segunda-feira, 30 de junho de 2008

O filósofo-beleza

TEXTO PUBLICADO NA VERSÃO IMPRESSA DO JORNAL BOQUEIRÃO, EDIÇÃO N.693 - P.2

O atraso em plena manhã de sábado refletia a cara de poucos amigos. Meu único pensamento consistia em se queixar do táxi que não aparecia. Do outro lado da rua, Cadu gritava: - Jornalista! Professor!

Ele havia me visto e provavelmente puxaria conversa. Desconhecia meu nome, fato irrelevante diante da chance de mais um diálogo filosófico. Ou melhor, um monólogo repleto de questionamentos. Entrando no táxi, ouvi novamente frases que provocariam reflexão pelo resto do dia: - Professor, peça para os alunos argumentarem. Peça para que eles expliquem os porquês.

Cadu não fez faculdade. Não exerce profissão alguma atualmente. Vive de pensão do INSS por invalidez. Ele é o que a sociedade de hoje considera doente mental. Para a vizinhança, mais um maluco beleza, daqueles que provocam risadas, mais um chato a ser evitado. O que diz em alto volume, no meio da avenida ou para qualquer um nas calçadas da Ponta da Praia, costuma ser ignorado.

Todas as culturas apresentam concepções próprias do que é ser normal. São olhares por vezes baseados em perspectivas científicas, por vezes fundamentados em superstições e distorções pseudo-racionais. Os sujeitos que escapam ao padrão tendem a ser ridicularizados, quando não isolados do convívio social. Os chamados loucos aparecem ao longo da história como seres pouco confiáveis, embora há de se lembrar que muitos deles foram considerados gênios após a morte ou depois de fases de perseguição. Outros eram classificados como mentalmente perturbados em função da capacidade de contestação e de reflexão crítica sobre o mundo ao redor.

Sempre despenteado, vestindo bermuda por cima de uma calça, exibindo dentes amarelados por décadas de fumo e barba por fazer, o filósofo assusta as pessoas nas imediações do canal 6. Os comerciantes mais antigos o valorizam pela solidariedade gratuita. Quando uma das lojas foi assaltada numa madrugada, Cadu foi o único que permaneceu ao lado da proprietária até que a polícia chegasse ao local.

É uma pena que muitos o vejam somente como um ser folclórico, daqueles malucos que todo bairro têm. Recentemente, uma moradora – depois de me ver ao lado dele – falou como se Cadu fosse um animal de um circo de horrores: - Até que ele é inteligente. Às vezes, canta em inglês e eu presto atenção.

Mal sabia ela que Cadu havia, em dois minutos, falado sobre Freud, Sartre e Marx, conectando-os à política brasileira como poucos acadêmicos talvez fossem capazes. Refletiu sobre o jornalismo e expeliu a melhor definição que já conheci: - É a literatura do fato! Olhando para a moradora e para Cadu, pensei: - A incompreensão do outro realmente se caracteriza como falta de inteligência.

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Quando o "jumento" vende a alma

A cúpula da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) finalmente perdeu os pudores e assumiu como as cartas são distribuídas na seleção nacional. A decisão do presidente Ricardo Teixeira em convocar pessoalmente Ronaldinho Gaúcho para as Olimpíadas indica o que todos deveriam saber: o gerenciamento do futebol brasileiro consiste na quantidade de cifrões que podem ser arrecadados, e não em critérios sérios e públicos de hierarquia.

Antes da partida contra o Paraguai, o presidente Ricardo Teixeira - personalista no momento que lhe convém - cobrou publicamente a presença de Ronaldinho Gaúcho na seleção olímpica. O atleta, recém-recuperado de contusão e há mais de dois meses sem disputar uma partida oficial, foi dispensado pelo Barcelona. O próprio jogador deixou de ser chamado pelo técnico Dunga em outras ocasiões, conforme o critério de não convocar atletas fora de atividade.

O "passa-moleque" do presidente sobre o técnico aconteceu na última quarta-feira, antes do jogo contra a Argentina, em Belo Horizonte. Ronaldinho viajou de jatinho particular para assistir à partida. Em BH, Teixeira anunciou que ele disputaria os Jogos Olímpicos. Para isso, seria acompanhado de perto por integrantes da comissão técnica, com o objetivo de colocar o meia em forma física nos próximos 50 dias.

Historicamente, há inúmeras lendas sobre jogadores que interferiam na escalação das equipes. Dizem que Nilton Santos e Didi forçaram a entrada de Pelé e Garrincha no time campeão de 1958. Gerson e outros colegas teriam convencido Zagalo de que Rivelino e Tostão poderiam atuar juntos na Copa de 1970. Lendas porque são somente histórias que se repetem, sem comprovação, e mantidas a sete chaves no fundo dos vestiários. Tribal, hierárquico e semelhante ao mundo militar, o futebol apresenta como tradição ocultar em sombras o que pode prejudicar o grupo de jogadores e comissão técnica, cada qual em seu papel.

A interferência de Teixeira na convocação para as Olimpíadas expõe as relações de poder nos bastidores da CBF. O cargo de técnico é visto hoje como um posto sem maiores liberdades, sem autonomia. Para os candidatos à função, uma ponte para mercados mais promissores, em renda, visibilidade e reconhecimento.

De braços dados, imprensa e técnicos torcem pela tragédia alheia. É triste observar jornalistas que desejam a mudança de comando apenas pelo prazer de confirmar a própria opinião. Os técnicos, com currículo modesto ou com passagens apagadas pelo cargo, sonham em levar à seleção brasileira à Copa do Mundo.

Dunga é um profissional experiente no mundo do futebol. Talvez não o seja no comando técnico. No entanto, sabe o que significa a palavra fritura. Percebeu que a derrota para a Venezuela era a desculpa necessária para que ele fosse colocado para escanteio. Quando convidado, o papel dele era apenas punir os atletas pós-fracasso em 2006, iniciando um processo de renovação ainda em curso. Dunga não é burro e muito menos jumento, a palavra da semana nas arquibancadas.

Os amistosos contra Venezuela e Canadá se constituem em armadilha para qualquer treinador. São jogos que pouco acrescentam à preparação de uma equipe para um campeonato. Enquanto os adversários sul-americanos enfrentam times europeus de primeira linha, o Brasil encara sucessivamente partidas sem importância que engordam os cofres da Confederação. É a velha máxima de brigar com bêbado.

Diante do jogo-de-cena, o torcedor comum - necessitado da catarse coletiva - ainda não percebeu que a seleção brasileira não corresponde mais a uma questão de patrotismo. A regência é pela ótica dos negócios. Os jogadores são propriedades de seus clubes. As convocações beiram a estranheza quando atletas com poucas partidas de destaque aparecem na lista de convocados. Desaparecem em seguida, ao mesmo tempo em que trocam de clube, muitas vezes do outro lado do oceano.

O que resta ao técnico Dunga é olhar para trás e aprender com o próprio passado de jogador. Isso significa agir com honradez e com liderança, como fazia quando era capitão da seleção. Em outras palavras, ele se encontra diante de uma encruzilhada: pegar o boné e seguir para o Rio Grande do Sul de cabeça erguida ou assumir a condição de marionete - confirmando a opinião de muitos críticos - com a venda da alma ao diabo.

sábado, 21 de junho de 2008

Foragidas de si

Viver dentro de um corpo adolescente é uma missão paradoxal. A adolescência – união de características biológicas e culturais – reúne no mesmo sujeito o início da liberdade individual e a formalização de grilhões sociais, simbolizada por pressões institucionais, muitas delas sem explicação e projetadas para a vida adulta. É a promessa do amanhã para alguém que transpira o agora.

Questionar a ordem vigente é natural, principalmente quando o adolescente se vê diante de uma série de compromissos pouco prazerosos, entediantes, torturantes até. Significa entender – com clareza – a necessidade da responsabilidade perante os outros e às instituições, com graus de culpabilidade e de sanções aflorando no cotidiano.

As estudantes Giovanna e Ana Lívia, de 15 e 16 anos, são típicas adolescentes de classe média alta na cidade de São Paulo. Estudam em um colégio de ponta, com proporcional mensalidade, e sofrem – no Ensino Médio – as pressões do futuro brilhante obrigatório. Podemos ler como um universo no qual estudar consiste em atividade ininterrupta e memorizar – não é tão necessário compreender – conteúdos vira exercício visceral. Ambos se tornarão fundamentais para um prova chamada vestibular. Estar na lista de aprovados de uma universidade pública é o único fim da linha possível. Outra hipótese é sinônimo de fracasso. Nos capítulos e anos seguintes, o sucesso na carreira profissional (conceito definido conforme os humores do mundo corporativo).

Ambas residem em São Paulo, com todas as prerrogativas que a cidade cosmopolita apresenta. O mundo se abre de oportunidades, porém cobra uma série de pagamentos correspondentes. Adolescentes desta faixa econômica tendem a permanecer em bolhas de vidro, concreto e metal, seja no ambiente escolar, no ambiente de consumo ou no relacionamento com pessoas do círculo mais restrito.

Não quero aqui especular sobre os motivos particulares que levaram as duas a fugirem de casa numa aventura pelo sul do país. O que se mostra evidente é que adolescentes como elas – e são centenas – expõem suas indignações com o mundo contemporâneo em que vivem a partir do meio de comunicação em que mais convivem: a Internet. Basta entrar alguns minutos no Orkut, como relatou – por exemplo – o caderno de Informática do jornal Folha de S.Paulo, para perceber dezenas de comunidades de jovens que desejam fugir de casa.

Isso representa não somente se revoltar com as autoridades constituídas – no caso, os pais e a escola - mas também questionar o próprio estilo de vida, repleto de compromissos. Muitos acompanham uma agenda cheia digna de grande executivo.

Ninguém deve absolvê-las, eximi-las de responsabilidade pelos atos ou muito menos julgá-las como imaturas, infantis. Na verdade, pouco sabemos sobre as relações familiares, fundamentais para a compreensão das motivações de Giovanna e Ana Lívia. O que interessa entender é que o mundo contemporâneo dos excessos acelera, queima etapas da vida. Em outras palavras, a adolescência se aproxima da vida adulta, e os impactos de tamanha velocidade são amenizados diante das aparências, da estética, da obsessão pelo sucesso, da ausência de diálogo em vários níveis institucionais.

O mundo dos excessos, que se abraça ao espetáculo, ao sensacionalismo, se traduz, por exemplo, na cobertura midiática. As características citadas implicam perpetuar feridas, como especulações sobre a vida privada e preconceitos sociais.

O caso das duas adolescentes paulistanas evidenciou – novamente – o grau de preconceito do fazer jornalístico. A história ganhou as manchetes dos veículos pelo fato das duas pertencerem à classe média alta e estudarem em um grande colégio da maior cidade brasileira. E se ambas residissem em bairros periféricos e freqüentassem uma escola pública? Ah, mas havia o risco de seqüestro, diriam os apressados. Quais evidências indicam o mínimo rastro concreto desta desculpa esfarrapada?

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Violência em qual sentido?


Reportagem publicada no Jornal Boqueirão - edição n. 690, de 7 a 13 de junho, pág.12.


O professor universitário Christian Godoi, de 39 anos, conhece – de forma cristalina – as consequências de ser diferente em uma sociedade que valoriza a padronização de aparência, de pensamento, de comportamento. Ele cansou, por exemplo, de ser analisado por olhares desconfiados nos corredores da Universidade de São Paulo (USP), onde cursa mestrado em Comunicação Social, pelo fato de andar com camisetas floridas e ter bronzeado de surfista e físico de halterofilista. Por sinal, Godoi é campeão sul-americano de levantamento de peso, categoria sub-master.

Esta sociedade que julga com base em posicionamentos sociais (status) funciona como laboratório para as idéias do professor, que leva a sério a proposta de mente sã em corpo são. A postura trouxe inimigos e uma das situações que cultiva: o choque acadêmico a partir de conceitos defendidos por ele.

Um exemplo é a desvalorização do papel da TV na sociedade brasileira. Godoi questiona o poder de influência da “caixa de luzes e fios” e critica de maneira ferrenha os defensores da televisão como mecanismo de mudanças de comportamento.

Professor de cursos de comunicação na UNISANTA e na UNIMONTE, além das Oficinas Querô, Godoi é fascinado por analisar a violência do mundo contemporâneo. Isso não significa exatamente observar apenas a violência física, mas principalmente as agressões simbólicas, muitas delas mediadas pelos veículos de comunicação. A análise não representa repudiá-la. Pelo contrário, compreender a violência em certos casos.

O conjunto destas reflexões compõe o livro “Os Sentidos da Violência” (Realejo Livros & Edições), primeira obra de não-ficção do professor Christian Godoi. São nove ensaios que transitam entre o terrorismo, o uso de celulares e o papel da TV, entre outros temas. O livro foi lançado no dia 14 de junho, na livraria Realejo, no Gonzaga, em Santos. Na entrevista abaixo, algumas opiniões do autor:

Boqueirão: No livro, você afirma que as pessoas muitas vezes culpam a mídia pelo que acontece com elas. O que você quis dizer exatamente?
Godoi: É comum as pessoas atribuírem boa parte da responsabilidade delas à mídia, principalmente no que se refere à violência. Não têm competência de resolver e culpam a mídia, que constrói sentido a partir do real. A vida real é a vida das pessoas. Elas culpam os meios de comunicação, o videogame. Isso é uma idiotice. Não dá para acreditar que os meios tenham tanto poder. Precisam se renovar sempre; precisam se policiar dentro do que produzem. Você nunca sabe o que a massa vai fazer. Você não consegue manipular as massas. As pessoas continuam cobrando as instituições.

Boqueirão: Você fica muito irritado quando alguém te diz que os meios de comunicação influenciam as pessoas. Por que você pensa o contrário?
Godoi: Por estudar a recepção das mensagens, você passa a observar melhor os papéis das pessoas no diálogo com os meios de comunicação. Não existe uma influência. Existe um diálogo. É uma conversa entre o público e a informação que lhe interessa. A informação está dada para todo mundo poder consumir. A comunicação se efetiva muito pouco nos veículos. Você está olhando, mas não percebe. Você está vendo, mas não dialoga. Você é quem seleciona qual o papel do meio de comunicação na sua vida. O poder dos meios não supera o poder do indivíduo.

Boqueirão: Por que hoje há a necessidade obrigatória de consumir novas tecnologias, como celulares e Internet? Por que precisamos disso?
Godoi: Vivemos numa época de excessos. Excesso de informação, de meios de comunicação. Você não pode se imaginar de imediato sem os meios de comunicação. Estou fazendo uma pesquisa sobre o uso de telefones celulares e percebi que as pessoas não conseguem viver sem eles. Na realidade, o indivíduo é quem atribui sentido a este tipo de coisa. Viveria normalmente sem celular, televisão e jornal. O ser humano se adapta a qualquer condição.

Boqueirão: Na minha interpretação, o tema consumo passa indiretamente pelos seus textos. A sociedade realmente lê as pessoas pela posição que ocupam? O celular é um objeto de status?
Godoi: Para algumas fatias da sociedade. Na minha pesquisa, parti da hipótese do status. Pude observar que as classes mais altas utilizam o celular para status. As classes mais baixas não se incomodam. Na realidade, o que existe é a mesma separação pela questão econômica. O rico pode sonhar com determinados produtos. A classe média sonha em ser rica. Os pobres ficam relegados a segundo plano, usando o celular pré-pago, baratinho, por mais que sonhe com um aparelho com GPS. Colocar R$ 11 por mês de crédito é uma guerra. A desigualdade social se apresenta, se reafirma no uso dos meios de comunicação.

Boqueirão: O título do livro, “Os Sentidos da Violência”, tem relação com a violência simbólica. É a pior forma de violência? Qual é o papel da Internet e dos celulares nisso?
Godoi: É a pior violência. Quem não a percebe sofre um estupro do seu mundo vivido. Em determinado momento, os meios de comunicação, os governos, os bandidos invadem o espaço das pessoas, invadem a cultura delas e anulam o discurso daquela cultura. É o que se fez com o rap, com o funk, com o punk nos anos 80. Os produtos que vem de comunidades como forma de resistência acabam incorporados ao cotidiano da classe média, por exemplo. Isso esvaziou o discurso político, tornou só um produto de consumo. O rap perdeu o significado de forma de consciência. Este tipo de violência retira um pouco de identidade que as pessoas tentam manter para si mesmas.

Boqueirão: Partindo disso, você escreveu que os contrários ao senso comum são acusados de delírio, recalque, loucura e ignorância. Como a pessoa se defende da violência simbólica?
Godoi: A única forma que imagino é pela educação, em qualquer esfera social. A pessoa só consegue ter um grau de criticidade através da educação. Não precisa ser na escola, pode ser da educação na rua. Basquete de rua, por exemplo, ensina a conviver. Trata-se da percepção de que o mundo não é igual para todos.

Boqueirão: O conteúdo da mídia é violento?
Godoi: A mídia não é violenta. Passa mais informação do que em outras épocas. Desenhos animados das décadas de 70 e 80, por exemplo. Quer coisa mais violenta do que Pica-Pau, Tom e Jerry? Uma violência gratuita, sem motivo. Ninguém se tornou um assassino por causa disso. Hoje tem violência, com fundo de moral. É a influência norte-americana. Hoje, percebe-se mais a violência. A humanidade sempre foi violenta. Os meios de comunicação são aparelhos que você chuta e quebra. A violência está no sujeito. As pessoas têm consciência de que o mundo da TV não é o delas. O mundo da TV é idealizado. Isso sempre existiu. A religião fez este papel até o século XIX, de um mundo idealizado, com céu, sem sofrimento e dor.

Boqueirão: Um dos ensaios do livro fala sobre o PCC. Você escreveu que o PCC foi eficiente em perceber que poderia manipular os meios de comunicação. Não é irônico quando os veículos acham que estão controlando o cenário?
Godoi: É curioso. Pode parecer uma contradição o que escrevo. É bom, lembra maturidade. No caso do PCC, é a questão do sujeito que age. Naquele momento, o celular é um meio de resistência. É o momento em que a organização social funciona. Não quero endossar o crime. Nada disso! Mas a sociedade também pode se mobilizar pelo celular. O exemplo da invasão dos estudantes na USP. Serve também para impedir que a violência ocorra contra você. Aprender a usar o meio de comunicação que poderia apenas dar status como um elemento de ação, uma prática social. No caso do PCC, é uma forma de reivindicar ao Estado alguma coisa para o universo carcerário.

Boqueirão: Você também escreveu sobre o terrorismo. Afirmou que é um mecanismo de resistência. O terrorismo é um direito?
Godoi: É um assunto complicado. As pessoas ficam com raiva quando digo que o terrorismo é um direito. Você estupra minha religião, meu mundo, meus direitos e não espera retaliação. Quem é inocente e em qual momento? A partir do momento em que se fecham os olhos para a violência, cria-se um problema. Se o Brasil invade a Colômbia e eu me coloco no papel de brasileiro, estou endossando a invasão. Se a Colômbia retaliar, estará no direito dela. É uma guerra, olhando friamente. Não quer dizer que concordo com mortes. Se olharmos friamente, podemos perceber que há justificativas fortes para as ações terroristas. O indivíduo sofre como nação ou como comunidade. Se eu me calo diante das atrocidades, eu faço parte do grupo. Ninguém é inocente.

Boqueirão: Você escreveu um ensaio em que defende a vagabundagem e questiona o valor moral do trabalho. A impressão que tenho é que as pessoas se sentem angustiadas ou culpadas quando estão ociosas. Até o lazer virou obrigação social.
Godoi: O trabalho é a maior podridão humana. É uma violência. O sujeito nasce predestinado a trabalhar, arrumar emprego para sustentar alguém que vai explorar o trabalho dele até não poder mais. Muitos questionaram o trabalho ao longo da história. O modelo do trabalho assalariado é nojento. Trabalhar é ir para a empresa e fazer papel de bobo durante várias horas. É a maior violência que existe. Em vez da pessoa aproveitar a vagabundagem para ser feliz, ela coloca na cabeça que não pode se ver daquele jeito. Não aprendeu a lidar com mais nada, apenas com o sentimento de culpa. Até o esporte que era prazeroso virou um trabalho, uma coisa doentia. Há outras formas de ganhar dinheiro além de se colocar na posição de escravo.

sábado, 14 de junho de 2008

O homem do livro e o presidente da Apple

Quem observava da calçada expressou feições desconfiadas. Quem estava dentro do ônibus não entendia como aquele homem conseguia se concentrar, em pé ou sentado, na atividade. Ele parecia mais um daqueles sujeitos excêntricos com quem nos deparamos no cotidiano das médias e grandes cidades.

No ambiente de trabalho, os colegas o questionavam com frequência. Como ser adepto de uma ação solitária, independente, com a mínima interação social (ao menos de curto prazo) que poderia afastar os menos avisados? Ele, um publicitário, poderia ser visto como estranho, como um sujeito deslocado, pouco atraente até para relações afetivas. A resposta de que não há criatividade – alimento de seu ofício - sem informação pouco comovia. Nem o argumento do utilitarismo, tão comum hoje, convencia seus companheiros de empresa.

Diante da insistência de comportamento, os amigos o alertaram: ele poderia se transformar numa lenda urbana (ou em um dos personagens que vemos nas ruas, damos um apelido e comentamos baixinho) se continuasse com a mania de ir a todos lugares carregando ... um livro. Ainda mais com o hábito de ler durante as viagens de ônibus, sacolejando em pé, sendo empurrado (para não usar termos obscenos) por outros passageiros.

Ser adepto do livro sempre foi ação rara no Brasil. O período colonial transcorreu por três séculos sem a adoção de um sistema educacional e cultural consistente. As bibliotecas nasceram no Império, no século XIX. Permanecem – para muitos, inclusive educadores – como um estorvo no ambiente social. Não atraem votos nem a atenção de empresários. Mais de 90% das cidades brasileiras não têm bibliotecas.

Atualmente, o brasileiro lê, em média, 1,8 livros por ano, segundo a Câmara Brasileira do Livro. Um europeu consome de cinco a oito obras. Os nórdicos, especificamente, lêem até 12 livros no mesmo período.

A boa notícia é que a América Latina registrou, no ano passado, crescimento de vendas no varejo, ou seja, nas livrarias. Isso representa – em tese – menos dependência das aquisições governamentais de materiais didáticos. No Brasil, os livros escolares são 70% da produção nacional.

A National Endowment for the Arts (NEA), agência norte-americana que regula o desenvolvimento das artes no país, divulgou pesquisa que indica a queda no hábito de leitura nos Estados Unidos. Nos últimos 20 anos, o índice de adolescentes de 13 anos que nunca leram um livro subiu de 8% para 13%. Entre os que lêem por prazer, houve queda de 31% para 22%. As famílias investem menos em compras de livros. As notas escolares, por exemplo, caem na proporção da pouca quantidade de obras em casa. Os leitores tendem a ter salários melhores, segundo a pesquisa.

Recentemente, o presidente da Apple, Steve Jobs, afirmou que não desenvolveria suportes tecnológicos para livros porque as pessoas não lêem mais. Na concepção dele, o livro estaria morto e enterrado. A Amazon, pelo contrário, disponibilizou softwares para armazenagem de obras literárias, apostando na interação entre as mídias.

O cenário atual não serve como alimento para os amantes da catástrofe. O livro como suporte tecnológico permanecerá no cotidiano por muito tempo. Historicamente, mídias novas e tradicionais convivem e se completam, sem a extinção imediata da mais antiga. Aliás, o livro teve a morte anunciada várias vezes, desde a chegada do cinema, passando pelo rádio e pela televisão.
As causas das mudanças na relação com os livros são de difícil diagnóstico. O número de usuários de Internet, que se apropria da linguagem de texto e escrita, cresce em progressão aritmética. Nos Estados Unidos, por exemplo, os jovens se informam mais pela Internet do que pela TV. No Rio de Janeiro, o Ibope indicou que os canais abertos de TV perderam 20% da audiência nos últimos dois anos. A Internet consistiu em um dos fatores.

Por outro lado, os jornais registraram crescimento de vendas em todo o mundo no ano passado. O aumento foi da ordem de 2,6%. No Brasil, o quadro foi mais animador, com acréscimo de 11,8% nos últimos dois anos, o que representou a venda de oito milhões de exemplares por dia. O problema é que esta mídia vê o público envelhecer. O jornal é pouco atraente para os jovens, pois apresenta – entre outros obstáculos – temáticas e abordagens alheias ao universo deles.

As contradições entre as mídias impedem prognósticos. Entretanto, dada a conjuntura nacional, sujeitos como o publicitário-leitor podem se transformar em figuras raras na fauna cultural brasileira. Assumir a condição de um daqueles espécimes em extinção, protegidos por leis, alvos de cartazes de campanhas de proteção. Inevitavelmente, ele tornou-se um individuo visto como esquisito. Ganhou até um apelido: o homem do livro.

Consciente de que a solidão é momentânea, ele digere sem dor a incompreensão da maioria. Transita sem se importar com os olhares alheios, com a absoluta certeza de que sua ação pode aguçar a curiosidade sobre aquele bicho que carrega nas mãos e o mantém tão concentrado, mesmo em pé, numa viagem de ônibus logo cedo, pela manhã.

O que Steve Jobs diria para ele? Jobs conseguiria produzir um equipamento que identificasse os membros de uma tribo pelo objeto com letras que carregam nas mãos? Talvez não fosse utilitário instantâneo como o IPod, mas modifica a visão de mundo, difícil de prever no imediatismo, sensível em prazos mais longos. Como aconteceu com o homem do livro.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

O jogo dos generosos

A terça-feira representava o primeiro dia de trabalho na semana para um grupo de profissionais. Cerca de 420 pessoas se preparavam para uma atividade importante, porém pouco observada por olhares externos. Tratava-se de um jogo sem os holofotes da mídia, praticamente sem público, em ritmo tranqüilo e com o resultado conhecido de véspera. Nesta partida, não havia empate, tampouco adversários de peso. Descompromissados com suas funções sociais, os jogadores se movimentavam em campo com o mesmo objetivo: beneficiar seus próprios colegas.

Nas sombras desta rotina obscura, os deputados federais aprovaram a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) nº 333, que permite aumentar o número de vereadores nas Câmaras Municipais de todo o país. São 7554 novas vagas. Na Baixada Santista, estima-se que o número de parlamentares saltará de 108 para cerca de 170.

A pergunta que nasce é óbvia: por que as cidades precisariam de mais vereadores? Se fizermos uma pesquisa nas ruas, saberemos a resposta de antemão: é absolutamente desnecessário – escrevendo de forma educada – colocar mais políticos no Poder Legislativo.

Via de regra, os vereadores atuais na Baixada Santista operam de forma independente e distante da sociedade. Salvo categorias específicas, que muitas vezes ocupam as galerias em busca da manutenção de benefícios (ou privilégios, depende do caso), a população também facilita o trabalho dos parlamentares, ao virar as costas – desiludida, mas também omissa – para um processo de fiscalização.

Os vereadores geralmente se omitem da responsabilidade de fiscalizar o Poder Executivo. Em São Vicente, por exemplo, a oposição inexiste. Trata-se de um Frankstein partidário gravitando em torno do prefeito Tércio Garcia. Aliás, ele pode ser abandonado a qualquer momento se o grupo se interessar por alguém mais “rentável”. Em outros municípios, a oposição se encontra fragilizada em dois ou três parlamentares, que assistem a seus colegas aprovarem projetos do Executivo a toque de caixa.

A olhar pelas atitudes diante da PEC, os vereadores – como os políticos em geral – ignoram a descrença generalizada dos eleitores, que os associam aos conchavos e corporativismo, quando não à corrupção ou aos projetos de lei risíveis, como aquele que obriga os parlamentares a se tratarem por Excelência na Câmara de Santos. Qualquer pesquisa de opinião coloca a classe política no final da lista de credibilidade.

Santos, por uma conta inicial, poderia passar de 17 para 23 vereadores. Os parlamentares partiram para o argumento óbvio: aumento de representatividade. A análise é discutível. O grau de resposta à população não se mede pelo número de cadeiras ocupadas. Elevar o número de partidos no Legislativo é outro item do debate que não pára em pé. O que vemos hoje são coligações enormes (em Santos, 17 partidos flutuam em torno do prefeito João Paulo Tavares Papa), formadas em boa parte por legendas de aluguel, por vezes com meras dezenas de filiados. Representatividade para quem? Só se for para castas específicas!

A PEC, embora inche o número de cadeiras, modifica o mecanismo de repasse de recursos financeiros para as Câmaras. Atualmente, o dinheiro varia conforme o número de habitantes. Santos se enquadra na faixa populacional de 300 mil a 500 mil pessoas. Ou seja: a Câmara recebe, por ano, 6% da receita municipal, ou R$ 48 milhões.

Pelo novo critério, o Legislativo teria o repasse definido a partir da receita municipal. Neste caso, Santos ficaria no patamar das cidades com valores acima de R$ 200 milhões por ano. Assim, a Câmara ficaria com 2% da receita, um terço dos recursos atuais. É possível imaginar seis novos vereadores, com dois terços a menos do dinheiro para administrar?

Engana-se quem pensa que os generosos deputados federais cometeriam erro tão primário! A PEC retira o limite de 70% do orçamento para gastos com folha de pessoal. Isso significa que as Câmaras podem comprometer até 100% dos recursos com salários. As demais despesas entrariam na conta das Prefeituras, ou melhor, sairiam dos bolsos dos contribuintes.

Sentar em uma das supostas 23 cadeiras disponíveis em Santos é o sonho de consumo de muitos pré-candidatos. São mais de 300 pessoas, muitas delas sem a menor experiência em administração ou com conhecimentos básicos sobre a cidade. O que interessa são benesses do poder, as mordomias do sistema cartorial e burocrático que podem alterar a vida do sujeito e de seus parentes. É ganhar na loteria, somada ao poder de influência.

Sutilmente, a quatro meses da eleição, os deputados federais mais uma vez indicam como a classe política enxerga sua relação com os cidadãos. Este grupo os visualiza como público-alvo, que merece discursos de ocasião, sem receber indicações de resposta. E lembre-se, eleitor: Márcio França se absteve, e Beto Mansur votou favoravelmente à proposta.

Na partida de terça-feira à noite, disputada nos corredores do poder, os vencedores saíram sorrindo e discursando, enquanto os eleitores-perdedores sequer souberam que entraram em campo. A Proposta de Emenda Constitucional agora entra na pauta do Senado. Pelo histórico, novo exemplo de espírito de corpo. Em quatro meses, os eleitores estarão dispostos a engolir os adversários-eleitos beijarem as próprias camisas, de cores individualizadas e símbolo corporativista?