sábado, 15 de março de 2008

A falsa gafe de quem?

Como reagiriam duas mulheres ao perceberem que foram a um evento com vestidos idênticos? Frustração? Vergonha? Raiva? Situação incomum que pode gerar comentários jocosos, porém sem maiores conseqüências para todos os envolvidos, inclusive os fofoqueiros.

Entretanto, o caso hipotético se transforma em factóide quando as duas mulheres se chamam Tais Araújo e Adriane Galisteu, e a gafe ocorre na apresentação do Circo du Soleil, em São Paulo. Poderia classificar a cena como um elemento de circo, mas seria perversidade aguda com os profissionais que se apresentaram na capital paulista. Perversidade presente nas lentes de paparazzis e outros espécimes semelhantes que cobriam o evento atrás justamente de um escorregão para estampar em seus sites, colunas e páginas de revistas de celebridades.

O problema é que a cena dos vestidos idênticos, oferecida como notícia para o público, se revelou uma ação estrategicamente calculada, inclusive a reação de surpresa das duas envolvidas. Os vestidos faziam parte de uma campanha publicitária, alinhavada em vários países, da marca de shampoo Seda. Nos Estados Unidos, por exemplo, Madonna foi uma das contratadas pela empresa.

O assunto serve para analisarmos o papel dos jornalistas diante de um quadro de transformações na mídia. Transformou-se em clichê apontar o excesso de informação e a velocidade na circulação de dados para justificar mau jornalismo. A atividade jornalística, mesmo a mais rasteira, está entre duas paredes que gradualmente reduzem a distância entre si. As paredes se chamam marketing e entretenimento.

A mídia, na atualidade, caminha rumo à fusão de linguagens e de posturas técnicas e éticas que devem analisadas com critério, e não simplesmente reproduzidas como práticas dogmáticas. Assim, cabe aqui observar o fato por duas perspectivas: de quem criou a estratégia e daqueles que caíram como bobos na jogada ao economizar tostões quando oferece mídia gratuita.

Em primeiro lugar, aproveitar eventos e/ou criar factóides entre celebridades não é inédito. No ano passado, por exemplo, a revista Contigo publicou uma capa em que insinuava um relacionamento amoroso entre a atriz Karina Bacchi e o baixinho da Kaiser, garoto-propaganda da cervejaria. Era o início de uma campanha publicitária.

Segundo o Jornal da Tarde, que publicou reportagem crítica a respeito do comportamento de outros veículos, especialistas em marketing elogiaram a proposta da marca de shampoo. Um deles classificou como “marketing de guerrilha”, uma daquelas expressões/derivações que se transformam em moda. Para mim, cheira falta de ética. O consumidor foi ou não enganado por um falso fato, por uma gafe construída, com a conivência das envolvidas e dos jornalistas?

Por outro lado, este tipo de prática obtém resultados satisfatórios também pela incompetência de uma parcela dos profissionais de imprensa. Obcecados pelo espetáculo, pela exposição do outro em situações desconfortáveis, repórteres da indústria das celebridades (não são os únicos, mas o caso em questão!) se esquecem de um princípio básico da profissão: todas as informações precisam ser checadas, se possível mais de uma vez.

Os olhos e as lentes brilham diante daquilo que pode ser um escândalo em potencial. Erra-se e torce-se para que um fato novo cubra e abafe o deslize. Culpa-se a empresa, a publicidade, as fontes e até o público. A hipótese de um pedido de desculpas para aquele que depositou confiança nas informações publicadas não será levada em consideração.

O mau jornalismo reforça a argumentação da fusão de linguagens e da acepção de notícia como produto como única via a ser compreendida. Infelizmente! O menor resquício de responsabilidade social desaparece na mesma velocidade que as bolhas midiáticas se esvaziam. A ótica de produção de informação como objeto de consumo sepulta os elementos sobreviventes de que fazer jornalismo é uma ação cidadã, mesmo que seja vendido ao público.

Você pode se perguntar: será que as revistas de celebridades oferecem jornalismo? Só que o problema extrapola a indagação: factóides fabricados e difundidos para nos vender marcas e produtos não são prerrogativas deste segmento da mídia. A imprensa dita séria também se sensibiliza com a fofoca. Seja ela falsa ou verdadeira! E a reproduz com certo prazer vidrado nos cifrões, inclusive quando a pauta não são as celebridades do show business.

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Uma observação óbvia, porém pertinente: este escriba acredita cegamente nas reais possibilidades do jornalismo como prática de responsabilidade social. O ar pessimista do texto acima reflete a indignação – fundamental para reforçar a frase anterior - com a servidão de colegas diante da indústria da futilidade. Todos sabemos que ainda é possível localizar com clareza oásis onde Jornalismo se escreve com letras garrafais.

5 comentários:

Fernanda Carreira disse...

Oi professor!
Li sua coluna no Boqueirão e alguns de seus textos aqui =)
acabei de criar esse blog à pedido do Armando e do Sobrino, e vim visitar o seu...agora vou sempre passar por aqui pra me inspirar um pouco rs
Um grande beijo, até segunda!

Marcus Vinicius disse...

fernanda,

obrigado pela generosidade. Volte sempre!!! Abraço.

Henrique disse...

Marcão, então você acha que o público que compra gato por lebre dessas revistas de celebridades merece alguma consideração?
Nem a pau. Esse pessoal tem mais é que ser feito de bobo, mesmo. Pra começo, é tudo enganação, de um jeito ou de outro. As fotos, as situações, os casos amorosos, os sorrisos, tudo é calculado nessas revistas. Não faz sentido nenhum falar em "honestidade", ou "ética", nessa área. A regra é aparecer a qualquer preço e, acima de tudo, vender um produto - que geralmente é a própria celebridade - a quem comprar, em primeiro lugar.
A imprensa "séria" só caiu na tal gafe porque é tão babaca quanto o público - basta ver o espaço que os jornais, sites, etc dão para o Big Brother.
Todos têm nada mais do que aquilo que merecem.

Eduardo Cavalcanti disse...

Marcão, mandei o post anterior sem perceber que o login era do meu filho. Mas pela resposta você já sacou quem era, não é? hahaha.

Marcus Vinicius disse...

Pôxa, Eduardo, não seja tão severo assim com o público. Ou melhor, com uma parcela do público que apresenta alto grau de alienação. Muitas dessas pessoas sonham com o glamour e o estilo de vida estampados nestas publicações. É a forma mais rápida, embora inútil, de deixar a vida ordinária, anônima. Trata-se de ser visto, reconhecido, admirado. Quanto aos jornalistas, negligência, incompetência e má-fé, piores quando personificam todos os fatores. Abração!!!!!!