga. Você é quem seleciona qual o papel do meio de comunicação na sua vida. O poder dos meios não supera o poder do indivíduo.

Boqueirão: Por que hoje há a necessidade obrigatória de consumir novas tecnologias, como celulares e Internet? Por que precisamos disso?
Godoi: Vivemos numa época de excessos. Excesso de informação, de meios de comunicação. Você não pode se imaginar de imediato sem os meios de comunicação. Estou fazendo uma pesquisa sobre o uso de telefones celulares e percebi que as pessoas não conseguem viver sem eles. Na realidade, o indivíduo é quem atribui sentido a este tipo de coisa. Viveria normalmente sem celular, televisão e jornal. O ser humano se adapta a qualquer condição.

Boqueirão: Na minha interpretação, o tema consumo passa indiretamente pelos seus textos. A sociedade realmente lê as pessoas pela posição que ocupam? O celular é um objeto de status?
Godoi: Para algumas fatias da sociedade. Na minha pesquisa, parti da hipótese do status. Pude observar que as classes mais altas utilizam o celular para status. As classes mais baixas não se incomodam. Na realidade, o que existe é a mesma separação pela questão econômica. O rico pode sonhar com determinados produtos. A classe média sonha em ser rica. Os pobres ficam relegados a segundo plano, usando o celular pré-pago, baratinho, por mais que sonhe com um aparelho com GPS. Colocar R$ 11 por mês de crédito é uma guerra. A desigualdade social se apresenta, se reafirma no uso dos meios de comunicação.

Boqueirão: O título do livro, “Os Sentidos da Violência”, tem relação com a violência simbólica. É a pior forma de violência? Qual é o papel da Internet e dos celulares nisso?
Godoi: É a pior violência. Quem não a percebe sofre um estupro do seu mundo vivido. Em determinado momento, os meios de comunicação, os governos, os bandidos invadem o espaço das pessoas, invadem a cultura delas e anulam o discurso daquela cultura. É o que se fez com o rap, com o funk, com o punk nos anos 80. Os produtos que vem de comunidades como forma de resistência acabam incorporados ao cotidiano da classe média, por exemplo. Isso esvaziou o discurso político, tornou só um produto de consumo. O rap perdeu o significado de forma de consciência. Este tipo de violência retira um pouco de identidade que as pessoas tentam manter para si mesmas.

Boqueirão: Partindo disso, você escreveu que os contrários ao senso comum são acusados de delírio, recalque, loucura e ignorância. Como a pessoa se defende da violência simbólica?
Godoi: A única forma que imagino é pela educação, em qualquer esfera social. A pessoa só consegue ter um grau de criticidade através da educação. Não precisa ser na escola, pode ser da educação na rua. Basquete de rua, por exemplo, ensina a conviver. Trata-se da percepção de que o mundo não é igual para todos.

Boqueirão: O conteúdo da mídia é violento?
Godoi: A mídia não é violenta. Passa mais informação do que em outras épocas. Desenhos animados das décadas de 70 e 80, por exemplo. Quer coisa mais violenta do que Pica-Pau, Tom e Jerry? Uma violência gratuita, sem motivo. Ninguém se tornou um assassino por causa disso. Hoje tem violência, com fundo de moral. É a influência norte-americana. Hoje, percebe-se mais a violência. A humanidade sempre foi violenta. Os meios de comunicação são aparelhos que você chuta e quebra. A violência está no sujeito. As pessoas têm consciência de que o mundo da TV não é o delas. O mundo da TV é idealizado. Isso sempre existiu. A religião fez este papel até o século XIX, de um mundo idealizado, com céu, sem sofrimento e dor.

Boqueirão: Um dos ensaios do livro fala sobre o PCC. Você escreveu que o PCC foi eficiente em perceber que poderia manipular os meios de comunicação. Não é irônico quando os veículos acham que estão controlando o cenário?
Godoi: É curioso. Pode parecer uma contradição o que escrevo. É bom, lembra maturidade. No caso do PCC, é a questão do sujeito que age. Naquele momento, o celular é um meio de resistência. É o momento em que a organização social funciona. Não quero endossar o crime. Nada disso! Mas a sociedade também pode se mobilizar pelo celular. O exemplo da invasão dos estudantes na USP. Serve também para impedir que a violência ocorra contra você. Aprender a usar o meio de comunicação que poderia apenas dar status como um elemento de ação, uma prática social. No caso do PCC, é uma forma de reivindicar ao Estado alguma coisa para o universo carcerário.

Boqueirão: Você também escreveu sobre o terrorismo. Afirmou que é um mecanismo de resistência. O terrorismo é um direito?
Godoi: É um assunto complicado. As pessoas ficam com raiva quando digo que o terrorismo é um direito. Você estupra minha religião, meu mundo, meus direitos e não espera retaliação. Quem é inocente e em qual momento? A partir do momento em que se fecham os olhos para a violência, cria-se um problema. Se o Brasil invade a Colômbia e eu me coloco no papel de brasileiro, estou endossando a invasão. Se a Colômbia retaliar, estará no direito dela. É uma guerra, olhando friamente. Não quer dizer que concordo com mortes. Se olharmos friamente, podemos perceber que há justificativas fortes para as ações terroristas. O indivíduo sofre como nação ou como comunidade. Se eu me calo diante das atrocidades, eu faço parte do grupo. Ninguém é inocente.

Boqueirão: Você escreveu um ensaio em que defende a vagabundagem e questiona o valor moral do trabalho. A impressão que tenho é que as pessoas se sentem angustiadas ou culpadas quando estão ociosas. Até o lazer virou obrigação social.
Godoi: O trabalho é a maior podridão humana. É uma violência. O sujeito nasce predestinado a trabalhar, arrumar emprego para sustentar alguém que vai explorar o trabalho dele até não poder mais. Muitos questionaram o trabalho ao longo da história. O modelo do trabalho assalariado é nojento. Trabalhar é ir para a empresa e fazer papel de bobo durante várias horas. É a maior violência que existe. Em vez da pessoa aproveitar a vagabundagem para ser feliz, ela coloca na cabeça que não pode se ver daquele jeito. Não aprendeu a lidar com mais nada, apenas com o sentimento de culpa. Até o esporte que era prazeroso virou um trabalho, uma coisa doentia. Há outras formas de ganhar dinheiro além de se colocar na posição de escravo.

Um comentário:

Daniel BS disse...

Complicado! Talvez seja assim que eu vejo. Em determinados pontos até concordo com algumas colocações defendidas pelo Prof. Godoi, porém ainda creio que em outras minhas idéias e pensamentos não batem muito com as defendidas por ele. Mas essa é a sociedade e graças a Deus somos assim, todos nós não concordamos uns com os outros, temos opiniões diferentes e isso que difere para o desenvolvimento da raça humana.
Apesar de algumas coisas não concordar e, outras até concordar, creio que tudo dito na entrevista e, pelo que parece, é também conteúdo do livro serve para nós refletirmos, pois há uma coerencia e uma realidade em determinados fatos.
Mas só lendo o livro realmente poderia dar uma opinião concreta.

Parabéns ao Godoi pelo Livro que parece ser muito bom e polemico. (Causou polemica, causou impacto... fez o efeito que tinha que ser feito... e a msg foi passada hehehe).

abraços.