sábado, 3 de maio de 2008

Arte coerente, artista contraditório

A contradição é um comportamento inerente ao homem. As idas e vindas no relacionamento com o mundo devem significar uma caminhada que simbolize a evolução rumo à sabedoria, à maturidade. Quando o homem escolhe gritar suas dores e incômodos por meio da arte, criador e obra devem se fundir, transcender as limitações de uma única leitura sobre o processo criativo.

Elifas Andreato é a contradição em si. Ótimo que seja assim. Permite que o entendamos como um animal político, um artista-político. Sem partido, mas com ideologia. Cansado, sente-se solitário e traído. “Lula roubou os meus sonhos. Jamais teremos outra oportunidade como essa.” Por outro lado, não se vê em condições de desistir, de abandonar a idéia de contestar, de interpretar o cenário vigente e criticá-lo, inclusive quando os protagonistas são os próprios amigos, como Ziraldo e Jaguar, milionários de última hora.

Como se sentiria a esposa de Manoel Fiel Filho, assassinado pelos militares, e que recebe R$ 400 por mês de indenização?, pergunta com dedo em riste, mais para enfatizar as palavras do que para constranger o interlocutor.

O jeito contestatório o trouxe a Santos para encarar uma platéia de estudantes de cursos de Comunicação da Universidade Santa Cecília (UNISANTA). Analfabeto até os 15 anos e sem curso superior, ele é admirado no meio acadêmico. Tratado como estrela – tema de muitos de seus desenhos -, veste-se como mais um, de calça jeans e camisa com as mangas arregaçadas até os cotovelos. Cabelos despenteados que não escondem a calvície, somados a barba por fazer, geram a impressão de que ele poderia passar incólume pelos pátios da universidade. Ou que trabalhava até minutos antes em seu espaço criativo.

Intelectual de ateliês e redações, o artista gráfico abre brechas para se entender a necessidade dele conversar com jovens pressionados pela ótica de mercado e pela marca do entretenimento sobre a produção artística. No entanto, trata-os como iguais, não os menospreza pela pouca idade e vivência. Descreve a militância na imprensa alternativa ao regime militar como se estivesse em um boteco cercado de pensadores e homens de comunicação. Fala e mostra, por meio de suas capas e ilustrações, como participou da fundação de jornais como Movimento e Argumento. Bom de palavras, genial nas imagens.

Ele venera o próprio ofício, que o tirou de uma fábrica de fósforos aos 16 anos e o levou para a editora Abril, onde produziu memoráveis capas de Veja durante os anos 70. Hoje, execra a revista. Prefere ler a concorrente Carta Capital.

As surras, prisões e perseguições do regime militar representam feridas ainda abertas, como a capa que fez para o disco de Geraldo Vandré (fundo branco, um corte com sangue mal coberto por um band-aid).

Este período da história brasileira ilustra histórias, sua formação como artista gráfico e a cristalização de um ideário político. O cartaz da peça Morto sem Sepultura, de Jean-Paul Sartre, indica a sofisticação das metáforas de Andreato. O desenho mostrava uma pessoa no pau de arara, com um soldado nazista ao fundo. A história se passa na Segunda Guerra Mundial.

O cartaz foi censurado. Ao argumentar que a peça era de um autor francês, ouviu de um militar, também perspicaz e orgulhoso da leitura simbólica:

- O pau de arara é invenção nossa!!!

Pertence a este momento histórico uma das máximas que Elifas não abandona, não trai: a obra dele está sempre a serviço da criação de outro artista. Tal criação é fonte e fim, sem ocasionar uma relação servil. São manifestações artísticas que se cruzam na compreensão de um contexto, porém sustentam vida própria e podem resistir à análise posterior.

Elifas Andreato tornou-se conhecido pela capas de discos e de livros. Ilustrou trabalhos, por exemplo, de Clarice Lispector, Murilo Rubião, Paulinho da Viola, Martinho da Vila, Elis Regina, Adoniran Barbosa e Chico Buarque. Para este último, produziu o que seria sua melhor capa. Chico havia produzido o disco Vida, numa fase em que enfrentava problemas familiares. Andreato foi simples e universal: a capa era um espelho, refletindo o auto-olhar do músico sobre a própria vida. Ele afirma que Chico Buarque se arrepende de ter adotado uma saída convencional, que realçava o nome do músico e do LP.

Sexagenário como muitos dos artistas para quem trabalhou, Andreato se extenuou e se entediou com a indústria fonográfica. Os últimos trabalhos foram com Zeca Pagodinho. “As gravadoras só querem fotos na capa.”

Elifas percebeu que o mundo da música o abandonara quando preparou a capa de um CD de Martinho da Vila. Ao criar um suporte em formato de coração, visando retratar o amor de Martinho pelo Rio de Janeiro, foi interpelado pela direção da gravadora. Elifas, um homem fora dos padrões, sucumbia a um padrão. E ao patrão! O argumento da direção incluía as empilhadeiras para transporte do CD, o processo de empacotamento e o posicionamento do produto nas gôndolas dos pontos-de-venda.

A criação dele, contemporânea, era vista como fora de época. Sobrevivente de uma ditadura política, o artista era agora censurado pelo poder econômico, traduzido na uniformização das caixas de plástico para CDs e DVDs.

O artista gráfico é múltiplo. Mistura linguagens, técnicas, mídias. Recentemente, “esculpiu” a abertura da mini-série Queridos Amigos, escrita por Maria Adelaide Amaral e veiculada na Rede Globo. A TV, no entanto, não o atrai. Pelo contrário! Elifas não poupa a principal mídia brasileira. Endossa o coro da crítica e elege a apresentadora Xuxa como símbolo da mediocridade. Um palavrão acompanha o título de rainha para deleite do público.

Elifas Andreato é um homem coerente, apesar de contraditório. A frase pode soar estranha, mas retrata como ele encara a profissão. Elifas transpira a idéia de que a arte só existe e funciona como mudança, como forma de afetar o mundo. A maturidade e a sabedoria o levam a entender que é vítima da própria coerência, sem brecar a evolução como artista-político. Pelo contrário, mais uma vez! É como artista gráfico que ele se posiciona no mundo, retratado por desenhos-metáforas, armas de sobrevivência nos anos de chumbo, bandeira de vida na era do espetáculo.

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