sexta-feira, 30 de maio de 2008

O nariz vermelho, um pouco de nós

A maquiagem, as roupas e as cores vivas pouco importam para o palhaço. A variação se dá conforme o artista que se movimenta freneticamente no picadeiro. O nariz vermelho é o que o transforma em seu papel. O nariz é ponto de atração, simboliza o deboche, representa a crítica por meio do humor simples, universal, acessível a todos que seguem o circo.

O grupo Teatro Mágico carrega consigo a marginalidade nas veias do palhaço. Em Santos, a trupe – como os integrantes se vêem refletidos – cantou, dançou, representou, se equilibrou no palco de uma casa noturna na semana passada. Parecia a materialização da essência criativa de Plínio Marcos, nascido e criado na mesma cidade. A sensação era vivenciar o olhar do “palhaço maldito” distribuído nos integrantes, no cenário, na retórica artística, na equilibrista se contorcendo a três metros de altura.

Assim como Plínio, o Teatro Mágico é a arte construída pelo conhecimento popular, marginalizada e tratada como menor pelos eruditos. O palco se desenha como palanque, no qual as palavras ecoam sem a menor preocupação com o incômodo que podem causar nos ouvidos e na alma alheias. É a proposta de mudança pela arte. “É a arte que diferencia o homem do macaco”, esbraveja Galdino, violinista da banda.

O repertório da trupe se apóia no conhecimento tradicional, mas o utiliza em proveito das raízes de seus integrantes, jamais como pedestal de subserviência ao poder de quem detém a informação.

O Teatro Mágico mantém distância segura da indústria fonográfica para assegurar a essência criativa. Cultua a independência e gargalha do sistema, como um jogo de esconde-esconde com a indústria cultural. O grupo aproveita-se dos novos tempos da cultura de massa, da Internet como meio de divulgação rápido e incontrolável. A sobrevivência virtual cai como uma luva na lotação dos shows, de carne, osso e discurso ácido.

As músicas são disponibilizadas na rede; cds e dvds vendidos a preços populares numa banca montada na porta do show. Tecnologia é suporte para as idéias; jamais fim ideológico. Quem não se lembra de Plínio Marcos, com seus textos carregados de violência e crítica social, vendendo os próprios livros nas portas dos teatros que, muitas vezes, reuniam a classe média para assistir ao conteúdo dramatúrgico do autor santista?

Com quatro anos de vida, o Teatro Mágico remonta às raízes da cultura mambembe européia medieval. Percorre cidades misturando manifestações artísticas, ridicularizando o poder. Aproxima-se da religião sutilmente, mas não a reverencia. Usa o apelo visual como suporte para a força da palavra. No show, literatura e texto teatral se aliam como armamentos para completar o lado circense e musical.

Nascido em Osasco (SP), o Teatro Mágico respira o caldeirão da cultura brasileira. A conjunção de elementos é tão entranhada que se torna complicado perceber onde começam e onde desembocam as influências. Eis uma tentativa de separação: o Nordeste aparece vivo na união dos instrumentos. As melodias e as letras vão e voltam nos períodos históricos nacionais. A influência européia pulsa no violino. O sotaque paulistano é expelido pelo vocalista de traços mestiços.

Na entrada da apresentação, todos podiam adquirir – pelo simbólico preço de R$ 1 – um nariz vermelho. É a idéia de envolvimento, de interferência cultural na produção do artista. O público, em catarse quase coletiva, desfilava com seus narizes provisoriamente postiços e vibrava com as mensagens que desnudavam o status quo. Para muitos, informações que descortinam o cenário contemporâneo e o próprio microcosmo que desenterra as vivências amargas. Para outros, o reforço de concepções no palco, geradas pelas cordas vocais e pelos acordes da ocasião.
Ser mambembe não significa isto? Unir-se ao público, ouvi-lo, interpretá-lo com um improviso controlado. Arte não somente como mecanismo gerador de prazer, de entretenimento. É maneira de brotar o pensamento a respeito do mundo que nos cerca, que nos aliena, que talvez nos incomode. Ser mambembe é se entrelaçar, pelo mimetismo, com aqueles que acompanham o artista, mesmo que numa noite fugaz. Como se todos fossem uma coisa só por uma hora e meia de show. Depois disso, não depende mais do Teatro Mágico!

sábado, 24 de maio de 2008

A falta de ambiente

A ex-ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, cansou, desistiu depois de padecer a olhos vistos. O processo de fritura dela foi um dos momentos simbólicos do segundo mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Retrata, com exatidão, como as relações políticas são conduzidas em ares de banho-maria, à base de alianças duvidosas, em um clima de aperta-mão generalizado. Neste quadro, a equipe econômica recebeu carta branca para prender e soltar nos arredores do Palácio do Planalto. E colocou Marina na lona, numa sucessão de golpes, que somados, a nocautearam.

Marina Silva sucumbiu aos mecanismos de pressão de grupos políticos e econômicos que transitam com liberdade nos gabinetes de Brasília. Respeitada por ambientalistas e adversários fora do poder, Marina Silva chegou à exaustão ao perceber que o Governo Federal realmente está obcecado em acelerar obras e projetos que serviriam de legado para a atual gestão. É a demonstração da falta de planejamento, da ausência de um projeto para o país. Planejamento que deveria ser inerente em quaisquer obras de infra-estrutura, ainda mais da magnitude da transposição do rio São Francisco, por exemplo.

Este projeto nasce e se desenvolve de forma estranha. Não se trata da primeira tentativa. Durante o governo Fernando Henrique Cardoso, o Banco Mundial apresentou um relatório que condenava a obra. Beneficiaria poucas comunidades em relação ao tamanho do gasto. Se o Banco Mundial, representante máximo dos olhares dos países desenvolvidos, condenou a idéia, é de se desconfiar da necessidade nervosa do Governo Federal em tocar a proposta.

Marina Silva caiu de pé, como disse Frei Betto – outro que abandonou o barco ao vivenciar a mudança de rota. Não se apegou às amarras perversas do poder, ou seja, não abriu mão do que acredita em prol de dividendos fornecidos pelo cargo que ocupava. Ela é respeitada por conhecer a Amazônia a fundo e por entender sua importância política, social e econômica em escala global. O sintoma disso foi a repercussão acentuada na imprensa internacional e entre líderes políticos de outros países.

Na verdade, a saída da ministra do Meio Ambiente indica como os governos – em todas as esferas no Brasil – insistem em encarar a sustentabilidade como um entrave para o “desenvolvimento econômico”. O discurso de preservação ambiental é lindo. Todos se apóiam nele. Basta observar os desenhos das plataformas de campanha eleitoral.

Na prática, a área recebe recursos diminutos e poderes limitados. É vista como um mal necessário para a composição de uma imagem diante de uma sociedade que também faz jogo-de-cena com as questões ambientais. O meio ambiente se transforma realmente em preocupação quando os problemas batem à nossa porta.

Não é à toa que a chanceler Ângela Merkel esteve no Brasil para negociar com o presidente Lula. Na cabeça da pauta, o bio-combustível. O etanol que tanto incomoda a matriz energética vigente e que segue envolto em uma aura de falta de informação e de planejamento. Se o assunto é tão importante assim, que o Ministério do Meio Ambiente se sente à mesa de negociações. Viu-se o contrário!

Quanto ao novo ocupante da pasta, Carlos Minc, o clima é naturalmente de desconfiança. Espera-se dele, ao menos, que saia do caminho no sentido de aprovar os projetos necessários para o chamado “progresso”. No fundo, o cenário permanece em compasso de espera diante do que fará o ministro Mangabeira Unger, visto por muitos como a eminência parda deste governo.
Se a lógica dos fatos ocorridos na última semana for mantida, ruralistas (representados por um terço dos parlamentares federais), construtores e industriais do cimento podem ligar as moto-serras. Pelo ritmo de devastação na Amazônia, os equipamentos já se encontram em ponto de ebulição para sufocar uma região tão cobiçada, tão desejada.

sábado, 17 de maio de 2008

A cor da escola

Desde que o homem definiu a propriedade privada, construiu um muro – literal ou simbólico - para assegurar a praticidade deste conceito. Muro que serve como mecanismo de segurança e, do outro lado da moeda, para afastar indesejáveis.

O muro pode gerar visões múltiplas. Para o ladrão, um obstáculo a ser superado. O dono da área o vê como proteção. A criança o utiliza como fonte de imaginação. O que se esconde do outro lado?

O bêbado se socorre no banheiro de última hora. O pichador o enxerga como símbolo de transgressão. O pintor lamenta o tamanho da tarefa obrigatória. O grafiteiro está diante de uma tela a céu aberto.

E quando o muro funciona como o encastelamento do saber, simbolizado equivocadamente em uma instituição escolar? Em países como a Suécia, as escolas não possuem paredes que as separem as ruas. Isso representaria privar a comunidade do convívio com a unidade de ensino, além de significar o oposto da visão de educação como ação pública.

No Brasil, mais do que muros, as escolas têm grades, guardas, câmeras e cadeados. Só não se sabe se é para manter os invasores afastados ou se é para manter encarcerados os alunos. No fundo, no fundo, os dois!!!

A sensação é que os muros das escolas apresentam grau de parentesco com as paredes que delimitam os presídios. São parecidos fisicamente. Possuem mesmo tom acinzentado, semi-morto. Trata-se da cor da pele de quem os freqüenta? Ou a tonalidade de perspectiva de mundo de quem teve a idéia de pintá-lo?

Em muitas cidades, os muros são usados como imagem e semelhança de seus governantes. Gastam-se litros de tinta para dar uma nova cara – mas a falta de vida permanece – às escolas a cada quatro anos, como se fossem propriedade de uma facção ou grupo que gerencia o município ou o Estado.

Em Santos, por exemplo, há escolas cercadas por barreiras de cores cinza, azul bem claro insosso ou laranja. Aparece também o bege neutro e vazio. Depende do gosto do gestor. O irônico é que todos pregam de forma fervorosa a aproximação do espaço escolar com a comunidade. Falam em tom de indignação que as escolas precisam se conectar à realidade do mundo, às artes, ao conhecimento. Infelizmente, são incapazes de olhar para o próprio umbigo. Ou melhor, para fora da janela de seus respectivos gabinetes.

A escola é vida! Está repleta de vidas que apostam anos numa mudança radical ou na realização de sonhos. Um muro sem vida é o cartão de visita do que estudantes, pais e funcionários viverão no cotidiano. As paredes em volta da escola poderiam ser o pontapé de mudança. Por que não envolver a todos e transformar as barreiras do castelo em ponto de arte pulsante? Envolver grafiteiros e outros artistas entre o grupo social escolar para amenizar as grades, câmeras e cadeados?

Este texto me fez lembrar de um caso ocorrido no começo desta década, em Praia Grande. O delegado do 1º Distrito Policial resolveu pintar a fachada do local com flores e outros desenhos em cores fortes. O argumento dele é que a pintura tornaria a ida de uma pessoa à delegacia – normalmente difícil - menos angustiante. É óbvio que o assunto virou notícia. O resultado foi que o comando da Polícia mandou murchar (apagar) as flores. Afinal, quem disse que delegacia pode se tornar um lugar alegre? A fachada deve ser cinzenta, para combinar com a escola e seguir a padronização burocrática.

terça-feira, 13 de maio de 2008

120 anos de liberdade?

Artigo publicado em A TRIBUNA (Santos) no dia 13 de maio de 2008.

O dia 13 de maio merece “comemoração” mais justa, inclusive no sentido histórico. A “celebração” deveria consistir em um debate profundo e apartidário sobre os efeitos do processo de libertação dos escravos na sociedade brasileira contemporânea. Utilizar-se da data para valorizar uma assinatura somente como símbolo de mudanças profundas no país soa demasiado ingênuo e – quem sabe?- irresponsável.

O que se vê, na atualidade, é uma sucessão de discussões que caminham para a reflexão sobre a cereja do bolo, e não a respeito dos demais ingredientes que compõem a massa do mesmo doce.

Aproveitou-se a ocasião para se retomar o desgastado e maniqueísta debate sobre as cotas raciais nas universidades brasileiras, no qual a Universidade de Brasília (UNB) é eleita como exemplo maior. A questão das cotas não eleva – no calor da hora – o nível de discriminação racial da sociedade brasileira, tampouco serve de mecanismo de justiça social para os negros.

Na verdade, reforça o olhar partidário sobre o problema, apontando o foco para a polarização entre grupos politicamente estabelecidos e que se alternaram no poder na última década e meia. Analisar as cotas deste jeito retira da mesa o fato de que a maioria dos estudantes negros não alcança o ensino médio.

Os 120 anos da Lei Áurea devem nos mostrar que o Brasil pouco evoluiu como nação civilizada no sentido de reduzir o fosso de desigualdade social – independente de etnias -, além de expor a falência do sistema público de educação. Uma das marcas da frágil infra-estrutura nacional, a educação estatal colabora com a impossibilidade dos estudantes pobres – a maioria deles negros e pardos, e não a totalidade – de alcançar a universidade brasileira.

As escolas foram universalizadas nos últimos três governos. Mas os alunos são contemplados com ensino de qualidade? Ao mesmo tempo, podem aprender com eficiência se não residem em lugares com condições mínimas de conforto e segurança? Os estudantes possuem inúmeras portas abertas que facilitem a mobilidade social?

É claro que não! É cristalino que negros e pardos representam os maiores prejudicados pelo problema, mas não são contemplados com políticas públicas de longo prazo. Um em cada cinco mulheres negras no mercado de trabalho atua como empregada doméstica. Cerca de 64% das pessoas assassinadas no país (50 mil por ano) são de pele escura.

O Brasil é, incontestavelmente, uma nação racista e implacável na distribuição de recursos. Raça é um conceito cultural, jamais biológico, e serve como parâmetro para avaliações sociais no Brasil. Só que a mestiçagem envolve o juízo de valor pela aparência, mecanismo de defesa que pode ser mascarado com facilidade. Boa aparência na escolha de um funcionário, por exemplo, ganha critérios subjetivos e justificáveis ao bel prazer do covarde contratante.

Por outro lado, o discurso de auto-declaração étnica esconde ações de defesa na retórica, mas não soluciona as questões mais pragmáticas de uma sociedade que discrimina por cor da pele e por posição social, fruto da renda do individuo, literal ou simbólica.

Julgar pela aparência, desta maneira, se transforma na arma de quem detém o poder nas relações sociais. Doze décadas depois, parece – para usar um termo que gravita em torno do problema – que os grilhões ganharam formas diferentes, enquanto a casa grande e a senzala mudaram de endereço, mas com os mesmos personagens residentes.

sábado, 10 de maio de 2008

A morte engraçada

Os ingredientes remontam a uma história de mistério. Um religioso teria desaparecido no mar. Uma aventura exótica. Quem seria o Bartolomeu de Gusmão do século XXI, com o perdão da liberdade poética? O que aconteceu com ele? Por que se acidentou? Simples ambição por quebra de recordes?

A rota de outro caso policial ganhou inesperado desvio quando o desaparecimento do padre Adeli de Carli, de 41 anos, na costa de Santa Catarina, adquiriu contornos de comédia-pastelão de segunda categoria. Pelo menos foi a leitura feita por muitos veículos de comunicação. Risos também se tornaram comuns em conversas cotidianas, diferente de outras tragédias humanas que entopem o noticiário. Especulações sobre o desfecho soam naturais, como alimento de tubarões e piadinhas semelhantes.

A curiosidade pode ser associada ao fascínio do homem pela morte, inclusive pelo fim de si mesmo. No mundo contemporâneo, indivíduos passam boa parte da vida – ainda mais em tempos de ditadura estética unida ao acelerado avanço científico-tecnológico – sonhando em retardá-la. Trocam-se pedaços da própria identidade por adicionais suspiros de tempo.

Todas as culturas simbolizam, preocupam-se ou vangloriam a morte. Os egípcios antigos, por exemplo, movimentavam boa parte da rotina em torno da vida após o falecimento.

Na Idade Media, uma vida feliz no além era garantida por polpudas doações de terras e metais preciosos aos intermediários, aqueles supostamente predestinados a assegurar uma vaga ao lado de São Pedro ou enviar o destinatário para um endereço mais quente.

Muitas etnias indígenas, por exemplo, se apoiavam em compostos alcoólicos para receber orientações dos ancestrais na cura de enfermos desenganados. Os maias sacrificavam escravos aos deuses para garantir proteção e bons dividendos ao longo do ano. Cada cabeça decepada era a morte em troca da vida sã.

A verdade é que o ser humano a teme. A morte ganhou múltiplas representações na cultura pop contemporânea, geralmente negativas. É o homem vestido de preto, carregando uma foice. São os filmes de terror que nos colocam diante da morte promovida por um louco mascarado ou morador de uma localidade inóspita. É a imagem do homem-bomba, simplificado na idéia de martirização em troca de moças virgens.

A morte é certeza de lucro. O sepultamento do cantor sertanejo Leandro serviu como divisor de águas para o mercado segmentado. No enterro dele, telão com músicas da dupla, helicóptero atirando chuvas de pétalas. A falsa alegria para negar o óbvio, para superar a perda antes do tempo devido. Neste sentido, lembra rituais como “beber o morto”, em regiões do Brasil, ou os banquetes em casas do meio-oeste norte-americano, guardando as proporções.

Além de adquirir planos de sepultamento, uma espécie de kit-enterro similar aos planos de saúde (dependendo da empresa, pode ter a mesma função), é possível atualmente presenciar a levitação de um caixão durante o velório, sob cortina de fumaça gerada por gelo seco. O efeito visual, simbolicamente, conduz o “beneficiado” aos portões do paraíso cristão.

A transformação da morte em um negócio pouco difere do tratamento como espetáculo dado a ela. A morte midiática não é diferente no aspecto de negação do inevitável. No entanto, ganha contornos ficcionais quando a imagem se sobrepõe à importância e ao contexto do conteúdo que a cerca.

A fragmentação e a superficialidade na abordagem minimizam a presença da morte. O temor disfarça-se. A distorção a rebaixa à mera coadjuvante. São novas vítimas na Guerra do Iraque ou na Faixa de Gaza, distâncias que acalmam o horror do qual o ser humano se alimenta.

O noticiário e os programas de entretenimento convergem em busca de audiência ao notarem que uma criança pode sensibilizar, principalmente se ela for vítima de pais em boas condições financeiras. É fácil: muitos se sentem superiores por chamá-los de assassinos, ao mesmo tempo em que participam da claque ao acender das luzes das câmeras de TV.

A morte perdeu seu valor diante dos filtros do espetáculo e do sensacionalismo. A suposta morte do padre, que viajava amarrado a mil balões de festa com gás hélio, seguiu a ótica do exotismo. O desfecho, com ares ficcionais, subverte a lógica tradicional da perda, da negação, do ritual de luto. Ou até do respeitoso silêncio.

A conseqüência é a desvalorização do próprio caso em si, representado pela redução de importância de fatores secundários que contextualizariam a história. Motivações, passado, relações sociais e questões de segurança viraram rodapé de reportagem sobre o “maluco da semana” a morrer por uma causa irreverente, irrelevante.

No Rio de Janeiro, um carro foi queimado e abandonado na Linha Vermelha há cerca de dois anos. No veículo, duas vítimas carbonizadas, efeitos colaterais da guerra entre traficantes. As cabeças delas estavam no capô do carro. O que deveria ser o horror se transformou em programa turístico. Muitos pararam para ver o ocorrido até que um sujeito tomou coragem para se fotografar via celular ao lado das cabeças decapitadas. Daí em diante, souvenires à vontade. Quem morreu? Importa?

Neste sentido, a morte-espetáculo desumaniza. O padre, em breve, não terá mais nome, origem ou local de morte, assim como aconteceu com os assassinados pelo tráfico. Saberemos apenas que um religioso morreu numa aventura sem propósitos, no julgamento dos meios de comunicação. E espera-se na sala de estar, diante da TV, pela próxima diversão do trem fantasma (ou da montanha-russa). Um espetáculo no qual atores e público morreram, sem chance de negação. Depende da percepção dos envolvidos.

quarta-feira, 7 de maio de 2008

O impacto Telma

A ex-deputada Telma de Souza, aparentemente, se encontra fora de lugar. É evidente que os personagens da novela eleitoral mal se apresentaram ao público, porém a decisão de concorrer à Câmara Municipal sacode o cenário político da região, mesmo que seja uma resolução cogitada desde o início do ano.

A impressão é que a ex-prefeita decidiu, como prioridade, arregaçar as mangas para recolher os cacos do Partido dos Trabalhadores (PT) e evitar a redução ainda maior de espaço político nas eleições de outubro. Embora com cinco pré-candidatos a prefeito na Baixada Santista, o PT interfere como instituição no debate político somente em Santos.

Esse poder de fogo, contudo, diminuiu a partir do pleito de 2006, fruto das denúncias de corrupção em âmbito federal. Forças tradicionais como a ex-deputada Mariângela Duarte – hoje no PSB - deixaram o partido.

A presença de Telma de Souza na disputa eleitoral tira o Legislativo da inércia e da obviedade. O prefeito João Paulo Tavares Papa, com altos índices de popularidade, costurou ao longo de três anos e meio sólidas alianças na Câmara. Além disso, é perceptível que muitos partidos se agarram ao poder como moscas no mel, o que esvaziou a capacidade de oposição ao Executivo local. Três vereadores pouco podem incomodar uma administração, salvo questões pontuais.

Em outras palavras, Telma vai transpirar o debate político e não é importante simpatizar com ela para perceber a mudança de quadro em formação. Isso é fundamental para o processo democrático, pois o Legislativo – na atualidade – pouco acrescenta à retórica política. O projeto de lei sobre o salário dos médicos simboliza a ausência de fiscalização por parte da Câmara, que aprovou a proposta a toque de caixa.

Tornou-se senso comum crer que ela arrastará vários colegas da coligação petista para a Câmara. No entanto, é importante salientar que o eleitor age diferente ao votar para vereador. O critério proximidade, por exemplo, aparece com maior fluidez. Outro fator é a aposentadoria legislativa da vereadora Sueli Morgado, o que não significa que o eleitorado dela será fiel ao PT até porque, historicamente, muitas pessoas escolhem o voto mais pela personalidade e comportamento do candidato do que pela ideologia que o político carregaria em si.

Telma de Souza deveria estar em outro patamar político. Mereceria estar em outro nível de discussão pela própria trajetória. Deve-se respeitar a decisão dela, conforme a ex-deputada explicou no telejornal Opinião, da Record Litoral, que representa “o início de um novo ciclo”.

As alianças de última hora fortalecem expectativas de uma eleição decidida em primeiro turno para prefeito, em prol do Governo, resultado implacável com o processo democrático. Por outro ângulo, a simples presença de Telma de Souza como concorrente poderá alterar substancialmente o quadro de vereadores a partir de 2009. Só o fato de obrigar velhos caciques a colocarem as barbas no vinagre significa um avanço para a Câmara e, por tabela, para a cidade.
Mas nasce a pergunta: caso seja eleita vereadora e, ao mesmo tempo, convocada para assumir uma cadeira na Câmara dos Deputados, pois é primeira suplente, com qual cargo Telma ficaria?

sábado, 3 de maio de 2008

Arte coerente, artista contraditório

A contradição é um comportamento inerente ao homem. As idas e vindas no relacionamento com o mundo devem significar uma caminhada que simbolize a evolução rumo à sabedoria, à maturidade. Quando o homem escolhe gritar suas dores e incômodos por meio da arte, criador e obra devem se fundir, transcender as limitações de uma única leitura sobre o processo criativo.

Elifas Andreato é a contradição em si. Ótimo que seja assim. Permite que o entendamos como um animal político, um artista-político. Sem partido, mas com ideologia. Cansado, sente-se solitário e traído. “Lula roubou os meus sonhos. Jamais teremos outra oportunidade como essa.” Por outro lado, não se vê em condições de desistir, de abandonar a idéia de contestar, de interpretar o cenário vigente e criticá-lo, inclusive quando os protagonistas são os próprios amigos, como Ziraldo e Jaguar, milionários de última hora.

Como se sentiria a esposa de Manoel Fiel Filho, assassinado pelos militares, e que recebe R$ 400 por mês de indenização?, pergunta com dedo em riste, mais para enfatizar as palavras do que para constranger o interlocutor.

O jeito contestatório o trouxe a Santos para encarar uma platéia de estudantes de cursos de Comunicação da Universidade Santa Cecília (UNISANTA). Analfabeto até os 15 anos e sem curso superior, ele é admirado no meio acadêmico. Tratado como estrela – tema de muitos de seus desenhos -, veste-se como mais um, de calça jeans e camisa com as mangas arregaçadas até os cotovelos. Cabelos despenteados que não escondem a calvície, somados a barba por fazer, geram a impressão de que ele poderia passar incólume pelos pátios da universidade. Ou que trabalhava até minutos antes em seu espaço criativo.

Intelectual de ateliês e redações, o artista gráfico abre brechas para se entender a necessidade dele conversar com jovens pressionados pela ótica de mercado e pela marca do entretenimento sobre a produção artística. No entanto, trata-os como iguais, não os menospreza pela pouca idade e vivência. Descreve a militância na imprensa alternativa ao regime militar como se estivesse em um boteco cercado de pensadores e homens de comunicação. Fala e mostra, por meio de suas capas e ilustrações, como participou da fundação de jornais como Movimento e Argumento. Bom de palavras, genial nas imagens.

Ele venera o próprio ofício, que o tirou de uma fábrica de fósforos aos 16 anos e o levou para a editora Abril, onde produziu memoráveis capas de Veja durante os anos 70. Hoje, execra a revista. Prefere ler a concorrente Carta Capital.

As surras, prisões e perseguições do regime militar representam feridas ainda abertas, como a capa que fez para o disco de Geraldo Vandré (fundo branco, um corte com sangue mal coberto por um band-aid).

Este período da história brasileira ilustra histórias, sua formação como artista gráfico e a cristalização de um ideário político. O cartaz da peça Morto sem Sepultura, de Jean-Paul Sartre, indica a sofisticação das metáforas de Andreato. O desenho mostrava uma pessoa no pau de arara, com um soldado nazista ao fundo. A história se passa na Segunda Guerra Mundial.

O cartaz foi censurado. Ao argumentar que a peça era de um autor francês, ouviu de um militar, também perspicaz e orgulhoso da leitura simbólica:

- O pau de arara é invenção nossa!!!

Pertence a este momento histórico uma das máximas que Elifas não abandona, não trai: a obra dele está sempre a serviço da criação de outro artista. Tal criação é fonte e fim, sem ocasionar uma relação servil. São manifestações artísticas que se cruzam na compreensão de um contexto, porém sustentam vida própria e podem resistir à análise posterior.

Elifas Andreato tornou-se conhecido pela capas de discos e de livros. Ilustrou trabalhos, por exemplo, de Clarice Lispector, Murilo Rubião, Paulinho da Viola, Martinho da Vila, Elis Regina, Adoniran Barbosa e Chico Buarque. Para este último, produziu o que seria sua melhor capa. Chico havia produzido o disco Vida, numa fase em que enfrentava problemas familiares. Andreato foi simples e universal: a capa era um espelho, refletindo o auto-olhar do músico sobre a própria vida. Ele afirma que Chico Buarque se arrepende de ter adotado uma saída convencional, que realçava o nome do músico e do LP.

Sexagenário como muitos dos artistas para quem trabalhou, Andreato se extenuou e se entediou com a indústria fonográfica. Os últimos trabalhos foram com Zeca Pagodinho. “As gravadoras só querem fotos na capa.”

Elifas percebeu que o mundo da música o abandonara quando preparou a capa de um CD de Martinho da Vila. Ao criar um suporte em formato de coração, visando retratar o amor de Martinho pelo Rio de Janeiro, foi interpelado pela direção da gravadora. Elifas, um homem fora dos padrões, sucumbia a um padrão. E ao patrão! O argumento da direção incluía as empilhadeiras para transporte do CD, o processo de empacotamento e o posicionamento do produto nas gôndolas dos pontos-de-venda.

A criação dele, contemporânea, era vista como fora de época. Sobrevivente de uma ditadura política, o artista era agora censurado pelo poder econômico, traduzido na uniformização das caixas de plástico para CDs e DVDs.

O artista gráfico é múltiplo. Mistura linguagens, técnicas, mídias. Recentemente, “esculpiu” a abertura da mini-série Queridos Amigos, escrita por Maria Adelaide Amaral e veiculada na Rede Globo. A TV, no entanto, não o atrai. Pelo contrário! Elifas não poupa a principal mídia brasileira. Endossa o coro da crítica e elege a apresentadora Xuxa como símbolo da mediocridade. Um palavrão acompanha o título de rainha para deleite do público.

Elifas Andreato é um homem coerente, apesar de contraditório. A frase pode soar estranha, mas retrata como ele encara a profissão. Elifas transpira a idéia de que a arte só existe e funciona como mudança, como forma de afetar o mundo. A maturidade e a sabedoria o levam a entender que é vítima da própria coerência, sem brecar a evolução como artista-político. Pelo contrário, mais uma vez! É como artista gráfico que ele se posiciona no mundo, retratado por desenhos-metáforas, armas de sobrevivência nos anos de chumbo, bandeira de vida na era do espetáculo.