sexta-feira, 18 de abril de 2008

Artista à moda antiga

O ator Diogo Vilela, aos 50 anos de idade e 38 de carreira, afirmou – em entrevista recente - que “o artista é um indivíduo estranho, que somente entende e é entendido por seus pares”. Ele falava de si, mas a frase se encaixa como um desenho a nanquim na vida de Osvaldo DaCosta, cartunista somente um ano mais velho.

DaCosta – se escreve assim mesmo, junto – é um artista romântico, que gravita à margem do tempo e do espaço atuais se pensarmos em estilo de vida. Contudo, é da realidade cotidiana que extrai a matéria-prima de suas obras, sejam cartuns, charges, ilustrações ou rascunhos. Trata-se daquele criador que fala por sua criação, e não apela para o marketing pessoal ou para factóides que colocam os pensamentos em plano secundário.

Esta postura faz dele, ao mesmo tempo, um anônimo em Santos, cidade onde mora desde 1996, e um profissional internacionalmente reconhecido, um colecionador de prêmios. DaCosta já venceu o Salão Internacional de Humor de Piracicaba, o segundo mais antigo do mundo, por duas vezes. Este ano, ele se tornará jurado. Em 2007, viajou à Portugal para receber o prêmio de segundo lugar no IX Porto Cartoon World Festival, um dos mais relevantes da Europa. O primeiro colocado foi um polonês. Além disso, o cartunista foi premiado em salões na Argentina e no Irã. A estante do quarto dele é decorada também com troféus de salões no Rio de Janeiro, Baixada Santista, Montes Claros (MG) e Piauí.

Em 2008, os cartuns de DaCosta concorrem em eventos na Espanha, Itália, Canadá, Turquia, Irã, Síria, Áustria e Cuba. Outros dois desenhos já foram enviados para Portugal, visando repetir ou melhorar o resultado do ano anterior. Em maio, ele participará de uma exposição na Galeria de Arte da Unisanta, ao lado de dois artistas plásticos. A produção inclui ainda um livro com outros 24 cartunistas, a ser editado pelo site Brazil Cartoon.

DaCosta transpira cultura brasileira no jeito de se vestir, de falar, de se relacionar com o mundo. O traço e as temáticas abordadas por sua arte, no entanto, são globais, de leitura universal. Tratado de forma solene por seus colegas na Europa, sobrevive como professor universitário no Brasil. Ensina Produção Gráfica e disciplinas correlatas em cursos de Comunicação da Universidade Santa Cecília (UNISANTA).

Famoso anônimo - O cenário de boa parte da vida profissional dele foram as redações. Trabalhou na extinta Folha da Tarde, Jornal da Tarde, Diário do Povo (Campinas) e A Tribuna. Publicou desenhos também na Folha de S. Paulo, Estado de S.Paulo, Pasquim, Pasquim 21 e revista Bundas. Produziu capas da revista Exame, da Abril. Em 2006, integrou a exposição dos 50 anos da editora.

Antes de se expressar pelo desenho de humor, o cartunista trabalhou em agência de publicidade e escritório de Arquitetura. Entre maquetes e plantas, afirma que aprendeu a entender a idéia de composição e de linhas de um desenho. Na Publicidade, extraiu a importância da arte final numa peça.

Em tempos de celebridade, DaCosta vive anonimamente em um prédio de três andares no bairro do Boqueirão, em Santos. Mora com a mãe Anália, uma senhora simpática, amante de um bom cafezinho e fã de desenhos animados. Divorciado, ele vê os dois filhos, Artur e Gustavo, uma vez por semana. Nenhum deles é bom de desenho, mas DaCosta fala com orgulho ao vê-los artistas. Em março, assistiu à primeira apresentação da banda de rock dos meninos.
Os primeiros acordes nasceram com as mãos do pai cartunista, que arranha um rock na guitarra, depositada ao pé da cama e manuseada quando a inspiração se ausenta da prancheta.

O anonimato não é alvo de culto por parte de DaCosta. A solidão o acompanha e o papel, em muitas situações, se transforma na válvula de escape. Quando a idéia não surge, busca outros instrumentos, sem deixar de respirar cultura. Neste caso, a resposta são os livros, seja de história, contracultura ou de jornalismo. Este último vício talvez decorra do vírus que contamina aqueles que pisaram um dia numa redação de jornal.

Bicicleta de R$ 60 - Outra saída é um bloco de anotações no qual nascem rascunhos sobre cenários de Santos. DaCosta os desenha in loco. Todo o conteúdo, depois, vai para um blog. Também usa como fonte de inspiração andar de bicicleta sem rumo pela cidade. Aliás, o veículo custou apenas R$ 60 e simboliza a relação dele com bens materiais. “Para que comprar uma bicicleta toda enfeitada? Não posso amarrar em qualquer poste.” É o meio de transporte que o leva, por exemplo, a lançamentos de livros ou shows de chorinho e jazz no Gonzaga.

Quando a solidão o derrota, DaCosta grita por socorro. No caso, a vizinha e amiga Luci Mara Lundin, psicóloga e professora universitária de 47 anos. Os dois se conhecem desde 1982, nos tempos da faculdade. DaCosta era um estudante de Artes Plásticas na Faculdade de Belas Artes (onde hoje fica a Pinacoteca do Estado), em São Paulo.

Os dois sequer imaginavam que – depois de um afastamento – viveriam no mesmo prédio e trabalhariam juntos na mesma instituição de ensino. Num momento histórico em que as amizades são líquidas, DaCosta as valoriza e sofre com elas. “Se a baixinha (referindo ao 1,50m de Luci Mara) um dia se mudar, não sei o que vou fazer. Sou muito solitário naquele prédio”, confessou durante conversa em um dos corredores da universidade.

Clausura - A solidão é companheira durante o processo de criação, falsamente caótico, pois zela pela disciplina ao se sentar diariamente em frente à prancheta. Mesmo que o papel teime em ficar em branco, DaCosta prega que suar é necessário para expelir um pensamento. O segredo é comprimir várias idéias num único desenho. “Tento mostrar para o leitor o absurdo que nossos dirigentes políticos fazem. O resultado da clausura são as premiações.”

O cartunista pode ser visto como romântico, mas jamais como obsoleto. Ele sabe que a tecnologia é arma fundamental para a divulgação dos trabalhos. Publica-os em vários sites, têm blog, fotolog e envia material para o exterior via Internet. “Mas o que vale é rabiscar todo dia, estar sempre com um lápis, uma canetinha na mão.”

O veterano ator Lúcio Mauro, na vivência dos 80 anos, brincou em recente programa de TV que todo artista sonha em morrer no palco “por causa dos aplausos”, e não pelo espetáculo. Como no início desta reportagem, a frase de um ícone remete a Osvaldo DaCosta. A diferença é que o espetáculo e o reconhecimento do artista, além das paredes de salões de humor e galerias de arte, se manifestam no mundo virtual. Os aplausos; estes aportam emudecidos e anônimos por e-mail ou nas visitas ao blog de Osvaldo.

Nenhum comentário: