segunda-feira, 30 de junho de 2008

O filósofo-beleza

TEXTO PUBLICADO NA VERSÃO IMPRESSA DO JORNAL BOQUEIRÃO, EDIÇÃO N.693 - P.2

O atraso em plena manhã de sábado refletia a cara de poucos amigos. Meu único pensamento consistia em se queixar do táxi que não aparecia. Do outro lado da rua, Cadu gritava: - Jornalista! Professor!

Ele havia me visto e provavelmente puxaria conversa. Desconhecia meu nome, fato irrelevante diante da chance de mais um diálogo filosófico. Ou melhor, um monólogo repleto de questionamentos. Entrando no táxi, ouvi novamente frases que provocariam reflexão pelo resto do dia: - Professor, peça para os alunos argumentarem. Peça para que eles expliquem os porquês.

Cadu não fez faculdade. Não exerce profissão alguma atualmente. Vive de pensão do INSS por invalidez. Ele é o que a sociedade de hoje considera doente mental. Para a vizinhança, mais um maluco beleza, daqueles que provocam risadas, mais um chato a ser evitado. O que diz em alto volume, no meio da avenida ou para qualquer um nas calçadas da Ponta da Praia, costuma ser ignorado.

Todas as culturas apresentam concepções próprias do que é ser normal. São olhares por vezes baseados em perspectivas científicas, por vezes fundamentados em superstições e distorções pseudo-racionais. Os sujeitos que escapam ao padrão tendem a ser ridicularizados, quando não isolados do convívio social. Os chamados loucos aparecem ao longo da história como seres pouco confiáveis, embora há de se lembrar que muitos deles foram considerados gênios após a morte ou depois de fases de perseguição. Outros eram classificados como mentalmente perturbados em função da capacidade de contestação e de reflexão crítica sobre o mundo ao redor.

Sempre despenteado, vestindo bermuda por cima de uma calça, exibindo dentes amarelados por décadas de fumo e barba por fazer, o filósofo assusta as pessoas nas imediações do canal 6. Os comerciantes mais antigos o valorizam pela solidariedade gratuita. Quando uma das lojas foi assaltada numa madrugada, Cadu foi o único que permaneceu ao lado da proprietária até que a polícia chegasse ao local.

É uma pena que muitos o vejam somente como um ser folclórico, daqueles malucos que todo bairro têm. Recentemente, uma moradora – depois de me ver ao lado dele – falou como se Cadu fosse um animal de um circo de horrores: - Até que ele é inteligente. Às vezes, canta em inglês e eu presto atenção.

Mal sabia ela que Cadu havia, em dois minutos, falado sobre Freud, Sartre e Marx, conectando-os à política brasileira como poucos acadêmicos talvez fossem capazes. Refletiu sobre o jornalismo e expeliu a melhor definição que já conheci: - É a literatura do fato! Olhando para a moradora e para Cadu, pensei: - A incompreensão do outro realmente se caracteriza como falta de inteligência.

3 comentários:

Murilo Netto disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Murilo Netto disse...

Caro Marcão,

Me recuso a afirmar que é triste algo tão grave. Não temos idéia - ou pelo menos eu não tenho - do que é "enlouquecer" por meio de uma forte depressão.

Depressão que nada mais é do que a multiplicação da tristeza. Fome, frio, humilhação... São tantas as adversidades que volto a me negar tecer uma análise pueril desta cruel realidade.

Não sei se é bom ou ruim ler nos jornais textos de dezenas de pessoas que cobram das autoridades providências imediatas sobre o abandono dos gatos no jardim da orla ou sobre o sumiço dos mesmos. Sem contar os exemplos das pessoas que se orgulham da caridade de quem "adota" um cachorro perdido na rua...

No último sábado, lá pelas 2 da manhã, pouco antes de voltar pra casa, acompanhado de alguns bons amigos, paramos os dois carros na Rua da Paz, próximo à Rua Minas Gerais, no Boqueirão. Éramos certamente mais do que 8 e menos do que 12 pessoas. Não demorou muito até que um homem alto, mulato, aproximadamente 35 anos, com a barba bem desenhada, parasse diante do grupo. Ele segurava uma garrafa vazia e um saco de farinha (aqueles grandes de padaria) em suas mãos. A presença do rapaz causou um pequeno incômodo em todos, já que não demorou muito para dizer em alto e bom tom algumas frases, para nós desconexas e algumas vezes ofensivas.

A memória me trouxe imediatamente a imagem daquele rosto. Tratava-se de um "velho conhecido" do Gonzaga, quando ainda adolescente lá trabalhei pela primeira vez. Na época, ele guardava e lavava carros na Goitacazes e almoçava no mesmo local que eu, uma casa de massas daquelas redondezas. Crítico e bem relacionado, era querido por todos os comerciantes da rua. Em alguns dos diálogos que tivemos, disse que se orgulhava por nunca ter roubado, nem matado ninguém, mesmo diante de tantas adversidades da vida. Porém, admitiu que guardava, enterrado em um pequeno jardim de um prédio, um revólver para "se defender, pois nunca se sabe quando vou precisar dele".

Sinceramente, sábado, anos depois daquela conversa, tive a nítida sensação de que eu nada tinha evoluído psicologicamente, pois cheguei a questionar as razões que levaram o rapaz chegar àquela situação. Tive vontade de me apresentar, mas não quis prolongar aquela situação incômoda para ele, que certamente se sentia ofendido por inúmeras razões óbvias, e o grupo, por receio de que ele colocasse em prática a ameaça que simbolicamente já representava.

O homem - infelizmente não consigo lembrar o nome - acredito que nunca chegou a ser um filósofo-beleza como o Cadu, mas, assim como a figura da Ponta da Praia, representou pra mim, naquele momento, um dos símbolos mais reflexivos sobre como a miséria e o descaso cultural a esse problema pode levar um sujeito "normal" ao estado de loucura e deficiência mental.

Marcus Vinicius disse...

Murilo,

Muito obrigado pelo texto!!! Fico contente que minha crônica tenha provocado (ou auxiliado) tamanha reflexão. Pena que você é uma exceção. Abraço!!