sábado, 26 de abril de 2008

Quando os mestres nos abandonam

Qual é o melhor momento de mudar de vida? Quando se deve abandonar uma atividade profissional? A decisão, obviamente, é pessoal, mas está sempre sujeita às críticas de outras pessoas, próximas ou não. Dizem que a melhor solução é se aposentar quando se alcança o auge. E como perceber quando se pisa no cume da montanha?

No esporte profissional, cada vez mais dominado pela ótica dos negócios, a decisão de parar com as atividades, muitas vezes, não depende somente do atleta. São contratos vultuosos, campanhas de publicidade, patrocinadores, clubes de regiões periféricas que acenam com caminhões de dinheiro. Em certos casos, o que se vê são profissionais colocando em risco o passado, mesmo com a independência financeira conquistada. Mas, felizmente, não é regra geral.

Dois casos mostram como a vontade de parar acontece por motivos particularizados. Raul Plasmann, hoje comentarista esportivo, foi um excelente goleiro. Atuou pelo Cruzeiro de Tostão nos anos 70 e pelo Flamengo campeão do mundo de 1981. Ele decidiu pendurar as luvas ao tomar um gol. Numa fração de segundo, selou uma etapa. Disse que olhou para a rede, viu a bola e sentiu-se indiferente. Sem indignação ou revolta. Ao término da partida, avisou os colegas no vestiário que se despedia do futebol. Não voltou mais.

Há duas semanas, o goleiro Jean, do Santa Cruz (PE), de 35 anos, também abandonou a profissão. Ele jogou por muitos anos no Bahia, além de Guarani, Ponte Preta e Corinthians. Chegou no dia 26 de fevereiro em Recife para defender um time em frangalhos, com um de seus joelhos em frangalhos. O Santa Cruz havia sido rebaixado para a Terceira Divisão do Campeonato Brasileiro em 2007. Este ano, o clube brigava para não cair para a Segunda Divisão do Campeonato Pernambucano.

Jean estreou contra o Limoeirense e falhou. Com a contusão do colega Paulo Musse, o time tinha duas opções: Jean ou um garoto de 15 anos. A partida contra o Vera Cruz era decisiva. O Santa Cruz jamais havia sido rebaixado. No primeiro tempo, Jean – com dores no joelho – falhou em dois gols, mas o time dele foi para o intervalo vencendo por 3 a 2. Sob vaias, xingamentos e objetos atirados, o goleiro desceu para o vestiário. No segundo tempo, operou três defesas milagrosas, garantiu a vitória da equipe e terminou ovacionado pela torcida aos gritos de “paredão”. Com expressões de dor, ainda no caminho para o vestiário, o goleiro desabafou: Parei!!!

Contei o caso dos dois goleiros porque gostaria de estabelecer um paralelo com dois mestres que, por razões semelhantes, resolveram ir para casa. Um deles se cansou aos 42 anos. Com seis filhos, Romário percebeu há algum tempo que o momento havia passado. Experimentou funções novas, como técnico, para poder recusá-las.

Obviamente, não representava um exemplo de atleta, porém era um erudito, cerebral quando jogava bola. Rompeu paradigmas, construiu novas teorias sobre a execução de goleiros. Deu aulas de anatomia como o elástico que entortou o volante Amaral, do Corinthians, em um clássico com o Flamengo.

Não é a hora de santificá-lo. Fora de campo, a inteligência deu lugar por vezes à arrogância, ao egoísmo e às dificuldades de trabalhar em grupo. Isso custou duas Copas do Mundo a ele. Em 2002, comprovou o amargo remédio do obscurantismo. Conforme a seleção de Felipão vencia, o nome de Romário proporcionalmente desaparecia do noticiário.

Esqueçam a conversa fiada dos mil gols. Em qualquer contagem, Romário só perde para Pelé e Friedenrich. O que o transformou em homem diferenciado foi a capacidade de se adaptar às variadas escolas e modelos de futebol, aliada à auto-confiança de decidir partidas com prognósticos (ou profecias) desfavoráveis. Os dois gols contra o Uruguai no Maracanã, pelas eliminatórias para a Copa do Mundo de 1994. E quem seria artilheiro do Campeonato Brasileiro aos 39 anos?

Olho para os cabelos brancos dele e me lembro de meados dos anos 80, quando acompanhava o noticiário e ouvia falar de um garoto emburrado, de 20 anos, que dividia a artilharia do Vasco da Gama com Roberto Dinamite. Este outro era fazedor de gols e na ocasião apresentava os primeiros cabelos brancos e aquele ar de professor. Romário tornou-se seu mestre.

Na mesma semana em que Romário oficializou a aposentadoria, fiquei chocado ao notar as expressões de dor de outro fora-de-série quando movimentava o braço esquerdo para encaixar o quadril no lugar e rebater o próximo saque. Gustavo Kuerten disputou a última partida de tênis no Brasil como profissional. A festa em Florianópolis soou como um bota-fora no quintal de casa. Os amigos presentes, a contagem regressiva para o discurso de despedida.

Kuerten, caso único na história do tênis nacional, era muito diferente de Romário. Disciplinado, jeito de bom moço, parecia o genro perfeito de muitas sogras. Aliás, elas se multiplicaram com a trajetória de vitórias. Como disse certa vez, Guga tornou-se tri-lindo ao vencer Roland Garros o mesmo número de vezes.

A disciplina em um esporte de alto impacto cobrou a conta. Os dias sem dor são memoráveis tamanha a raridade da ocorrência. Hoje, ele suporta um set ou 45 minutos de partida. Bom para brincadeiras de final de semana, impensável para o circuito profissional. Assim como o goleiro Jean, Guga se cansou das dores e do excesso de esforço para alguns minutos de prazer e de reconhecimento.

Poderemos vê-lo atuar por mais um mês. São mais três torneios: Barcelona, Roland Garros e Stuttgart. Em alguns momentos, ouvir os gritos de UH!!! que indicavam mais um adversário demolido por bolas curtas e as particulares devoluções paralelas de esquerda. Depois, apenas o surf nas ondas do litoral catarinense.

Dor, cansaço, indiferença, limitações físicas. O momento de dizer chega depende única e exclusivamente de quem toma a decisão. Cabe a nós, alheios à intimidade de quem se aposenta, aceitar o fim de uma carreira com pesar e agradecer pela arte que expuseram ao mundo. Depois, sacar as pílulas de nostalgia para saborear os feitos daqueles que nos geraram as mais variadas sensações e alimentaram valores deveras adormecidos ao longo de uma competição esportiva.

terça-feira, 22 de abril de 2008

40 anos sem King. O que mudou?

Às 18h01 de 4 de abril de 1968, o presidente da Conferência da Liderança Cristã Sulina e pastor batista Martin Luther King foi assassinado a tiros no Lorraine Motel, em Memphis, cidade do estado sulista do Tennessee (EUA). A morte dele foi um dos fatos históricos mais importantes da luta pelos direitos civis, processo no qual diversos movimentos sociais – das chamadas minorias – conseguiram maior poder de voz nas relações cidadãs daquele país.

Depois de 40 anos, uma das perguntas óbvias é: qual é o legado de Martin Luther King? O que mudou na sociedade norte-americana neste período?

Em primeiro lugar, é preciso estabelecer que King foi um líder religioso de importância política naquele momento de choque, mas jamais deve ser transformado em mártir ou herói. È claro que a morte trágica valoriza a biografia, porém ele se constitui em mais um dos atores de um processo histórico lento e profundo, iniciado na década anterior e balizado pela revolta de uma mulher chamada Rosa Parks, que se recusou a se sentar nos fundos de um ônibus, lugar destinado a negros.

A sociedade norte-americana atual talvez o assustasse. Houve alterações significativas para melhor e para pior. O discurso de pós-racialismo presente na campanha do pré-candidato democrata Barack Obama é conversa de campanha, retórica endereçada de maneira cirúrgica a um público-alvo bem cristalino.

A possibilidade de um negro na presidência dos Estados Unidos simboliza – é claro - o avanço da etnia na sociedade norte-americana. O senador Obama é o líder oriundo de uma classe média que cresceu nos últimos 40 anos e passou a ocupar postos de poder, na política, nas universidades, no mundo corporativo.

Entretanto, é necessário colocar os pingos nos is: esta classe média observa as relações sociais – ou pelo menos tenta fazer crer – pela perspectiva econômica, visando evitar as referências étnicas. Isso realimenta o discurso do pós-racial, que se sustenta na falsa idéia de que o país caminha para uma igualdade étnica e de que o tema perde relevância na agenda pública. Esta classe média ainda é resultado da teia racial historicamente construída. Se transformarmos em estatísticas, por exemplo, somente três em cada dez negros desta faixa econômica ganham mais do que os pais. Não é o caso de afirmar que a cor da pele consiste no único fator, mas se trata de um elemento a ser colocado na mesa de debates, principalmente em ano eleitoral.

Atualmente, os Estados Unidos têm dois governadores negros, nos estados de Nova Iorque e Massachusetts. Os prefeitos de grandes cidades como Atlanta, Filadélfia, Newark e a capital Washington também são negros.

Por outro lado, estas quatro décadas serviram para solidificar um grupo de norte-americanos marginalizados, espremidos em guetos de cidades médias e grandes do país. O furacão Katrina, na região de New Orleans, expôs a miserabilidade e os problemas estruturais.

Em metrópoles, os bairros negros lideram as estatísticas de criminalidade e de desemprego. Nestes lugares, por exemplo, metade dos homens negros não termina o segundo grau, segundo reportagem da revista Observer. Seis em cada dez estarão na cadeia até os 35 anos de idade. Hoje, mais negros são presos do que há 10 anos. Os Estados Unidos possuem a maior população carcerária do mundo.

O mapa do debate étnico na nação mais poderosa do mundo ganhou uma novidade, que embaralhou a leitura sobre o tema. Dos anos 60 para cá, a população hispânica se transformou no maior grupo das chamadas minorias. São 44 milhões de pessoas, também alvos de questões raciais, desta vez pela origem geográfica, e não pela cor da pele. O “terceiro elemento” colocou em choque a postura de brancos e negros, ambos racistas neste caso. Os hispânicos, atualmente, percorrem a mesma trajetória dos negros, obtendo espaços na mídia e postos de poder em muitas regiões do país e cimentando a presença de estereótipos.

Embora multiétnico, os Estados Unidos ainda estão longe de ser um país de igualdade, como prega demagogicamente – por exemplo – o senador Barack Obama. As relações sociais ainda se sustentam em rótulos, que definem – em muitos casos – posicionamentos sociais. Este cenário serve apenas como uma justificativa para entendermos as diferenças culturais entre os norte-americanos e, nós, brasileiros. O racismo está impregnado nas duas sociedades, mas por razões e manifestações distintas. A fragilidade do senso comum sustenta que a discriminação seria mais violenta na América do Norte, imagem alimentada inclusive pela segregação que gerou o movimento pelos direitos civis. Bobagem que faria King remexer na sepultura, assim como a realidade atual. Violência racial é impossível de ser mensurada. È violência!

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Artista à moda antiga

O ator Diogo Vilela, aos 50 anos de idade e 38 de carreira, afirmou – em entrevista recente - que “o artista é um indivíduo estranho, que somente entende e é entendido por seus pares”. Ele falava de si, mas a frase se encaixa como um desenho a nanquim na vida de Osvaldo DaCosta, cartunista somente um ano mais velho.

DaCosta – se escreve assim mesmo, junto – é um artista romântico, que gravita à margem do tempo e do espaço atuais se pensarmos em estilo de vida. Contudo, é da realidade cotidiana que extrai a matéria-prima de suas obras, sejam cartuns, charges, ilustrações ou rascunhos. Trata-se daquele criador que fala por sua criação, e não apela para o marketing pessoal ou para factóides que colocam os pensamentos em plano secundário.

Esta postura faz dele, ao mesmo tempo, um anônimo em Santos, cidade onde mora desde 1996, e um profissional internacionalmente reconhecido, um colecionador de prêmios. DaCosta já venceu o Salão Internacional de Humor de Piracicaba, o segundo mais antigo do mundo, por duas vezes. Este ano, ele se tornará jurado. Em 2007, viajou à Portugal para receber o prêmio de segundo lugar no IX Porto Cartoon World Festival, um dos mais relevantes da Europa. O primeiro colocado foi um polonês. Além disso, o cartunista foi premiado em salões na Argentina e no Irã. A estante do quarto dele é decorada também com troféus de salões no Rio de Janeiro, Baixada Santista, Montes Claros (MG) e Piauí.

Em 2008, os cartuns de DaCosta concorrem em eventos na Espanha, Itália, Canadá, Turquia, Irã, Síria, Áustria e Cuba. Outros dois desenhos já foram enviados para Portugal, visando repetir ou melhorar o resultado do ano anterior. Em maio, ele participará de uma exposição na Galeria de Arte da Unisanta, ao lado de dois artistas plásticos. A produção inclui ainda um livro com outros 24 cartunistas, a ser editado pelo site Brazil Cartoon.

DaCosta transpira cultura brasileira no jeito de se vestir, de falar, de se relacionar com o mundo. O traço e as temáticas abordadas por sua arte, no entanto, são globais, de leitura universal. Tratado de forma solene por seus colegas na Europa, sobrevive como professor universitário no Brasil. Ensina Produção Gráfica e disciplinas correlatas em cursos de Comunicação da Universidade Santa Cecília (UNISANTA).

Famoso anônimo - O cenário de boa parte da vida profissional dele foram as redações. Trabalhou na extinta Folha da Tarde, Jornal da Tarde, Diário do Povo (Campinas) e A Tribuna. Publicou desenhos também na Folha de S. Paulo, Estado de S.Paulo, Pasquim, Pasquim 21 e revista Bundas. Produziu capas da revista Exame, da Abril. Em 2006, integrou a exposição dos 50 anos da editora.

Antes de se expressar pelo desenho de humor, o cartunista trabalhou em agência de publicidade e escritório de Arquitetura. Entre maquetes e plantas, afirma que aprendeu a entender a idéia de composição e de linhas de um desenho. Na Publicidade, extraiu a importância da arte final numa peça.

Em tempos de celebridade, DaCosta vive anonimamente em um prédio de três andares no bairro do Boqueirão, em Santos. Mora com a mãe Anália, uma senhora simpática, amante de um bom cafezinho e fã de desenhos animados. Divorciado, ele vê os dois filhos, Artur e Gustavo, uma vez por semana. Nenhum deles é bom de desenho, mas DaCosta fala com orgulho ao vê-los artistas. Em março, assistiu à primeira apresentação da banda de rock dos meninos.
Os primeiros acordes nasceram com as mãos do pai cartunista, que arranha um rock na guitarra, depositada ao pé da cama e manuseada quando a inspiração se ausenta da prancheta.

O anonimato não é alvo de culto por parte de DaCosta. A solidão o acompanha e o papel, em muitas situações, se transforma na válvula de escape. Quando a idéia não surge, busca outros instrumentos, sem deixar de respirar cultura. Neste caso, a resposta são os livros, seja de história, contracultura ou de jornalismo. Este último vício talvez decorra do vírus que contamina aqueles que pisaram um dia numa redação de jornal.

Bicicleta de R$ 60 - Outra saída é um bloco de anotações no qual nascem rascunhos sobre cenários de Santos. DaCosta os desenha in loco. Todo o conteúdo, depois, vai para um blog. Também usa como fonte de inspiração andar de bicicleta sem rumo pela cidade. Aliás, o veículo custou apenas R$ 60 e simboliza a relação dele com bens materiais. “Para que comprar uma bicicleta toda enfeitada? Não posso amarrar em qualquer poste.” É o meio de transporte que o leva, por exemplo, a lançamentos de livros ou shows de chorinho e jazz no Gonzaga.

Quando a solidão o derrota, DaCosta grita por socorro. No caso, a vizinha e amiga Luci Mara Lundin, psicóloga e professora universitária de 47 anos. Os dois se conhecem desde 1982, nos tempos da faculdade. DaCosta era um estudante de Artes Plásticas na Faculdade de Belas Artes (onde hoje fica a Pinacoteca do Estado), em São Paulo.

Os dois sequer imaginavam que – depois de um afastamento – viveriam no mesmo prédio e trabalhariam juntos na mesma instituição de ensino. Num momento histórico em que as amizades são líquidas, DaCosta as valoriza e sofre com elas. “Se a baixinha (referindo ao 1,50m de Luci Mara) um dia se mudar, não sei o que vou fazer. Sou muito solitário naquele prédio”, confessou durante conversa em um dos corredores da universidade.

Clausura - A solidão é companheira durante o processo de criação, falsamente caótico, pois zela pela disciplina ao se sentar diariamente em frente à prancheta. Mesmo que o papel teime em ficar em branco, DaCosta prega que suar é necessário para expelir um pensamento. O segredo é comprimir várias idéias num único desenho. “Tento mostrar para o leitor o absurdo que nossos dirigentes políticos fazem. O resultado da clausura são as premiações.”

O cartunista pode ser visto como romântico, mas jamais como obsoleto. Ele sabe que a tecnologia é arma fundamental para a divulgação dos trabalhos. Publica-os em vários sites, têm blog, fotolog e envia material para o exterior via Internet. “Mas o que vale é rabiscar todo dia, estar sempre com um lápis, uma canetinha na mão.”

O veterano ator Lúcio Mauro, na vivência dos 80 anos, brincou em recente programa de TV que todo artista sonha em morrer no palco “por causa dos aplausos”, e não pelo espetáculo. Como no início desta reportagem, a frase de um ícone remete a Osvaldo DaCosta. A diferença é que o espetáculo e o reconhecimento do artista, além das paredes de salões de humor e galerias de arte, se manifestam no mundo virtual. Os aplausos; estes aportam emudecidos e anônimos por e-mail ou nas visitas ao blog de Osvaldo.

O tributo de Ziraldo

Quando adolescente, ainda em São Paulo, DaCosta começou a misturar influências artísticas, algo que hoje faz sem perceber ou com método definido. O caldeirão de referenciais em seus desenhos é visível. Transita pela literatura beatnik, navega por Jimi Hendrix e os Stones e se aproxima de Lasar Segall e outros artistas plásticos. Aliás, DaCosta mantém desde a adolescência o hábito de freqüentar a cena cultural paulistana, como bienais, museus, cinemas e sebos.

Desenhar no ateliê de Segall, por exemplo, era o programa preferido de domingo nos anos 70. Em Santos, grafitou murais na avenida Francisco Glicério no começo da década seguinte.
Antes de pensar em publicar desenhos na imprensa, o cartunista era leitor voraz de o Pasquim e acompanhava todos os trabalhos do primeiro ídolo, o quadrinhista americano Joe Kubert, criador do personagem Sargento Roque. Para os quarentões, desenho baseado no seriado de guerra Combate.

Naquela fase, DaCosta – ainda Osvaldo – mal poderia conceber a idéia de contribuir para uma publicação onde desenhavam Jaguar, Millor, Ziraldo e outros mestres da cultura brasileira. Vinte anos depois, o cartunista tornou-se colaborador do Pasquim 21, como também contribuiu para a extinta revista Bundas, liderada pelo irmãos Zélio e Ziraldo.

Segundo o cartunista, Ziraldo é um referencial para os desenhistas. O traço dele teria por si só poder de influência. “É o pai de todos nós.”

O choque diante do modelo, “pai” e mestre se deu na edição de 13 de agosto de 2002 do Pasquim 21. O jornal publicou duas páginas, com 15 cartuns e charges de DaCosta. Um deles foi o desenho do oratório alusivo ao apagão, que aparece nesta página. O título da reportagem: “Da Costa. O último desenhista-de-humor.” O autor do tributo: o próprio Ziraldo.
No texto, o artista mineiro afirmou que ele, Jaguar, Claudius e Fortuna – influenciados por Millor Fernandes – detestavam ser chamados de cartunistas. Seriam “desenhistas-de-humor”. Para ele, este tipo de profissional na imprensa sucumbiu à extinção. Restaria somente o inglês Ralph Steadman.

Ziraldo definiu DaCosta como o último daqueles que praticam o desenho-de-humor na imprensa brasileira. Na conclusão do texto, o então editor de o Pasquim 21 disse que DaCosta cumpria a máxima do italiano Manzi: “Um bom desenho salva qualquer piada.” Para Ziraldo, a frase ainda é a lei.

Osvaldo DaCosta guarda a publicação como um tesouro na terceira das quatro gavetas de uma cômoda, ao lado da prancheta onde rabisca diariamente. Ao me mostrar a reportagem, ele reflete sobre o isolamento voluntário no apartamento do bairro do Boqueirão. Ali, “o último desenhista-de-humor” complementa o pensamento do mestre ao defender que o desenho perfeito ultrapassa os limites dos idiomas, das fronteiras geográficas. E mais: o cartunista precisa se distanciar do poder para alcançar a mensagem perfeita. “No meio de um salão de cartuns, com os europeus, não conheço a língua deles, mas entendem o que eu quero dizer. Não existe cartunista de direita ou de esquerda, senão o desenho perde a carga.” (MVB)

quarta-feira, 9 de abril de 2008

A falsa impressão do óbvio

Ao divulgar os resultados do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), o Ministério da Educação apontou mais do mesmo. Ou seja: as melhores notas pertencem às escolas privadas da região Sudeste. O exame também reforça os problemas conhecidos da educação pública no país.

O ENEM é optativo e aplicado ao terceiro ano do Ensino Médio. Das 20 melhores escolas brasileiras, oito ficam no Rio de Janeiro. Outras quatro instituições são mineiras e três, paulistas. O melhor desempenho do país foi o tradicional Colégio São Bento, do Rio de Janeiro, com 83 pontos de 100 possíveis. Lá, o ensino é integral e só meninos se matriculam.

A cidade de Santos teve médias superiores ao restante do país, tanto no ensino público como no privado. Entre as particulares, o melhor índice foi do Colégio São José. Entre as públicas, a Escola Técnica Aristóteles Ferreira, da rede estadual.

Trata-se da segunda etapa de divulgação dos dados. Na primeira fase, em novembro do ano passado, o Ministério da Educação publicou o índice médio de escolas públicas e privadas. A diferença, obviamente, se confirmou: 69 pontos das particulares, contra 48 das públicas na prova objetiva. Na redação, 63 a 55 para as instituições pagas.

Se o ENEM, assim como outros mecanismos estaduais, nacionais e internacionais de avaliação, aponta o óbvio, por que é interessante observar e interpretar os dados? Pelo simples fato de que estes instrumentos avaliativos mascaram alguns problemas que o senso comum julga solucionados, além de nortear como as políticas educacionais são gerenciadas no Brasil.

Entre as capitais, a primeira falácia: São Paulo – com três escolas entre as 20 melhores - ocupa a décima posição. Vitória (ES) teve o melhor desempenho, seguida por Porto Alegre (RS) e Florianópolis (SC). Isso retrata, por exemplo, a falta de homogeneidade das redes. Em São Paulo, a partir dos dados analisados aqui, a variação entre as escolas particulares chega a 30 pontos. Muitas apresentaram, portanto, índices inferiores aos da rede pública.

Quando se inicia uma análise mais profunda dos números, percebe-se que outras variáveis precisam ser consideradas. Por exemplo: das 20 melhores instituições públicas, 17 são federais, com ensino técnico-profissionalizante. O próprio Governo Federal mostra dificuldades para lidar com a descentralização das redes de ensino. Tornou-se uma tarefa mais fácil cuidar do próprio quintal.

Outro fator é que as melhores instituições públicas são excludentes. Em outras palavras, o acesso é restrito. Há qualidade, evidentemente, mas para poucos estudantes.

É importante lembrar que o ENEM configura somente mais um mecanismo de avaliação que, aliás, apresenta uma série de limitações. Na verdade, este exame apenas enfoca uma faceta do processo educacional: o aluno. O próprio INEP (instituto de pesquisa organizador da prova e ligado ao Ministério) explica que o ENEM não avalia a escola.

No entanto, o próprio Governo Federal divulga os dados como se fossem um ranking, alimentando especulações políticas, ações de marketing por parte das escolas campeãs, com a chancela da falta de contexto no conteúdo produzido por parte da imprensa. Um exemplo: o Vértice, colégio de melhor desempenho na cidade de São Paulo, ganhou destaque em veículos impressos porque faz provas semanais. E daí? O que isso significa? Será que entupir os alunos de provas garante bom desempenho? Óbvio que não. Uma escola excelente – não sei se é o caso do Vértice, pois tomou-se como base somente o resultado do ENEM – se faz com uma série de elementos e ações, que unem pessoas engajadas e preparadas e processo de ensino-aprendizagem com solidez e planejamento.

Por isso, deve-se considerar que os números servem como instrumento para relativizar respostas públicas perante as mazelas do sistema educacional brasileiro. Além disso, os dados divulgados pelo Ministério devem ser comparados com anos anteriores e posicionados no devido contexto temporal e geográfico. Não se pode entender o quadro paulista, por exemplo, como ponto de referência para ações emergenciais e de longo prazo em estados das regiões Norte e Nordeste.

A comparação, por sua vez, entre as escolas privadas e públicas deve ser vista como meramente ilustrativa. Não dá para estabelecer a rede particular – fragmentada, dispersa e fechada em si – como paradigma para decisões públicas. O sistema público de ensino deve buscar o próprio caminho, inclusive no sentido de respeitar as diferenças e particularidades regionais e, acima de tudo, com um olhar de longo prazo. O próprio INEP reforça que, se houver comparação, deve ser feita entre instituições parecidas.

Diante deste cenário, os resultados do ENEM não desenham alterações significativas na educação brasileira e tampouco nos levam a crer em milagres pedagógicos. As escolas particulares com melhores resultados são freqüentadas por alunos de famílias que colocam mais dinheiro em educação. No caso da públicas, são estudantes que formam uma elite dentro do sistema, com acesso a um modelo de ensino que representa a cereja do bolo, jamais uma fatia dele.

Se o Ministério da Educação e todo o sistema decorrente se limitarem a analisar o Ensino Médio por uma prova, teremos em 2009 uma repetição deste ano. Cabe a questão: de que forma os gestores públicos e privados de educação vão lidar com o ENEM? Vão apagar os focos de incêndio ou reformar a casa?