segunda-feira, 17 de março de 2008

Mr. Hyde ao volante

O olhar lânguido transparece a educação que beira a ingenuidade. A calvície denuncia a idade avançada. As mãos calejadas retratam alguém que criou os filhos com horas ao volante. Os olhos azuis recordam uma época em que foi atraente para as mulheres.

A calma ao falar é uma das primeiras lembranças dos colegas de praça. Ele está sempre disponível para aconselhar os companheiros de profissão, experiência de quem foi dirigente sindical e dirigiu com os famosos “rádios”. Hoje, prefere ser autônomo, não depender de terceiros e fazer um horário mais flexível que permite aproveitar a infância dos três netos.

O sossego desaparece no engatar da primeira marcha. Como o médico (Dr. Henry Jekyll) da obra de Robert Louis Stevenson que expele o monstro ao tomar uma poção, o motorista de táxi incorpora um piloto de provas em carro popular. O trânsito o altera e o transtorna. Dirige em alta velocidade em avenidas apertadas como a Pedro Lessa. Troca de pista várias vezes, mesmo diante de uma onda vermelha nos semáforos. Mão na buzina, ou melhor, socos no meio do volante que independem do nível do tráfego. A meta é ultrapassar a concorrência (não importa o número de rodas dos adversários) e vencer uma competição imaginária por vias cada vez mais congestionadas.

Mister Hyde dirige em Santos. Reclama constantemente do crescimento no número de automóveis numa malha viária paralisada em seu próprio limite. Percebe como as políticas de financiamento incham as ruas e avenidas com veículos populares, porém não de transporte coletivo. É fácil notar como boa parte dos carros transporta somente um ocupante. Uma moto em quatro pneus.

Com 418 mil habitantes, Santos possui uma frota de 240 mil veículos, segundo o Detran. Mil novas unidades se juntam ao grupo, em média, por mês. É uma caravana que, em horários de pico, afoga avenidas como Conselheiro Nébias e Ana Costa. E transforma pacatos motoristas em irritadiços pilotos.

As infrações são facilmente perceptíveis. Semáforos são ignorados no limite do tempo. Equipamentos como setas ganham contornos de decoração. Buzinas interrompem o silêncio após a luz verde em frações de segundo. Pedestres se assemelham a alvos de videogames, pelo menos no desejo expresso por xingamentos. Se pudesse fazer um sanduíche de motoboy com o veículo do lado, a prece resultaria em milagre.

A solução não parece tarefa exclusiva do sistema público e está além de simples políticas punitivas ou obras na malha viária. Envolve também comportamento! O que se vê é o lado negro de motoristas que, como o inofensivo taxista, só superam o efeito da poção ao estacionar no destino final e desligar o carro. Um ambiente urbano em transição, cuja dose se injeta no adormecido monstro a partir da próxima corrida!

OBS.: PUBLICADO NA VERSÃO IMPRESSA DO JORNAL BOQUEIRÃO.

2 comentários:

Eduardo Henrique disse...

Eu trabalho com um bom sujeito. Pacato, bom moço, não fuma, não bebe, raramente sai à noite. Tem uma rotina pesada e ainda arruma tempo para fazer um free em filmagens. Carinhosamente, ele é chamado de “lentinho”, devido à demora para entender algumas piadas ou assuntos do dia-a-dia. Porém, ao sentar-se diante de um volante, o nosso lentinho se transforma em um piloto – como auto-apelida. Mãos na buzina a qualquer demora no semáforo, não respeita o sinal amarelo, reclama o tempo todo dos outros motoristas, freia em cima dos veículos. Xinga, espuma raiva e ódio por 30 segundos parados em um sinaleiro. Quando não encontra vaga, então, é um deus-nos-acuda. Às vezes chega a suar frio de raiva. Parece correr em um antigo jogo Enduro, desviando dos obstáculos. Ao desligar o motor do veículo, ele se transforma novamente no bom rapaz de sempre.
Muitas vezes, o comparo com o desenho antigo da Disney, em que o Pateta se transforma diante ao trânsito.

Marcus Vinicius disse...

Eduardo, esta analogia do pateta é interessante. Recebi comentários semelhantes. É um desenho que marcou duas ou três gerações. E tornou-se atemporal. Mais um motivo para ser clássico, não é? A questão é que o trânsito da cidade está infestado por essas figuras, que descontam pecados, frustrações, raivas em máquinas e outras pessoas. Bombas ambulantes!!! Obrigado pelo comentário. Grande abraço.