sábado, 26 de abril de 2008

Quando os mestres nos abandonam

Qual é o melhor momento de mudar de vida? Quando se deve abandonar uma atividade profissional? A decisão, obviamente, é pessoal, mas está sempre sujeita às críticas de outras pessoas, próximas ou não. Dizem que a melhor solução é se aposentar quando se alcança o auge. E como perceber quando se pisa no cume da montanha?

No esporte profissional, cada vez mais dominado pela ótica dos negócios, a decisão de parar com as atividades, muitas vezes, não depende somente do atleta. São contratos vultuosos, campanhas de publicidade, patrocinadores, clubes de regiões periféricas que acenam com caminhões de dinheiro. Em certos casos, o que se vê são profissionais colocando em risco o passado, mesmo com a independência financeira conquistada. Mas, felizmente, não é regra geral.

Dois casos mostram como a vontade de parar acontece por motivos particularizados. Raul Plasmann, hoje comentarista esportivo, foi um excelente goleiro. Atuou pelo Cruzeiro de Tostão nos anos 70 e pelo Flamengo campeão do mundo de 1981. Ele decidiu pendurar as luvas ao tomar um gol. Numa fração de segundo, selou uma etapa. Disse que olhou para a rede, viu a bola e sentiu-se indiferente. Sem indignação ou revolta. Ao término da partida, avisou os colegas no vestiário que se despedia do futebol. Não voltou mais.

Há duas semanas, o goleiro Jean, do Santa Cruz (PE), de 35 anos, também abandonou a profissão. Ele jogou por muitos anos no Bahia, além de Guarani, Ponte Preta e Corinthians. Chegou no dia 26 de fevereiro em Recife para defender um time em frangalhos, com um de seus joelhos em frangalhos. O Santa Cruz havia sido rebaixado para a Terceira Divisão do Campeonato Brasileiro em 2007. Este ano, o clube brigava para não cair para a Segunda Divisão do Campeonato Pernambucano.

Jean estreou contra o Limoeirense e falhou. Com a contusão do colega Paulo Musse, o time tinha duas opções: Jean ou um garoto de 15 anos. A partida contra o Vera Cruz era decisiva. O Santa Cruz jamais havia sido rebaixado. No primeiro tempo, Jean – com dores no joelho – falhou em dois gols, mas o time dele foi para o intervalo vencendo por 3 a 2. Sob vaias, xingamentos e objetos atirados, o goleiro desceu para o vestiário. No segundo tempo, operou três defesas milagrosas, garantiu a vitória da equipe e terminou ovacionado pela torcida aos gritos de “paredão”. Com expressões de dor, ainda no caminho para o vestiário, o goleiro desabafou: Parei!!!

Contei o caso dos dois goleiros porque gostaria de estabelecer um paralelo com dois mestres que, por razões semelhantes, resolveram ir para casa. Um deles se cansou aos 42 anos. Com seis filhos, Romário percebeu há algum tempo que o momento havia passado. Experimentou funções novas, como técnico, para poder recusá-las.

Obviamente, não representava um exemplo de atleta, porém era um erudito, cerebral quando jogava bola. Rompeu paradigmas, construiu novas teorias sobre a execução de goleiros. Deu aulas de anatomia como o elástico que entortou o volante Amaral, do Corinthians, em um clássico com o Flamengo.

Não é a hora de santificá-lo. Fora de campo, a inteligência deu lugar por vezes à arrogância, ao egoísmo e às dificuldades de trabalhar em grupo. Isso custou duas Copas do Mundo a ele. Em 2002, comprovou o amargo remédio do obscurantismo. Conforme a seleção de Felipão vencia, o nome de Romário proporcionalmente desaparecia do noticiário.

Esqueçam a conversa fiada dos mil gols. Em qualquer contagem, Romário só perde para Pelé e Friedenrich. O que o transformou em homem diferenciado foi a capacidade de se adaptar às variadas escolas e modelos de futebol, aliada à auto-confiança de decidir partidas com prognósticos (ou profecias) desfavoráveis. Os dois gols contra o Uruguai no Maracanã, pelas eliminatórias para a Copa do Mundo de 1994. E quem seria artilheiro do Campeonato Brasileiro aos 39 anos?

Olho para os cabelos brancos dele e me lembro de meados dos anos 80, quando acompanhava o noticiário e ouvia falar de um garoto emburrado, de 20 anos, que dividia a artilharia do Vasco da Gama com Roberto Dinamite. Este outro era fazedor de gols e na ocasião apresentava os primeiros cabelos brancos e aquele ar de professor. Romário tornou-se seu mestre.

Na mesma semana em que Romário oficializou a aposentadoria, fiquei chocado ao notar as expressões de dor de outro fora-de-série quando movimentava o braço esquerdo para encaixar o quadril no lugar e rebater o próximo saque. Gustavo Kuerten disputou a última partida de tênis no Brasil como profissional. A festa em Florianópolis soou como um bota-fora no quintal de casa. Os amigos presentes, a contagem regressiva para o discurso de despedida.

Kuerten, caso único na história do tênis nacional, era muito diferente de Romário. Disciplinado, jeito de bom moço, parecia o genro perfeito de muitas sogras. Aliás, elas se multiplicaram com a trajetória de vitórias. Como disse certa vez, Guga tornou-se tri-lindo ao vencer Roland Garros o mesmo número de vezes.

A disciplina em um esporte de alto impacto cobrou a conta. Os dias sem dor são memoráveis tamanha a raridade da ocorrência. Hoje, ele suporta um set ou 45 minutos de partida. Bom para brincadeiras de final de semana, impensável para o circuito profissional. Assim como o goleiro Jean, Guga se cansou das dores e do excesso de esforço para alguns minutos de prazer e de reconhecimento.

Poderemos vê-lo atuar por mais um mês. São mais três torneios: Barcelona, Roland Garros e Stuttgart. Em alguns momentos, ouvir os gritos de UH!!! que indicavam mais um adversário demolido por bolas curtas e as particulares devoluções paralelas de esquerda. Depois, apenas o surf nas ondas do litoral catarinense.

Dor, cansaço, indiferença, limitações físicas. O momento de dizer chega depende única e exclusivamente de quem toma a decisão. Cabe a nós, alheios à intimidade de quem se aposenta, aceitar o fim de uma carreira com pesar e agradecer pela arte que expuseram ao mundo. Depois, sacar as pílulas de nostalgia para saborear os feitos daqueles que nos geraram as mais variadas sensações e alimentaram valores deveras adormecidos ao longo de uma competição esportiva.

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